sexta-feira, 30 de maio de 2008

IX DOMINGO COMUM – Mt 7,21-27


Não basta dizer, tem que fazer

“Nem todo aquele que diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no reino dos céus, mas o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus”. Segundo o Evangelho deste domingo, portanto, não basta alguém dizer que tem fé; é necessário vivê-la, cumprindo a vontade de Deus que Jesus veio manifestar. E hoje em dia, quando ficamos cada vez mais acomodados quando o assunto é fé, a moda é querer viver uma relação com Deus sem a mediação de uma instituição religiosa. E o critério é este: cada um pega da fé somente aquilo que lhe convém ou aquilo que lhe agrada. Faz-se uma promessa e acende-se uma vela pra um santo católico, assiste-se a um culto pela televisão, consulta-se cartas e outras tantas simpatias. Ou seja, aquela busca do Reino de Deus que falamos no domingo passado anda bastante esquecida. Hoje a busca é mais centrada não em conhecer a Deus, mas somente em sentir-se amado por Deus, ou seja, sentir-se bem. O pior é que quem faz tal experiência acaba por perceber que sua vivência religiosa é limitada, já que é na vivência em comunidade que experimentamos o amor de Deus.
E frente a este perigo, Jesus no final do sermão da montanha diz: “quem ouve estas minhas palavras e as põe em pratica, é como um homem prudente que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não caiu, porque estava construída sobre a rocha...” O contrário vemos para quem construiu sua casa sobre a areia. Ora, para nós, que vivemos num país onde existe muita miséria, é fácil entender a parábola de Jesus se prestarmos atenção ao número sem fim de barracos das grandes cidades que desabam completamente pelas enchentes, justo porque foram construídas sobre a areia. E aí, são novamente construídas do mesmo modo, a espera de um novo desmoronamento. Talvez estas pessoas, por sua indigência, não saibam ou principalmente não possam fazer diferente. Mas, nós, uma vez tendo entendido o Evangelho, podemos construir uma casa interior forte construída sobre a rocha. Claro que Deus, na sua misericórdia, concede a todos, sempre a possibilidade de reconstruir; mas creio que seja bem melhor evitar esta fadiga construindo de imediato sobre um terreno seguro.
Se formos analisar bem, percebemos que não há diferenças substanciais entre as duas casas de que fala Jesus com referência aos agentes externos: ou seja, em ambas as situações, chuvas, enchentes, ventos, não poupam as construções. Jesus quer dizer que todos teremos dificuldades em nossa vida; mesmo que alguém tenha uma vida confortável, com recursos, mais cedo ou mais tarde chega a chuva da enfermidade, o desmoronamento de projetos que alguém tinha planejado, realmente o imprevisto existe. Isso fora os ventos contrários da desconfiança, da inveja, da traição, etc. Mas Jesus fala de uma casa com um fundamento sobre a qual pode chover bastante e ela não cairá.
Ou qual parte você acha que é a mais importante de uma casa senão o alicerce? Sem um firme alicerce, uma casa está constante perigo de cair. E o mesmo vale para nossa vida interior. Conhecer a palavra de Deus e obedecer a ela é o fundamento da vida do cristão. Especificamente, essa rocha sobre a qual edificamos uma casa destinada a durar para sempre, é Cristo através da sua Palavra, do seu imenso amor. Mas Jesus Cristo deixou um sinal visível de si como rocha, pedra: “Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja e as portas do inferno (os ventos contrários) não prevalecerão contra ela”. A Igreja, portanto, é a casa sobre a rocha, a casa comum na qual encontramos reparo seguro. Rezemos então a fim de que cada um de nós escute e ponha em prática a Palavra do Senhor e assim construa sobre a rocha que nos fará resistir às inevitáveis provas e fadigas da vida.
Peça a Deus para ensinar a você sua Palavra e ajudá-lo a obedecer a ele em todas as áreas de sua vida, então você poderá ficar firme em todas as circunstâncias.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

