sexta-feira, 25 de julho de 2008

XVII DOMINGO COMUM – Mt 13,44-52


O essencial é invisível aos olhos
Já vimos na parábola do semeador que a boa semente só pode produzir bom fruto se cair em terra boa, ou seja, que a eficácia da mensagem da Palavra de Deus depende fundamentalmente daqueles que a acolhem e a praticam; com a parábola da semente de mostarda e a do fermento vimos que se ao início quando a Palavra é semeada em nós dê pouco fruto, isto não é o caso de desanimarmo-nos, pois sendo ela de Deus depois de todo o processo de desenvolvimento, terá uma grande eficácia; também vimos com a parábola do joio e do trigo, reforçada por uma das parábolas que veremos hoje, a rede de pesca, mostram que a convivência entre bons e maus permanece nesta vida, e principalmente o duelo entre bem e mal que existe dentro de nós permanece, mas não é definitivo e, sobretudo que com a sua paciência, Deus vai tolerando o nosso pecado, sempre dando uma nova chance até compreendermos que ele é a razão última da nossa vida. E o Evangelho deste domingo explica tudo isso quando fala do valor do Reino, da alegria infinita proveniente da descoberta deste valor e do esforço para se abrir e aceitar este reino, o que é ilustrado pelas parábolas do tesouro e da pérola.
Com toda certeza, todos nós de vez em quando passamos pela experiência de terminar o dia com a mente totalmente cansada e o coração angustiado. Passamos o dia correndo de lá pra cá para dar conta de tantas ocupações. Trabalhamos, nos cansamos, ajudamos os outros, fazemos muitas coisas, mas no final de tudo sentimos que nos falta algo, percebemos um vazio, ao qual não sabemos dar um nome. É justamente para essa sensação de vazio, de falta de plenitude, que Jesus nos conta a parábola do tesouro e da pérola. “O reino dos céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo” e “o reino dos céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola”.
Na primeira parábola, que nos soa tão familiar, já que parece que estamos ouvindo mais uma história de botija. Na verdade, no tempo de Jesus e até um tempo atrás, era uma coisa muito comum enterrar jóias e coisas de valor dentro de casa ou no campo por não existirem ainda os bancos e o perigo constante de assaltos em tempo de guerras, ou nosso caso aqui no nordeste, basta lembrar os cangaceiros. Quanto à descoberta da botija, temos que admitir há muita lenda popular.
Enfim, o homem da parábola fica repleto de alegria quando acha o tesouro; diferentemente de nós, normalmente cheios de tantas ocupações e preocupações. Mas não devemos esquecer que aquele homem antes era assim também. Tinha a mente confusa e o coração atormentado, exatamente como pode estar acontecendo conosco hoje. Num belo dia, o homem encontrou o tesouro, e a sua vida mudou completamente. Tinha descoberto algo tão grande e maravilhoso, tão único e essencial, tão significativo pra ele a ponto de sacrificar todos os outros bens e sonhos para comprar aquele campo onde estava o tesouro. Na realidade, a partir daquele momento, todas as outras coisas tinham perdido o seu valor. Com o comprador que encontra uma pérola de grande valor acontece o mesmo.
Não serão as nossas tantas ocupações que nos tornarão felizes; nem o encontro com os outros nos realizará plenamente; como nem mesmo a nossa família corresponderá em tudo as nossas expectativas. Somente se descobrirmos (já que o tesouro está escondido) também algo de grande (Deus), somente então nos será doada a plenitude da alegria. Daí o esforço que temos que fazer para descobri-lo, ele não está à mostra como as outras riquezas, nem é atraente, muitas vezes nós o desconsideramos. Mas não nos devemos enganar, só este tesouro é que dá pleno significado a nossa vida.

No lago da Galiléia, há varias espécies de peixes que nadam sem distinção até serem pescados. Aqui na terra parece que dá no mesmo se nos interessamos por Deus ou não, mas nem sempre será assim. Haverá sim um juízo final. Mas ele tem paciência para esperar nossa conversão. Que tenhamos a mesma disposição do jovem rei Salomão, que não pediu a Deus saúde, nem riqueza nem poder, mas pediu um coração compreensivo (I leitura). Também nós peçamos um coração sábio para que deixemos de nos lamentar por aquilo que nos falta e nos dedicarmos ao que de fato é importante para nossa vida, a comunhão com Deus.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

