quinta-feira, 27 de novembro de 2008

1º Domingo do Advento - Ano B - Marcos 13, 33-37


ADVENTO
No novo ano litúrgico que começa hoje, será proclamada a cada domingo uma passagem do evangelho de Marcos, o qual oferece um retrato do Jesus histórico e que é a base dos evangelhos de Mateus e Lucas. Podemos dizer que Marcos é o evangelho mais original entre os evangelistas, pois foi o primeiro a ser escrito: todo centralizado sobre o segredo messiânico, isto é, à luz da Páscoa revela progressivamente o mistério do homem Jesus, o Cristo esperado, mas também inesperado Filho de Deus.
Deste modo, hoje começamos a viver um novo tempo: o tempo do Advento. Advento, do latim, adventus, significa chegada, vinda, e por isso, também o que envolve a chegada, como a espera, a busca, a vigilância, o fazer-se próximo, o aproximar-se de Deus da nossa vida: “Senhor, tu és o nosso pai, nosso redentor; vens ao encontro de quem pratica a justiça com alegria, de quem se lembra de ti em teus caminhos” (Is 63,16b; 64,4).
O Advento, no início do ano litúrgico, é cheio de alegria e esperança. Porque enquanto nós lembramos e comemoramos a primeira vinda de Jesus, nos empenhamos a viver o presente como tempo de responsabilidade e de vigilância. De fato, Jesus já veio uma vez e o Natal é a comemoração desta vinda, mas Jesus virá novamente, e o tempo de Advento nos faz viver esta espera.
Como ajuda para compreendermos e vivermos a Palavra de Jesus que nos leva à plenitude de vida, neste primeiro domingo do Advento, apresento de forma breve e clara os passos para uma correta lectio divina, que pode ser feita tanto individualmente como em grupo (círculo bíblico).
Mas o que é a lectio divina? A Palavra de Deus é base para a oração. A oração é a resposta a Deus que se comunica conosco a cada momento. E, por ser um diálogo, essa resposta deve levar a uma mudança de mentalidade e de vida, à conversão, pois todo diálogo muda a visão precedente, caso contrário seria monólogo. Assim, a oração é um diálogo onde Deus é sempre quem toma a iniciativa e o ser humano responde.
O Sínodo dos Bispos realizado em outubro deste ano no Vaticano favoreceu a Lectio Divina ou a “leitura orante da Sagrada Escritura” como uma forma altamente eficaz da escuta e da vivência dessa Palavra que transforma a nossa vida pessoal e da comunidade na qual estamos inseridos.
O Papa Bento XVI ao término do Sínodo acrescentou: “uma boa exegese bíblica (interpretação de um texto bíblico) exige tanto o método histórico-crítico como o teológico, porque a Sagrada Escritura é Palavra de Deus em palavras humanas. Cada texto, portanto, deve ser lido e interpretado tendo presente a unidade de toda a Escritura, a viva tradição da Igreja e a luz da fé. Exegese científica e lectio divina, portanto, são ambas necessárias e complementares para buscar, através do significado literal, o espiritual, que Deus quer comunicar a nós hoje”.
1. LEITURA (LECTIO): O que diz o texto?
Este primeiro momento consiste numa leitura do texto bíblico a fim de compreender o significado que o autor original quis comunicar aos seus leitores. É útil ler o texto várias vezes e em traduções diferentes para se ter uma compreensão mais profunda do relato. Para esta parte da lectio, os comentários exegéticos podem ser de grande ajuda, especialmente para não se cair no erro de uma interpretação arbitrária do texto bíblico.
Interpretação do texto:
“Cuidado! Ficai atentos!” Este pedido de Jesus aos discípulos para que percebam com um olhar lúcido e apurado aquele que vai chegar e o momento no qual vai chegar atravessa todo o seu discurso no trecho do evangelho de hoje. Com isso, Jesus quer que seus discípulos dêem uma justa interpretação e não se deixem enganar. A ênfase é clara. São quatro vezes em poucos versículos que Jesus os exorta a vigiar. Verdadeiramente, é muito importante estar acordados.
No v. 32 que não aparece no nosso texto, Jesus já tinha afirmado que só o Pai conhece a hora. Dirigindo-se aos quatro discípulos com quem ele fala no relato, ele lembra-lhes que não sabem quando o Senhor virá, e liga esta exortação ao fato de estar sempre acordado. Ele até faz uma comparação para facilitar: os discípulos são os empregados cujo patrão saindo para viajar, confia a eles o cuidado de sua casa, dando a cada um uma tarefa bem precisa, incluindo o porteiro que literalmente tem a tarefa de vigiar. E, justamente, porque esses não sabem quando o dono da casa vai voltar, devem estar sempre prontos, vigilantes para a sua chegada. Pode ser que o patrão chegue a qualquer hora: à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer. A casa está sem o patrão, mas os empregados devem viver como se ele estivesse presente. Enfim, tudo na sua casa fala dele, cada ângulo e cada situação. Quem serve animado pelo amor, respira uma familiaridade e partilha de vida que faz da espera do retorno um momento de plenitude.
