terça-feira, 24 de junho de 2008

SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO - Mt 16,13-19

A MISSÃO DE QUEM AMA JESUS
Neste domingo, celebramos a solenidade de São Pedro e São Paulo. O que podemos destacar destes dois grandes apóstolos, dos testemunhos de cada um deles? Pedro e Paulo são bastante diferentes quanto à personalidade, mas idênticos no amor a Cristo e à Igreja. Ambos dão a vida por Jesus Cristo até o martírio em Roma. Dois santos, podemos dizer, que nunca estão parados. Homens como nós, com tantas fraquezas, medos, capazes de trair, mas que tiveram plena confiança em Jesus. E Jesus aposta tudo neles. Dá sempre uma nova chance a Pedro, e Paulo não se cansa de repetir que se tornou apóstolo somente pela graça. Falando de Pedro e Paulo, podemos falar da grandeza e santidade que eles representam, mas podemos também falar das suas fraquezas e dos seus pecados, e aí, descobrimos que uma coisa leva à outra, pois é exatamente a bondade e a misericórdia do Senhor que muda o coração deles e os transforma até se tornarem de pecadores a grandes santos e a transformar suas vidas num amor humilde e apaixonado pelo Senhor Jesus. Pedro demonstrou várias vezes o seu caráter, a sua fraqueza, o seu cansaço para entender o coração de Jesus. Lembremo-nos quando Jesus lhe diz: “afasta-te de mim, Satanás!”; ou quando caminhando sobre as águas, duvida e Jesus lhe diz: “homem de pouca fé!” Mas, sobretudo é humano e fraco no momento da paixão de Jesus. Ele que tinha afirmado: “mesmo que todos os outros te abandonem, eu jamais te abandonarei”, o que logo depois cai por terra quando constatamos a sua fraqueza quando nega por três vezes a Jesus, jurando nunca tê-lo visto. Entretanto, é esta pobreza de Pedro que encontra o olhar misericordioso de Jesus e por ele se deixa curar. Depois da ressurreição, às perguntas repetidas de Jesus se o ama, ele responde: “sim, Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo, tu sabes como te amo”. E a sua vida, mesmo em meio às dificuldades e fraquezas, será sempre a demonstração deste amor apaixonado pelo seu Senhor, até a prisão, às viagens, e, finalmente, ao martírio. Também Paulo, fariseu convicto, fanático, perseguidor ferrenho dos cristãos, colaborador do martírio de Estevão, é transformado por Jesus, e, assim, vive o resto de vida numa missão contínua dirigida aos vários povos que ele pôde alcançar. Até o momento no qual pode afirmar: “combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Não me resta outra coisa senão esperar a coroa da justiça que o Senhor, o justo juiz, preparou para mim. O Senhor veio em meu auxílio e me deu forças” (II leitura). Homens frágeis, pecadores, transformados pela misericórdia do Senhor e pela força do seu Espírito. Deram a vida pelo Senhor e estabeleceram as bases da comunidade cristã, a Igreja, destinada a se espalhar por todo o mundo. Aquela de Pedro e de Paulo é a nossa humanidade resgatada; também nós não devemos nunca ficar desencorajados diante das nossas fraquezas, de nossas dúvidas, de nossa falta de fé, mas sempre renovar o nosso amor ao Senhor. Dois apóstolos diferentes, colunas fundamentais da Igreja, garantindo a unidade desta. Pedro recebe o carisma, isto é, o dom e a tarefa, de ser referência para a unidade e a comunhão entre os que acreditam em Cristo, através do serviço à Verdade. Pedro é a pedra sobre a qual Cristo quis edificar a sua Igreja, a sua comunidade e a ele confia as chaves do Reino. Paulo recebeu a tarefa de difundir a palavra de Verdade, o Evangelho, até os confins da terra, pregando e fundando comunidades cristãs. São santos que encontram no Papa o continuador e o testemunho da missão de Cristo que continua em meio a nós. No Papa, encontra-se a autoridade de Pedro, chefe visível da Igreja e centro de unidade, e no Papa, encontramos o ardor missionário de Paulo. A festa de hoje nos ajuda a renovar a nossa fé. A fé cristã católica não é simplesmente uma fé em Deus ou em Cristo, mas é fé na Igreja. Dizemos no Credo: “Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica”. É na Igreja que nós podemos ter uma relação autêntica com Cristo, único salvador e com Deus, o Pai, que Cristo nos revelou. A solenidade deste domingo nos chama a ser presença ativa, assumindo a nossa responsabilidade na Igreja, para que sejamos sempre mais “comunhão” no interior dela e sejamos sempre mais “missão” no mundo de hoje.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

