terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Maria, Mãe de Deus - Ano B - Lc 2,16-21


FELIZ ANO NOVO!!!
A liturgia deste 1º de janeiro é particularmente significativa. Afinal, é ano-novo! E os votos mais belos e profundos que podemos receber nos oferece a Palavra de Deus. Votos que são verdadeiramente uma bênção: “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6,24-26). Que maravilha esta invocação ao Senhor para que Ele faça brilhar a sua face sobre nós e para que tenhamos paz! A verdadeira face de Deus é a face de um recém-nascido que busca ardentemente com seus olhinhos entreabertos o colo de sua mãe adolescente. É a face de um Deus que agora caminha lado a lado com a sua criação.
Mais um ano se inicia! E com essa bênção de Deus, não temos necessidade alguma de ler horóscopos nem fazer simpatias tipo dar um passo com o pé direito, comer lentilhas ou jogar flores no mar para buscar paz e prosperidade. Ora, o que são essas superstições diante do poder de Deus? Absolutamente nada! Confiamos em Deus e isso já basta. Se Deus está o tempo todo com o seu rosto voltado para nós, do que mais precisamos? A celebração de hoje nos convida a louvar Maria, Mãe de Deus Salvador; a venerar aquela que acolheu e carregou no seu ventre o Filho de Deus. Por ela, Deus entrou no mundo e veio ao nosso encontro. Agora, somos nós quem devemos ir ao encontro dele. Somos nós quem devemos acolher essa Luz que ilumina os nossos passos. Maria é a mulher que escutou a voz de Deus, acolheu e obedeceu a vontade do Senhor; sempre atenta a acolher os sinais de Deus, renovava diariamente o seu “sim”.
O Evangelho desta liturgia que é uma continuação daquele lido na noite de Natal, coloca Maria numa posição central. Como anunciado no texto anterior, os pastores “encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura”; depois, “voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido”. O mais interessante deste relato, é que há um corte bem no meio do texto para nos dar uma preciosa informação: “quanto a Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração”.Maria, que hoje invocamos como Mãe de Deus Salvador, é a rainha da paz. Ela é rainha de uma paz que não depende das circunstâncias. Mas, uma paz que brota do coração, uma paz que existe mesmo em meio às provações da vida. Ela guardava a Palavra de Deus em seu coração e a Palavra traz Paz. Hoje também é o dia da paz. Não devemos esquecer que a paz não é somente a ausência de guerras, de violência. Por falar nisso, que coisa feia esta guerra entre os judeus e palestinos às vésperas do ano novo. Mas a paz também é ausência de qualquer desentendimento, discussão, desunião. E como infelizmente isto acontece nas nossas famílias! A paz que o mundo oferece é um sentimento que temos quando tudo corre bem na nossa vida ou quando as pessoas se comportam como nós queremos. Porém, quando as coisas não acontecem do jeito como esperamos, quando queremos mudar as pessoas e não conseguimos, isso nos frustra e o sentimento de paz nos deixa e a impaciência e o aborrecimento se tomam conta de nós.
A paz que Jesus nos dá é uma paz diferente da que o mundo nos dá. Em cada missa, pedimos essa paz, e às vezes repetimos tão mecanicamente que nem nos inteiramos do seu verdadeiro significado: “livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz”, “Senhor Jesus Cristo, dissestes aos vossos apóstolos: Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz”. E logo em seguida, desejamos a paz do Senhor ao nosso próximo. Se lembrarmos bem, Jesus não perdeu a paz nem no meio da tempestade. Ele continuou dormindo tranquilamente na popa do barco, enquanto seus discípulos estavam apavorados e indignados porque Ele não se mostrava preocupado com eles. Temos que aprender a receber essa paz de Jesus, essa paz que nos faz esperar no tempo de Deus com paciência, essa paz que nos faz respeitar e tratar bem o próximo.
É preciso que aceitemos na nossa vida a salvação oferecida por Jesus. De fato, este nome contém todo o significado de sua vinda ao mundo. Oito dias depois do nascimento do Filho de Deus, no momento da circuncisão, símbolo de aliança entre Deus e o povo de Israel, o menino recebe o nome de Jesus. Em aramaico, Yeshua significa “Deus salva”. Ele veio ao mundo para fazer uma aliança conosco, para nos salvar e nos conceder a sua paz.
Como disse o Papa Bento XVI na Mensagem para a Celebração do Dia Mundial da Paz: “a cada discípulo de Cristo bem como a toda pessoa de boa vontade, dirijo, no início de um novo ano, um caloroso convite a alargar o coração às necessidades dos pobres e a fazer tudo o que lhe for concretamente possível para ir em seu socorro. De fato, aparece indiscutivelmente verdadeiro o axioma ‘combater a pobreza é construir a paz’”.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sagrada Família – Ano B – Lucas 2,22-40