XVI DOMINGO COMUM – Mt 13,24-43


A paciência e a tolerância de Deus
Há uma inclinação natural no ser humano para: grandeza, força, ostentação, evidência, superioridade; entretanto, virtudes importantes como a paciência, a esperança, a perseverança, estão muito esquecidas. Vivemos num mundo cada vez mais inquieto e confuso, onde tudo é descartável e tudo tem que ser feito às pressas. Pois é, Jesus nunca se apresentou como o máximo de tudo. Pelo contrário, apesar de todo o cansaço e perseverança que teve para evangelizar, acabou rejeitado e condenado à morte de cruz. Isto nos responde porque os discípulos se impacientaram e ficaram desanimados ao ver que o Reino que Jesus acabara de instaurar não tinha conseguido eliminar o mal do mundo.
Podemos desanimar também nós, mas devemos ficar tranqüilos, pois Deus conhece muito bem toda esta situação pela qual o mundo e a Igreja, em particular, está passando. E mesmo assim, ele não faz nada para mudá-la. Pelo contrário, permite tudo isso, pois o modo de se comportar dele é diferente. Aqui na terra as coisas podem mesmo estar confusas: bondade e maldade, gente boa e gente má. Para alguns, isto provoca a pergunta: onde está Deus? Por que ele não interveio no holocausto, por exemplo?
No evangelho de hoje, Jesus afirma que é necessário suportar esta situação aqui na terra. Nem ele pode separar os bons dos maus, deve ter paciência e o mesmo vale para seus discípulos. Joio (erva daninha) e trigo mostram duas realidades muito diferentes e podem até passarem muito tempo juntas, mas serão apartadas.
Entretanto, como já dissemos num comentário anterior, não será Deus a excluir os maus do seu Reino, mas somos nós mesmos que com nossas escolhas, nos excluímos dele. A expressão “fogo, choro e ranger de dentes” nada mais é do que um simbolismo para indicar a dor e a raiva proveniente do remorso por ter se excluído de Deus. Se nessa vida, livremente escolhemos rejeitá-lo, isto significa que não queremos estar em comunhão com ele na outra. E como vimos na parábola do semeador, ele respeita a nossa liberdade.
Na verdade, a presença do joio no campo do trigo, mesmo se os servos mostrem espanto, não é o traço mais inesperado e surpreendente da parábola. Tanto é verdade que aos servos que pedem explicações, o patrão responde simplesmente: “foi algum inimigo que fez isso”. E menos surpresa é a afirmação que ao tempo da colheita trigo e joio serão cuidadosamente separados: o trigo colhido no celeiro e o joio jogado ao fogo.
O ponto enfático da parábola está no fato de que o joio não deve ser arrancado agora, pois caso contrário, há o risco (acrescenta ironicamente o patrão) de que arrancando o joio, se arranque também o trigo. O centro da parábola, pois, é este: a paciência de Deus, a tolerância de Deus. No tempo de Jesus, havia o movimento farisaico, que pretendia ser o povo santo, separado da multidão dos pecadores. Jesus vem e faz o contrário. Não se separa dos pecadores, mas acolhe-os. Não os abandona, mas perdoa-os. Tolera até mesmo no círculo dos doze um traidor, e de qualquer modo, está rodeado de discípulos que estão prontos a negá-lo e abandoná-lo. A esta altura, compreendemos toda a força da parábola. Há um sólido contraste entre o pensamento de Deus (paciente e tolerante) e a intolerante rigidez de muitos servos seus, muitas vezes nós, não somente com o nosso próximo, com a nossa comunidade, mas também conosco, já que até dentro de nós o bem e o mal lutam incessantemente.
Somos convidados à paciência e à tolerância. É verdade! Às vezes, cansamos. Mas lembremo-nos que embora nossos esforços sejam tantos e os resultados tão mínimos, só poderemos ver a grande planta que se tornará a pequeníssima semente de mostarda e o bonito bolo feito com fermento no final de todo processo. E, olhe, que na maioria das vezes, nem veremos todo o resultado, mas só parte dele. Mesmo assim, façamos o que nos pede o Senhor, se a semente e o fermento representam o seu Reino, com toda certeza, atingirá o seu cume.
Assim, sendo nosso coração o terreno onde a semente de Deus é plantada, tenhamos paciência e misericórdia conosco e com o próximo. Tenhamos muito cuidado no modo como tratamos as pessoas, podemos colocar a perder todo um trabalho, na tentativa apressada para eliminar o mal. Temos que esperar o crescimento. Se condenarmos o pecador que há no outro e em mim, há um perigo muito grande de perdermos o que de bom há em nós e que no final é o que transbordará.