Obviamente, este “vigiar” não significa que os discípulos de Jesus tenham que ficar sempre acordados, não possam se deitar pra dormir, o que é fisicamente impossível. Mas, devemos entender este vigiar como uma metáfora que indica estar atento e em oração constante: Vigiai e orai (14,38). Assim, vigiar significa que quem é discípulo de Jesus deve reconhecer continuamente seu estado de servo com relação ao patrão, a quem estão ligados pela tarefa recebida dele e dever viver e agir de acordo com este comportamento.
Mas devemos ter cuidado com uma coisa: se como o patrão não está visivelmente presente, existe sempre o perigo de esquecer-se dele e da tarefa que ele encarregou, o perigo de se achar patrão e de agir segundo os próprios caprichos, e aí a coisa está muito errada por parte do empregado.
Os empregados que vigiam estão sempre ligados ao seu chefe e sempre prontos a prestar-lhe contas de tudo.
Jesus termina o discurso enfatizando e estendendo a todos a sua exortação: “o que vos digo, digo a todos: vigiai! Todas as pessoas, sem exceção, se encaixam nesse “todos” que sai da boca de Jesus.
2. MEDITAÇÃO: o que me diz o texto? O que nos diz o texto?
Este momento consiste numa reflexão sobre a finalidade última do texto. O que o texto quer me dizer hoje? Aqui, deve-se ter muito cuidado para ver o que o texto realmente me diz e não o que eu quero que o texto me diga; isto se consegue quando se está de acordo com o significado original do texto que já deduzimos no momento da leitura.
Eis algumas pistas para ajudar a fazer a meditação de hoje: não sabemos quando será o momento preciso. Para o homem moderno que tudo quer saber, esta palavra é libertadora. A espera cria espaços profundos na pessoa, abre a novidades, e a memórias eficazes. Sou consciente de que todas as coisas que tenho ou com as quais estou envolvido um dia desaparecerão para sempre? Estou preso à moda, a um certo status, a ter muitas coisas, a causar inveja, ao poder, ao prazer, ao possuir, ao dinheiro? Sou consciente de que todas estas coisas acabarão um dia e que só a Palavra de Deus que é o próprio Jesus Cristo permanecerá para sempre e só o que permanecer nele, poderá também permanecer para sempre? É um incômodo para mim, fazer este encontro diário com Jesus através de sua Palavra? Dou-me conta de que a religião não é um formalismo nem um ritualismo, mas algo que me faz ser uma pessoa melhor? O que significa hoje, em minha vida o convite de Jesus: “Ficai atentos!” de que modo posso vigiar hoje? Sou consciente da necessidade de estar sempre preparado, enquanto espero a vinda gloriosa de Jesus? O que isso implica no meu comportamento perante Deus e o meu próximo? Estou pronto a encontrar Deus no meu próximo?
3. ORAÇÃO: o que digo a Deus? O que dizemos a Deus?
Este momento consiste na oração que nasce da meditação. É uma espontânea reação do coração em resposta ao texto. É um pedido de ajuda a Deus para reconhecer o que o texto suscitou em mim e para responder a essa provocação.
4. CONTEMPLAÇÃO: como interiorizo a mensagem? Como interiorizamos a mensagem?
A contemplação consiste na adoração, no louvor e no silêncio diante de Deus que está falando comigo. A verdadeira contemplação cada vez mais me revelará quem eu realmente sou e, ao mesmo tempo, revela Deus que se revela a esta melhor compreensão do eu. Na medida em que estou contemplando, liberto-me do perigo de impor ao texto uma interpretação minha, egoísta, longe do que realmente Deus quer me revelar. Finalmente, Deus me convence que estou errado e que sou capaz de mudar.
5. AÇÃO: com que me comprometo?
Escolha concreta de uma ação a cumprir. O Espírito Santo que inspirou os autores sagrados me inspira quando eu escuto a Palavra, me capacita e me convida a colocar em prática aquilo que eu escolhi.
Proponho-me neste tempo de preparação a fazer um sério exame de consciência. Confrontar todos os dias o que eu faço com o estado de vigilância. Busco sempre o perdão de Deus?
É preciso perceber que um tempo novo começou e, portanto, ter esse desejo de ser vigilante. O que podemos fazer em comunidade para mostrarmos aos demais que estamos em tempo de espera? Tanto como algo interior, mas também de forma visível, favorecendo as obras de caridade e misericórdia.
PARTILHE COM TODOS O QUE A LEITURA DO EVANGELHO DESTE DOMINGO SUSCITOU NO SEU CORAÇÃO! DEIXE AQUI SEU COMENTÁRIO. ELE SERÁ DE GRANDE PROVEITO PARA TODOS NÓS.

