quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

4º DOMINGO DA QUARESMA - Jo 9,1-41


O PIOR CEGO É AQUELE QUE NÃO QUER VER
No Evangelho deste domingo, Jesus se apresenta como a luz do mundo. Entretanto, percebemos que não é uma luz que impõe ser vista indiferentemente por todos, mas aquilo que se constata através de sua ação na cura de um cego, é que algumas pessoas começam a ver e outras permanecem cegas, tudo depende da atitude de cada um de nós.
No início do relato, Jesus vê um cego de nascença e decide curá-lo por iniciativa própria, ninguém lhe pede para fazê-lo. Mas os discípulos ficam refletindo uma idéia muito difundida (não só no mundo de então, mas forte ainda hoje) segundo a qual toda doença é castigo de Deus pelo pecado. Assim, eles perguntam a Jesus se a causa da cegueira do mendigo foram os pecados dele ou dos seus pais.
Isto não é completamente ilógico, já que freqüentemente muitos de nós somos tentados a pensar que os males físicos e psíquicos de uma determinada pessoa seja culpa dos pais; por exemplo, se uma criança nasce com AIDS não é culpa sua obviamente, e talvez nem mesmo de sua mãe; pais briguentos podem provocar nos filhos traumas psicológicos, tornando-os doentes.
Mas no caso do cego em questão, Jesus desmente categoricamente aquela convicção: “Nem ele nem os seus pais pecaram”; a cegueira do mendigo, como qualquer outra enfermidade, não depende sempre de específicas culpas de alguém nem de Deus, que não é vingativo, mas aquele homem assim nasceu para que as obras de Deus se manifestem nele.
Jesus cura o cego. E os olhos que ele curou para ver o sol, abrem-se gradativamente para ver aquele que lhe curou. O milagre suscita uma discussão entre os presentes e conhecidos. Há uma tentativa de afastar a verdade. Duvidam da identidade do homem curado “não é ele, mas alguém parecido com ele”. Porém, o ex-cego afirma sua identidade “sou eu mesmo!”, ainda que não saiba dizer nada sobre Jesus nem sobre onde eles possam encontrá-lo.
Em seguida, ao encontrar os fariseus, estes se escandalizam e sustentam que, tendo feito Jesus o milagre em dia de sábado quando é proibido qualquer trabalho, era um pecador: portanto, devia ser evitado; mas à inconfundível consideração do curado, surge uma divergência entre eles, pois ficam se perguntando como é possível um pecador fazer tal sinal?
Os fariseus se interessam normalmente só com o “como” Jesus fez isso (dia de sábado), de onde concluíam que ele era um pecador. O fato da cura em si não tinha nenhum significado para eles. Mas depois de terem colocado todos os pretextos e tentado subornar a família do cego que arriscava ficar toda ela expulsa da comunidade, ficava agora obrigatória tomar uma posição com relação à pessoa de Jesus.
Aí é onde entra a inconformidade do curado com os fariseus. Pois ele é consciente da relação perfeita que há entre Jesus e Deus. “Se ele é pecador, não sei. Só sei que eu era cego e agora vejo”. “Sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso e que faz a sua vontade”. Para o cego curado, a cura torna-se verdadeiramente um sinal que o leva a reconhecer o vínculo entre Deus e Jesus. Os fariseus continuaram resistindo em não querer enxergar e endureceram o coração, expulsando o homem da comunidade.
É triste! Não há pior cego que o que não quer ver; e a cegueira espiritual é pior que a física, onde diante da evidência alguém permanece emperrado nos próprios preconceitos, fechando os olhos para a realidade.
O episódio se conclui com a revelação do significado profundo do prodígio. Encontrando de novo o homem curado, agora expulso da comunidade, Jesus o convida a valer-se da vista recuperada para reconhecê-lo: “você acredita no Filho do Homem?” “E quem é? para que creia nele”? “Tu o estás vendo, é aquele que está falando contigo”. Como com a samaritana do domingo passado, tudo caminha para a mesmo finalidade.
A luz dos olhos é metáfora da luz da alma. O cego de nascença é cada homem, cada mulher, incapaz de sozinho ver a luz divina, e, que, portanto deixa-se guiar por ela, com as conseqüências, pessoais, e coletivas, das quais todos somos testemunhas; e se quisermos permanecer cegos, fazendo descaso da luz de Deus, quantos desastres, derrotas, tragédias, amarguras, teremos pela frente! Para evitá-las na sua bondade Deus nos fez dom da sua luz, para que possamos ver a estrada justa no caminho desta vida, a estrada que tem como meta ele, luz do mundo.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