XII DOMINGO COMUM - Mt 10,26-33


O rosto cristão da coragem

A Bíblia está cheia de palavras de confiança. A expressão “não temas”, por exemplo, é encontrada 365 vezes. Destas, encontramos três no Evangelho de hoje, quando Jesus nos convida a não temer. Por outro lado, somente uma vez nos informa do que devemos ter medo: “temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno”. É um convite duplo: ter confiança, não temer, viver na liberdade como os pássaros do céu, e, ao mesmo tempo, nos convida a ser prudentes com relação àquele que tem o poder de destruir o corpo e a alma.
Todo o mundo, mesmo quem diz não ter, tem seus medos: qual a criança que nunca teve medo do escuro? Alguns têm medo de um animal selvagem, outros de um inseto. Medo de altura, medo de fantasmas. Enfim, todos já experimentaram a reação física que o medo provoca. Diante do medo, ficamos paralisados, se ativa uma série de reações no nosso organismo, diante das quais só temos duas escolhas: fugir ou enfrentar.
Mas o que significa o medo? O medo como a dor física tem a função de avisar um estado de emergência, de alarme próprio para a conservação da espécie. Talvez o maior medo seja mesmo o medo da morte. O medo está presente em todas as fases da vida: da criança, do adolescente, do jovem, do adulto e do idoso. Ninguém escapa, até Jesus sentiu medo (episódio do Getsêmani). É como se tudo o que temos e de que gostamos esteja numa constante ameaça.
Medo e desejo estão juntos. Temos o desejo de voar de avião, mas medo de cair; o desejo de esperar, mas o medo de se decepcionar. Às vezes, temos medo de sermos nós mesmos, de sermos únicos e nos escondemos dentro de uma capa (aquela que segue a massa), medo de sermos responsáveis pela nossa vida, de aceitar nossas partes sombrias, às vezes medo de amar, de sermos amados por Deus. Temos medo do sofrimento, de perder o outro, de nos sentirmos inúteis, medo da nossa verdade pessoal, medo de mudar, medo de inovar, medo de perdermos a nossa posição social, medo de perder o bem estar, medo do julgamento alheio. Medo de sentir medo, o que faz com que este cresça sempre mais. Medo do presente, de modo que ou fugimos ao passado, ou nos projetamos no futuro, iludindo-nos completamente.
O que devemos fazer, nós, que temos medo de enfrentar o mundo caótico em que vivemos para anunciar a mensagem do Evangelho? Devemos adiar nossa missão, devemos esperar por tempos mais favoráveis, devemos aceitar as perseguições do mundo atual e nos calar?
“Não há nada de escondido, isto é, de que ter medo, que não deva ser revelado, de secreto que não deva ser manifestado”, é o que diz Jesus no Evangelho deste domingo. O medo se alimenta do escuro, mas basta acender uma luz e o medo vai embora. Por que então ficamos com medo se Jesus é a nossa luz. Dois pardais se compram por muito pouco dinheiro, e mesmo assim, nada acontece a eles sem o consentimento do Pai; imagine a nós que valemos muito mais do que dois pardais. Se formos prestar atenção, vamos perceber o quanto Deus nos ama, pois o preço que ele pagou por nós foi altíssimo, o sangue do seu próprio Filho Jesus. Não devemos nos entregar ao medo, pois o Senhor está do nosso lado. Jesus diz que não devemos ter medo nem da morte para proclamá-lo. Os apóstolos enfrentaram muitas perseguições e muitos foram mortos por causa de sua fidelidade a Jesus, pois entenderam que o nosso valor maior é a comunhão com Deus e com a sua vontade.
Às vezes, podemos até pensar que os desafios e as provações da vida e da nossa vocação são uma mostra de que Deus nos abandonou, mas se pensarmos assim, estamos errados. Ora, até coisas insignificantes como os cabelos da nossa cabeça não passam despercebidos por Deus, imagine nós. Sem o consentimento dele, nada acontece. Jesus não nos diz que não tendo medo, as coisas ruins desaparecerão, mas que o próprio medo deve nos mostrar quem na verdade nos sustenta, Deus.
Enfim, Jesus nos pede o anúncio corajoso da sua mensagem e para que consigamos cumprir isso, exige confiança plena na sua pessoa. Que o zelo pela casa do Senhor nos devore! (Sl 69). Não ter medo não é não sentir medo, mas que mesmo sentindo medo, devemos fazer o que temos de fazer mesmo com medo, pois Deus está conosco. Pois, entregar-se ao medo é ter fé no inimigo.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

