sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

1º Domingo da Quaresma - Ano B - Mc 1,12-15


Resisti ao diabo e ele fugirá de vós

Já podemos sentir que estamos vivendo um momento difícil, não só pela crise econômica mundial, mas por uma crise muito mais profunda: a de que muitas pessoas ultimamente estejam perdendo o sentido de suas vidas. É um vazio total. Por isso, chega até nós, oportuno e necessário um tempo de reflexão que nos leve a uma renovação interior para encontrarmos ou reencontrarmos as razões desta vida.
Não fomos criados para vivermos de máscaras como no carnaval. Na Quaresma, devem cair todas as máscaras que colocamos para esconder as nossas tristezas, medos, dificuldades, más inclinações, pecados. Quaresma é tempo de seriedade, de esperança, de coerência, de reflexão, de conversão.
Começamos a Quaresma com a imposição das cinzas, símbolo da fugacidade das coisas terrenas e do caráter passageiro desta vida terrena. Agora, começamos um período de transformação interior. E, no 1º Domingo desta Quaresma, o Evangelho proposto é o que segue o relato do Batismo, no qual Jesus é declarado o Filho predileto do Pai. Logo após o Batismo, o Espírito o conduz na solidão do deserto. Esta informação nos indica que tudo o que Jesus fizer será determinado pelo Espírito, em função de sua união com o Pai.
Jesus vive e age sempre no Espírito, mesmo que isto às vezes não seja anunciado no texto. Como o povo de Israel passou quarenta anos no deserto, assim Jesus passa quarenta dias no deserto. E também como o povo é colocado à prova, assim Jesus é provado. O evangelista Marcos não expõe como Mateus quais eram as tentações, mas simplesmente diz que durante estes quarenta dias, Jesus foi tentado.
“Vivia entre os animais selvagens e os anjos o serviam” (indicação de que os anjos o alimentavam). Antes de Jesus começar o seu ministério entre os homens, o evangelho esclarece sua relação com seres inferiores e superiores. O universo inteiro é submisso a Jesus.
O satanás, anjo rebelde, cuja tarefa principal é instigar à conduta contrária à vontade de Deus, tenta Jesus. Mas a união de Jesus com Deus é tão firme e certa que Marcos mesmo não indicando nenhum conteúdo da tentação, e mostrando o fato de Jesus ser tentado em vista de sua natureza humana, ele nos mostra que é possível resistir e permanecer fiel. O vínculo de Jesus com Deus é, portanto, colocado à prova e confirmado na tentação, e manifestado na relação com as feras e com os anjos, e com satanás (seres não humanos).
A segunda parte do Evangelho indica que Jesus, “depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia”. De fato, ele se criara lá em Nazaré (norte da Palestina); e daí, tinha ido até João no Jordão para ser batizado. Agora, ele volta a Galileia, pois é aí que começa a sua missão pública.
O evangelista usa o termo “foi entregue” (foi preso) para João Batista, e mais adiante, para Jesus e para os discípulos, porque assim quer mostrar a comunhão de destinos entre o precursor, o próprio Jesus e os seus seguidores.
Pois bem, Jesus anuncia o Evangelho de Deus, a alegre notícia. Pra isso, ele usa duas frases: “o tempo já se completou e o reino de Deus está próximo”. Ou seja, Deus já completou o tempo, assim seu Reino está próximo. O primeiro enunciado de Jesus atribui ao tempo presente uma qualidade particular; o segundo diz mais respeito em que coisa consiste.
Nós vivemos sempre no espaço e no tempo. O tempo, porém, no qual Jesus aparece na terra, é excepcional, é um kairós, o tempo do cumprimento e da decisão. Aquilo que foi anunciado no Antigo Testamento e que por muito tempo foi esperado com desejo, se cumpre agora e é causa de uma alegria fora do normal. O kairós é também tempo de decisão, que pode ser utilizado de maneira correta ou também ser desperdiçado.
Por isso, Jesus liga a este anúncio um mandamento, com o qual diz o que seus discípulos devem fazer para esperar este Reino. Esperar sim. Jesus não diz que o reino já está aqui, mas que está próximo. Porque ainda não está aqui, ele convida a acreditar no Evangelho. Não temos necessidade de crer naquilo que vemos. Por isso, Jesus nos ensina a rezar por aquilo que vem: “venha a nós o seu Reino”. Se o Reino já fosse presente, não teríamos necessidade de pedir pela sua vinda. Portanto, a oração é o ato mais sublime de nossa acolhida com fé a mensagem de Jesus.