3º DOMINGO DA QUARESMA – Jo 4,5-29.39-42 (forma breve)


Prove da água regeneradora do amor

O Evangelho de hoje nos apresenta um grande encontro entre um homem e uma mulher. O homem, Jesus, chega ao poço de Jacó muito cansado de uma viagem. Também ele ficava cansado, e sentia sede como nós. É muito bom notar que Jesus precisava das pessoas. E quando ele precisava, ele pedia. Como fez com a samaritana pedindo-lhe água para beber. Ele nos dá esta lição e por que não? Precisamos uns dos outros. Entretanto, o mundo de hoje propaga um tipo de pessoa diferente: a auto-suficiente. Precisar dos outros? Ah, isso nos torna vulneráveis. Queremos ser totalmente independentes. Queremos não precisar de ninguém nem nos sentirmos fracos, mesmo sabendo que o somos.
Mas por que não precisar? Por que não reconhecer que sim, precisamos uns dos outros? Jesus precisa de água pra matar sua sede e isto é a causa de um encontro profundo tanto para ele como para a mulher samaritana: ele encontra a fé, onde se pensava que não havia; e a mulher no desenrolar da conversação, redescobre a si mesma, se sente livre, restaurada e encontra o Messias esperado há tantos séculos.
O encontro quebra todas as regras religiosas. Um rabi (Jesus) nunca devia dirigir a palavra a uma mulher fora de casa, nem mesmo a sua; os samaritanos eram considerados impuros por causa da convivência com os assírios, os dois povos se evitavam. Além disso, falar num poço com uma mulher era cortejá-la, costume que sempre acabava em casamento. O poço na Bíblia é o lugar dos encontros de amor: foi a partir daí que Isaac casou com Rebeca (Gn 24), Jacó com Raquel (Gn 29) e Moisés com Séfora (Ex 2). Só que normalmente isso acontecia ao cair da tarde. E o Evangelho em questão diz: “era por volta do meio dia”. Por aí, já sabemos que este encontro não terá como finalidade um casamento.
Assim, Jesus pede a mulher: “dá-me de beber”. A mulher surpresa, diz: “como é que você, sendo judeu, tem coragem de dirigir a palavra a mim, uma mulher samaritana?” (isto devido à desavença como já explicamos). E Jesus responde: “se você conhecesse o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, você mesma me pediria e eu te daria água viva”. Notamos claramente aqui que há uma distância de pensamento enorme. Enquanto Jesus está falando seriamente sobre o nosso lado espiritual, a mulher segue na conversa sem ter idéia do que ele está falando e podemos até sentir um pouco de zombaria por parte dela: “Senhor, você nem sequer tem um balde e o poço é fundo. De onde vai tirar esta água viva? Por acaso você é maior que nosso pai Jacó...?” Mas Jesus Não desiste e argumenta que todo aquele que beber da água do poço de Jacó, voltará a ter sede, mas qualquer um que beber da água que ele lhe der, nunca mais terá sede.
A partir daí, a mulher passa da descrença para a dúvida; ela desconfia que há algo de verdadeiro na conversa de Jesus. Assim, não custa tentar e agora é ela quem pede: “Senhor, pois, então, dá-me dessa água para que eu não tenha mais o trabalho de voltar aqui”. Finalmente, Jesus vendo a abertura por parte da samaritana, arranja uma maneira de fazê-la acreditar de uma vez por todas nele, pedindo para que ela vá chamar o seu marido. A mulher responde que não tem marido. E aí, Jesus convence a mulher: “realmente, você disse bem que não tem marido, pois teve cinco e o que tem agora não é teu marido. Nisso você foi verdadeira”. A mulher cai em si que realmente Jesus é um profeta e os dois vão desenvolvendo um diálogo com relação ao tema do Messias até chegar ao ponto de Jesus se apresentar como tal: “o Messias sou eu que estou falando com você neste exato momento”.
Quantas vezes acontece isso na nossa vida. Deus está tentando nos mostrar uma coisa, mas nem sempre entendemos o que ele está querendo nos falar, às vezes até porque não queremos entender. Jesus não se cansou, insistiu até a mulher entender. Há coisas mais profundas que Deus quer nos mostrar. Há momentos que Jesus fala conosco e não percebemos.O caminho que a mulher samaritana percorre é o nosso caminho de cristãos em busca de Deus. O evangelista João sabe muito bem que a busca de Deus por parte do homem arrisca sempre num fechar-se em si mesmo. Há muita incompreensão. João quer evidenciar que o homem, fechado em si mesmo, não é capaz de entender a Palavra de Deus, nem de atingi-la, nem de interpretar corretamente as próprias aspirações. A tentação de quem busca Deus é sempre de colocar o dom de Deus dentro dos próprios interesses. A mulher até procurou fazer isso, mas Jesus não hesitou em mostrar a sua inadequação. Por duas vezes, ela sempre volta ao passado: patriarca, culto etc. ela está sempre presa ao passado. Mas, Jesus a constringe a olhar para o futuro e a tomar consciência de que no mundo chegou a novidade e que esta renova toda a nossa vida. O testemunho da mulher contagia os outros e permite que cada um tenha sua própria experiência pessoal com Jesus Cristo. Que o Senhor nos dê a água viva do amor!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

