sábado, 15 de novembro de 2008

XXXIII DOMINGO COMUM – Mt 25,14-30


Fiéis e responsáveis
O termo “talento” entrou na nossa linguagem comum como indicativo de habilidades e capacidades de cada um e, portanto, o dever de desenvolvê-lo, fazendo-o crescer, exatamente como se faz no campo econômico onde é preciso investir sabiamente para se ter um bom proveito.
Mas, no Evangelho deste domingo, a parábola que Jesus conta a seus discípulos designa com o termo “talento” um significado anterior ao usado hoje em dia: o patrão “deu a cada qual de acordo com a sua capacidade”. Então, o talento em ouro ou prata era a unidade de moeda grega e depois romana para grandes quantidades de dinheiro (equivalia a 6.000 dracmas), e que por isso, significava na parábola as responsabilidades e os deveres que nos são confiados e em torno dos quais gira a nossa vida. Por exemplo, quais as responsabilidades de um pai de família, uma mãe de família, um padre, um agente de pastoral, um missionário. Há responsabilidades grandes e pequenas, nem todos receberam o mesmo, pois a medida de Deus é diferente da nossa.
Deus nos confia vários talentos, ele nos entrega a vida não como um peso nem como um castigo, mas como um dom, uma graça, uma bênção e uma grande oportunidade para nós e para os outros. Dentro desses talentos, está o da nossa responsabilidade de cristãos. Sermos testemunhas do Evangelho, de vivermos esse Evangelho com garra dentro da realidade da nossa vida diária.
Mas, muitas pessoas hoje convivem com o problema de uma sociedade que exige tanto que elas se sentem inadequadas e incapacitadas. Deus nos conhece profundamente e não nos dá tarefas que não possamos realizá-las. Por isso, devemos ter uma estima sadia de nós mesmos antes de tudo porque existimos e somos fruto de um amor que quer que olhemos a vida como o nosso maior empreendimento.
O Evangelho deste domingo é muito claro; logo de cara, vemos que Jesus quer chamar a nossa atenção para o terceiro servo. Mas vamos falar também um pouco dos dois primeiros. No geral, a parábola nos mostra que somos dependentes de Deus e que somos obrigados a prestar-lhe contas; tudo o que temos é um bem que nos foi confiado, que não podemos usá-lo do jeito que bem entendermos, mas devemos empregá-lo da maneira como Deus quer que o usemos. Através do comportamento e do destino dos dois servos bons e fiéis, Jesus nos faz ver como devemos lidar com a nossa situação atual; através do comportamento e do destino do servo mau, Jesus nos esclarece como uma pessoa com estas características vai acabar. Isso deve nos convencer a se afastar de um comportamento semelhante.
A este servo mau se opõe também claramente a sabedoria do livro dos Provérbios (I leitura), mostrando a figura admirável da mulher forte. Ela é habilidosa e generosa. Trabalha e se empenha em tudo o que faz sem se deixar levar pela beleza externa (passageira). À luz do Evangelho podemos dizer que a ela Deus confiou o talento da vida familiar. Um talento que tantos consideram pequeno, dona do lar, mas que na verdade todos sabem que é um talento enorme.
Tudo o que Deus nos confia nesta vida não pode ser enterrado nem desperdiçado. Os nossos talentos devem ser investidos em favor de todos, não só de nós mesmos. E temos que enfrentar os riscos, pois seja lá o que for, casar, ter filhos, ser padre, ter fé, pregar, testemunhar, é arriscado. Mas se não arriscarmos, não avançaremos nem cresceremos nunca na vida, ficaríamos como o terceiro servo.
O coração da parábola e a chave que poderia desbloquear a situação do terceiro servo é justamente a relação entre ele e o patrão, entre cada um de nós e Deus. Enquanto os dois primeiros servos se sentiram estimulados para agir e não tiveram medo do patrão porque o conheciam e confiavam nele, o terceiro permaneceu condicionado somente pelo medo e ficou paralisado. Ele tem uma relação falsa com o seu patrão, uma imagem errada de um Deus como um juiz duro e implacável. Teve medo de perder o talento, de ser julgado e condenado por isso. E assim não quis sujar suas mãos, teve medo de errar, de se arriscar, ficou preguiçoso, acomodado, se fechou.
Mas o amor tem a capacidade de mover a vida, e o amor de Deus pode nos levantar para assumirmos a responsabilidade de uma vida sem fugas e sem temores, com coragem, paixão e iniciativa. A consciência de que Deus no final nos pedirá contas dos frutos da nossa vida não nos deve fazer medo, mas pode ser uma justa provocação para não nos acomodarmos e podermos participar da alegria de Deus.

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