Assim, o mandamento que segue o anúncio explica o modo no qual este deve ser escutado. São duas as ações que não devem ser observadas só uma vez na vida, mas devem ser atitudes de toda a nossa vida: mudar mentalidade (converter-se) e acreditar.
Por fim, a tradução: “convertei-vos e crede no evangelho” pode dar a impressão de que o Evangelho seja o objeto da fé e seja separado do ato de converter-se. O que não é verdade. Temos que ligar o Evangelho tanto ao ato de fé como também à conversão. O Evangelho é a base fundamental da conversão e da fé.
O que o texto nos diz?
Quanto a nós, devemos nos orientar através da clareza e da decisão de Jesus. Não podemos nos enganar, pensando que estamos livres de uma luta cansativa com o tentador. Porém, hoje recebemos esta boa notícia: existe alguém que permanece fiel a Deus. Mesmo que não resistamos à prova e caiamos freqüentemente, só o fato de que há alguém que permanece firme e fiel a Deus nos deve infundir alegria e coragem.
As tentações não foram para Jesus um jogo de ficção, foram verdadeiras provas, como existem diariamente para o cristão e para a Igreja. E justamente por ter sido verdadeiramente provado, Jesus é exemplo e pode ajudar a quem está na prova. Ele realmente lutou contra satanás sobre a escolha de possíveis métodos e caminhos para realizar sua missão de Messias.
As tentações são uma síntese significativa de um longo período de luta contra o mal, sustentada por Jesus nos 40 dias de deserto e durante toda a sua vida, compreendida a cruz. As tentações do satanás são ciladas sutis que aparentam ser boas, mas de fato conduzem ao mal. Marcos quer nos advertir para não nos enganarmos e evitarmos semelhantes emboscadas.
A exortação a mudar a própria mente mostra que, diante do Evangelho, aqueles que o escutam não podem fazer de conta que não ouviram nada, mas devem manifestar-se, é preciso mudar a própria atitude interior, desde as bases. É necessária uma mudança no coração de cada um para daí tirar forças para lutar contra o mal e saborear o Reino que se aproxima.
Perguntas que me ajudam a meditar:
Deixo-me conduzir pelo Espírito de Deus? Para onde o Espírito de Deus tem me conduzido ultimamente? Tenho tido facilidade em percebê-lo? O “deserto” significa algo para mim? Que tentações tenho que enfrentar na minha vida atual? Que tipo de armadilhas Satanás arma contra mim para me enganar? Eu consigo resistir a ele algumas vezes ou eu cedo sempre? Sei a diferença entre tentação e pecado? Também consigo perceber a diferença entre uma tentação do maligno e uma provação de Deus? Qual o meu empenho para converter-me, ou seja, mudar a minha mentalidade desde a base segundo o Evangelho? Creio realmente no Evangelho?

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Quarta-feira de Cinzas - Mt 6,1-6.16-18


Com a Quarta-feira de Cinzas, iniciamos o tempo da Quaresma e a Campanha da Fraternidade que este ano tem como tema: Fraternidade e Segurança Pública. A Quaresma são 40 dias até a celebração da maior festa cristã: a Páscoa de Jesus. São 40 dias que lembram os 40 anos da marcha do povo de Deus pelo deserto em busca de libertação como também os 40 dias de jejum de Jesus também no deserto. É um tempo de deserto, de interiorização, de transformação. O Evangelho desta quarta-feira de cinzas é tirado do sermão da montanha do evangelho de Mateus e quer nos oferecer um ensinamento sobre a prática das três obras de piedade fundamentais do cristão: a esmola, a oração e o jejum. Embora ao longo dos séculos, tenha mudado o modo de praticar as obras de piedade, permanece a obrigação humana e cristã de partilhar os bens com os mais pobres, com o próximo (esmola), viver em comunhão com Deus (oração), e saber reconhecer e controlar os nossos desejos, relação com nós mesmos (jejum). As palavras de Jesus que meditamos podem fazer surgir em nós à criatividade necessária para encontrarmos novas formas de viver estas três práticas tão importantes para a vida cristã. A esmola, a oração e o jejum eram as três práticas de piedade dos judeus. Jesus critica o fato de que eles as pratiquem somente para serem vistos e elogiados pelas pessoas. Ele não permite que a prática da justiça e da piedade seja usada como um meio para a promoção social na comunidade. Nas palavras de Jesus, aparece um novo tipo de relação com Deus que se desfecha para nós. Ele diz: “o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa”. Jesus nos oferece um caminho de acesso ao coração de Deus. A meditação das suas palavras com