2º DOMINGO DA QUARESMA - Mt 17,1-9


TRANSFIGURADOS PELO AMOR

No Evangelho deste II Domingo da Quaresma, somos convidados a subir a montanha em companhia de Pedro, Tiago e João, seguindo os passos de Jesus que se afasta da multidão e se recolhe para rezar. A montanha na Bíblia é o lugar da presença e da manifestação de Deus. Foi sobre uma montanha que a Lei foi dada a Moisés; como também foi sobre uma montanha que Elias revelou o Deus único. Agora, é Mateus que nos conta o que se passou naquela montanha onde estão reunidos Jesus com os três discípulos: “ele foi transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz”.
Esta mudança no rosto de Jesus que o torna luminoso como o sol é o que chamamos “Transfiguração”. Transfigurar significa mudar a figura ou a feição. Imaginando como poderíamos entender melhor a transfiguração de Jesus, lembremos o rosto de algumas pessoas que nos passam essa idéia: o rosto de uma mãe que amamenta seu filhinho, o de um adolescente apaixonado, etc. O que caracteriza o olhar de todos eles é o brilho no olhar. E o que faz iluminar a expressão destas pessoas? O amor. É o amor que transparece do rosto deles e os torna brilhantes. Com certeza, foi o amor que tornou o rosto de Jesus resplandecente. Enquanto estava rezando, ele entra em contato com o Pai, e o amor entre eles é tão grande que chega a alterar a sua aparência. Os três apóstolos que o acompanhavam certamente ficaram perplexos ao verem esta mudança; principalmente, quando apareceram Moisés e Elias, conversando com Jesus. Moisés, que guiou o povo de Israel da escravidão do Egito à libertação dada por Deus; e Elias, que foi assunto ao céu numa carruagem de fogo (2 Rs 2,11). Os dois, que representam toda a história de Israel, aparecem na montanha para conversarem com Jesus.
Mas, qual era mesmo o assunto da conversa deles? Conversavam sobre a morte que Jesus iria sofrer em Jerusalém, falavam da paixão de Jesus, o que estamos, neste tempo de Quaresma, nos preparando para celebrar (informação dada por Lucas).Nesse ínterim, Pedro constata maravilhado: “Senhor, é bom estarmos aqui!” E propõe: “Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro tem razão: deve ter sido muito bom mesmo estar ali imersos na luz do amor entre o Pai e o Filho, escutando o diálogo com Moisés e Elias. Era tão bom que Pedro queria que aquele momento nunca acabasse. Por isso é que ele propôs fazer três tendas. Normalmente, quando as pessoas vão a uma montanha para acampar, ou seja, querem passar mais tempo lá, levam e armam suas barracas. Porém, enquanto Pedro fazia a sua proposta, saiu uma voz do céu com outra indicação: para saborear aquele momento extraordinário, não era preciso armar as tendas, mas ter um coração atento para ouvir a Palavra de Jesus. De fato, o Pai diz: “Este é meu Filho amado, no qual eu pus todo meu agrado, escutai-o!”