sábado, 22 de novembro de 2008

FESTA DE CRISTO REI – Mt 25,31-46


Foi a mim que o fizestes!
Com a festa de Cristo Rei, chegamos a mais um final de ano litúrgico. Durante este, a cada domingo acolhemos os ensinamentos de Jesus através dos escritos do evangelista Mateus. Hoje, a liturgia apresenta uma mensagem clara de recapitulação, que se projeta sobre o passado, o presente e o futuro da vida humana.
A festa que celebramos tem a finalidade não tanto de nos dizer que Jesus é rei, mas de nos mostrar que a natureza do seu reinado é completamente diferente daquela com as quais nós estamos habituados. Vejamos:
Na I leitura, Ezequiel, decepcionado com os pastores de Israel (reis, sacerdotes e mestres) que só pensam em si mesmos e deixam o rebanho se perder, sonha com um pastor diferente: um pastor que não “disperse”, mas “reúna”; um pastor que conduza ao pasto as suas ovelhas e as faça repousar; que procure a ovelha perdida e faça os curativos naquela que se encontra ferida. São traços de um pastor que encontramos no Evangelho, em Jesus Rei Messias. Um rei que é rei para os outros: sua realeza é dom de si mesmo e serviço, não domínio, prefere os pobres e fracos, não os fortes.
Quanto ao Evangelho, o do domingo passado nos dizia que tudo o que somos e tudo o que temos é um bem que nos foi confiado; que não devemos desperdiçá-lo, mas empregá-lo com bom senso e de acordo com a vontade de Deus. Qual seja a vontade de Deus e qual serviço ele nos pede, nos diz Jesus hoje com as suas palavras sobre o “juízo final”: toda ajuda que prestarmos ao próximo necessitado é a ele mesmo que estamos fazendo. E quando ele fala em juízo final, ele não quer nos impor medo, só quer que tenhamos um comportamento correto encaminhado para o futuro, para a vida eterna e não para a ruína eterna.
Pois bem, o texto evangélico começa mostrando uma imagem escatológica da vinda gloriosa do Filho do Homem que se assentará no seu trono. Em seguida, mostra a convocação de todas as pessoas e a separação dos que herdaram o reino e dos que ficaram de fora.
Quanto a esta separação entre os que são bem vindos no reino, figurados por ovelhas (direita) e aos que se auto-excluíram, os cabritos (esquerda), a grande insistência cai sobre as obras de misericórdia (a acolhida ou a rejeição aos necessitados), que o texto enumera quatro vezes. O juiz é chamado “Filho do Homem” e “Rei” e os interlocutores o reconhecem como “Senhor”.
A apresentação é, portanto, solene e gloriosa, e ninguém pode negar que este rei seja Jesus de Nazaré, aquele que foi perseguido e crucificado, rejeitado, e que na sua vida partilhou em tudo a fraqueza da condição humana: a fome, a nudez, a solidão, a prisão, a calúnia. Um rei que se identifica com os mais humildes, os mais fracos. É um rei que vive sob os despojos dos desconhecidos: sob roupas esfarrapadas de seus pequenos irmãos. Jesus é um Rei glorioso, mas a sua glória não é o triunfo da glória, do poder e do domínio, mas da cruz como símbolo da vitória do amor e da doação de si mesmo pelo próximo.
Quem tiver ajudado Jesus numa situação de necessidade, será aprovado por ele no juízo final; quem o tiver deixado na sua situação de necessidade, deverá calar-se diante do seu juízo. Por um instante, todos nós no juízo final, diz o texto escrito no futuro, perguntaríamos ao próprio Jesus onde foi que o encontramos nestas condições. E ele nos responderá: em cada pessoa necessitada que tivermos encontrado. Por isso, toda ajuda feita a um necessitado, tem um valor imortal. Por trás de cada pessoa, e exatamente por trás de cada pessoa pequena, fraca, provada, aí está Jesus.
Ajudar o próximo necessitado é uma tarefa fácil, segundo a capacidade de cada um. O que não podemos é passar de lado se afastando ou recuando diante de quem está na precisão. É interessante notar também que Jesus não diz: eu estava enfermo e vocês me curaram; eu estava na prisão e vocês me libertaram. Às vezes, ele nos pede só uma palavra de conforto, e até isto nós nos recusamos fazer.
Há tantos tipos de necessidades: corporais, psíquicas ou espirituais. A primeira coisa que temos que fazer é percebermos a necessidade de cada pessoa que se apresenta diante de nós. Cada empenho nosso desinteressado de ajuda, de serviço, de encorajamento é feito ao próprio Jesus e é plenamente reconhecido por ele. Madre Teresa, um dos maiores exemplos da nossa atualidade, sabia identificar Jesus nos mais pobres entre os pobres e dizia sempre, que de todas as necessidades, a maior doença do mundo atual é a falta de amor. O nosso amor ao próximo, e, em especial, aquele necessitado, é a medida do nosso amor a Deus.
Enfim, ainda é bom lembrar que pela parábola, pudemos ver que nenhum daqueles que praticou obras de caridade em favor do próximo se deu conta de tê-las feito a Jesus. Isto é muito importante: é um convite do Evangelho para que pratiquemos o bem ao irmão necessitado movidos por um amor desinteressado, já que se atuarmos sempre em vista de uma recompensa, de uma vantagem, o nosso amor ainda não é verdadeiro.