relação às práticas de piedade poderá ajudar a descobrir este novo caminho. “Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes visto por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus”. Ao ler esta frase, não devemos pensar somente aos fariseus do tempo de Jesus, mas, sobretudo ao fariseu que sobrevive em cada um de nós. Devemos construir a nossa segurança desde dentro, não naquilo que fazemos para Deus, mas naquilo que Deus faz por nós. É este o ponto chave para entender o ensinamento de Jesus sobre as práticas de piedade. Desta forma, Mateus explica este princípio geral à prática da esmola, da oração e do jejum, dizendo antes como isto não deve acontecer e logo em seguida, como devemos fazer. Como não dar esmola? O modo errado, seja naquele tempo, como hoje, é usar um modo vistoso, para ser reconhecido e aclamado por todos como faziam os hipócritas que tocavam as trombetas nas praças. Jesus diz, aquele que age assim, já recebeu a sua recompensa. Como devemos dar a esmola? O modo correto é “que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita”. Ou seja, devo dar a minha esmola de modo que nem eu mesmo devo ter a sensação de estar fazendo uma coisa boa, que mereça uma recompensa da parte de Deus e elogio da parte dos outros. A esmola é uma obrigação. É uma forma de partilhar algo que eu tenho com aqueles que não têm nada. Lembre-se da viúva que dava até mesmo o que lhe era necessário. Como não rezar? Falando do modo errado de rezar, Jesus menciona alguns usos e costumes estranhos daquela época. Quando a trombeta tocava para as orações, tinha gente que rezava solenemente na rua para ser considerada piedosa. Como rezar? Para não deixar sombra de dúvidas, Jesus exagera sobre o modo de rezar. Diz que é necessário rezar, no escondido, somente diante de Deus Pai para que ninguém nos veja. fazendo isto, talvez nos considerem como alguém que não reza. Não importa. Até de Jesus caçoaram: “Não é de Deus!”. E isto porque Jesus rezava muito à noite em lugares afastados e não se importava com a opinião dos outros. Aquilo que importa é ter a consciência em paz e ter a certeza que Deus é o Pai que nos acolhe, e não a partir da satisfação que procuro no fato que outros me apreciem como uma pessoa piedosa e que reza. Como não jejuar? Jesus critica as práticas erradas do jejum. Havia gente que fazia cara de tristeza, não tomavam banho, usavam roupas enxovalhadas, não se penteavam, de modo que todos pudessem ver que estavam jejuando de modo perfeito. Como fazer o jejum? Jesus recomenda o modo contrário. “Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto” de modo que ninguém perceba que você esteja jejuando, mas só teu Pai que está nos céus. Hoje uma maneira muito válida de jejuar é evitar o consumismo desenfreado. Enfim, Jesus apresenta um caminho novo de acesso ao coração de Deus aberto a cada um de nós. A esmola, a oração e o jejum não são dinheiro para comprar a graça de Deus, mas são a resposta da gratidão ao amor recebido e experimentado.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

7º Domingo Comum - Ano B – Mc 2,1-12


O PERDÃO VENCE O PECADO
O que diz o texto?
O Evangelho de Marcos, que nos tem acompanhado nestes últimos domingos, vem mostrando vários relatos de curas. E Jesus sempre nos surpreende. Nenhum milagre é igual a outro: veremos que o do Evangelho deste domingo é verdadeiramente especial.
Domingo passado, vimos a fé do leproso que vai ao encontro de Jesus, dizendo: “se queres, podes curar-me”, expressão pessoal de confiança total em Jesus. No Evangelho de hoje, o enfermo é um paralítico; no relato, ele não fala nada, parece até não interessado no que está acontecendo.
São quatro pessoas, porém, que fazem de tudo para que o enfermo encontre Jesus. Visto que não puderam fazer entrá-lo pela porta por causa da multidão, abrem o teto da casa onde Jesus estava e o fazem descer por aí. Jesus vê esta fé inabalável. Não se trata, neste caso, da fé do paralítico, mas da fé daqueles que o acompanham e representam a comunidade.
Então, Jesus vendo a fé deles, diz: “Filho, os teus pecados estão perdoados”. E aqui começa mais uma controvérsia com os famosos doutores da lei. O mais lógico seria que Jesus tivesse simplesmente curado o paralítico como nos outros relatos de cura. Mas não! Ele perdoa-lhe os pecados. Podemos até imaginar a cena: enquanto todos estão esperando ver o milagre, já visto espetacularmente antes, Jesus parece decepcionar a multidão e pior, segundo os mestres da lei, blasfemar.