. Não faz muito tempo que ouvimos a mesma declaração no Batismo de Jesus. E este é um detalhe muito interessante, pois o Pai está dizendo que aquele Filho que começou o ministério no Jordão é o mesmo que está prestes a morrer crucificado. A força da voz do Pai deve ter sido uma experiência esplendorosa para os apóstolos, a ponto de ficarem assustados. Mas Jesus lhes diz: “Levantai-vos e não tenhais medo”. A voz de Jesus inspira em nós discípulos confiança e esperança. A força da voz do pai insiste: “Escutai-o!” Escutar! É a melhor maneira para se preparar para a Páscoa: escutar a Palavra que Jesus veio nos dar. Escutar com os ouvidos, mas, sobretudo, escutar com o coração. Só assim podemos ficar com o nosso rosto transfigurado. Infelizmente, hoje, o rosto de Jesus aparece mais desfigurado que transfigurado. Desfigurado em tantos rostos humanos por causa da pobreza extrema. Jesus sofredor aparece desfigurado no rosto de crianças doentes, abandonadas, desfrutadas; no de jovens desorientados, perdidos; no dos excluídos da sociedade; no de desempregados, no de idosos abandonados até mesmo pela família. São muitos os desafios que os missionários de Jesus têm de enfrentar. Coragem! Levantai-vos e não tenhais medo.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

1º DOMINGO DA QUARESMA - Mt 4,1-11


Tentado como nós, vencedor por nós

No Evangelho deste I domingo da Quaresma, vemos a relação de Jesus com o diabo, o qual representa afastamento e oposição a Deus. Por outro lado, vemos também a relação de Jesus com Deus.

Nas tentações de Jesus, aparece esta relação a qual é confirmada através da rejeição àquele que se encontra em oposição radical com Deus. É justamente aqui que aparece a firmeza e a certeza da relação de Jesus com Deus, já que neste confronto se revela de uma vez por todas que Jesus está da parte de Deus. A tentação, o peso, a prova, estão presentes e é necessário tomar posição e fazer uma decisão. A maneira na qual se comporta Jesus mostra sua relação com Deus. Ele responde de modo tranqüilo, seguro. Demonstra com absoluta clareza o que é válido. No seu comportamento, não se pode notar nenhum medo, nenhuma impaciência e nenhum conflito interior. No confronto não há luta, batalha. A cada proposta do tentador, Jesus dá o seu ponto de vista. Assim, ele demonstra a certeza e a clareza de sua relação com o Pai. Tudo aquilo que o Pai havia dito dele é confirmado aqui pelo seu comportamento.