XI DOMINGO COMUM - Mt 9,36-10,8


Como ovelhas sem pastor
No Evangelho deste domingo, vemos como Jesus se compadecia pelas pessoas. Mateus quer nos ajudar a colher o profundo do coração misericordioso de Jesus pelas multidões: “vendo as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas como ovelhas que não têm pastor”. Assim, o tema principal do Evangelho de hoje e que move todo o texto restante é este: a grande misericórdia de Jesus pelas pessoas sofridas.
Mateus nos diz que Jesus sentiu compaixão. Para dizer isto em grego, a língua em que foi escrito o evangelho, o autor usa um verbo que traduzindo ao pé da letra, diríamos que Jesus sentiu suas entranhas tremerem. De fato, Jesus nunca passa ao lado da dor humana sem sentir intimamente o seu sofrimento e sem levar-lhes um remédio. As multidões estavam cansadas e enfraquecidas, e a comoção de Jesus quando as viu foi tão grande que sentiu seu interior tremer. É aqui que aparece o rosto materno de Deus. Esta linguagem usada para descrever o sentimento de Jesus é a mesma que caracteriza a comoção total que uma mãe sente no momento do parto.
Mas a que coisa Mateus se refere quando chama as ovelhas de cansadas e abatidas? Como que não têm pastor? Qual era a condição na qual se encontravam aquelas pessoas por quem Jesus teve compaixão? Sabemos por várias passagens que Jesus encontrou durante o seu ministério muitas pessoas que se achavam numa situação de total desprezo, abandono e opressão. Pessoas que caminhavam como um rebanho sem rumo e sem um pastor para cuidar delas e protegê-las. Jesus estava ali diante de pessoas sobrecarregadas de culpa, e sem esperança alguma. Mas por que aquela multidão se encontrava naquela situação? Sabemos que na época de Jesus, havia muitos líderes religiosos que tinham a missão de pastorear as ovelhas de Israel, inclusive as perdidas.
O problema está exatamente aí. Estes que deveriam pastorear suas ovelhas eram os que as excluíam e as deixavam sentindo-se pesadas e abandonadas por Deus quase sempre por causa de sua condição de pecado. Houve muito descaso por parte dos pastores de Israel. Eles não iam atrás das ovelhas perdidas como Jesus ordenara na parábola da ovelha perdida. As ovelhas fracas ficavam cada vez mais fracas pela falta do alimento da Palavra de Deus. E as ignorantes cada vez mais ignorantes. Quando havia pastoreio, era com muito rigor e dureza, por isso, Jesus repreende tanto aqueles sacerdotes judaicos.
Pois é, a condição da multidão comoveu profundamente Jesus. E dessa compaixão, Jesus sempre agia em favor do seu povo. Ser misericordioso é sentir compaixão por alguém e fazer algo por ele. Jesus curava os doentes, ressuscitava os mortos, purificava os leprosos e expulsava os demônios. Ele também pede que seus operários façam o mesmo.
A misericórdia de Jesus estava presente na sua pregação, chamando os pecadores à fé e ao arrependimento. Mais, o seu ensino não era frio, nem acusava ninguém como faziam os líderes religiosos da época. Ele buscava tocar o coração do povo. Enquanto os sacerdotes judaicos sobrecarregavam o povo com seus ensinos cheios de regras, Jesus oferecia alívio e descanso aos pecadores (Mt 11,28-30).
Num primeiro momento, Jesus envia os doze apóstolos às ovelhas perdidas da casa de Israel. Mas ele sabendo que a messe é grande, incluindo o trabalho que tem de ser feito no mundo inteiro, ele constata que os operários são poucos e por isso, ordena que como Igreja, devemos pedir ao Senhor da messe que chame mais operários para a sua messe. Devemos rezar também pelos trabalhadores já em atividade para que sigam o exemplo de coração misericórdia dado por Jesus Cristo.
Hoje, segundo estimativas, 80% da humanidade ainda não ouviu falar do Evangelho. Por isso, é tão urgente reacender a consciência missionária. Que o amor misericordioso de Jesus chegue a cada um de nós e nos motive a ser também misericordiosos para com os fracos na fé e desanimados que estão ao nosso redor.