sábado, 15 de novembro de 2008

Ex 20,4-5


No domingo, 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, um leitor me perguntou o significado da passagem bíblica: Ex 20,4-6. Hoje, arranjei um tempinho e respondo com muito prazer.
O texto diz: 4 Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. 5 Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. 6 E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.
Para começar, temos que ler os dois versículos anteriores que fazem parte de um todo: 2Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. 3 Não terás outros deuses diante de mim.
Pois bem, diante de um mundo politeísta, onde as pessoas daquele período em que foi escrito o Antigo Testamento adoravam vários deuses. Reconheciam que havia um deus para cada campo da vida humana, sendo um dos principais o deus Baal, bem próximo do povo, com estas ordens, Deus quer fazer entender que não existem outros deuses, mas somente UM, ele, Javé. Em seguida, nos versículos 4,5,6: Deus explica que o ser humano representou de vários modos estes deuses em esculturas; mas Ele, o único e verdadeiro Deus está tão acima dos nossos conhecimentos. Seria um absurdo querer fazer uma imagem de um Deus tão imenso, invisível, seria querer reduzir a grandiosidade de Deus a uma estatura ou pintura que cada um pudesse fazer. Enfim, o mandamento bíblico proíbe de construir estátuas, mas com duas indicações: a primeira é que elas são proibidas quando se refere a representar Deus; a segunda é que sejam fabricadas estátuas de Deus com a intenção de adorá-las como ídolos.
Pronto, está aí a explicação, que em poucas palavras, significa que Deus querendo instaurar o monoteísmo num mundo completamente politeísta (crença em vários deuses), proibiu que ELE fosse representado por qualquer escultura ou pintura com a intenção de ser adorado através dessa escultura, pois até aquele momento Deus não tinha se revelado numa imagem que podemos ver como Jesus se revelou na imagem de homem, e o Espírito Santo na imagem de uma pomba, de línguas de fogo etc. Para ver que Deus nunca foi contra imagens, no próprio Antigo Testamento, temos várias passagens, inclusive uma depois dessa que estamos explicando, na qual, ele manda Moisés construir uma serpente de bronze e para que todo aquele que olhasse para ela vivesse (Conferir: Números 21,8-9). Isto é, podemos construir à vontade imagens de qualquer material, pinturas, fotografias, estátuas das pessoas que amamos, e inclusive dos santos que deram tanto testemunho e exemplo para nós.
Enfim, temos que interpretar cada passagem de acordo com o tempo em que foi escrito cada trecho que corresponde a uma realidade em desenvolvimento até Jesus Cristo. Para confirmar, nesse mesmo trecho de Ex 20, 5: o próprio Deus se autodenomina ciumento e vingativo, castigador, quando no Novo Testamento Jesus afirma que seu Pai não castiga ninguém; basta ler Lc 13, 1-5 juntamente com o episódio do cego de nascença (quem pecou para que nascesse cego? Jo 9,3).
Espero ter esclarecido suas dúvidas, prezado leitor! Um bom domingo!