Quanto a nós, devemos nos orientar através da clareza e da decisão de Jesus. Não podemos nos enganar, pensando que estamos livres de uma luta cansativa com o tentador. Porém, hoje recebemos esta boa notícia: existe alguém que permanece fiel a Deus. Mesmo que não resistamos à prova e caiamos freqüentemente, só o fato de que há alguém que permanece firme e fiel a Deus nos deve infundir alegria e coragem. As tentações não foram para Jesus um jogo de ficção, foram verdadeiras provas, como existem para o cristão e para a Igreja. E justamente por ter sido verdadeiramente provado, Jesus é exemplo e pode vir em ajuda a quem está na prova. Jesus realmente lutou contra satanás sobre a escolha de possíveis métodos e caminhos para realizar sua missão de Messias. As três tentações são uma síntese significativa de um longo período de luta contra o mal, sustentada por Jesus nos 40 dias de deserto e durante toda a sua vida, compreendida a cruz. As tentações representam modelos diferentes de Messias, e, portanto, para nós também de missão. Para Jesus as tentações eram três saídas para não passar pela cruz. Uma relacionada com as coisas materiais, outra com as pessoas e outra com Deus mesmo.

A primeira começa com a fome de Jesus. O tentador o convida a usar o poder para eliminar a sua fome. Na fome, o que está em jogo é a vida. Para viver, o homem precisa de pão, de alimento. O que deve fazer o homem com a sua vida? Jesus responde, dizendo que o homem não vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Ele tem uma vida que é superior àquela que depende do pão. Uma vida que consiste na sua ligação incondicional e cheia de confiança em Deus. A busca de Deus e a confiança no seu poder devem ter o primeiro lugar na nossa vida e nunca devem ser substituídos por uma vida garantida pelo pão. Assim, a primeira tentação é a de aceitar o pão como fonte da vida. Tem tanta gente que vive só para o próprio estômago. Muitas vezes nós cristãos fazemos todo tipo de sacrifício para satisfazer as nossas necessidades materiais, mas pouco para aquelas espirituais. A quaresma é o tempo no qual Cristo nos chama a resistir a tal tentação e a buscar antes de tudo aquele alimento do céu e a viver dele.

A segunda tentação é a de um Messias mirabolante: atira-te daqui abaixo! Um gesto que teria assegurado fama e espetáculo. Porém, Jesus não tem necessidade de uma prova de que Deus o ama, ele confia no Pai. Jesus supera as tentações: escolhe respeitar o senhorio de Deus, confia no Pai e no seu plano salvífico pelo mundo. Renuncia instrumentalizar egoisticamente as coisas materiais para o próprio proveito (não muda as pedras em pão para si; mais tarde multiplicará para a multidão faminta).

A terceira tentação não se dirige ao homem que luta para ter o mínimo necessário para sobreviver, mas ao homem que mira além da própria pessoa humana e aspira ao domínio do mundo. Aqui entra em jogo o fascínio do poder, do domínio. Mas, Jesus responde que há um só Deus. A busca exclusiva do poder não combina com o reconhecimento da senhoria de Deus. Jesus reconhece a autoridade no âmbito humano: porém, que não deve ser exercitada como domínio sobre os outros, mas vivida como serviço. Ele rejeita dominar as pessoas e prefere servir: mantém sempre uma relação filial com Deus, confiando na sua fidelidade. Aceita a cruz por amor e morre perdoando: somente assim, quebra o espiral da violência e tira da morte o seu veneno.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

