sábado, 30 de agosto de 2008

XXII DOMINGO COMUM - Mt 16,21-2


A incompreensibilidade do sofrimento é um pedaço da incompreensibilidade de Deus

No Evangelho do domingo passado, Jesus perguntava aos discípulos o que o povo pensava dele e o que eles mesmos pensavam acerca de sua pessoa; Pedro confessa que Jesus é o Messias, o Filho do Deus Vivo, e sua resposta é aprovada pelo próprio Jesus. No trecho evangélico deste domingo, que é continuação daquele passado, Jesus anuncia que vai sofrer muito, vai morrer e ressuscitar. A este ponto, Pedro vê uma contradição entre aquilo que acabou de professar e aquilo que Jesus acaba de anunciar de maneira tão solene. De fato, como pode Jesus, depois de operar tantas curas e pregar que veio trazer vida plena, agora falar de sofrimento e de morte? Para os discípulos, isto não é somente decepcionante, mas significa a queda de um mundo de esperanças. E, por isso, Pedro não quer aceitar este destino de Jesus e se defende como pode, repreendendo-o. Certamente, a repreensão de Pedro é a normal reação do homem diante da perspectiva da dor e da morte; mais, é a reação do amigo, que defende o amigo, e que quer protegê-lo de qualquer perigo; mesmo quando, neste caso, Pedro parece ter esquecido que o seu amigo é o Filho do Deus vivo. De fato, ele volta a pensar em Jesus como um messias triunfante no campo político, para liberar o povo da opressão inimiga. Mais uma vez, parece voltar atrás, lembra os quarenta dias no deserto, quando Jesus enfrentou Satanás, que lhe propunha tal messianismo terreno, feito de prestígio, poder e riqueza. A tentação diabólica parece representar-se com força nas palavras de Pedro que não queria aceitar o fim doloroso do Mestre. Por sua vez, Jesus o repreende com muita firmeza. Pouco antes, ele tinha chamado Pedro de “pedra”, coluna sustentável sobre a qual edificaria a sua Igreja; agora, chama-o de “satanás”, tentador e pede que o mesmo se coloque no seu lugar que é aquele de discípulo. Não cabe ao discípulo colocar-se na frente do mestre, para dar-lhe instruções. É o contrário, o discípulo é quem tem que ficar atrás do mestre, confiar a ele sua vida e segui-lo. Também no Evangelho do domingo passado, víamos que Jesus tinha confirmado que a confissão de Pedro vinha por revelação de Deus Pai; mas, agora, não. O que Pedro está fazendo é deixar-se dominar pelos pensamentos humanos: “vai para longe, satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas, sim, as coisas dos homens”, diz Jesus. Deste contraste de pensamentos, isto é, entre a forma de pensar de Deus e a dos homens, é que o Evangelho suscita questões fundamentais sobre a vida humana: qual é o valor e o significado da nossa vida? A nossa vida terrena é a única vida? Como devemos usar esta vida para nos sentir plenos? O que podemos esperar dela? Devemos nos apegar a ela a qualquer preço e por isso, procurar tirar tudo dela? A resposta a tais questionamentos é o próprio Jesus quem nos dá. Por meio do seu caminho, ele mostra que a nossa vida atual não é a única vida, o valor último e mais alto, e esta não tem em si mesma o próprio significado e o próprio fim. Jesus sabe que Deus estabeleceu para ele um caminho através da rejeição, do sofrimento e da morte, e ele acolhe este caminho das mãos do Pai. Jesus perderá a sua vida com uma morte cruel e injusta. Na verdade, Jesus nunca disse que a plenitude da vida indicasse uma vida fácil tranqüila, privada de sofrimentos. A sua própria vida não foi assim, nem ele pôde garantir isso a seus discípulos. Por isso, ele ensina aos discípulos o seu próprio caminho: “quem perder a própria vida por causa de mim, vai encontrá-la”. O valor mais alto, ao qual tudo está subordinado, não é a vida terrena, mas a união com Jesus. Esta é preferível a todo o resto. Esta união se manifesta numa ilimitada confiança em Jesus, no esforço de modelar a própria vida segundo o seu exemplo e os seus ensinamentos. Quem na sua vida terrena procurou a união com ele, pertencerá a ele também na sua glória. Tomar a cruz de Jesus é estar unido a ele, e seguindo o seu caminho, provaremos o que significa plenitude de vida.