XXXIII DOMINGO COMUM – Mt 25,14-30


Fiéis e responsáveis
O termo “talento” entrou na nossa linguagem comum como indicativo de habilidades e capacidades de cada um e, portanto, o dever de desenvolvê-lo, fazendo-o crescer, exatamente como se faz no campo econômico onde é preciso investir sabiamente para se ter um bom proveito.
Mas, no Evangelho deste domingo, a parábola que Jesus conta a seus discípulos designa com o termo “talento” um significado anterior ao usado hoje em dia: o patrão “deu a cada qual de acordo com a sua capacidade”. Então, o talento em ouro ou prata era a unidade de moeda grega e depois romana para grandes quantidades de dinheiro (equivalia a 6.000 dracmas), e que por isso, significava na parábola as responsabilidades e os deveres que nos são confiados e em torno dos quais gira a nossa vida. Por exemplo, quais as responsabilidades de um pai de família, uma mãe de família, um padre, um agente de pastoral, um missionário. Há responsabilidades grandes e pequenas, nem todos receberam o mesmo, pois a medida de Deus é diferente da nossa.
Deus nos confia vários talentos, ele nos entrega a vida não como um peso nem como um castigo, mas como um dom, uma graça, uma bênção e uma grande oportunidade para nós e para os outros. Dentro desses talentos, está o da nossa responsabilidade de cristãos. Sermos testemunhas do Evangelho, de vivermos esse Evangelho com garra dentro da realidade da nossa vida diária.
Mas, muitas pessoas hoje convivem com o problema de uma sociedade que exige tanto que elas se sentem inadequadas e incapacitadas. Deus nos conhece profundamente e não nos dá tarefas que não possamos realizá-las. Por isso, devemos ter uma estima sadia de nós mesmos antes de tudo porque existimos e somos fruto de um amor que quer que olhemos a vida como o nosso maior empreendimento.
O Evangelho deste domingo é muito claro; logo de cara, vemos que Jesus quer chamar a nossa atenção para o terceiro servo. Mas vamos falar também um pouco dos dois primeiros. No geral, a parábola nos mostra que somos dependentes de Deus e que somos obrigados a prestar-lhe contas; tudo o que temos é um bem que nos foi confiado, que não podemos usá-lo do jeito que bem entendermos, mas devemos empregá-lo da maneira como Deus quer que o usemos. Através do comportamento e do destino dos dois servos bons e fiéis, Jesus nos faz ver como devemos lidar com a nossa situação atual; através do comportamento e do destino do servo mau, Jesus nos esclarece como uma pessoa com estas características vai acabar. Isso deve nos convencer a se afastar de um comportamento semelhante.
A este servo mau se opõe também claramente a sabedoria do livro dos Provérbios (I leitura), mostrando a figura admirável da mulher forte. Ela é habilidosa e generosa. Trabalha e se empenha em tudo o que faz sem se deixar levar pela beleza externa (passageira). À luz do Evangelho podemos dizer que a ela Deus confiou o talento da vida familiar. Um talento que tantos consideram pequeno, dona do lar, mas que na verdade todos sabem que é um talento enorme.
Tudo o que Deus nos confia nesta vida não pode ser enterrado nem desperdiçado. Os nossos talentos devem ser investidos em favor de todos, não só de nós mesmos. E temos que enfrentar os riscos, pois seja lá o que for, casar, ter filhos, ser padre, ter fé, pregar, testemunhar, é arriscado. Mas se não arriscarmos, não avançaremos nem cresceremos nunca na vida, ficaríamos como o terceiro servo.
O coração da parábola e a chave que poderia desbloquear a situação do terceiro servo é justamente a relação entre ele e o patrão, entre cada um de nós e Deus. Enquanto os dois primeiros servos se sentiram estimulados para agir e não tiveram medo do patrão porque o conheciam e confiavam nele, o terceiro permaneceu condicionado somente pelo medo e ficou paralisado. Ele tem uma relação falsa com o seu patrão, uma imagem errada de um Deus como um juiz duro e implacável. Teve medo de perder o talento, de ser julgado e condenado por isso. E assim não quis sujar suas mãos, teve medo de errar, de se arriscar, ficou preguiçoso, acomodado, se fechou.
Mas o amor tem a capacidade de mover a vida, e o amor de Deus pode nos levantar para assumirmos a responsabilidade de uma vida sem fugas e sem temores, com coragem, paixão e iniciativa. A consciência de que Deus no final nos pedirá contas dos frutos da nossa vida não nos deve fazer medo, mas pode ser uma justa provocação para não nos acomodarmos e podermos participar da alegria de Deus.