A verdade é que Jesus aproveita o fato para tratar do tema do pecado. Como já vimos, ele trata os pecadores de uma maneira toda particular. Ele, como Filho de Deus, veio redefinir o pecado segundo outro pensamento, aquele de Deus, derrubando o legalismo hipócrita e muitas vezes cruel da lei judaica.
Jesus não concebe o pecado como a não observância das normas frias da lei nem dá atenção às aparências. Antes, ele considera o pecado no sentido mais amplo e profundo da recusa de se estar em comunhão com Deus, da falta de vontade do ser humano de fazer comunhão com Ele.
Para entendermos o pecado na visão de Jesus, devemos partir não dos preceitos, das leis, mas do amor gratuito de Deus, da misericórdia com a qual o Pai ama os seus filhos não obstante os seus erros, da vontade com a qual Ele tenta recuperar os filhos perdidos justamente porque são pecadores. E, sobretudo, é necessário partir do conceito de que os pecadores são os destinatários privilegiados da mensagem divina de salvação, totalmente o contrário da antiga aliança, onde tais “pecadores” eram rejeitados e excluídos da sociedade.
As palavras de Jesus quase sempre são acompanhadas de gestos concretos de amor. A misericórdia, diferentemente da justiça legalística e taxativa dos hipócritas, e, consequentemente, também a atitude de Jesus é desconcertante: ele não se preocupa logo em querer que os pecadores se arrependam para serem readmitidos na comunidade, mas antes de tudo, ele mesmo se aproxima deles com a finalidade de fazer a comunhão destes pecadores com o Pai através de sua pessoa.
Ele vai buscar os pecadores por primeiro sem esperar que eles se decidam pela redenção. Certo, Jesus dirá: “convertei-vos e crede no Evangelho”, mas isto não antes de ter manifestado o amor de Deus e a sua solicitude para com o pecador também, porque, além de tudo, a conversão consiste na aceitação e assimilação da misericórdia e da bondade do Pai e na convicção indispensável de que nós temos necessidade desse amor para sermos salvos e perseverar na vida cotidiana. Ou seja, depois de ter-nos mostrado o seu amor, é que Jesus nos convida a revermos a nós mesmos.
Assim, como Jesus revela que o paralítico é um pecador e lhe perdoa os pecados, assim também conhecendo os pensamentos dos doutores da lei, age de modo para que também eles revejam seus pontos de vista, já que estes acusavam Jesus do pecado de blasfêmia justamente pelo que disse ao paralítico.
Isso devido à mentalidade do Antigo Testamento que afirmava que o perdão dos pecados era uma prerrogativa exclusiva de Deus. Como o próprio profeta Isaías nos mostra na I leitura, é Deus mesmo e nenhum outro, a origem e autor de todo perdão: “sou eu, eu mesmo, que cancelo tuas culpas por minha causa e já não me lembrarei de teus pecados” (Is 43,25). O Antigo Testamento era o terreno no qual Deus perdoava o pecado e readmitia o pecador só por meio de normas e leis totalmente humanas, como por exemplo, o sacrifício expiatório do culto.
Eis o porquê da reação polêmica e dura dos mestres da lei, pois eles não aceitavam em hipótese alguma que um homem (desconheciam a divindade de Jesus) tivesse autoridade sobre o pecado, colocando-se no lugar do próprio Deus.
Mas à reflexão rígida deles: “como este homem pode falar assim...”, Jesus opõe a própria pergunta: “por que pensais assim em vossos corações?”, sugerindo novos pontos de vista para o julgamento deles. E fala claramente de um dado que os doutores da lei devem conhecer, ou mesmo devem estar convencidos: que o poder de perdoar os pecados pertence realmente ao Filho do homem. Assim, Jesus joga uma pergunta e dá uma ordem, a qual segue logo a conseqüência.
“O que é mais fácil, dizer ao paráclito: ‘Os teus pecados estão perdoados’ ou dizer ‘Levanta-te, pega a tua cama e anda”? A resposta é clara: com relação ao dizer, não há diferença, a diferença está na possibilidade de se verificar a eficácia deste dizer. Ninguém pode ver se os pecados estão realmente perdoados; mas que à ordem de Jesus, o paralítico se levante, isto pode constatar cada um dos presentes. A constatada eficácia de uma das duas palavras não é necessariamente a prova absoluta do valor da outra. Porém, também não admite que tal valor seja simplesmente negado, e exige que os doutores da lei reexaminem com profundidade a tomada de posição deles.