sábado, 7 de junho de 2008

X DOMINGO COMUM – Mt 9,9-13


Quero misericórdia!
A liturgia deste domingo começa com o profeta Oséias dizendo que é preciso apressar-se no conhecimento do Senhor (I leitura), e que não basta qualquer tipo de conhecimento ritual ou cultual a Deus; pelo contrário, trata-se de descobrir que para Ele o amor e a misericórdia valem mais do que os ritos e holocaustos. No Evangelho, Jesus nos reenvia a Oséias: “Aprendei, pois, o que significa: eu quero misericórdia e não sacrifício”.
Freqüentemente, não sabemos o que significa misericórdia porque nãos somos pessoas misericordiosas conosco nem com as outras pessoas. Vamos crescendo num ambiente no qual não temos muita experiência de misericórdia, o que faz com que, com o passar dos anos, nos tornemos pessoas extremamente legalistas e rígidas. Para que as pessoas nos vejam com bons olhos e Deus nos aceite, aplicamos uma camada de maquiagem espiritual, isto é, o auto-engano. Isso nos impede de praticar a misericórdia, já que para sermos pessoas misericordiosas com o outro, precisamos antes de tudo, receber a misericórdia de Deus.
Assim, quando somos muito rígidos conosco mesmos, não conseguimos nos perdoar, e, conseqüentemente, não conseguimos nos amar, condição fundamental para poder amar o próximo. Sem dúvida, perdoar a si mesmo é difícil e desgastante para algumas pessoas. Mas, se não levarmos Deus a sério e não nos perdoarmos, jamais experimentaremos verdadeiramente o perdão de Deus. Isso acontece quando erroneamente pensamos que perdoar a nós mesmos significa justificar o que fizemos; então, nos condenamos irracionalmente. Em vez de nos aceitarmos exatamente como somos, com todas as nossas limitações e fraquezas, como Deus faz sempre conosco, nosso orgulho nos leva a nos julgarmos do modo como éramos ou deveríamos ser.
Claro! Não estamos apoiando a prática do pecado, mas também não podemos condenar a nós mesmos nem muito menos o próximo porque ele cometeu este ou aquele pecado. É muito triste quando nos damos conta que através da nossa falta de misericórdia fazemos com que as pessoas se sintam abandonadas e condenadas por Deus.
Tenha certeza de uma coisa: se você não consegue aceitar que as pessoas podem cometer erros e terem continuamente uma nova chance, isto é sinal de que você não experimenta a misericórdia de Deus quando você comete erros. E somente recebemos essa misericórdia quando admitimos nossos pecados, e aceitamos o perdão de Deus.
No Evangelho de hoje, Jesus chama um cobrador de impostos, que normalmente era uma pessoa muito desonesta. Mas este experimenta o amor de Jesus e se torna um apóstolo. Imediatamente, prepara uma festa e chama muitos dos seus colegas publicanos ladrões e pessoas de má fama, com os quais Jesus se sente muito à vontade; antes, não somente conversa com essa gente, mas janta com eles, plenamente consciente de que sua comunhão com os estes pecadores iria incomodar os fariseus que rejeitam o evangelho da graça. Mais, Jesus justifica seu ato com três explicações: com um ditado popular, “aqueles que tem saúde não precisam de médicos, mas, sim, os doentes”; citando Oséias no qual Deus proclama de preferir a misericórdia às práticas rituais; e, enfim, manifestando a consciência que tem da sua missão: veio exatamente para chamar os pecadores, para salvar-lhes.
É muito desencorajador quando vemos que tantas vezes ouvimos esse evangelho, e, quando chega a primeira ocasião para praticá-lo, fazemos exatamente o contrário; pior, ficamos felizes como os fariseus como se estivéssemos seguindo a Deus e agindo em nome dele, dando o ultimato da condenação. Pois é, Deus não condena. Mesmo que nós sejamos infiéis, Ele continua fiel.
Não importa se algumas pessoas condenem e espalhem que você não presta. Saiba que você tem um lugar muito importante no Coração de Jesus. Apesar de seus pecados, Deus o ama imensamente. E só o perdão que Ele dá é que pode transformá-lo. Veja o antes e o depois na vida de Mateus. Ou na de outros como Pedro que depois de jurar o amor a Jesus por três vezes e receber a plenitude do Espírito Santo em Pentecostes, ainda tinha inveja do sucesso missionário de Paulo. Deus não dá uma única chance, ele dá quantas chances forem necessárias.
Esse evangelho deveria ser lido, relido, memorizado e vivido. O culto ao Sagrado Coração de Jesus que se celebra de modo especial neste mês de junho quer nos mostrar isso: para Deus, não existem pessoas irrecuperáveis, nem situações perdidas; para a salvação de Deus não existem barreiras e os nossos ritos só terão sentido se forem repletos de misericórdia.