terça-feira, 18 de março de 2008

VIGÍLIA PASCAL


A travessia da morte para a vida
Este ano, proponho novamente e brevemente um comentário acerca da leitura de Ex 14, devido a sua grande importância no desenvolvimento e na compreensão da liturgia da vigília pascal.
Antes de tudo, devemos notar que no Evangelho da vigília, Mateus nos dá a informação de que “ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro”. Portanto, a ressurreição foi constatada na manhã do primeiro dia da semana e por isso, está para sempre ligada a este momento.
Em Gn 1, Deus criou a luz no primeiro dia da primeira semana do universo. No primeiro dia da primeira semana da nova criação, Jesus Cristo, a luz do mundo, venceu a morte. Deste modo, o Evangelho religa a ressurreição de Jesus Cristo à criação do mundo.
Depois, em Gn 1, no princípio, havia só trevas. Deus cria a luz e a partir daí, há uma alternância entre luz e trevas, entre dia e noite. No Apocalipse, no final das Escrituras, já não há trevas, mas um dia sem ocaso, a noite não existe mais na Nova Jerusalém (Ap 21). Assim, das trevas fixas de Gn 1 à luz total do Apocalipse, o dia da ressurreição marca a vitória definitiva da luz sobre as trevas e antecipa o dia sem ocaso da Jerusalém celeste.
Outra particularidade desta liturgia é o valor simbólico do sol e da sua revolução cotidiana. Este simbolismo tem duas caras: o percurso diurno do sol, no qual nasce a cada manhã a leste e se põe a oeste, tornando-se espontaneamente em muitas religiões símbolo da vida humana e o percurso noturno onde todas as tardes, o sol desaparece a oeste e a cada manhã reaparece a leste, isto é, vai da morte ao nascimento; portanto, símbolo de ressurreição. Neste itinerário misterioso e invisível, inacessível e escondido se cumpre o mistério de regeneração do sol. Trata-se, certo, de uma ressurreição cíclica. A ressurreição de Jesus, porém, é única e não se repete.
O simbolismo solar presente em Ex 14 é aquele do percurso noturno do sol, porque Israel atravessa o mar durante a noite, transformando-se num caminho de ressurreição. Começa à tardinha e acaba “ao romper da manhã”. À aurora, Israel pode contemplar a derrota dos seus inimigos e celebrar a sua salvação.
Para ir do Egito em direção ao deserto do Sinai, é necessário caminhar do oeste para o leste. Duas vezes, o texto de Ex 14 afirma que os israelitas atravessaram o mar que formava duas muralhas, uma à direita e a outra à esquerda. Ora, na Bíblia, a direita corresponde ao sul e a esquerda ao norte. De fato, para se orientar, como diz a palavra mesma (orient-ar), os antigos olhavam para o leste o oriente, que era o ponto de referência. Quando se olha para o oriente, o sul esta à direita e o norte à esquerda. Assim, Israel foi do Egito para o deserto, do oeste para o leste, da escravidão para a liberdade, das trevas para a aurora da salvação.
Outro simbolismo é o da passagem do mar. Para os israelitas, a marcha através do mar, torna-se uma experiência de transformação, isto é, de morte e de ressurreição, no sentido amplo da palavra. Entraram no mar, escravos e temerosos (Ex 14,10b-12), saíram livres e acreditando em Javé (14,31). O mundo do mar é o mundo da morte. Israel atravessa o mar durante a noite, ou seja, atravessa o mundo da morte e “morre”. Porém, aquilo que morre é o Israel escravo, assustado pelo exército egípcio e que quer retornar ao Egito (v.10b-12). O Israel que sai do mar já não teme o faraó, mas o Senhor. O Israel que contempla a aurora, sobre a outra orla do mar não é mais o mesmo. É um Israel transformado, transfigurado, regenerado pela sua experiência, como o sol se regenera a cada noite. O mesmo simbolismo é expresso pelo batismo: quem entra nas águas batismais é prisioneiro das forças do pecado, morre e é sepultado com Cristo, depois, sai das águas, redimido e renovado, ressuscita com Cristo para entrar na vida nova do Cristo ressuscitado.
Enfim, a liturgia da vigília pascal retomou no seu desenvolvimento todo o simbolismo inerente à passagem do mar que é descrito em Ex 14. A liturgia começa fora da igreja, no escuro. Se as igrejas são “orientadas”, a entrada da igreja se coloca a oeste. Entrar numa igreja significa, portanto, ir do ocidente ao oriente e fazer um percurso de ressurreição. Ali, a oeste, acende-se o fogo, símbolo da ressurreição de Cristo. Este fogo guia os fiéis para a igreja e finalmente o círio pascal é celebrado (“Exultet”). A procissão do círio pascal vai do oeste ao leste, como o sol durante a noite e como os israelitas que atravessavam o mar, para aclamar enfim, Cristo, morto e ressuscitado, vitorioso da morte.
Além do simbolismo da marcha do ocidente ao oriente, a vigília pascal retoma o simbolismo das águas. O momento mais claro a propósito é a bênção da água. E há um gesto muito significativo: a imersão do círio pascal na água. Ora, esse gesto queria simbolizar a entrada de Jesus Cristo nas águas da morte e a sua ressurreição. Além disso, como Jesus Cristo saiu vitorioso da morte, fez da morte não o fim da vida, mas a passagem para a vida. O círio pascal, imerso nas águas, transforma as águas mortíferas em águas regeneradoras.Nesta noite, no mar, Israel passa da escravidão à liberdade, do medo diante do exército do faraó ao temor do Senhor, da servidão no Egito ao serviço do Senhor, da covardia à fé.Peçamos ao Senhor para nós e para toda a Igreja que o caminho de Páscoa seja uma experiência semelhante, isto é, uma passagem das trevas à luz e que Deus possa transformar qualquer morte numa via para a ressurreição. Feliz Páscoa!

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