sábado, 1 de novembro de 2008

FIÉIS DEFUNTOS – Jo 6,37-40


Morte: porta para a Vida

Cada vez que vamos a um enterro, nos damos conta claramente que nos encontramos na escola da vida, e que os ensinamentos que a morte de uma pessoa nos dá são tão fortes que nunca conseguimos esquecer. Os seus ensinamentos são tão tocantes que exercem grande influência na nossa vida e no profundo da nossa alma. Isto porque a morte nos obriga a morrer a cada dia: os problemas pessoais de saúde mostram isso. Se pensarmos, na verdade, cada aniversário nosso significa que estamos mais próximos da morte. Mas, se tivermos a persistência de colher tudo de bom que ela tem a nos oferecer, com certeza veremos que tudo aquilo que num primeiro momento parece perdido é recuperado, ao ponto até mesmo de ver que mais nada será perdido. Quando nós cristãos, nos damos conta que a morte nos educa ao verdadeiro sentido da vida, não à vida que nós queremos, mas à vida que Deus quis que vivêssemos, que ela tem um valor bem maior, então não temos mais porque nos desesperarmos perante a morte, mas sim nos enchermos de esperança.
Existe tanta injustiça nesse mundo terreno, e a morte ensina que todos somos iguais: dela ninguém pode escapar, nem com poder, nem com dinheiro, nem com amizades. Não há nada que se possa fazer. Nada pode fugir ao seu toque. Aqueles que não têm fé, também têm que enfrentar este medo e mistério que é a morte. Mas há uma diferença: enquanto os ateus buscam em vão o seu sentido, nós o encontramos na Palavra de Cristo nosso Senhor. Assim, o dia da morte não será um dia de tristeza nem de desespero, mas de esperança, porque a morte não é o fim, mas um confim, uma fronteira; a morte não separa, ela nos reúne com Deus e com todos aqueles que já fizeram esta passagem; Jesus, com a sua morte, pagou um preço caríssimo para nos libertar do pecado e da morte e trazer da morte para cada um de nós, a vida, a ressurreição.
Nos diz o salmista neste domingo: “O Senhor é minha luz e salvação. De quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida. Perante quem eu tremerei?” É esta a verdade que brota no nosso coração, e que nos faz pôr toda a nossa esperança no Senhor: “ao Senhor eu peço apenas uma coisa, e é só isto que eu desejo, habitar no santuário do Senhor, por toda a minha vida, saborear a suavidade do Senhor e contemplá-lo no seu templo”.
Às vezes, podemos até cair na besteira de pensar que sozinhos nos bastamos, ou que só os outros morrem ou que a nossa morte vai demorar séculos para chegar; pensar que não precisamos de horizontes que encham de sentido o nosso morrer ou nos iludirmos de que o ter a vida seja parecer, ter, poder. Mas a luz que a revelação de Deus estende sobre a nossa existência, a luz que sai do túmulo de Cristo Ressuscitado, a orientação luminosa que Deus pôs no nosso coração, mesmo que os olhos se encham de lágrimas pela sensação de perca que a morte inclui, nos faz dizer como Jó, o homem que bebeu até o fim o cálice amargo da dor, da solidão, da falência: “depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne (e, portanto o nosso “eu”), verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outro”.
Esta luz se faz plena nas palavras de Jesus, aquele que veio revelar os segredos do Pai, comunicar a vida de Deus e executar a vontade do Pai: “Esta é a vontade do meu Pai: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, nada, nem mesmo o nosso ser de carne, mas o ressuscite no último dia”.
Deus nos chamou à vida não pela morte, mas passando através do Filho que é a porta, nós recebemos o prêmio da liberdade para acolhê-lo, a sua Palavra, o seu chamado, os seus dons que ele pôs na vida de cada um e que significam felicidade eterna.
“Deus”, diz São Paulo, “dá uma prova de amor por nós porque quando ainda éramos pecadores, Cristo deu a sua vida para que tivéssemos a vida”.
Hoje é dia de lembrarmos os nossos mortos, lembrarmos a vida que Deus dá a todos quantos ele chamou a si. Hoje podemos sentir a paz, a plenitude dos bens de Deus. Hoje cada um dos nossos caros é acolhido além dos seus limites, na sua verdadeira dimensão de amado por Deus e na sua fidelidade ao amor. “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá”.

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