Meus olhos viram a tua salvação
LECTIO - O que diz o texto?
O texto começa informando que se completaram os dias para a purificação da mãe e do filho, “conforme a lei de Moisés” (expressão que sempre aparece quando se quer fazer referência a uma determinada lei da Torah – Pentateuco). No texto em questão, Lucas mistura as duas leis sem diferenciá-las. Pois a purificação da mãe era prevista em Levítico 12,2-8 e se cumpria quarenta dias após o parto. Até aquele momento, a mulher não poderia aproximar-se de nenhum lugar sagrado, já que era considerada impura por causa do sangue derramado durante o parto; a cerimônia consistia na oferta de um cordeiro ou dois pássaros (um par de rolas ou dois pombinhos). E aqui continua evidente a condição de pobreza e simplicidade da família de Nazaré, dado que só se fala dos pássaros (era a oferta dos pobres).
Já a consagração dos primogênitos está prescrita em Êxodo 13,11-16 e era considerada com uma espécie de “resgate” – lembrando a ação salvífica quando Deus libertou os israelitas da escravidão do Egito. Resgatando o próprio filho, o pai dizia: “Te resgato porque eu também fui resgatado quando o Senhor nos tirou com mão forte da casa da escravidão” (Ex 13,2.11-16). O texto quer mostrar que Jesus não foi dispensado de nenhuma prática da lei, seus pais foram obedientes a fim de que o destino do menino se desenvolvesse desde o início conforme as Escrituras. Entretanto, o texto só acena que se completaram os dias, mas não narra a cerimônia em si talvez para fazer entender que Jesus não tem necessidade de ser resgatado. Jesus, não é resgatado, mas aquele que resgata, aquele que salva o seu povo.
Em todo o relato, os pais de Jesus aparecem para apresentar, oferecer o filho como se deveria fazer, já as figuras de Simeão e Ana aparecem, mais exatamente, para dizer que Deus é quem oferece o Filho para a salvação do povo. Ana apresentará o menino àqueles que esperavam o resgate, a libertação de Jerusalém (Lc 2,38).
Pois bem, Simeão e Ana são duas figuras carregadas de valor simbólico. Eles têm o papel do reconhecimento, que provêm da iluminação do Espírito Santo, mas também de uma vida movida por uma espera intensa e confiante. Particularmente, Simeão é definido como prosdekómenos, isto é, aquele que está todo concentrado na espera e que corre ao encontro para acolher. Também ele aparece, por isso, obediente à lei, aquela do Espírito, que o conduz a encontrar o menino dentro do templo. Simeão, guiado pelo Espírito Santo, toma o menino nos braços e o desapropria dos seus pais, aquele menino é para toda a humanidade. Também o seu canto manifesta esta sua espera confiante: viveu para chegar a este momento; agora pode se retirar para que também outros possam ver a luz e a salvação que chegou para Israel e para o mundo inteiro.
Por sua vez, Ana, com a idade de 84 anos, também quer completar o quadro da espera (84 = 7 × 12: o número perfeito vezes as doze tribos ou 84 – 7 = 77: perfeição redobrada). Sobretudo com o seu modo de viver (jejuns e orações) e com a proclamação de quem ela esperava. É guiada pelo Espírito de profecia, é dócil e pura de coração. Além disso, pertence a menor das doze tribos que é aquela de Aser: sinal de que os menores e mais frágeis são os mais favoráveis a reconhecer Jesus Salvador. Estes dois anciãos simbolizam o melhor do judaísmo, a Jerusalém fiel e mansa, que espera e se alegra, e que deixa de agora em diante brilhar a nova luz.
Ainda com Simeão, após o canto, ele diz a Maria que o seu menino vai ser causa tanto de queda como de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição. E quanto a Maria, uma espada traspassará a alma dela. Normalmente, interpreta-se aqui o anúncio do sofrimento de Maria. Mas também devemos ver aqui Maria como imagem do povo: Simeão intui o drama do seu povo, que será profundamente dilacerado pela palavra viva e cortante do Redentor. Maria representa o percurso: deve confiar, mas atravessará dores e escuridões, lutas e silêncios angustiantes. A história do Messias sofredor será dilacerante para todos, também para Maria. Não se pode seguir a nova luz destinada ao mundo inteiro sem pagar o preço, sem se arriscar, sem renascer sempre de novo do alto para uma nova criatura. Mas estas imagens, ou seja, da espada que traspassa, do menino que fará tropeçar e abalará os corações, não estão separadas do gesto carregado de sentido dos dois anciãos: pois, enquanto Simeão, toma o menino nos braços, para indicar que a fé é encontro e abraço, não idéia nem teoria; Ana é anunciadora e acende em quem o esperava uma luz fulgurante.
Enfim, interessante é notar que todo o episódio dá ênfase às situações mais simples e familiares: o casal Maria e José com o menino no braço; o ancião que se alegra e abraça, a anciã que prega e anuncia, os interlocutores que aparecem indiretamente envolvidos. E também a conclusão do texto deixa ver o lar de Nazaré, o crescimento do menino num contexto normal, a impressão de um menino dotado em modo extraordinário de sabedoria e bondade. O tema da sabedoria entrelaçada com a vida normal de crescimento e no contexto de uma cidadezinha Nazaré, deixa um suspense na história: esta se reabrirá justamente com o tema da sabedoria do menino entre os doutores do templo. E será exatamente o relato que segue imediatamente.