 

               

 

 

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

XXI DOMINGO COMUM – Mt 16,13-20


Quem é Jesus pra você?
O Evangelho deste domingo começa com a seguinte pergunta feita por Jesus aos seus discípulos: “quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”. A resposta a essa pergunta é muito importante porque é o ponto de chegada de todo o ministério que Jesus veio operando. Num determinado momento da missão, Jesus quer conduzir todos a um claro conhecimento e a uma confissão não equivocada sobre ele, já que todo o êxito de sua obra depende do fato que as pessoas saibam realmente quem ele é.
Só para vermos a atualidade da questão é bom citar como a cada dia saem novas idéias sobre Jesus Cristo em livros, jornais, transmissões televisivas, laboratórios, seitas; e o que está mais em voga é difamar de Jesus para provocar curiosidade e vender milhões de livros, como “O Código da Vinci” de Dan Brown e o “Evangelho segundo Jesus Cristo” de José Saramago.
Mas uma coisa é certa: os homens de todos os tempos e lugares têm um único ponto de referência: Cristo. A história iniciou a contar os seus dias a partir do nascimento de Cristo: daquele fato histórico, não só religioso, o homem deu início a uma nova história, a história antes de Cristo e a história depois de Cristo. Cristo é o ponto fixo de referência para toda a humanidade de todos os tempos. De fato, todo dado histórico se coloca a partir daquela data, antes ou depois. Até países com um calendário milenar como o a china já adotou o calendário gregoriano (a.C. e d.C.).
Mas voltando ao texto, vemos que Jesus vai mais além e faz outra pergunta: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. Jesus não se satisfaz com o que os outros dizem dele; com esta segunda pergunta, ele constringe os apóstolos a dizerem o que realmente pensam dele.
“Você, Pedro, homem impulsivo, quem sou eu para você? E você, Tomé, cético, quem sou eu para você?” Todos se encontravam numa situação muito difícil: a de ter que qualificar a própria relação com Cristo, já que a resposta a uma pergunta como esta não conhece retóricas, convida a uma resposta clara, convida a ler no mais profundo do ser, não há como enrolar na resposta. A resposta envolve todo o nosso ser.
É bom notar que a pergunta parte de Jesus e ele mesmo é o objeto da pergunta: mas ele permanece o sujeito porque é ele o interrogante. A reflexão sobre Cristo, a qualquer nível que se possa colocar, se impõe como uma verdade: o coração da reflexão e da fé cristã não é um objeto, uma doutrina, uma fórmula, mas o Deus vivo, que provoca e inquieta, e, como podemos ver pela seqüência do relato, não dá espaço a uma resposta vaga. Jesus quer uma resposta que empenhe a própria pessoa: não se pode responder por ouvir dizer. Cada um a esta pergunta deve responder com a sua experiência de Cristo.
A fé em Cristo é envolvimento, paixão, mente e coração que vibram fortemente na tentativa de uma resposta autêntica ao interrogativo do Cristo, que empenha toda a vida.
Vittorio Messori, uma vez fez a seguinte pergunta a João Paulo II: “Por que Jesus não poderia ser somente um sábio, como Sócrates? Ou um profeta, como Maomé? Ou um iluminado, como Buda? É realmente possível sustentar ainda a certeza inaudita de que este judeu condenado à morte numa aldeia obscura é o Filho de Deus, da mesma natureza que o Pai? Esta pretensão cristã não tem paralelo com nenhuma outra crença religiosa.”
E o Papa sabiamente respondeu: “Cristo é absolutamente original, único e não repetível! É o único mediador entre Deus e os homens... todo o mundo dos homens, toda a história da humanidade encontra nele a sua expressão perante Deus. E não diante de um Deus longe, inalcançável, mas perante um Deus que está nele, antes, que é ele mesmo. Isto não existe em nenhuma outra religião, e muito menos, em nenhuma outra filosofia. A originalidade de Cristo nos assinalada pelo apóstolo desde que Pedro confessou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Cristo está no centro da fé e da vida dos cristãos, no centro de seu testemunho, que não poucas vezes chegou até a efusão do seu sangue”. (Cruzando o limiar da Esperança). E pra você? Quem é Jesus?