Assim, Jesus dá a ordem e o paralítico se levanta imediatamente diante de todos. Cada um pode ver com os seus próprios olhos que a palavra de Jesus tem por efeito aquilo que nela é proclamado. Volta-se o tema da palavra com autoridade de Jesus. Ele fala e essa palavra produz. O próprio homem leva para a casa sua cama. Todos ficam pasmos e louvam a Deus. Entenderam e reconheceram que por trás daquilo tudo que Jesus fazia, aí estava Deus.
À fé inicial dos que conduziram o paralítico para Jesus o curar, Jesus revela o verdadeiro objetivo do seu caminho: o encontro com a sua pessoa inaugura o tempo da salvação definitiva. Deus está aqui, na pessoa de Jesus, como aquele que perdoa.
O que me diz o texto?
Qual o meu esforço como comunidade para que o outro possa encontrar-se com Jesus? Rezo pelos outros, ofereço algum sofrimento pelos mais necessitados? Entendo que o Senhor curou o paralítico justamente em virtude de tal oferta? Como trato as pessoas com deficiência?
Tenho uma fé-confiança inabalável em Jesus como a daquelas quatro pessoas?
Permito que Jesus me perdoe? Aceito o seu perdão? Quanto tempo faz que não me confesso individualmente? Ainda tenho atitudes legalistas para com meus irmãos? Sou consciente que posso vencer o pecado com o perdão?
Enfim, o que me a diz afirmação de que o Filho do Homem tem o poder sobre a terra de perdoar os pecados Jesus numa sociedade como a nossa que perdeu o sentido do pecado?
Que Jesus nos livre da maior das paralisias: do pecado.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

6º Domingo Comum - Ano B - Mc 1,40-45


O AMOR NÃO EXCLUI NINGUÉM

O que diz o texto?
As categorias: puro/impuro são estranhas à mentalidade moderna, mas de grande importância na literatura bíblica, sobretudo nos escritos sacerdotais como o livro do Levítico. Em tal obra, há uma série de proibições a serem observadas a fim de que as pessoas não fiquem impuras; pois, para que alguém se aproxime daquilo que é santo é necessário ser puro.
“Santo” é tudo aquilo que é divino ou pertencente a Deus, aquilo que é separado de todo o resto; “puro” é o que pode entrar em contato com o “santo”. O estado de pureza torna possível a comunhão com o mundo da santidade divina; já o da impureza o impede. Assim, fica claro que a distinção entre puro e impuro não diz respeito necessariamente à situação moral de uma pessoa, isto é, não equivale ao fato de ela ser boa ou má, mas se refere principalmente à sua dimensão física.
Mas por que certas coisas são impuras e outras não? Encontrar uma explicação racional para esta pergunta nem sempre é fácil, provavelmente nem mesmo possível. Muitas vezes, são tabus ancestrais ligados a um modo de ver as coisas totalmente diferentes de como conhecemos o mundo hoje em dia. De um modo geral, podemos dizer que a pureza está ligada à integridade do ser. O contato com qualquer coisa que esteja no âmbito da morte, como um ser humano ou um animal morto, moribundo, mutilado, contaminado, deformado, traz impureza.
Tudo isto é bastante claro nas leituras deste 6º Domingo Comum. O Antigo Testamento reúne várias enfermidades de pele que correspondem somente em parte, e talvez muito pouco, àquilo que hoje chamamos lepra (hanseníase). Quando a pele mostra qualquer “inflamação, erupção ou mancha branca”, fala-se do mal da lepra. E, uma vez declarado pelo sacerdote oficialmente impuro, é dever do leproso andar “com as vestes rasgadas, os cabelos em desordem e a barba coberta”, revelando a todos o seu estado de proximidade com a morte, gritando: “impuro, impuro!” para que ninguém se aproxime dele e fique impuro.
Talvez pra nós hoje isso soe ridículo, mas para a época bíblica não era. Para facilitar a nossa compreensão, basta assistir a um capítulo da nova novela das oito: “Caminho das Índias”, e perceber o grau de humilhação e de exclusão total que sofre um “dalit” (Os dalits ou os intocáveis ou impuros são os indianos que não descendem de nenhuma casta, coisa necessária para se ter direitos, são excluídos e vivem uma vida lamentável). O dalit tem que ter o cuidado para que nem mesmo a sua sombra alcance alguém para não torná-lo impuro.
