sexta-feira, 26 de setembro de 2008

XXVI DOMINGO COMUM - Mt 21,28-32


Faça mais, fale menos
“Os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no reino dos céus”, disse Jesus às autoridades judaicas que o escutavam no templo. Podemos imaginar o escândalo que estas palavras causaram aos ouvidos dos “justos” de Israel! Ser precedido nos céus por uma prostituta ou um cobrador de impostos (no tempo de Jesus, eram totalmente desonestos)?! Não poderia se ouvir ofensa maior. Ser colocado para trás logo por quem? Por pessoas de má fama!?
Mas por que Jesus reprova tanto estes sacerdotes e anciãos? Onde foi que eles erraram? Exatamente na incoerência entre o “falar” e o “fazer” deles. E Jesus mostra isso claramente com a parábola dos dois filhos. Nela, para ambos os filhos o pai pede cordialmente que trabalhem na vinha. O primeiro se prontifica imediatamente: “Sim, Senhor!”, mas não move uma palha. O segundo está decidido: “não quero!”, mas pensa melhor e aparece lá para trabalhar.
No primeiro filho, as palavras são boas e gentis, mas falta a sua realização. No segundo, as palavras até parecem brutas, mas a ação é boa. As palavras por si só não salvam, é preciso praticá-las. O próprio Jesus já havia alertado: “Não quem me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus (Mt 7,21). Já o exemplo do segundo filho é autêntico: ele cumpre a vontade do pai não com palavras, mas com ações.
Os chefes judaicos até que estavam de acordo que a vontade do Pai só pudesse ser cumprida com ações, mas não estavam de acordo de jeito nenhum com a aplicação que Jesus fizera desta parábola. Assim, percebemos que tipo de distância abismal havia entre o dizer e o fazer na religiosidade farisaica e que é tão viva ainda hoje. A reprovação de Jesus é dirigida a quem dá mais valor às aparências do que à essência, mais às palavras que à prática, mas ao exterior que o interior. Se formos fazer um exame de consciência bem feito, vamos perceber imediatamente como somos fariseus, como o primeiro filho pronto a dizer sim com os lábios, mas a não fazer quase nada quando o assunto é cumprir a vontade de Deus.
A exortação de Jesus se torna ainda mais provocante, como já dissemos acima, porque contrapõe aos seus interlocutores os publicanos e as prostitutas. Para os chefes dos judeus, o fato de serem mencionados juntamente com pessoas dessa classe era muito ofensivo. Eles desprezavam e excluíam totalmente estas pessoas. Jesus, pelo contrário, vê nelas o segundo filho. Num primeiro momento, deram um não, mas depois se arrependeram e fizeram a vontade do Pai. Jesus não aprova o modo de vida delas, mas reconhece a acolhida que elas deram à mensagem de conversão de João Batista e a julga como o cumprimento da vontade de Deus.
Jesus afirma que só aquele que reconhece o seu pecado pode se arrepender; aquele que se acha justo, um auto-suficiente, seguro de sua justiça, nunca vai reconhecer que erra. De fato, foi isto o que aconteceu pela pregação de João Batista: os fariseus o rejeitaram, enquanto os pecadores se arrependeram e se converteram. Aqueles, de fato, não se agradaram em ouvi-lo, estavam fechados ao Evangelho e só quem se deixa tocar pelo Evangelho, se afasta de si mesmo (já que, no fundo, a religiosidade farisaica é o agradar a si mesmo, pelo próprio comportamento, pelas próprias ações) e se abandona à vontade de Deus.
Até que os fariseus faziam boas e muitas ações, pois observavam a lei de Moisés, mas esqueciam a parte fundamental: reconhecer os sinais da presença de Deus, primeiramente em João Batista, depois em Jesus. Descobrimos assim que a manifestação concreta da vontade de Deus não coincide nunca com aquilo que nós desejamos e que já preestabelecemos como o nosso bem, mas tem sempre a ver com a fé, uma fé que envolve todo o nosso ser e se concretiza numa pequena, simples, mas dificílima ação. O importante não é, portanto, fazer alguma coisa, mas fazer aquilo que Deus quer que nós façamos pela obediência da fé.