MEDITAÇÃO – O que o texto me diz?
As palavras de Simeão, todas as suas atitudes, como também aquelas de Ana, têm um significado especial para mim?
Como entendo esta “espada que traspassa”: reconheço que se trata de um sofrimento na nossa consciência diante dos desafios e exigências para seguir Jesus Cristo ou acho que se trata só de um sofrimento íntimo de Maria?
O que este relato pode significar para as famílias de hoje? Para a formação religiosa dos seus filhos? Para entender o projeto que Deus tem para cada um de seus filhos, os medos e angústias que os pais carregam no coração, só de pensar quando os filhos crescerem?
Empenho-me periodicamente para fazer uma revisão de vida com a minha família a fim de ser sempre mais família?
Como marido ou mulher tenho a capacidade de me abrir ao diálogo com os meus filhos, procurando escutar-lhes e partilhar assim as suas alegrias e expectativas?
Como casal e família me empenho concretamente em prol de outras realidades familiares da minha comunidade em dificuldade para realizar a grande família cristã, a Igreja de Cristo?
Sou um bom cumpridor de minhas obrigações cristãs?
Participo regularmente das celebrações?
Deixo-me guiar pelo Espírito Santo como Simeão?
Como faço para escutar hoje o Espírito Santo?
Também entendo que o seguimento ao Messias é algo que implica compromisso e que também pode ser como uma espada que atravessa o coração?
Posso medir meu crescimento de forma equilibrada como Jesus? Há partes de mim que crescem e outras que não saem do lugar? Quais?
E meus olhos (os da alma), já conseguiram ver a salvação que Jesus veio me trazer?

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Natal do Senhor - Ano B - Lucas 2,1-14