sábado, 16 de agosto de 2008

Assunção de Nossa Senhora - Lc 1,39-56


Na anunciação, o anjo informa a Maria a respeito da gravidez de Isabel, como uma garantia de que nada é impossível para Deus. Declarando-se serva do Senhor, Maria concebe Jesus, e como sinal do seu serviço, se dirige apressada para a casa de Zacarias, para encontrar sua parenta Isabel.
O Evangelho deste domingo (missa do dia) mostra o encontro das duas mães agradecidas pelo dom da fecundidade e da vida. O relato mostra também o encontro entre duas crianças, o precursor e o salvador. Jesus foi concebido por obra do Espírito Santo; João Batista exulta no ventre de Isabel que, cheia do Espírito Santo, proclama Maria bem-aventurada. O relato mostra, sobretudo, que a Santíssima Trindade se revela nos pobres e faz deles a sua morada permanente. O Pai tinha revelado a Maria o dom feito a Isabel, a excluída por causa de sua condição estéril; o Espírito revela a Isabel que Maria, a serva do Pai, tornara-se a “mãe do Senhor”. Assim, a Trindade entra na casa dos pobres humilhados que esperam a libertação.
A nossa oração mariana mais comum, a Ave Maria, na primeira parte é constituída exatamente pelas primeiras palavras do anjo a Maria. “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo”. A estas se seguem as primeiras palavras de Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre”. O anjo chama Maria “cheia de graça”, Isabel a chama “bendita”. Ambas as expressões indicam antes de tudo qual é a relação de Deus com Maria. É desta relação que depende tudo aquilo que podemos afirmar sobre Maria.
As primeiras palavras de Isabel a Maria recordam os elogios feitos às mulheres libertadoras do Antigo Testamento; Jael: “que seja bendita entre as mulheres” (Jz 5,24); e Judite: “Ó filha, seja bendita pelo Deus altíssimo, mais que todas as mulheres da terra” (Jt 13,18). Também a segunda parte do versículo se inspira nas promessas de vida a Israel: “bendito o fruto do teu ventre” (Dt 28,4). João pula no ventre de Isabel e esta proclama Maria “bendita”, isto é, bem-aventurada. As bênçãos do Antigo Testamento são renovadas definitivamente em Maria.
Pedir a bênção é pedir a vida. Só Deus em definitiva pode dar a bênção. E em toda benção humana se pede a bênção de Deus, costume que também nós herdamos dos judeus. Na Bíblia, as pessoas abençoam (dão a benção) quando descobrem a presença de Deus que salva. Maria é motivo de bênção de maneira especial porque se tornou o lugar privilegiado no qual se experimenta Deus. Ela trouxe ao mundo o Senhor da vida por meio do qual foi vencida a morte e chegou até nós à vida eterna. Proclamando-a bendita, Isabel reconhece que Maria é cheia da bênção de Deus. O seu grande grito é um louvor (típico semítico) à ação de Deus, mas também é um grito de alegria por Maria.
Em relação à Maria, Isabel experimenta a sua própria condição indigna: “quem sou eu, para merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?”. Maria concebeu o Filho do Altíssimo, por isso, é a “mãe do Senhor”, a mãe de Deus. Na segunda parte da ave Maria, nós recitamos “Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós, pecadores”. Também nós, como Isabel, reconhecemos ser pecadores e indignos diante da mãe do Salvador. Como ela, reconhecemos a diferença, e temos por Maria o apreço e a veneração que a ela compete.
Enfim, Isabel reconhece a bem-aventurança de Maria por causa de sua atitude: “bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Maria acolheu com fé a Palavra do Senhor. Levou a sério tudo o que Deus lhe anunciou. Assim, a fé se torna a forma fundamental da sua relação com Deus. Isabel é apresentada como aquela que por primeiro venerou Maria. Com as suas palavras, ela nos delineia os traços essenciais da figura de Maria.
Maria, diante de tudo isso, no canto do Magnificat, fala com júbilo de Deus, daquilo que ele operou nela. Maria fica impressionada pela grandiosidade do Senhor e da sua obra poderosa. E ao mesmo tempo reconhece a sua pequenez. Ela sabe que é pequena e insignificante diante dele. Reconhece tudo isso com sinceridade e não se ensoberbece. No cântico, Maria reconhece que todas as gerações a chamarão bem-aventurada. Não por orgulho, mas porque o motivo de sua bem-aventurança é a obra de Deus nela. Assim, não há nenhum motivo pelo qual nós não possamos venerá-la. O todo-poderoso fez grandes coisas nela. E, como Isabel, nos enchemos de alegria. Com Maria, aprendemos a reconhecer que Deus é grande, poderoso e misericordioso, se dirige aos humildes e permanece absolutamente fiel a sua Palavra. Ele abate a soberba do homem.