sábado, 12 de julho de 2008

XV DOMINGO COMUM - Mt 13,1-23


SEMEADORES SEMEADOS
Por mais que o Evangelho seja anunciado, podemos constatar que muitas pessoas não o acolhem; inclusive, acreditam que a mensagem de Jesus seja algo ultrapassado. Talvez este fato possa até suscitar em alguns cristãos a pergunta: se o Evangelho significa boa notícia e se todo o mundo gosta de uma boa notícia, por que ela não está chegando ao coração das pessoas? Em primeiro lugar, devemos admitir que este problema não é de hoje; já no tempo de Jesus e mesmo bem antes, oito séculos antes, como cita o próprio Jesus o profeta Isaías, já havia essa dureza, esse fechamento para não acolher a Palavra de Deus. No tempo de Jesus, isto tocava mais aos doutores da lei, que o criticavam e o rejeitavam. Mas, enfim, o que pensar de tudo isso, do número de pessoas que não dão crédito algum à Palavra de Jesus e querem fazer pensar que o cristianismo está se acabando?
No evangelho de hoje, com a parábola do semeador que lança sementes nos mais diferentes terrenos, dando frutos de modos diferentes, Jesus quer opor-se a esta opinião e nos mostrar que tal conclusão está errada. Na parábola do semeador, cada um é capaz de entender de imediato que o sucesso ou não do plantio depende de maneira decisiva da qualidade do terreno em que a semente caiu. Quem tem ouvidos, ouça! Jesus convida os seus ouvintes a refletirem que não podem atribuir o sucesso limitado de sua missão a uma insuficiência da sua mensagem (semente), mas devem bater no peito e descobrir que a causa do possível fracasso está na sua carente disposição a acolher a Palavra. A mensagem de Jesus é boa. Quando esta é bem acolhida, muda a vida de quem a ouviu de modo que se percebe a força e a bênção que essa provoca.
Isto se entende melhor ainda quando vemos que o semeador joga as sementes em qualquer lugar, tanto sobre terrenos bons quanto lugares não apropriados para plantar. Ele simplesmente não faz distinção. Talvez com a esperança de que brote algo dali, como às vezes vemos uma bela planta brotar num terreno pedregoso e que persiste ali. Assim, lida do ponto de vista do semeador, a parábola aparece dirigida aos anunciadores do Evangelho. Não temos o direito de escolher onde lançar a semente e onde não. Nós anunciadores da Palavra de Deus, devemos plantar a semente sem distinção de pessoas e esperar pelo tempo de Deus, ninguém pode prever o que acontecerá.
A figura do semeador aparece no início do Evangelho e somente no final: o verdadeiro protagonista da parábola é, na realidade, a semente que aparece do início até o fim. A situação suposta da parábola é aquela na qual pareça (veja a insistência sobre isto) que tudo vai se perder, que o mau êxito da Palavra seja total. Pelo contrário, afirma Jesus com a sua palavra, não é assim. É verdade que há os maus resultados, especialmente devido a não abertura à escuta da Palavra de Deus. Mas é certo também que o êxito existe e de acordo com o acolhimento que damos à Palavra (trinta, sessenta ou cem). Portanto, uma lição de confiança.
Já na explicação dada por Jesus aos discípulos a atenção se concentra não mais sobre a semente, mas sobre os diferentes terrenos. O discurso não parece mais dirigido aos anunciadores do Evangelho, mas aqueles que o escutam e o acolhem. E a explicação se detém não tanto sobre o primeiro ou o quarto tipo de terreno. No primeiro porque a semente desaparece por completo e no outro porque o sucesso é garantido. A ênfase está no segundo e no terceiro tipo de terreno. E o motivo é claro. É exatamente nestes dois terrenos que são evidenciados as razões históricas e concretas pelas quais muitos na comunidade desanimavam diante das exigências da Palavra de Deus. São as mesmas dificuldades de hoje: o medo diante do sofrimento ou da perseguição por causa da Palavra e, sobretudo o fascínio pelas riquezas e as preocupações do mundo.
“A pessoa que tem será dado ainda mais, e terá em abundância; mas a pessoa que não tem será tirado até o pouco que tem”. Este provérbio da vida comercial no qual quem já tem algo merece crédito para receber mais e quem não tem a tendência é falir mostra que os que se abrem ao Reino, produzirão frutos sempre mais e em abundância, já os que se fecham perderão até aquilo que têm.
Mas enfim, como explicar que a Palavra de Deus seja realmente rejeitada por muitos? A resposta é verdadeiramente surpreendente: justamente por ser de Deus, deixa ao homem a liberdade de abrir-se ou de fechar-se. A Palavra de Deus tem uma sua fraqueza, que em realidade é a sua grandeza: o respeito pela liberdade do homem. Abramos o nosso coração à Palavra do Senhor.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