É NATAL!
O Evangelho que nos é proposto nesta noite narra o grande acontecimento esperado por toda a humanidade: o nascimento do Salvador, o Cristo Senhor. O texto bíblico é fortemente caracterizado por um grande contraste. Enquanto se esperava uma vinda majestosa, o Salvador veio ao mundo de uma forma inesperada, chegou simples, humilde, sem nenhum espetáculo. É neste contraste, pois, que vamos descobrir um dos maiores ensinamentos que o Natal do Senhor nos pode oferecer.
Logo no início do Evangelho, temos as seguintes informações históricas: em primeiro lugar, aparece o imperador César Augusto, dominador do mundo Mediterrâneo da época, o qual determina que seja feito um censo em toda a terra, isto é, de todos os habitantes submetidos à dominação romana, entre os quais se encontravam os da Palestina. Em seguida, o texto diz que quando ocorreu este censo, o governador da Síria era Quirino, procurador de Augusto na tetrarquia que compreendia a Iduméia, a Samaria e a Judéia, onde está localizada Belém. Longe, porém, de ter provas para estes dados históricos, além da diferença notável entre o relato do nascimento do Messias narrado neste texto e aquele narrado no evangelho de Mateus, ficamos com o que nos interessa: este decreto é o que liga José e Maria, residentes em Nazaré da Galiléia, a Belém da Judéia. De fato, Lucas sublinha que Belém é a cidade natal de Davi, de onde descende José. Desta maneira, temos uma referência à promessa e à espera messiânica ligada a Belém e a família de Davi: “Grande será o seu reino, e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado” (Is 9,6).
Chegando o tempo devido, Maria dá a luz o seu “primogênito” (este termo não quer indicar que Maria teve outros filhos, mas que Jesus é o primeiro filho de Maria (como acontece com toda mãe que tem o seu primeiro filho sem saber se terá outros), e por isso, tem todos os direitos de primogenitura; para se ter uma idéia da importância da primogenitura, basta lembrar as incansáveis trapaças feitas por Jacó contra seu irmão Esaú até tomar-lhe este direito).
Maria, como toda mulher, passa naturalmente por essa experiência de dar a luz. Nem pode escolher o momento, nem esperar uma circunstância melhor. Ela não encontrou um lugar adequado para o seu menino, por isso, deu à luz num estábulo, pondo o menino numa manjedoura. São pobres e sem pretensões. É verdade! O primeiro lugar a receber o Salvador foi um dos lugares mais imundos do mundo, um lugar com aquele cheirinho de curral, incluindo as necessidades dos animais. Assim, o que, imediatamente, chama a nossa atenção neste acontecimento é a simplicidade. Na sua grandeza infinita, Deus se abaixa não só à condição humana, mas em que condição Seu Filho veio ao mundo! O Salvador entrou na nossa condição humana, a partir da fraqueza de um menino enrolado em panos, Ele está do nosso lado e nos acompanha.
Em contraste com essa pobreza, aparece o esplendor da luz celeste e a aparição do anjo de Deus aos pastores que tomavam conta de seus rebanhos, mas o sinal que recebem é simplesmente: “encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”. Aos pastores que estão com muito medo, o anjo anuncia uma grande alegria. Realmente, eles têm um grande motivo para se alegrarem: nasceu para eles e para todo o mundo o Salvador.
A maravilha do Natal reside neste contraste: sem a revelação dos anjos nunca entenderíamos que aquele menino na manjedoura é o Senhor. E sem o menino na manjedoura não entenderíamos que a glória do verdadeiro Deus é diferente da glória a qual estamos acostumados a ouvir.
Que possamos ser humildes e simples para que o Senhor, neste Natal, venha ao estábulo do nosso coração e assim, possamos amá-Lo na pessoa do próximo como nos ensina tão bem Madre Teresa de Calcutá: “Da humildade sempre emanam a grandeza e a glória de Deus. Devemos estar vazios do orgulho se quisermos que Deus nos preencha com a sua plenitude. No Natal, vemos Deus como um recém-nascido, pobre e necessitado, que veio para amar e ser amado. Como podemos amar a Deus no mundo de hoje? Amando-o em meu marido, em minha mulher, nos meus filhos, nos meus irmãos, nos meus pais, nos meus vizinhos, nos pobres, nos bêbados, nos presos, nos doentes de lepra, nos excluídos, em todos aqueles que encontramos todos os dias.”

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

4º Domingo do Advento – Ano B - Lucas 1,26-38


SE NÃO FOSSE PELA GRAÇA DE DEUS...
LECTIO
O que o texto diz?