VIII DOMINGO COMUM – Mt 6,24-34


Busque a Deus acima de tudo: ele providenciará o resto

Na I leitura deste domingo, encontramos uma situação que freqüentemente podemos ter vivido; ou seja, quando estamos passando por alguma provação ou dificuldade, e, costumamos reclamar como o povo de Israel: “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim!”
Ora, é um verdadeiro absurdo da nossa parte pensar que Deus nos abandona, justo ele que nos criou para nos amar; tanto que ele nos responde: “pode por acaso a mulher esquecer-se do seu filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela esquecer (nós sabemos que há casos assim), eu, porém, não me esquecerei de ti”.
Mesmo com palavras tão encorajadoras, nós continuamos a nos preocupar, e, às vezes até a duvidar de que Deus nos ame realmente. Jesus sabia como a preocupação em nossas vidas pode oprimir, incomodar, sobrecarregar e até nos adoecer. Por isso, como bom Mestre, ele nos ordena: “não vos preocupeis com a vossa vida, com o que havereis de comer ou beber, nem com o que havereis de vestir”. Em vez disso, ele nos convida a ter fé na Providência divina como o verdadeiro antídoto para a nossa preocupação: “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo”. Meu irmão, minha irmã, encoraje você mesmo, lembrando das tantas situações difíceis que Deus livrou você com a Sua Providência e aprenda a confiar nele para tudo que você precisar em vez de ficar se preocupando.
Deus nos dá uma graça suficiente para cada momento da nossa vida. Assim, para evitarmos o cansaço e o esgotamento em nossas mentes, devemos aprender a viver o momento presente. É o que Jesus nos ensina em Mt 6,34: “para cada dia bastam seus próprios problemas”. Veja! Jesus não está dizendo que não teremos mais problemas, mas que ele está do nosso lado se vivermos o presente e deixarmos os problemas de amanhã para amanhã. Até porque no amanhã, a graça de Deus nos capacitará suficientemente para lidar com tudo o que possa ocorrer nas nossas vidas.
Aos discípulos preocupados como iam se alimentar e se vestir, Jesus lhes diz: a subsistência dos pássaros do céu que não trabalham e o vestuário dos lírios do campo que não tecem depende unicamente do Pai. Claro que Jesus não está nos ordenando para ficar acomodados. O que ele está nos pedindo é simplesmente que devemos buscar aquele que é o centro na nossa vida: Deus.
Em nossa sociedade atual, vemos uma enorme ênfase no consumismo, nas coisas materiais, mas nós devemos lembrar que tais coisas não são mais importantes que Deus. Ele quer que tenhamos e desfrutemos de coisas boas, mas ele exige estar em primeiro lugar na nossa vida. Temos de aprender a buscar o Reino de Deus e sua justiça antes de qualquer coisa.
O vocábulo “buscar” significa “perseguir”. Quando nós buscamos algo, pensamos nisto constantemente, falando incansavelmente sobre o assunto, e dispostos a pagar um preço para termos aquilo. Algumas pessoas até caem numa armadilha de buscar a Deus só para que ele dê a elas o que elas querem. Isto está errado, pois devemos ter o hábito de buscar a face de Deus e não a sua mão. Em outras palavras, devemos buscar sua presença, não seus presentes. É urgente que comecemos a buscar a Deus pelo que ele é e não pelo que ele pode fazer por nós. Mas não se preocupe, “vosso Pai, que está nos céus, sabe que precisais de tudo isso”.
Deus fica imensamente feliz quando nós queremos gastar tempo com ele só porque nós o amamos. Ele é também grato quando nós o louvamos e o adoramos somente pelo que ele é. Deixe Deus ser o Senhor da sua vida. Busque-o acima de tudo. Ele nunca te deixará na mão. “Ninguém pode servir a dois senhores... não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. E não existe pior senhor que o dinheiro. Ele te escraviza a ponto de tirar-te a liberdade de amar a Deus e ao teu próximo. O dinheiro é necessário na nossa vida como servo, não como senhor. Não se iluda a ponto de pensar que o dinheiro traz segurança. Se trouxer, pode acabar a qualquer momento por inúmeras razões. Só em Deus encontramos repouso, salvação, rochedo, fortaleza e segurança total (Sl 61).

sábado, 17 de maio de 2008

DOMINGO DA SANTÍSSIMA TRINDADE - Jo 3,16-18


DEUS AMOU TANTO O MUNDO...