QUARTA-FEIRA DE CINZAS - Mt 6,1-6.16-18


O SEGREDO

Com a Quarta-feira de Cinzas, iniciamos o tempo da Quaresma: são 40 dias até a celebração da maior festa cristã: a Páscoa de Jesus. São 40 dias que lembram os 40 anos da marcha do povo de Deus pelo deserto em busca de libertação como também os 40 dias de jejum de Jesus também no deserto. É um tempo de deserto, é um tempo de interiorização, de transformação.
O Evangelho desta quarta-feira de cinzas é tirado do sermão da montanha e quer nos oferecer uma ajuda a fim de nos ensinar a praticar as três obras de piedade fundamentais do cristão: esmola, oração e jejum para viver bem o tempo da quaresma. Não obstante tenha mudado o modo de praticar as obras de piedade ao longo dos séculos, permanece a obrigação humana e cristã de partilhar os bens com os pobres (esmola), viver em comunhão com Deus (oração), e saber controlar o nosso ímpeto e os nossos desejos (jejum). As palavras de Jesus que meditamos podem fazer surgir em nós à criatividade necessária para encontrar novas formas para viver estas três práticas assim importantes da vida cristã.
A esmola, a oração e o jejum eram as três práticas de piedade dos judeus. Jesus critica o fato de que as pratiquem somente para serem vistos e elogiados pelas pessoas. Ele não permite que a prática da justiça e da piedade seja usada como um meio para a promoção social na comunidade. Nas palavras de Jesus, aparece um novo tipo de relação com Deus que se desfecha para nós. Ele diz: “o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa”. Jesus nos oferece um caminho de acesso ao coração de Deus. A meditação das suas palavras com relação as práticas de piedade poderá ajudar a descobrir este novo caminho.
“Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes visto por eles. Caso contrário, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus”. Ao ler esta frase, não devemos pensar somente aos fariseus do tempo de Jesus, mas, sobretudo ao fariseu que sobrevive em cada um de nós. Devemos construir a nossa segurança desde dentro, não naquilo que fazemos para Deus, mas naquilo que Deus faz por nós. É esta a chave geral para entender o ensinamento de Jesus sobre as práticas de piedade.
Desta forma, Mateus explica este princípio geral à prática da esmola, da oração e do jejum, dizendo antes como isto não deve acontecer e logo em seguida, como devemos fazer.
Como não dar esmola. O modo errado, seja naquele tempo, como hoje, é usar um modo vistoso, para ser reconhecido e aclamado por todos como faziam os hipócritas que tocavam as trombetas nas praças. Jesus diz, aquele que age assim, já recebeu a sua recompensa.
Como devemos dar a esmola. O modo correto é “que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita”. Ou seja, devo dar a minha esmola de modo que nem eu mesmo devo ter a sensação de estar fazendo uma coisa boa, que mereça uma recompensa da parte de Deus e elogio da parte dos outros. A esmola é uma obrigação. É uma forma de partilhar algo que eu tenho com aqueles que não têm nada. Lembre-se da viúva que dava até mesmo o que lhe era necessário.
Como não rezar. Falando do modo errado de rezar, Jesus menciona alguns usos e costumes estranhos daquela época. Quando a trombeta tocava para as orações, tinha gente que rezava solenemente na rua para ser considerada piedosa.
Como rezar. Para não deixar sombra de dúvidas, Jesus exagera sobre o modo de rezar. Diz que é necessário rezar, no escondido, somente diante de Deus Pai para ninguém nos veja. Talvez os outros nos considerem alguém que não reza. Não nos importemos. Até de Jesus caçoaram: “Não é de Deus!”. E isto porque Jesus rezava muito à noite em lugares afastados e não se importava com a opinião dos outros. Aquilo que importa é ter a consciência em paz e ter a certeza que Deus é o Pai que nos acolhe, e não a partir da satisfação que procuro no fato que outros me apreciem como uma pessoa piedosa e que reza.
Como não jejuar: Jesus critica as práticas erradas do jejum. Havia gente que fazia cara de tristeza, não tomavam banho, usavam roupas enxovalhadas, não se penteavam, de modo que todos pudessem ver que estavam jejuando de modo perfeito.
Como fazer o jejum? Jesus recomenda o modo contrário. “Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto” de modo que ninguém perceba que você esteja jejuando, mas só teu Pai que está nos céus. Hoje uma maneira muito válida de jejuar é evitar o consumismo desenfreado.
Enfim, Jesus apresenta um caminho novo de acesso ao coração de Deus aberto a cada um de nós. A esmola, a oração e o jejum não são dinheiro para comprar a graça de Deus, mas são a resposta da gratidão ao amor recebido e experimentado.