sábado, 8 de novembro de 2008

SOLENIDADE DA BASÍLICA LATERANENSE - Jo 2,13-22


SOMOS O SANTUÁRIO DE DEUS
Neste domingo, com uma solenidade particular, recordamos e celebramos a Dedicação da Basílica de São João do Latrão, a Catedral de Roma, a mãe e cabeça de todas as igrejas (Roma) e do mundo. Construída pelo imperador Constantino em 325, foi sede oficial do bispo de Roma até o século XIV. Comemorar a dedicação desta casa de Deus tão importante para todos os cristão faz refletir sobre o papel do templo judaico e como Jesus o elevou.
O templo na história do povo de Israel tinha uma importância vital. Situado na cidade santa de Jerusalém, era considerado o lugar mais sagrado da presença de Deus. Depois, infelizmente, destruído, até hoje restam os muros do Templo onde os judeus costumam se lamentar. O templo era um lugar tão sagrado que até hoje qualquer igreja católica antes de ser admitida a lugar de culto, é consagrada com uma liturgia especial para ser usada pelos fiéis para as celebrações da sagrada liturgia e para a oração.
No Evangelho de hoje, Jesus nos fala de um novo templo, isto é, um novo lugar de encontro com Deus. No templo de Jerusalém, Jesus se desentende com os vendedores de animais e cambistas que pensam somente nos seus próprios interesses. O comércio que era permitido pelas autoridades religiosas e pelo sumo sacerdote Caifás para fazer concorrência ao mercado operado pelo Sinédrio próximo ao Cedron, provocou uma dura reação em Jesus, que constata amargamente o caráter profano assumido pela festa da “Páscoa dos judeus”. Mercado se opõe a casa. No mercado se fazem negócios, não é um bom lugar onde se possa encontrar Deus.
E com seu gesto de reprovação: “Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!”, Jesus quer fazer entender a todos que o templo deve retornar a ser a casa do “meu Pai”. O gesto violento de Jesus deve ser lido à luz dos textos proféticos: “E de repente chegará ao seu templo o Senhor que vós estáveis procurando, o mensageiro da Aliança” (Ml 3,1); “naquele dia não haverá mais comerciantes dentro da Casa do Senhor dos exércitos” (Zc 14,21). Também se refere a esta atitude de Jesus os textos proféticos nos quais Deus diz não se agradar de um culto externo feito de sacrifícios de animais e baseado sobre o interesse pessoal (Am 5,21-24).
É interessante notar como aqui Jesus no início de Jo chama pela primeira vez Deus “meu Pai” e fala do templo como a casa do seu Pai. Ele, como Filho, purifica da profanação do comércio a casa de seu Pai antes de tomar posse dele, pois “o zelo por tua casa me consumirá”. Jesus cita o salmo 69,10, colocando o verbo no futuro. Jesus se sentirá tão consumido por este zelo que o faz cumprir agora sua missão com extrema radicalidade.
Ao pedido de um sinal, Jesus responde prometendo o maior de todos os sinais, a sua ressurreição: “Destruí este templo, e em três dias o levantarei”. E o evangelista esclarece: “mas Jesus estava falando do templo do seu corpo”. Cristo ressuscitado é o novo templo, o único lugar da presença de Deus entre os homens, o templo do qual jorra uma fonte de água que vivifica (I leitura). Naquele momento, os discípulos não compreenderam o significado profundo deste episódio, mas depois da ressurreição de Jesus, foram iluminados pelo Espírito sobre tudo aquilo que Jesus lhes tinha dito e “acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus”.
Como pudemos notar, João não nos abandona junto às ruínas do velho templo, mas nos indica o novo santuário de Deus. O Templo sempre atual e duradouro é o corpo de Cristo ressuscitado dos mortos. Deus aparece num corpo real, humano, carregado de glória divina. O Deus conosco é para sempre Jesus ressuscitado.
O valor e a sacralidade do templo dependem, portanto da verdade e pelo espírito que o anima. É o lugar da comunhão com Deus e entre nós, irmãos e parte de um único Corpo. Hoje deveríamos reforçar o propósito de respeitar o lugar sagrado, onde celebramos os divinos mistérios, rever os nossos comportamentos e, sobretudo nos interrogarmos se somos conscientes que formamos o Corpo de Cristo, o Santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em nós.
Que o recolhimento e a intimidade que se encontram na nossa igreja contribuam para que semanalmente ela seja o lugar de encontro e de comunhão da inteira comunidade eclesial que escuta a Palavra de Deus, comungando juntos o Banquete Eucarístico para viver a comunhão com o mesmo Senhor e entre todos os membros do Corpo que o compõem.