XIV DOMINGO COMUM – Mt 11,25-30


Deus prefere os pequeninos
Como deve ter sido difícil pra Jesus anunciar o seu Reino entre os homens! Pois, tantos foram os que o rejeitaram e tentaram de todos os modos atrapalhar a sua missão. Estamos falando dos muitos fariseus, escribas e doutores da lei, pessoas de maior prestígio na sociedade de então, que bateram de frente com Jesus e sua mensagem.
Mas no Evangelho de hoje, Jesus toma uma posição diante dessa situação com afirmações interessantes e inesperadas. Primeiramente, ele se dirige ao Pai com uma oração de louvor e de alegria, onde aparecem fortemente unidas a sua relação com o Pai e com os pequeninos, convidando estes últimos a acolherem o seu anúncio. Finalmente, ele justifica seu ato cuja autoridade vem desta relação especial com Deus.
Com certeza, nas suas muitas viagens, Jesus se deparou com muitas criancinhas, capazes de escutar as suas palavras melhor do que qualquer adulto, por causa de sua simplicidade; e, capazes de adentrar no mistério do Reino dos Céus pela confiança que depositavam em Jesus sem hesitação. Mas Jesus nestes pequeninos aos quais foi do agrado do Pai revelar todas as coisas reconhece também todos aqueles que são pequenos não tanto pela pouca idade, mas pelas características da criança, principalmente aquela de não ser auto-suficiente e sim, dependente totalmente dos pais. A estes pequeninos, normalmente os descartados da sociedade, os fariseus impunham-lhes aquele legalismo que aumenta enormemente as aplicações práticas da lei mosaica, quase que delas e não de Deus depende a salvação.
Mas Jesus veio trazer naquele tempo como hoje também uma liberdade profunda e interior, de todo legalismo e da submissão temerosa às leis humanas. Os pequenos, mesmo não tendo grandes dotes de inteligência e não possuindo toda a erudição da doutrina que tinham os fariseus, os escribas e os doutores da lei, conseguem mais do que estes a colher a verdade, a reconhecer em Jesus o Filho de Deus, aquele que veio libertar os oprimidos, a dar a liberdade aos escravos, a curar os contritos de coração, a anunciar um reino de paz e de justiça.
Assim, quando Jesus diz que o Pai escondeu estas coisas aos sábios e entendidos, não devemos pensar que a mensagem de Jesus seja acolhida pelas pessoas infantis, imaturas e ignorantes. A questão é que as pessoas que se acham “donas da verdade” e que estão sempre certas, a elas Jesus não pode dizer nada já que elas “não precisam de nada”, são auto-suficientes. Nós podemos e devemos empenhar o máximo possível a nossa inteligência e todas as nossas forças em tudo aquilo que fizermos, mas isso não deve fazer com que nos consideremos os sabichões, pois todos nós temos os nossos limites. Sempre aparecerão perguntas às quais não saberemos responder e situações difíceis que não poderemos resolver.
Os pequeninos são os pobres em espírito, sabem que dependem de Deus, o reconhecem como Senhor e se alegram porque podem confiar no seu amor e na sua guia paterna. A pequenez interior, portanto, que consiste na humildade e na mansidão, é a condição necessária e ideal para saber reconhecer o Senhor como caminho, verdade e vida e segui-lo.
Se formos viver segundo a carne (II leitura), pensando que o cumprimento alienável de regras nos torna santos, estamos enganados. Isto apenas causará muito cansaço e fadiga. O povo vivia cansado e abatido por causa dos fardos pesados impostos pelos fariseus. Eis porque Jesus que tem o coração manso e humilde nos chama, oferecendo restauração e um jugo doce e suave não porque seja menos exigente, mas porque é ele a tornar suave o peso com a sua solidariedade. Ele é o primeiro dos pobres, dos simples, dos pequenos, dos mansos. Ele carregou o peso da cruz e isto é o que torna suportável e leve a cruz de quem o segue.
Ainda existe muita escravidão ao “jugo farisaico” no mundo de hoje, pelo qual ao invés de levar a Deus, fomenta o fascínio pagão do aparecer, do ter, do poder. É uma das escravidões mais profundas e alienadoras que tira a liberdade não só exterior, mas também interior, que é o dom mais precioso dado pelo Pai a nós. É uma lógica que impede às pessoas tornarem-se adultas, maduras, e responsáveis, pessoas que tenham plena dignidade na Igreja e saibam testemunhar no mundo com liberdade e coragem a própria fé. Só no abandono ilimitado a Deus, encontraremos tranqüilidade e liberdade interior.