O evangelho deste domingo começa com uma confidência de Jesus a um homem chamado Nicodemos: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna”.
Mas quem é Nicodemos? É um mestre da Lei, um profundo conhecedor das Escrituras, que quer conhecer melhor Jesus e o que ele ensina. Ele vai encontrar Jesus à noite para que nenhum dos escribas ou fariseus o descubram, já que ele não quer que ninguém saiba, mas também não quer perder a ocasião de falar com Jesus.
Jesus explica-lhe algo muito importante, ele diz por que veio ao mundo. Isto talvez fosse a coisa mais difícil pra Nicodemos entender e ainda hoje quantos não entendem isso?
De fato, visto que Jesus é Deus, amado pelo Pai com a força do amor infinito do Espírito Santo, que necessidade tinha de vir ao mundo e fazer-se um como nós? Por que Jesus quis estar entre nós?
É uma pergunta difícil e também Nicodemos, que é ancião e sábio, se encontra confuso diante de tudo isso. A ele, como a nós, Jesus explica o único motivo que o levou a fazer-se homem: “Deus amou tanto o mundo...”
São palavras tão simples de entender, e são elas que respondem a questão acima levantada, pois foi deste amor de Deus tão grande, tão imenso, que ele criou o mundo.
Deus nos criou para que participemos da alegria do seu amor: de fato, ninguém pode amar se estiver sozinho, temos necessidade de ter ao nosso redor outras pessoas, porque o amor só existe estando junto. Mas infelizmente muitos não compreenderam o desejo de amor que Deus teve desde a criação, e se foram cada um por conta própria, vivendo como se Deus não existisse (idéia muito difundida hoje em dia).
Então, o Pai decidiu mandar sinais, mandou profetas a fim de chegar ao coração das pessoas que estavam se afastando dele. E visto que muitos não se davam conta de todo este amor oferecido, o Pai, o Filho, e o Espírito Santo decidiram que tinham que nos visitar pessoalmente: para que nós experimentássemos todo o amor que Deus tem a nos doar, o Pai decidiu mandar o Filho como sinal de salvação.
Quando amamos, quando queremos bem verdadeiramente a alguém, do profundo do nosso coração, parece que nunca fazemos o bastante por essa pessoa: são presentes, bilhetes, telefonemas, surpresas, palavras... muitas maneiras que o coração encontra para transmitir o amor.
Também Deus nunca se cansa de encontrar modos para fazer-nos sentir quanto é grande o seu amor por nós. Mas de todas as idéias que o Pai teve, a mais bela foi certamente aquela de fazer com que Jesus, seu Filho, viesse sobre a terra, como um homem entre os homens. Não somente o Senhor Deus quis estar em meio aos homens, mas com a sua morte e a sua Ressurreição escancarou as portas de um outro dom inacreditável e maravilhoso: a vida eterna.
E o que quer dizer a vida eterna? É uma vida que dura para sempre. Deus sempre soube que o maior medo das pessoas é o da morte. Pois bem, não existe outra saída para a morte senão Cristo, ele é a única possibilidade de nos livrarmos da morte eterna, porque estar unido a ele significa vida: “para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna”.
Quem confia neste amor sem medidas que Deus nos oferece, não deve temer a morte, porque sabe que o que o espera é uma vida sem fim. Deus nos ama muito. Não poupa seu filho, mas consente que sofra para nos salvar. Mas também vale lembrar: Deus não quer nos salvar à força, sem o nosso consentimento. Somente se acreditarmos que Cristo é o único Senhor da nossa vida, o poder deste amor pode nos alcançar eficazmente.
O cristão que vive o amor e a comunhão com o próximo, participa da vida trinitária e é reflexo dela na vida cotidiana. A comunidade cristã capaz de acolher, de amar reciprocamente, de partilhar, é um sinal no mundo da mesma comunhão intra-trinitária entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Como diz Santo Agostinho: “quem vê a caridade, vê a Trindade”. A trindade se torna, portanto, um fato concreto quando se vive a concórdia, a paz, o amor e a aceitação recíproca na nossa família, como também na nossa comunidade.


Nota: quanto à pergunta feita acerca do perdão pelo comentário da semana passada, primeiramente, convido o leitor a ver o seguinte comentário que escrevi o ano passado: http://pecarlos.blogspot.com/2007/02/desarme-o-inimigo.html

Enfim, Jesus veio ao mundo justamente pra dizer que apesar de difícil, perdoar é possível. O Evangelho de hoje nos diz de onde sai a razão desse perdão: amor. Deus nos ama tanto, que apesar de nossos pecados, ele nos perdoa sempre. Aceitar o perdão de Deus nos torna capazes de perdoar o próximo, de deixar pra lá o que ele nos tem feito, dar uma nova chance, tratá-lo com amor.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

DOMINGO DE PENTECOSTES - Jo 20,19-23


Fechados ou abertos?