sábado, 1 de novembro de 2008

FIÉIS DEFUNTOS – Jo 6,37-40


Morte: porta para a Vida

Cada vez que vamos a um enterro, nos damos conta claramente que nos encontramos na escola da vida, e que os ensinamentos que a morte de uma pessoa nos dá são tão fortes que nunca conseguimos esquecer. Os seus ensinamentos são tão tocantes que exercem grande influência na nossa vida e no profundo da nossa alma. Isto porque a morte nos obriga a morrer a cada dia: os problemas pessoais de saúde mostram isso. Se pensarmos, na verdade, cada aniversário nosso significa que estamos mais próximos da morte. Mas, se tivermos a persistência de colher tudo de bom que ela tem a nos oferecer, com certeza veremos que tudo aquilo que num primeiro momento parece perdido é recuperado, ao ponto até mesmo de ver que mais nada será perdido. Quando nós cristãos, nos damos conta que a morte nos educa ao verdadeiro sentido da vida, não à vida que nós queremos, mas à vida que Deus quis que vivêssemos, que ela tem um valor bem maior, então não temos mais porque nos desesperarmos perante a morte, mas sim nos enchermos de esperança.
Existe tanta injustiça nesse mundo terreno, e a morte ensina que todos somos iguais: dela ninguém pode escapar, nem com poder, nem com dinheiro, nem com amizades. Não há nada que se possa fazer. Nada pode fugir ao seu toque. Aqueles que não têm fé, também têm que enfrentar este medo e mistério que é a morte. Mas há uma diferença: enquanto os ateus buscam em vão o seu sentido, nós o encontramos na Palavra de Cristo nosso Senhor. Assim, o dia da morte não será um dia de tristeza nem de desespero, mas de esperança, porque a morte não é o fim, mas um confim, uma fronteira; a morte não separa, ela nos reúne com Deus e com todos aqueles que já fizeram esta passagem; Jesus, com a sua morte, pagou um preço caríssimo para nos libertar do pecado e da morte e trazer da morte para cada um de nós, a vida, a ressurreição.
Nos diz o salmista neste domingo: “O Senhor é minha luz e salvação. De quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida. Perante quem eu tremerei?” É esta a verdade que brota no nosso coração, e que nos faz pôr toda a nossa esperança no Senhor: “ao Senhor eu peço apenas uma coisa, e é só isto que eu desejo, habitar no santuário do Senhor, por toda a minha vida, saborear a suavidade do Senhor e contemplá-lo no seu templo”.
Às vezes, podemos até cair na besteira de pensar que sozinhos nos bastamos, ou que só os outros morrem ou que a nossa morte vai demorar séculos para chegar; pensar que não precisamos de horizontes que encham de sentido o nosso morrer ou nos iludirmos de que o ter a vida seja parecer, ter, poder. Mas a luz que a revelação de Deus estende sobre a nossa existência, a luz que sai do túmulo de Cristo Ressuscitado, a orientação luminosa que Deus pôs no nosso coração, mesmo que os olhos se encham de lágrimas pela sensação de perca que a morte inclui, nos faz dizer como Jó, o homem que bebeu até o fim o cálice amargo da dor, da solidão, da falência: “depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne (e, portanto o nosso “eu”), verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outro”.
Esta luz se faz plena nas palavras de Jesus, aquele que veio revelar os segredos do Pai, comunicar a vida de Deus e executar a vontade do Pai: “Esta é a vontade do meu Pai: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, nada, nem mesmo o nosso ser de carne, mas o ressuscite no último dia”.
Deus nos chamou à vida não pela morte, mas passando através do Filho que é a porta, nós recebemos o prêmio da liberdade para acolhê-lo, a sua Palavra, o seu chamado, os seus dons que ele pôs na vida de cada um e que significam felicidade eterna.
“Deus”, diz São Paulo, “dá uma prova de amor por nós porque quando ainda éramos pecadores, Cristo deu a sua vida para que tivéssemos a vida”.
Hoje é dia de lembrarmos os nossos mortos, lembrarmos a vida que Deus dá a todos quantos ele chamou a si. Hoje podemos sentir a paz, a plenitude dos bens de Deus. Hoje cada um dos nossos caros é acolhido além dos seus limites, na sua verdadeira dimensão de amado por Deus e na sua fidelidade ao amor. “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá”.