Ao sacerdote Zacarias em Lc 1,5-25, foram anunciados o nascimento e a missão de seu filho João. Este menino que mais tarde ficou conhecido como o Batista foi a figura central do 2º e 3º domingos do Advento. No Evangelho deste 4º domingo do Advento, a expressão “no sexto mês”, liga o anúncio do anjo a Maria com aquele de Zacarias e se refere à Isabel. De fato, é no sexto mês de gravidez de Isabel que a Maria o mensageiro de Deus anuncia o nascimento e o destino de seu filho Jesus.
Mas este anúncio a Maria acontece no âmbito de uma vocação. Maria não só recebe o anúncio do nascimento do Filho, mas Deus a capacita para se tornar mãe do seu Filho. O anjo passa do templo de Jerusalém (Zacarias) a uma casa comum, simples, muito longe de Jerusalém. A Galiléia é uma região de fronteira, e Nazaré, uma vila desta região que até este momento na Bíblia é totalmente desconhecida. Assim, Gabriel se encontra na casa de uma jovenzinha humilde cujos únicos títulos são o de virgem e de prometida em casamento a José (a primeira das três etapas do casamento hebraico).
Na saudação do anjo: “Alegra-te! Cheia de graça, o Senhor está contigo!”, aparece toda a essência da vocação de Maria: alegria, graça e auxílio de Deus.
A primeira palavra do anjo, literalmente: “alegra-te” (chaire), é a fórmula grega de saudação. Indica que a mensagem central e mais importante do anjo é caracterizada pela alegria. Desta maneira, desde o primeiro momento, todo o anúncio do anjo convida à alegria e ao júbilo. Maria, porém, não responde logo com alegria plena, ela fica perturbada, reflete, faz uma pergunta e ainda pede mais uma explicação e aceita com fé a sua vocação. A explosão de alegria plena só acontecerá no encontro com Isabel mais tarde – (relato da visita e canto do Magnificat – Lc 1,39-56).
Quanto à segunda expressão do anjo, “cheia de graça” (kecharitomene), indica o motivo desta alegria. No grego, esta expressão é um particípio perfeito passivo e significa que Maria foi preenchida pela graça por alguém. O texto não fala quem a encheu de graça, mas como pode se comprovar pelo v. 30, o autor da graça é Deus e, portanto, este particípio é conhecido como passivo divino ou teológico. Quanto às traduções, a Vulgata traduziu por “gratia plena”, e conseqüentemente, as versões católicas traduziram por “cheia de graça”. Esta tradução não está errada, mas pode gerar uma má interpretação, a de achar que Maria está na origem desta graça, quando na verdade, ela recebeu de Deus.
Já a tradução protestante, que normalmente traduz por “agraciada”, “favorecida” também não está errada, mas está incompleta, pois até facilita a compreensão de que Maria recebeu a graça, mas não fala da “plenitude” da graça. Então, para fim de conversa, uma tradução ecumênica muito aceita hoje e que esclarece tal expressão seria: “alegra-te! Tu que foste e permanece completamente cheia da graça de Deus”. Deus preencheu de maneira definitiva e irrevogável Maria com o seu favor. Este dado é tão importante que o anjo repete em 1,30: “encontrando graça diante de Deus”. E é tão característico da pessoa de Maria que quando o anjo a chama “cheia de graça” e omite o nome Maria, é como se o anjo tivesse lhe dado um outro nome. Seu nome agora expressa a idéia de plenitude da graça que só pode ter sua origem em Deus.
A terceira expressão: “O Senhor está contigo” se refere ao auxílio de Deus. É uma expressão também recorrente nos relatos de vocação. É a assistência real e eficaz. Maria, na realização de sua tarefa, não dependerá somente de suas forças humanas, pois Deus não se limita a chamar, abandonando a pessoa chamada, mas acompanha e a torna capaz de desenvolver a sua missão. Assegura-lhe sua constante assistência.
Pois bem, a estas três palavras importantes do anjo, Maria reage num duplo plano: no emocional (ficou perturbada) e no racional (começou a pensar, refletir). Ela está aberta a esta mensagem e se esforça para compreendê-la com todo o profundo de seu ser.
Em seguida, o anjo indica a tarefa de Maria: “eis que conceberás... Jesus”. No seio de Maria, o Filho de Deus receberá a própria existência humana. A vida de Maria daquele momento em diante está completamente a serviço de Jesus. Só Jesus é o Salvador, mas Maria foi chamada a prestar o seu serviço para que Ele pudesse vir ao mundo.
Com a pergunta, “como é possível, já que sou não conheço homem (já que sou virgem)?”, Maria pede uma última explicação ao anjo, já que este até agora tem falado só dela e nada do pai, e Maria não antecipa com conclusões próprias, apenas fica se perguntando como ela, sendo virgem pode realizar este ato. Deus é o Senhor de tudo. Foi ele quem estabeleceu desde o início que a concepção se dá pelo encontro do espermatozóide com o óvulo, e, por isso mesmo, só Ele pode fazer coisas que são contrárias ao que Ele mesmo estabeleceu, a isso nós chamamos milagre. Maria engravida por ação do Espírito Santo.
Maria declara a sua própria inadequação com relação a tarefa confiada. É característico de uma verdadeira compreensão da vocação por parte de Deus o reconhecer-se inadequado. Com o Espírito Santo, Deus tornará Maria capaz de colocar-se a serviço da existência de Jesus. Desta maneira, Maria recebe a resposta a sua pergunta e é convidada a acreditar na ação poderosa de Deus, para o qual “nada é impossível”.
Portanto, depois da grande surpresa e de uma reflexão atenta, Maria dá o sim que mudou a nossa história: “Eis aqui a serva do senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Maria acolhe sua vocação não cegamente nem forçada, mas com consciência da própria missão e decidida a operar na sua vida a vontade de Deus.
MEDITAÇÃO
O que o texto me diz?