sábado, 20 de setembro de 2008

XXV DOMINGO COMUM - Mt 20,1-16a


Pensamentos e caminhos diferentes
No Evangelho deste domingo, Jesus retoma as parábolas, para revelar com uma imagem viva e concreta, a partir de uma experiência de vida, a riqueza infinita do amor do Pai: Deus é Amor. É aqui que se concentra todo o significado daquele patrão que “saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha...”, sinal da solicitude de Deus, que não agüenta esperar que os filhos que estão afastados voltem (Lc 15), ele mesmo os procura, chama-os, e os envolve no seu projeto de vida: a salvação eterna, que é a comunhão feliz com ele. É este o trabalho que o Senhor oferece em troca de uma simbólica moeda de prata, que será dada, não com base às efetivas horas de trabalho, contadas a partir de um relógio, mas pela intensidade de fé com a qual, também a pessoa mais afastada se dirige a ele.
À primeira vista, a parábola parece ser desconcertante; de fato, segundo a nossa comum medida de justiça, seria impensável que a retribuição pelo trabalho seja idêntica, para quem tiver trabalhado uma hora ou poucas horas, e para quem tiver completado as suas oito horas, quem sabe, até algumas horas extras. Dar a cada um o seu, é o princípio mais elementar da justiça distributiva, que obviamente, Jesus não rejeita; porém, ele mostra que há uma justiça mais alta, com finalidades bem maiores daquelas exclusivamente temporais, e é a justiça que regula a nossa relação com o nosso Deus e Pai, e diz respeito ao fim último da existência humana, que não se acaba com a morte, mas caminha para a eternidade, onde não há limites, e não pode ser avaliada em termos econômicos, como uma moeda de prata ou dez mil talentos. A chave interpretativa da parábola é esta verdade, proclamada por Cristo, verdade que supera toda lógica puramente humana.
Há uma causa bem maior, pela qual o homem é chamado a colocar em jogo a sua vida, que é a causa da salvação, que vem de Deus, um dom de misericórdia, para ser acolhido com humildade e fé; para ser vivido com empenho, e que, na sua dinâmica mais profunda, foge ao nosso pensamento, porque é determinada pela lógica insondável do amor de Deus, que é Pai, e que não quer que ninguém se perca.
Deus é rico de misericórdia, como nos diz o profeta Isaías, já na I leitura; ele nos apresenta um Deus que por amor, revira toda lógica humana para realizar uma outra bem superior: “abandone o ímpio seu caminho, e o homem injusto, suas maquinações, volte para o Senhor que terá piedade dele; volte para nosso Deus que é generoso no perdão. Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos e vossos caminhos não são como os meus caminhos. Estão meus caminhos tão acima dos vossos caminhos e meus pensamentos acima dos vossos pensamentos quanto o céu está acima da terra”.
É nessa lógica que devemos interpretar a parábola. O patrão sai de casa para procurar trabalhadores, para envolvê-los no seu projeto, quantos não o conhecem, por causa diversas, ou porque são indiferentes. Ele sai em diferentes horas do dia, inclusive na última hora útil: lá pelas cinco da tarde. É a busca que Deus faz do homem, destinado a salvação, é uma busca apaixonada, freqüente, incansável. Um busca que terminou por enviar entre nós, Jesus Cristo, o nosso bom pastor que dá a vida pelo seu rebanho.
O tempo de Deus não é como o tempo do homem, porque a justiça de Deus é uma justiça que é unida ao amor: o amor que salva, e o cálculo de Deus está no amor. De fato, aquele trabalhador que reclamava dizendo ter sido injustiçado, recebe a seguinte resposta: “por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque estou sendo bom?”
Para ilustrar, lembremos do malfeitor que estava junto da cruz de Jesus e foi salvo por ele: um trabalhador de última hora. “Ainda hoje estarás comigo no paraíso”. O hoje de Deus é um hoje de fé e de amor que não segue os ponteiros do relógio, mas a intensidade do desejo, que nasce do coração que acolhe com humilde reconhecimento o dom da graça. Talvez não sejamos trabalhadores de última hora; mas, neste caso, o Evangelho nos chama a atenção para não nos distrairmos, o Senhor repetidamente nos chama a uma vida mais intensa de comunhão e de amor, a um testemunho mais coerente, claro e decisivo de Cristo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ - Jo 3,13-17