TODOS OS SANTOS - Ap 7,2-4.9-14; Mt 5,1-12)


O CAMINHO PARA A FELICIDADE PLENA

“Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do cordeiro”. Com esta imagem, o livro do Apocalipse indica todos aqueles que participaram do sacrifício expiatório de Cristo, cordeiro sem mancha. Estes, agora, formam a multidão imensa, simbolizados pelo número 144.000 (12 tribos de Israel x 12 apóstolos x 1.000 = idéia de abundância). São todos aqueles que conseguiram a visão eterna de Deus depois de ter atravessado o tempo da prova, lutando constantemente contra as ciladas do mal, animados pela coragem e segurança que vem do Senhor. Estamos falando dos santos.Os santos são aquelas pessoas canonizadas pela Igreja, depois de uma minuciosa investigação da vida destas. Mas, os canonizados constituem uma pequena parte. Há muitíssimos outros que celebramos hoje, uma multidão que ninguém podia contar, diz o livro do Ap. São aqueles que com humildade se submeteram à vontade de Deus durante a sua vida, e estão na presença do Senhor para sempre. Dentre estes, podem constar nossos amigos e familiares já falecidos. São os santos anônimos, e são exatamente como os canonizados.Também nós não devemos nem duvidar que possamos participar desta comunhão. Cristo não exclui ninguém da salvação. Porém, Cristo não impõe, ele só propõe. Cada um é livre em aceitar ou rejeitar esta salvação.O Evangelho de hoje nos apresenta um itinerário de santidade humana que abraça todas as etapas da nossa vida, abarcando cada situação e considerando os desafios que a cada dia estamos sujeitos: Deus não quer que fiquemos passivos, há um caminho a seguir. As bem-aventuranças indicam que caminho é este, mostrando o caráter do cristão enquanto herdeiro do Reino de Deus, da felicidade plena, da alegria perfeita.Ser pobre em espírito é ser humilde. É quando reconhecemos nossa necessidade, nossa insuficiência e nossa dependência, nossos limites, e, nos dirigimos a Deus na oração com confiança. Para tal, é necessário arrancar de nós toda soberba, orgulho, presunção, egoísmo, auto-suficiência, superioridade, intolerância. Esta bem-aventurança não diz respeito só aos que são pobres materialmente: um milionário pode reconhecer e confessar que a riqueza material não é tudo para ele e que ele depende de Deus; enquanto, um pobre materialmente pode ser cheio de inveja e esperar tudo da riqueza terrena.A segunda bem-aventurança parece contraditória, pois o pranto é o contrário de alegria. Os motivos podem ser vários: a morte, a doença, as desgraças, o pecado e a fraqueza, as mudanças drásticas da vida. O aflito é aquele que sofre por sua situação ou pela dor alheia, movido pela compaixão. O pecado contrário é quando somos indiferentes e almejamos uma “vida boa”, cheia de prazeres, confortos, tranqüilidades; é o pecado da indiferença com o próximo, da dureza de coração.Jesus era manso. Ele chama felizes os mansos, que deixemos toda grosseria, desrespeito, desamor, agressões. A santidade deve mostrar-se no modo como tratamos as pessoas. É preciso trabalhar o autocontrole, aceitar o próximo, não querer dominá-lo, controlá-lo, humilhá-lo nem impor-lhe nossas idéias.Fome e sede são uma necessidade natural, fundamental para vivermos. Felizes são os que tem fome e sede de justiça: ser justo significa ser reto, honesto, correto com relação ao próximo, a Deus e às coisas materiais.Ser feliz significa ser misericordioso. Significa não ficar indiferente perante o sofrimento alheio nem mostrar um coração duro perante as ofensas que nos foram causadas. Sentir a miséria do outro e perdoá-lo. Só perdoando, seremos perdoados.O que busca a santidade busca a pureza. Humanamente falando, nos damos conta que é impossível ser totalmente puro, mas o sangue de Jesus nos lava de todo o pecado.O caminho da santidade é uma busca constante de paz. Deus é um Deus da paz. Ele quer que nós também sejamos pessoas de paz. Temos que aprender a lidar com o pecado da maledicência, da intriga, da vingança, da provocação. Somos felizes quando não só fizermos as pazes com os outros, mas também quando formos instrumentos de paz entre duas pessoas ou grupos etc.Ser bem-aventurado implica ser perseguido ou até morrer por causa de Jesus Cristo. Talvez seja esta uma questão das mais difíceis da santidade: conviver com isto enquanto se segue a Jesus. Talvez alguém possa se enganar pensando que quanto mais próximos a Deus estivermos, mais amados seremos por todos. Errado! Pois, seremos cada vez mais invejados, contrariados, insultados e perseguidos. O diabo fica desconcertado com os que, sinceramente, buscam seguir Cristo. O próprio Jesus Cristo foi odiado e crucificado.Enfim, o caminho indicado por Jesus para nossa felicidade parece ser uma restrição, uma limitação da liberdade humana. Mas, Jesus não veio prender, veio libertar. Na verdade, as bem-aventuranças são um caminho para a liberdade, para a salvação, para a felicidade.