Com a cura do leproso, Jesus muda tudo. Mas vejamos agora o que diz o relato. São três os momentos fortes: primeiro, o fato do leproso descumprir a lei. Em vez de se revelar impuro para Jesus, o leproso se aproxima e professa a sua fé no poder de Jesus. Depois, também Jesus viola a lei e toca o leproso. Finalmente, as consequências da cura prodigiosa.
O aproximar-se do anônimo enfermo de lepra é introduzido pelo evangelista com “um leproso chegou perto de Jesus””. É um modo de Marcos ligar este episódio ao versículo imediatamente precedente no qual Jesus, depois de ter curado muitos doentes e expulsado muitos demônios, andava anunciando o Evangelho em toda a Galiléia. Assim, o evangelista quer explicar aos leitores aquele fato estranho e desconcertante: contra todo tabu, o leproso pode se aproximar de Jesus porque no seu lar chegou a boa notícia de que também para ele, que vivia isolado da aldeia, o Mestre oferecia uma esperança de cura que tinha como finalidade reintegrá-lo na comunidade.
É interessante notar o pedido explícito do enfermo para receber a cura. Normalmente, os enfermos é que são levados a Jesus. Aqui é o próprio quem procura a Jesus. Já que foi expulso, não há ninguém que o ajude. O leproso suplica de joelhos, a sua oração é um exemplo de fé pura, reconhecendo sem reservas a vontade e o poder de Jesus: “se queres, tens o poder de curar-me”. Para este homem, que Jesus tenha poder é evidente; mas, que possa fazer algo por ele, depende da sua vontade; por isso, o leproso acredita no poder de Jesus e se submete a sua vontade. Aquele homem ousa apresentar-se a Jesus, diante de quem apresenta a condição miserável de sua pessoa, tornado assim graças a uma discutível organização religiosa e social.
Jesus é consciente de tudo isto, e é tocado profundamente pela compaixão. A palavra hebraica para compaixão significa mover as vísceras maternas, e aqui quer expressar o amor comovente de Deus para com o homem. O Senhor se comove diante de nosso sofrimento como uma mãe que não pode não comover-se pelo fruto de suas vísceras (Os 11,90). E a compaixão não deixa Jesus parado, mas o leva a agir com grande determinação. Estende a mão, sinal do agir poderoso de Deus e toca o leproso.
Jesus toca o leproso e não fica impuro, pelo contrário, torna-o puro. De ter o direito de tocar e de estar sobre a lei, Jesus demonstra mediante o poder com o qual livra o enfermo da lepra. Eis a conseqüência de sua ação. Ele retoma ao mesmo tempo as palavras com as quais o leproso confessou a própria fé: “eu quero, fique curado”. E imediatamente a lepra desaparece.
O que Jesus cumpre com tanta emoção tem uma finalidade: o homem deve obter a alegria plena pela pureza recuperada. Qualquer coisa ulterior deve ser evitada: deve calar-se sobre o que Jesus operou nele. Ele deve fazer o procedimento fixado pela lei e confirmar sua integridade através da oferta ritual. Mas, o homem não se cala. Espalha a notícia. Não pode ficar calado diante da mais bela experiência que teve na sua vida.

O que me diz o texto? O que nos diz o texto?
No Evangelho de hoje, vemos a passagem do Antigo para o Novo testamento, a passagem da lei à graça. De fato, Jesus vai contra toda polêmica dos escribas e fariseus prontos a fazerem escândalo para não entrarem em contato com pessoas impuras. Jesus se expõe fisicamente ao contágio de nossas enfermidades. Assim, nossos males se tornam o ponto de contato: ele toma de nós a nossa humanidade enferma e nós tomamos dele a sua divindade curadora.
Jesus nos diz o que Deus faz diante de nosso mal: em Jesus, Ele não vem eliminar completamente o sofrimento e a morte, mas vem encontrar-se conosco, manifestar o amor do Pai pelos pequenos e pobres, pelos enfermos e excluídos. E, assim, podemos nos perguntar?
Quem são os “leprosos” da minha comunidade? Como tratamos estas pessoas? Com amor, compaixão e ação ou com preconceito, desprezo, e indiferença? Como posso imitar hoje a atitude de Jesus para com os excluídos? Sou consciente de que também eu possuo as minhas “lepras”? Que Jesus tem compaixão de mim e que quer me curar? Aproximo-me dos Sacramentos que Jesus instituiu para receber a cura completa? Aprendo com Jesus a cumprir os preceitos da lei sempre para libertar as pessoas e nunca para prendê-las ainda mais na sua condição de miséria?
