quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

5º Domingo Comum - Ano B - Mc 1,29-39




Anúncio do Evangelho: resposta de Deus à dor humana (Mc 1,29-39)
Lectio:
“Tive por ganho meses de decepção e couberam-me noites de sofrimento”, são as palavras de Jó diante de uma dor cotidiana: “ao amanhecer, espero novamente à tarde e me encho de sofrimentos até o anoitecer”. O tema do sofrimento, da dor, da enfermidade está presente na liturgia deste 5º domingo comum desde a I leitura, como retrata tão bem o personagem Jó, que vive o tormento do sofrimento, do físico devido à doença até aquele moral, que nasce da perda dos afetos mais caros, dos bens até o afastamento dos amigos.
Jó é a imagem do homem justo que sofre sem se revoltar. Claro, ele demonstra toda a amargura que ofusca o sentido de sua existência, mas ainda assim, na dor mais profunda, ele tem um fio de esperança na providência de Deus, que recolhe em suas mãos as suas lágrimas humanas, e no final do livro, transforma-lhes em alegria e bênção: “ele conforta os corações despedaçados, ele enfaixa suas feridas e as cura”, como reza o salmista (Sl 146).
Pois é, com as suas mãos, Deus enfaixa as feridas do sofrimento humano. É acerca dessas mãos divinas que aliviam a dor humana que nos fala o Evangelho de hoje. Jesus deixa a sinagoga, onde havia ensinado com autoridade, libertando um homem “possuído por um espírito mau” (linguagem para mostrar a força que o maligno exerce na vida de uma pessoa), e vai com Tiago e João até a casa de Simão (Pedro) e André. Pois, depois de uma atividade tão intensa, como todo ser humano, Jesus precisava descansar e se alimentar; e assim, Pedro lhe oferece hospitalidade.
Chegando lá, a sogra de Simão Pedro estava de cama com febre; poderíamos até considerar esta informação de pouca importância, mas o próprio fato de o evangelista ter colocado no relato e de que os discípulos apressadamente contaram o fato a Jesus, faz pensar a algo mais sério e inquietante. Jesus se aproxima, portanto, da anciã, segura a sua mão, ajudando-a a se levantar; e a febre desaparece; nenhuma palavra, só um simples gesto: o gesto das mãos, que ajudam àquela senhora enferma.
O verbo que Marcos usa para descrever o gesto de Jesus para com a sogra de Pedro, “levantar”, é o mesmo usado para a ressurreição; ser curado por Jesus é muito mais do que receber uma cura física, é uma cura que leva a pessoa a uma vida renovada nele no dom de si e no serviço desinteressado ao próximo: “e ela começou a servi-los”.
O texto ainda nos diz que à tarde, “a cidade inteira se reuniu em frente da casa” de Simão Pedro onde Jesus estava hospedado e aí ele curou uma multidão de pessoas doentes e expulsou muitos demônios; é um gesto que claramente mostra o quanto Deus, em Cristo, está próximo à dor humana, curando-a, assumindo-a sobre si até a morte de cruz para vencê-la com a Ressurreição.
O dia de Jesus é realmente intenso: em Cafarnaum, da presença na sinagoga para ensinar ao encontro com a multidão para curar, Jesus encontra também um tempo para rezar, ter um encontro pessoal com o Pai: “de madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto”. Na verdade, com esta informação, vemos a tensão que acompanha toda a atividade de Jesus. O conflito entre aquilo que ele deve cumprir porque o Pai lhe mandou e aquilo que as pessoas esperavam dele.
Os habitantes de Cafarnaum queriam que ele ficasse o tempo com eles curando toda pessoa que aparecesse enferma, mas Jesus abandona a cidade para contrapor-se a errada interpretação da sua missão. As curas são sinais, são manifestações do poder e da bondade de Jesus, mas a sua vinda não tem como finalidade última estas curas, mas o anúncio da plenitude dos tempos, da chegada do Reino de Deus que se demonstrará de maneira sublime com a sua Ressurreição, ou seja, quando derrotar a morte.
Assim, a acolhida justa à mensagem de Jesus não consiste em considerá-lo como um curandeiro, mas no dar ouvido ao seu convite, converter-se, ter fé e confiar incondicionalmente no poder de e na bondade de Deus. É ele quem toma a iniciativa de ir ao encontro das pessoas para pregar e expulsar toda a escravidão do pecado.

Meditação:
O poder das mãos do Filho de Deus é divino e pertence somente a ele; mas o seu gesto é um convite a pensar em nossas mãos, através das quais, ele hoje, opera entre as pessoas para confortar e curar. As nossas mãos usadas pelo Senhor são mãos que aliviam, que guiam, que asseguram, que acariciam, mãos que quando a dor parecer insuportável e as palavras parecem ter se acabado, apertam com força as mãos de quem sofre. Mãos que não abandonam, mas consolam até o fim. Assim, as nossas mãos se tornam hoje as mãos como aquelas de Cristo que venceram definitivamente o mal e a morte, porque foram encravadas na cruz por amor.
A jornada de Jesus em Cafarnaum também nos convida a pensar nas nossas jornadas, intensas, ocupadas, de trabalho ou de estudo, que absorvem tanta energia, mas que não podem nem devem nunca ser privadas de uma parada para a oração, para o encontro pessoal e silencioso com Deus, um encontro que reserva que se prolonga depois na oração interior. E com a oração, é necessário ter presente a caridade: a dedicação aos outros, privilegiando aqueles que de uma maneira mais intensa, sofrem no corpo ou no espírito: enfermos, idosos, pobres, pessoas abandonadas, pessoas com depressão, pessoas que tem necessidade de serem ouvidas, de se sentirem acolhidas ou confortadas, estas devem ser o objeto do nosso amor, assim como foram de Jesus Cristo. E é a elas que devemos fazer perceber a presença e o amor do Salvador, que opera no mundo através de nós. Ai de mim se eu não pregar o evangelho!
Perguntas para a reflexão:
Invoco Deus no sofrimento? Rezo só por mim ou sou solidário com o meu próximo que sofre?
Como posso hoje me identificar com a sogra de Pedro? Quais são minhas “enfermidades”? Permito que Jesus se aproxime de mim, segure minha mão e me cure? Essa presença de Deus me impulsiona a servir os irmãos? Conduzo outras pessoas “enfermas” para junto de Jesus?
Compreendo que a Ressurreição de Jesus é o centro da minha fé? Me uno ao sofrimento de Cristo para partilhar também a sua vitória?
A oração é também para mim uma força? Frequentemente, gasto tempo com Deus na oração silenciosa para conhecê-lo e amá-lo, ou só me lembro dele quando quero o seu auxílio imediato para as emergências da minha vida?
Partilho a minha fé, ajudando quem é oprimido pela dor a buscar uma via de esperança? A esperança cristã é uma virtude para mim?
Entendo com o Evangelho de hoje que não devemos nos deixar levar pelas circunstâncias, mas discernir o que temos que fazer em cada hora segundo a vontade de Deus?

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