Irmãos e irmãs! Cinqüenta dias após a Páscoa, celebramos a festa de Pentecostes. Nela, lembramos a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos e Maria, no cenáculo (I leitura). A cada um de nós também é dada a manifestação do Espírito em vista do bem comum (II leitura).
No Evangelho, João lembra que “ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana”, Jesus entra no lugar onde se encontravam os discípulos para lhes conceder a paz, o perdão e soprar sobre eles o Espírito Santo.
Mas por que os discípulos estavam naquele lugar com as portas fechadas, se as mulheres já tinham difundido a notícia da ressurreição de Jesus e se Pedro e João já tinham constatado a verdade do relato das mulheres e visitado o sepulcro?
Por que as portas estavam fechadas? Por medo? De que? Dos judeus? De sofrer para anunciar o Evangelho e com ele a boa notícia que Jesus tinha ressuscitado dos mortos?
Talvez mesmo acreditando, não tivessem a coragem de dar um testemunho verdadeiro: morrer para si mesmo, renunciar a própria vida para anunciar Jesus. Talvez fosse o medo devido ao fato de se sentirem pequenos, fracos, por terem fugido desde o momento da prisão do Mestre até a sua morte.
Quem sabe o que pensavam? Onde encontrariam força e coragem para ir ao encontro de Jesus para pedir-lhe perdão por terem abandonado no momento mais trágico e dramático da sua vida.
O grande problema é o de sempre: coração fechado, coração individualista. Os apóstolos estavam fechados não só no cenáculo, mas em si mesmos, nos seus pecados. Havia uma necessidade de uma reviravolta, de uma tomada de decisão.
Não obstante os pecados dos discípulos, Jesus entra no cenáculo e escancara as portas fechadas dos seus corações. Mostra a verdade do seu amor. Suas chagas são ao mesmo tempo sinal concreto e visível do amor até o fim, quando ele deu a vida por nós e também o sinal dos nossos pecados que ele carregou sobre si para nos doar o perdão.
Apresentando-se desta forma, Jesus não expressa juízos de condenação, mas de salvação. “A paz esteja convosco”. Jesus reconcilia os apóstolos. Aí, eles não só compreendem que Jesus nunca rompeu a amizade com eles, mas que é pela fidelidade a tal amizade que doou a sua vida, e assim são reconciliados por ele, com ele, consigo mesmos e entre eles.
Jesus soprou sobre eles o Espírito Santo. É a recriação. Como Adão se tornou ser vivente depois do sopro de Deus, assim também nós nos tornamos criaturas novas em Cristo. Antes fracos, agora fortes; antes fechados, agora abertos à missão; antes temerosos de perder a vida, agora decididos a doá-la para Cristo e para o Evangelho; antes temerosos de não sermos perdoados, agora ricos de perdão, somos capazes de nos perdoarmos e de perdoar o próximo. Tudo graças ao dom do Espírito Santo.
Para sermos cristãos, é preciso coragem. Será que estamos dispostos a levar como Cristo as feridas causadas pelos nossos e pelos pecados do próximo a fim de transformá-las em amor, capaz de regenerar a verdadeira vida, ou preferimos não correr riscos e ficarmos fechados nas nossas incompreensões ou na nossa sede de vingança?
Irmãos queridos, “recebei o Espírito Santo”. Eu acredito que a primeira coisa que nós temos que fazer para perdoar os pecados é fazer como Jesus fez. Receber o Espírito Santo que providencia a força e a capacidade de esquecer. Não podemos perdoar só com nossas forças. Segundo o Evangelho, o perdão dos pecados parece ser o primeiro poder conferido a pessoa quando ela é renascida no Espírito. Se é assim, então o perdão dos pecados é nossa primeiro dever como cristãos. Recebemos o perdão de nossos pecados mais graves através do sacramento da reconciliação ministrado pelo padre, mas você também tem o poder para perdoar a ferida que o teu próximo te causou e como isso é necessário. Entretanto, mesmo conscientes do poder de perdoar os pecados, nem sempre é fácil perdoá-los. Quando alguém nos magoa, temos que pedir a força para perdoar aquela pessoa. A grande dificuldade é porque queremos perdoar, mas nossas emoções ficam o tempo todo nos atrapalhando: “você me feriu, não é justo que eu te perdoe”. E quando a mesma pessoa nos ofende diariamente, é mais difícil ainda. É neste momento que temos que nos lembrarmos de seguir o Deus de justiça. Quando alguém te ferir, implore ao Espírito Santo a força para amolecer o seu coração e diga: “Senhor, eu perdôo esta pessoa”. E pare de ficar pensando e falando sobre isso.