Oração de Madre Teresa, ícone da compaixão de Deus pelos mais pobre de entre os pobres de Calcutá, tais como leprosos, intocáveis e carentes de amor:
“Quem é Jesus para mim?
Jesus é o Verbo Encarnado
Jesus é o Pão da Vida
Jesus é a Vítima oferecida pelos nossos pecados na cruz
Jesus é o Sacrifício oferecido na Santa Missa pelos pecados do mundo e pelos meus
Jesus é a Palavra a ser dita
Jesus é a Verdade a ser revelada
Jesus é o Caminho a ser percorrido
Jesus é a Luz a ser acesa
Jesus é a Vida a ser vivida
Jesus é o Amor a ser amado
Jesus é a Alegria a ser partilhada
Jesus é o Sacrifício a ser oferecido
Jesus é a Paz a ser doada
Jesus é o Faminto a ser alimentado
Jesus é o Sedento a ser saciado
Jesus é o Despido a ser vestido
Jesus é o Desalojado a ser recolhido
Jesus é o Doente a ser curado
Jesus é o Solitário a ser amado
Jesus é o Indesejado a ser querido
Jesus é o Leproso a quem limpar as chagas
Jesus é o Pedinte a quem dar um sorriso
Jesus é o Bêbado a quem ouvir
Jesus é o Retardado mental a quem proteger
Jesus é o Pequenino a quem abraçar
Jesus é o Cego a quem conduzir
Jesus é o Mudo por quem falar
Jesus é o Deficiente com quem caminhar
Jesus é o Dependente de drogas de quem ser amigo
Jesus é a Prostituta a quem afastar do perigo e de quem ser amigo
Jesus é o Preso a quem visitar
Jesus é o Idoso a quem servir”
(Madre Teresa em Venha, seja minha luz. A história e os impressionantes escritos da Santa de Calcutá)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

5º Domingo Comum - Ano B - Mc 1,29-39




Anúncio do Evangelho: resposta de Deus à dor humana (Mc 1,29-39)
Lectio:
“Tive por ganho meses de decepção e couberam-me noites de sofrimento”, são as palavras de Jó diante de uma dor cotidiana: “ao amanhecer, espero novamente à tarde e me encho de sofrimentos até o anoitecer”. O tema do sofrimento, da dor, da enfermidade está presente na liturgia deste 5º domingo comum desde a I leitura, como retrata tão bem o personagem Jó, que vive o tormento do sofrimento, do físico devido à doença até aquele moral, que nasce da perda dos afetos mais caros, dos bens até o afastamento dos amigos.
Jó é a imagem do homem justo que sofre sem se revoltar. Claro, ele demonstra toda a amargura que ofusca o sentido de sua existência, mas ainda assim, na dor mais profunda, ele tem um fio de esperança na providência de Deus, que recolhe em suas mãos as suas lágrimas humanas, e no final do livro, transforma-lhes em alegria e bênção: “ele conforta os corações despedaçados, ele enfaixa suas feridas e as cura”, como reza o salmista (Sl 146).
Pois é, com as suas mãos, Deus enfaixa as feridas do sofrimento humano. É acerca dessas mãos divinas que aliviam a dor humana que nos fala o Evangelho de hoje. Jesus deixa a sinagoga, onde havia ensinado com autoridade, libertando um homem “possuído por um espírito mau” (linguagem para mostrar a força que o maligno exerce na vida de uma pessoa), e vai com Tiago e João até a casa de Simão (Pedro) e André. Pois, depois de uma atividade tão intensa, como todo ser humano, Jesus precisava descansar e se alimentar; e assim, Pedro lhe oferece hospitalidade.
Chegando lá, a sogra de Simão Pedro estava de cama com febre; poderíamos até considerar esta informação de pouca importância, mas o próprio fato de o evangelista ter colocado no relato e de que os discípulos apressadamente contaram o fato a Jesus, faz pensar a algo mais sério e inquietante. Jesus se aproxima, portanto, da anciã, segura a sua mão, ajudando-a a se levantar; e a febre desaparece; nenhuma palavra, só um simples gesto: o gesto das mãos, que ajudam àquela senhora enferma.
O verbo que Marcos usa para descrever o gesto de Jesus para com a sogra de Pedro, “levantar”, é o mesmo usado para a ressurreição; ser curado por Jesus é muito mais do que receber uma cura física, é uma cura que leva a pessoa a uma vida renovada nele no dom de si e no serviço desinteressado ao próximo: “e ela começou a servi-los”.