sábado, 9 de agosto de 2008

XIX DOMINGO COMUM - Mt 14,22-33


CORAGEM, SOU EU!
O Evangelho deste domingo nos mostra como Deus se faz presente na nossa vida também nas horas difíceis, nos momentos nos quais mais nos sentimos sozinhos e abandonados. Também indica como por meio da fé podemos descobrir e recuperar aqueles sentimentos de calma, paz, serenidade e segurança que só Jesus é capaz de nos conceder para superar todas as adversidades.
No domingo passado, vimos que a multiplicação dos pães foi um fato extraordinário na vida dos discípulos e da multidão. Esta empolgada e cansada da corrupção e opressão dos chefes políticos da época, já começa a sonhar com Jesus como um líder político que livraria o povo de tudo isso. Por isso, é que Jesus obriga os discípulos a se afastarem imediatamente. Ele não quer colocar em risco a correta compreensão da sua missão. Ele sabe que os discípulos têm uma facilidade enorme para deixar-se levar pelo entusiasmo do povo. O seu reino não é de cunho político, mas espiritual.
Assim, depois de se despedir da multidão e mandar os discípulos atravessarem o lago, Jesus subiu ao monte para orar a sós e aí ficou até as três horas da manhã. A esta altura, a barca dos discípulos já estava longe e era agitada pelas ondas, por causa do vento que soprava em direção contrária. A barca sem Jesus estava corria grande perigo.
Mesmo não nos encontrando numa barca, nem atravessando um lago, freqüentemente, nos encontramos numa situação semelhante àquela dos discípulos. Também nossa barca é agitada por mil preocupações, angústias, provações, vivemos cercados pelas ondas de instabilidade em todos os campos: econômico, afetivo, político, social, atmosférico; tudo ao nosso redor sopra como um vento contrário. Usamos todas as nossas forças e fatigamos para chegar à terra firme, mas não conseguimos avançar, continuamos parados diante das mesmas dificuldades. É como se estivéssemos completamente sozinhos, sem a ajuda de ninguém.
Sem dúvida, o próprio fato de Jesus ter mandado os discípulos sozinhos na barca mostrava que eles deviam se acostumar ao fato de que ele nem sempre estaria presente de maneira visível; mas, mesmo não estando presente visivelmente, ele estava com eles. Quando sentimos que estamos em perigo, confusos, encurralados... Jesus vem ao nosso encontro, mas de um modo diverso como esperamos, pode até parecer que não seja ele, pode parecer uma ilusão (os discípulos pensavam que fosse um fantasma), existe sempre o medo de ter uma nova desilusão. Mas Jesus vem ao nosso encontro exatamente nesta situação de perigo, de sofrimento, ele caminha conosco sobre as águas agitadas, sobre as nossas contradições, sobre os nossos pecados. Podemos afundar nos nossos pecados, como se afunda nas águas, mas podemos também ir mais adiante, confiar no Senhor que nos estende a mão. É um desafio que Jesus nos lança: superar o recuo que fazemos quando temos medo para nos lançarmos numa experiência que nos supera, que supera o nosso pecado, a nossa fragilidade.
Quem nunca teve a experiência de aprender a nadar? No início, o medo nos leva a afundar, só quando nos abandonamos com confiança, é que começamos a boiar. Eis, pois, o convite de Jesus: “Coragem! Sou eu, não tenhais medo!”. É ele que nos sustenta, nós devemos ter a coragem de confiar nele para a situação na qual estamos vivendo por mais instável que ela seja. De fato, a presença de Jesus afasta todo tipo de medo. O medo se vence com a fé. Os discípulos têm todos os motivos para ter coragem, esperança e confiança. Quando Jesus diz: “sou eu!”, ele assegura que não é um fantasma, mas aquele que eles conhecem e que onde ele está, aí há segurança e vida e não há lugar para medo e perigo.
Pedro está disposto a se arriscar caminhando sobre aquelas ondas agitadas em meio ao vento impetuoso. Ele acredita na Palavra de Jesus que diz: “Vem!”. Mas quando sente o vento, se distrai de Jesus, concentrando-se no vento. Assim, o medo de novo prevalece sobre ele e ele começa a afundar, e, com muito medo, grita: “Senhor, me salve”. Imediatamente, Jesus estende a mão. E diz: “homem de pouca fé, porque duvidaste?” Em Pedro se manifesta aquilo que nos coloca em perigo e aquilo que nos faz superar o perigo. Tudo depende de para onde fixamos a nossa atenção, do que domina nosso coração.
Podemos ter o olhar voltado para Jesus e ter confiança nele e na sua palavra, ou podemos estar dominados pela ameaça e o medo diante do perigo. Quando mais nos deixamos dominar pelo medo, afundamos nele. Quanto mais fixamos o olhar em Jesus, mais cheios de tranqüilidade e confiança seremos. Se nós olharmos somente pra ele e tivermos a coragem de pegar na mão que ele estende, teremos um sustento seguro e venceremos todo e qualquer desafio.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