Cruz: loucura ou exaltação de amor?
A exaltação da cruz é uma solenidade que soa muito estranha para aqueles que não conhecem nossa fé cristã, porque questiona como nos seja possível exaltar um objeto que serviu para uma atrocidade tão grande contra o corpo do nosso Salvador? Os não cristãos sempre colocam a interrogação: por que exaltar a cruz, quando esta é um instrumento de sofrimento e de morte? Porque entre tantas coisas bonitas da nossa fé, falar da cruz se faz tão necessário?
No Antigo Testamento (I leitura), os israelitas estavam morrendo em grande quantidade porque uma praga de serpentes tinha caído sobre eles como resultado de seus pecados: “Pecamos, falando contra o Senhor”.
Diante disso, o que fez Moisés? Ele intercedeu a Deus. Para resolver este problema de morte, ele não se voltou para si mesmo nem para outro ser humano, mas para Deus. Quantas vezes a Bíblia nos mostra pessoas que enfrentaram e venceram suas adversidades com a oração confiante. Os israelitas erraram, viram a conseqüência do seu pecado, mas rezaram. E nós? O que fazemos? Como lidamos com os nossos pecados, com as nossas provações? Será que nos preocupamos com elas e queremos com as nossas próprias forças resolvê-las? Ou as entregamos com confiança a Deus?
Moisés implorou a Deus como poderia fazer para salvar o povo das serpentes venenosas. Ele não fez um plano próprio, mas ele pediu a Deus para abençoá-lo. Ele simplesmente rezou. E a esta sua ação Deus respondeu. Deus ordenou a Moisés que fizesse uma serpente de bronze, e a colocasse sobre uma haste. Toda pessoa que fosse mordida e olhasse para ela viveria.
O Evangelho (Novo Testamento) cumpre definitivamente este ato de amor do Senhor para com o seu povo através da cruz de Jesus que tira o pecado do mundo: “do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna”.
Os dois textos chamam a atenção para três pontos: a serpente de bronze livrava das serpentes que matavam – assim o Filho do homem libertará da morte; a serpente tinha sido levantada numa haste por Moisés – o Filho do Homem será elevado quando for pregado na cruz e glorificado; finalmente, para ser salvo e viver é necessário olhar para a serpente de bronze – dirigindo o olhar para o crucifixo com fé, o cristão terá a vida eterna.
Hoje, dois mil anos depois, a mensagem continua atual: “olhe e viva”. Olhe para Jesus e não para você, para o que você tem feito ou pode fazer, olhe para o que Jesus fez por você. A resposta para seu pecado, sua provação, seu problema, seja ele qual for é a confiança em Deus na oração.
A cruz de Cristo, portanto, foi necessária para nossa salvação, por isso, nos voltamos para ela com outros olhos. E, se foi necessária para Cristo, certamente é pra nós também. Se prestarmos um momento de atenção: todos carregamos uma cruz no nosso cotidiano. E aí está o grande significado da cruz para nós cristãos: nós sempre vemos nela Jesus crucificado, aquele que foi destinado a livrar-se da morte e mostrar os sinais da ressurreição; e, isto nos enche de confiança e esperança. No enfrentar as adversidades de cada dia e no sofrer as injustiças e maldades de todo tipo, é para nós grande consolação dirigir o olhar para aquele que foi ferido e a repensar o quanto ele sofreu em matéria de perseguição, para compreender que como ele também nós, tendo enfrentado também as nossas, somos destinados a receber a vida eterna no fim do nosso itinerário terreno. E não vamos nos iludir: quem rejeita a cruz ou procura fugir dela, quem sabe colocando-a nas costas de outros, sabe que mais cedo ou mais tarde deverá carregar uma de peso equivalente àquelas que não quis carregar anteriormente, isto porque a cruz é inevitável, mas é necessária. Em toda cruz há sempre um início de ressurreição destinado a se cumprir; e, mantendo o olhar fixo para este instrumento que nosso Senhor abraçou para nos salvar (“humilhou-se obediente até a morte, e morte de cruz”), nossa língua não se canse de proclamar: “Jesus Cristo é o Senhor” (II leitura).