O texto ainda nos diz que à tarde, “a cidade inteira se reuniu em frente da casa” de Simão Pedro onde Jesus estava hospedado e aí ele curou uma multidão de pessoas doentes e expulsou muitos demônios; é um gesto que claramente mostra o quanto Deus, em Cristo, está próximo à dor humana, curando-a, assumindo-a sobre si até a morte de cruz para vencê-la com a Ressurreição.
O dia de Jesus é realmente intenso: em Cafarnaum, da presença na sinagoga para ensinar ao encontro com a multidão para curar, Jesus encontra também um tempo para rezar, ter um encontro pessoal com o Pai: “de madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto”. Na verdade, com esta informação, vemos a tensão que acompanha toda a atividade de Jesus. O conflito entre aquilo que ele deve cumprir porque o Pai lhe mandou e aquilo que as pessoas esperavam dele.
Os habitantes de Cafarnaum queriam que ele ficasse o tempo com eles curando toda pessoa que aparecesse enferma, mas Jesus abandona a cidade para contrapor-se a errada interpretação da sua missão. As curas são sinais, são manifestações do poder e da bondade de Jesus, mas a sua vinda não tem como finalidade última estas curas, mas o anúncio da plenitude dos tempos, da chegada do Reino de Deus que se demonstrará de maneira sublime com a sua Ressurreição, ou seja, quando derrotar a morte.
Assim, a acolhida justa à mensagem de Jesus não consiste em considerá-lo como um curandeiro, mas no dar ouvido ao seu convite, converter-se, ter fé e confiar incondicionalmente no poder de e na bondade de Deus. É ele quem toma a iniciativa de ir ao encontro das pessoas para pregar e expulsar toda a escravidão do pecado.

Meditação:
O poder das mãos do Filho de Deus é divino e pertence somente a ele; mas o seu gesto é um convite a pensar em nossas mãos, através das quais, ele hoje, opera entre as pessoas para confortar e curar. As nossas mãos usadas pelo Senhor são mãos que aliviam, que guiam, que asseguram, que acariciam, mãos que quando a dor parecer insuportável e as palavras parecem ter se acabado, apertam com força as mãos de quem sofre. Mãos que não abandonam, mas consolam até o fim. Assim, as nossas mãos se tornam hoje as mãos como aquelas de Cristo que venceram definitivamente o mal e a morte, porque foram encravadas na cruz por amor.
A jornada de Jesus em Cafarnaum também nos convida a pensar nas nossas jornadas, intensas, ocupadas, de trabalho ou de estudo, que absorvem tanta energia, mas que não podem nem devem nunca ser privadas de uma parada para a oração, para o encontro pessoal e silencioso com Deus, um encontro que reserva que se prolonga depois na oração interior. E com a oração, é necessário ter presente a caridade: a dedicação aos outros, privilegiando aqueles que de uma maneira mais intensa, sofrem no corpo ou no espírito: enfermos, idosos, pobres, pessoas abandonadas, pessoas com depressão, pessoas que tem necessidade de serem ouvidas, de se sentirem acolhidas ou confortadas, estas devem ser o objeto do nosso amor, assim como foram de Jesus Cristo. E é a elas que devemos fazer perceber a presença e o amor do Salvador, que opera no mundo através de nós. Ai de mim se eu não pregar o evangelho!
Perguntas para a reflexão:
Invoco Deus no sofrimento? Rezo só por mim ou sou solidário com o meu próximo que sofre?
Como posso hoje me identificar com a sogra de Pedro? Quais são minhas “enfermidades”? Permito que Jesus se aproxime de mim, segure minha mão e me cure? Essa presença de Deus me impulsiona a servir os irmãos? Conduzo outras pessoas “enfermas” para junto de Jesus?
Compreendo que a Ressurreição de Jesus é o centro da minha fé? Me uno ao sofrimento de Cristo para partilhar também a sua vitória?
A oração é também para mim uma força? Frequentemente, gasto tempo com Deus na oração silenciosa para conhecê-lo e amá-lo, ou só me lembro dele quando quero o seu auxílio imediato para as emergências da minha vida?
Partilho a minha fé, ajudando quem é oprimido pela dor a buscar uma via de esperança? A esperança cristã é uma virtude para mim?
Entendo com o Evangelho de hoje que não devemos nos deixar levar pelas circunstâncias, mas discernir o que temos que fazer em cada hora segundo a vontade de Deus?