XVIII DOMINGO COMUM – Mt 14,13-21


Dividir para Multiplicar

A liturgia dominical depois de nos introduzir na compreensão do mistério do reino dos céus, escondido como um tesouro aos sábios deste mundo, mas revelado aos pequeninos através das parábolas narradas por Jesus e apresentadas por Mateus no capítulo 13 do seu escrito, nos conduz hoje a nos sentarmos com Jesus e os seus discípulos à mesa preparada para nós pelo Pai que quer nos alimentar com o pão do seu reino.
Na I leitura (Is 55,1-3), Deus prepara um banquete gratuito e aberto para todos nós. Ele ensina e mostra o segredo do saber viver bem: discernir entre aquilo que dá vida e satisfaz o desejo de vida e aquilo que pelo contrário, sob falsas aparências de vida e felicidade, conduz à morte. Israel sofre no exílio a fadiga de se alimentar do pão do inimigo que não sacia, além de recordar que isso está acontecendo graças à sua desobediência. Pois só o pão da terra da promessa, fruto e sinal de uma vida vivida na relação com Deus, na escuta livre e obediente da sua Palavra, consegue satisfazer a fome de vida de Israel. Quem escuta Deus, acolhe o seu convite e se põe a caminho para voltar à própria terra e ao próprio Deus.
A Palavra de Deus da I leitura mostra uma sabedoria de vida que revela quem tem fome de compreender: “ouvi-me com atenção e alimentai-vos bem, para deleite e revigoramento do vosso corpo”. E ao mesmo tempo provoca em nós uma pergunta: de qual pão nos estamos nutrindo? Será que estamos gastando dinheiro, tempo e energia por um pão que não sacia, esquecendo do pão da Palavra de Deus, que sacia gratuitamente a verdadeira fome que temos nós: fome de conhecer o rosto daquele que nos fala na sua Palavra e sede da sua presença para encontrar plenitude e sentido para a nossa vida.
A resposta ao convite de Deus vem do nosso coração que à luz da Palavra proclamada, descobre estar com sede e com fome de vida. Eis o que diz o salmista a Deus: “abris a vossa mão prodigamente e saciais todo ser vivo com fartura”. A nossa invocação deve ser plena de confiança, certos de ser ouvidos, pois o Senhor é paciente e misericordioso, Pai bom e providente para todos.
Mas é no texto evangélico de hoje que podemos finalmente saborear o pão que Deus nos oferece. O texto nos diz que Jesus apenas soube da morte de seu parente João Batista, se retirou num lugar deserto e afastado. O texto não diz nada sobre o que Jesus foi fazer neste local; talvez refletir sobre alguns fracassos de sua missão, como a rejeição por parte dos conterrâneos, a morte de seu profeta. O que nos impressiona é que diante de tudo isso, vendo as multidões que vinham ao seu encontro, ele não fica na retaguarda, desiludido ou desencorajado, mas responde com uma renovada abertura e atenção misericordiosa aos necessitados: “encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes”.
Muito importante na leitura é o diálogo entre Jesus e os discípulos. Ao entardecer, estes ficam inquietos porque as pessoas já começam a ter fome, e isto pode ser um problema. Então, fazem a seguinte proposta a Jesus: “despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida”. Jesus, porém, rejeita esta proposta lógica, quer revelar algo novo e faz uma contraproposta na qual envolve os discípulos nessa missão: “dai-lhes vós mesmos de comer”. Jesus quer manifestar a eles o seu poder, mas, sobretudo deseja que eles saciando-se do pão do reino, experimentem a sua lógica, que é a da superabundância de Deus. Para isso, Jesus convida os próprios discípulos a dar de comer e a colocar a disposição aquilo que tem. É pouco? É. Mas dividam e verão o milagre da multiplicação.
O sabor do reino é aquele da comunhão, da partilha, do cuidado de uns para com os outros. Jesus pega os pães, abençoa-os e divide-os com todos. E sobram doze cestos cheios. É o milagre que provêm da partilha: a abundância. É a lógica do evangelho. Deus em Jesus partilha a sua vida conosco, para que nós também possamos ser uma comunidade capaz de partilhar a mesma vida que recebemos dele e que ele sabe multiplicar para que todos sejam saciados.
Finalmente, é bom lembrar que estes textos sagrados que nos ensinam tão bem sobre a importância do pão da Palavra, lembram também o pão da Eucaristia. O banquete deve unir-nos a Jesus e a nós mesmos. Por isso, quem comunga o corpo do Senhor está em comunhão com toda a Igreja.