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

XXIII DOMINGO COMUM – Mt 18,15-20


Corrigir não é condenar, é amar
A Palavra de Deus deste domingo fala sobre a correção fraterna. Um tema muito importante, mas também muito difícil de ser abordado e vivido. Jesus vê a comunidade dos seus discípulos não como uma associação onde cada um pode fazer aquilo que quiser e que ninguém se interessa pelo que o outro faz. Mas, a partir do momento no qual somos batizados, fazemos parte de uma mesma comunidade e erramos, temos a necessidade de ser corrigidos por alguém e o dever de corrigir os outros também, já que todo comportamento positivo concorre positivamente para o bem da comunidade e todo comportamento errado incide negativamente na comunidade. Temos a responsabilidade de fazer o possível para que ninguém se perca, é o mandamento contido na parábola da ovelha perdida, anterior a este trecho evangélico. A partir dessa preocupação fraterna que é uma forma de amor ao próximo e que deve estar submissa à vontade de Deus, é que temos a obrigação de corrigir um irmão que errou e chamá-lo à conversão.
A primeira correção toca a nós mesmos. E, depois, cabe a quem tem responsabilidade direta e imediata sobre nós. Certamente, toda correção vem do Senhor; por isso, só é justo falar de correção fraterna num contexto de caminho de santidade que queremos partilhar com o próximo. Convém esclarecer logo de imediato que este caminho não consiste na lógica daquele farisaísmo mais acentuado, que através de uma capa, pretende mostrar-se perfeito, quando no privado, se pratica todo tipo de desvio e de imoralidade; pelo contrário, à forma externa correta do nosso agir deve corresponder uma conscientização do bem que devemos fazer sempre e do mal que devemos evitar sempre. E, se na nossa fragilidade humana, freqüentemente erramos, quem tem o dever moral de nos chamar a atenção deve fazê-lo com coragem, no respeito da nossa pessoa, na verdade, com informações verdadeiras, sem dar ouvidos a: fofocas, calúnias, suspeitas, prejulgamentos, enfim, a tudo o que possa ofender e prejudicar injustamente a nossa fama. Cada um de nós tem a chance de se corrigir, rever a própria vida e as próprias decisões. Só os obstinados, os orgulhosos, aqueles que pensam estar sempre com a razão, não sabem se corrigir, mesmo cometendo tantos erros, causando dano a eles mesmos e aos outros.
Mas, como deve ser feita esta correção fraterna? Normalmente, quando um irmão erra contra nós, o que a gente faz? A primeira reação que temos é a da vingança (como bem colocou a VEJA da semana passada). No Evangelho deste domingo, Jesus ensina um caminho diferente e apropriado para responder a este ato de provocação: a correção e a reconciliação. O cristão não pode dizer: “to nem aí pela desgraça dele”. Pelo contrário, somos obrigados a interessar-nos por um irmão que está desviado, pois o Pai que está nos céus não quer que ninguém se perca e temos responsabilidade nesta missão.
Mas, temos que entender bem, nenhum de nós deve ser juiz dos outros. Mas às vezes recebemos um ofício na Igreja, na sociedade, ou mesmo em casa, que nos requer capacidade de humana e fraterna correção. Um pai que diante de um filho que se comporta de modo errado não toma posição e até mesmo tolera o seu comportamento, ou pior, apóia tal comportamento, tem uma parte de responsabilidade diante de Deus pelos atos do filho.
A correção fraterna é certamente uma forma de caridade rara exatamente porque é muito difícil praticá-la. Requer-se antes de tudo um verdadeiro amor, sensibilidade, e delicadeza. A prudência nos deve ajudar a não cometer erros e para surtir os efeitos esperados. A primeira condição, porém, é a oração intensa e em nome de Jesus. Só com a graça divina conseguiremos alcançar o coração do nosso próximo e ganhá-lo para o bem e para o Senhor. A humilde invocação ao Espírito Santo em comunidade nos consente conseguir a luz necessária para formular a nossa correção do modo melhor possível sem ofender, mas só para salvar o irmão do seu mal, seja às vezes somente com o irmão para evitar o escândalo (1º forma), seja com a ajuda de outros irmãos para evitar a subjetividade (2ª forma), ou até mesmo com a ajuda da hierarquia da Igreja, quando nenhuma das duas anteriores resultou (3ª forma). Entretanto, é bom que fique claro que esta correção fraterna de que o Senhor fala e exorta que pratiquemos deve ser sempre um ato de caridade e de amor fraterno, nunca um mero gesto de autoridade e ainda menos, de condenação.