sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

4º Domingo do Advento – Ano B - Lucas 1,26-38


SE NÃO FOSSE PELA GRAÇA DE DEUS...
LECTIO
O que o texto diz?

Ao sacerdote Zacarias em Lc 1,5-25, foram anunciados o nascimento e a missão de seu filho João. Este menino que mais tarde ficou conhecido como o Batista foi a figura central do 2º e 3º domingos do Advento. No Evangelho deste 4º domingo do Advento, a expressão “no sexto mês”, liga o anúncio do anjo a Maria com aquele de Zacarias e se refere à Isabel. De fato, é no sexto mês de gravidez de Isabel que a Maria o mensageiro de Deus anuncia o nascimento e o destino de seu filho Jesus.
Mas este anúncio a Maria acontece no âmbito de uma vocação. Maria não só recebe o anúncio do nascimento do Filho, mas Deus a capacita para se tornar mãe do seu Filho. O anjo passa do templo de Jerusalém (Zacarias) a uma casa comum, simples, muito longe de Jerusalém. A Galiléia é uma região de fronteira, e Nazaré, uma vila desta região que até este momento na Bíblia é totalmente desconhecida. Assim, Gabriel se encontra na casa de uma jovenzinha humilde cujos únicos títulos são o de virgem e de prometida em casamento a José (a primeira das três etapas do casamento hebraico).
Na saudação do anjo: “Alegra-te! Cheia de graça, o Senhor está contigo!”, aparece toda a essência da vocação de Maria: alegria, graça e auxílio de Deus.
A primeira palavra do anjo, literalmente: “alegra-te” (chaire), é a fórmula grega de saudação. Indica que a mensagem central e mais importante do anjo é caracterizada pela alegria. Desta maneira, desde o primeiro momento, todo o anúncio do anjo convida à alegria e ao júbilo. Maria, porém, não responde logo com alegria plena, ela fica perturbada, reflete, faz uma pergunta e ainda pede mais uma explicação e aceita com fé a sua vocação. A explosão de alegria plena só acontecerá no encontro com Isabel mais tarde – (relato da visita e canto do Magnificat – Lc 1,39-56).
Quanto à segunda expressão do anjo, “cheia de graça” (kecharitomene), indica o motivo desta alegria. No grego, esta expressão é um particípio perfeito passivo e significa que Maria foi preenchida pela graça por alguém. O texto não fala quem a encheu de graça, mas como pode se comprovar pelo v. 30, o autor da graça é Deus e, portanto, este particípio é conhecido como passivo divino ou teológico. Quanto às traduções, a Vulgata traduziu por “gratia plena”, e conseqüentemente, as versões católicas traduziram por “cheia de graça”. Esta tradução não está errada, mas pode gerar uma má interpretação, a de achar que Maria está na origem desta graça, quando na verdade, ela recebeu de Deus.
Já a tradução protestante, que normalmente traduz por “agraciada”, “favorecida” também não está errada, mas está incompleta, pois até facilita a compreensão de que Maria recebeu a graça, mas não fala da “plenitude” da graça. Então, para fim de conversa, uma tradução ecumênica muito aceita hoje e que esclarece tal expressão seria: “alegra-te! Tu que foste e permanece completamente cheia da graça de Deus”. Deus preencheu de maneira definitiva e irrevogável Maria com o seu favor. Este dado é tão importante que o anjo repete em 1,30: “encontrando graça diante de Deus”. E é tão característico da pessoa de Maria que quando o anjo a chama “cheia de graça” e omite o nome Maria, é como se o anjo tivesse lhe dado um outro nome. Seu nome agora expressa a idéia de plenitude da graça que só pode ter sua origem em Deus.
A terceira expressão: “O Senhor está contigo” se refere ao auxílio de Deus. É uma expressão também recorrente nos relatos de vocação. É a assistência real e eficaz. Maria, na realização de sua tarefa, não dependerá somente de suas forças humanas, pois Deus não se limita a chamar, abandonando a pessoa chamada, mas acompanha e a torna capaz de desenvolver a sua missão. Assegura-lhe sua constante assistência.
Pois bem, a estas três palavras importantes do anjo, Maria reage num duplo plano: no emocional (ficou perturbada) e no racional (começou a pensar, refletir). Ela está aberta a esta mensagem e se esforça para compreendê-la com todo o profundo de seu ser.
Em seguida, o anjo indica a tarefa de Maria: “eis que conceberás... Jesus”. No seio de Maria, o Filho de Deus receberá a própria existência humana. A vida de Maria daquele momento em diante está completamente a serviço de Jesus. Só Jesus é o Salvador, mas Maria foi chamada a prestar o seu serviço para que Ele pudesse vir ao mundo.
Com a pergunta, “como é possível, já que sou não conheço homem (já que sou virgem)?”, Maria pede uma última explicação ao anjo, já que este até agora tem falado só dela e nada do pai, e Maria não antecipa com conclusões próprias, apenas fica se perguntando como ela, sendo virgem pode realizar este ato. Deus é o Senhor de tudo. Foi ele quem estabeleceu desde o início que a concepção se dá pelo encontro do espermatozóide com o óvulo, e, por isso mesmo, só Ele pode fazer coisas que são contrárias ao que Ele mesmo estabeleceu, a isso nós chamamos milagre. Maria engravida por ação do Espírito Santo.
Maria declara a sua própria inadequação com relação a tarefa confiada. É característico de uma verdadeira compreensão da vocação por parte de Deus o reconhecer-se inadequado. Com o Espírito Santo, Deus tornará Maria capaz de colocar-se a serviço da existência de Jesus. Desta maneira, Maria recebe a resposta a sua pergunta e é convidada a acreditar na ação poderosa de Deus, para o qual “nada é impossível”.
Portanto, depois da grande surpresa e de uma reflexão atenta, Maria dá o sim que mudou a nossa história: “Eis aqui a serva do senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Maria acolhe sua vocação não cegamente nem forçada, mas com consciência da própria missão e decidida a operar na sua vida a vontade de Deus.
MEDITAÇÃO
O que o texto me diz?

A Maria, Deus confiou uma missão excepcional. Mas através da sua vocação, devo colher as características gerais da minha vocação para a qual Deus me chamou. A graça de Deus não é um privilégio só de Maria, Paulo afirma que todo cristão é animado e salvo pela graça de Deus – Ef 1,6.
Reconheço que sou o que sou pela graça de Deus?
O nome que Maria recebeu do anjo é também meu nome. Maria personifica o povo da graça. Reconheço em Maria a imagem da Igreja?
Percebo que a minha vocação não depende unicamente das minhas próprias forças, mas reconhecendo-me incapacitado, confio sempre no auxílio de Deus?
Os meus olhos estão abertos para ver “os anjos” com os quais Deus continuamente me visita?
Peço a Deus o dom do conselho para discernir o que Ele me pede e fortaleza para cumprir firmemente sua vontade?
Enfim, Deus já te pediu para fazer algo que você nunca esperaria fazer? Não estamos falando só da vocação sacerdotal, religiosa, matrimonial. Mas vocação para coordenar uma pastoral na paróquia, por exemplo? Não duvide, Maria ficou muito surpresa e perturbada quando o anjo falou pra ela que ela daria a luz o Filho de Deus. Mas a confiança de Maria em Deus, e sua obediência e cooperação com o plano e o desígnio de Deus, é um grande exemplo a ser seguido. Deixe que Deus trabalhe em você da maneira como ele quer, e saiba que todos os planos que Ele tem para você são para o seu bem. Quando coisas inesperadas acontecerem, confie nele.

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