A Maria, Deus confiou uma missão excepcional. Mas através da sua vocação, devo colher as características gerais da minha vocação para a qual Deus me chamou. A graça de Deus não é um privilégio só de Maria, Paulo afirma que todo cristão é animado e salvo pela graça de Deus – Ef 1,6.
Reconheço que sou o que sou pela graça de Deus?
O nome que Maria recebeu do anjo é também meu nome. Maria personifica o povo da graça. Reconheço em Maria a imagem da Igreja?
Percebo que a minha vocação não depende unicamente das minhas próprias forças, mas reconhecendo-me incapacitado, confio sempre no auxílio de Deus?
Os meus olhos estão abertos para ver “os anjos” com os quais Deus continuamente me visita?
Peço a Deus o dom do conselho para discernir o que Ele me pede e fortaleza para cumprir firmemente sua vontade?
Enfim, Deus já te pediu para fazer algo que você nunca esperaria fazer? Não estamos falando só da vocação sacerdotal, religiosa, matrimonial. Mas vocação para coordenar uma pastoral na paróquia, por exemplo? Não duvide, Maria ficou muito surpresa e perturbada quando o anjo falou pra ela que ela daria a luz o Filho de Deus. Mas a confiança de Maria em Deus, e sua obediência e cooperação com o plano e o desígnio de Deus, é um grande exemplo a ser seguido. Deixe que Deus trabalhe em você da maneira como ele quer, e saiba que todos os planos que Ele tem para você são para o seu bem. Quando coisas inesperadas acontecerem, confie nele.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

3º Domingo do Advento - Ano B – João 1,6-8.19-28


Testemunha da luz para que todos cheguem à fé
Lectio – o que diz o texto?
Terceiro domingo do Advento. A liturgia da Palavra retoma a figura do precursor, João Batista. Depois de apresentá-lo na sua verdadeira identidade, mostra o seu empenho em anunciar o Reino de Deus e a preparação para a vinda do Messias. Para fazer isso, a liturgia deixa um pouco o evangelista Marcos e nos apresenta um texto do início do evangelho de João, pois este (o evangelista) é quem nos dá a dimensão exata de João Batista na sua tríplice função de precursor, de profeta e testemunha da luz que é Cristo.
O prólogo do quarto evangelho afirma que a Palavra viva de Deus está presente em todas as coisas e brilha nas trevas como luz para toda a humanidade. As trevas até que tentam apagá-la, mas não conseguem. Ninguém consegue escondê-la, porque não se consegue viver sem Deus por muito tempo. A busca de Deus sempre renasce no coração humano. João Batista veio justamente para ajudar o povo a descobrir esta presença luminosa da Palavra de Deus na vida. O seu testemunho foi muito importante: “Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz”.
O próprio João dá o seu testemunho quando dialoga com os sacerdotes e levitas (responsáveis pelo culto) enviados pelos judeus para o intimarem (os judeus aparecem aqui conscientes de serem os depositários da autêntica tradição). A causa dessa intimidação é graças à grande fama que João Batista exercia nas pessoas a ponto de ser considerado o Messias.
Assim, à primeira pergunta onde queriam saber quem era de fato este João que batizava o povo no deserto e que atraía tanta gente de todos os lugares: “quem és tu?”, João testemunha de maneira negativa com relação a si mesmo, ele não é aquilo que os outros pensam que ele seja, ele tira a dúvida de todos: “eu não sou o Messias!” Em vez de dizer quem é, ele diz quem não é.
A segunda pergunta é mais explícita: “És tu Elias?”. Ml 3,23 dizia que antes do Messias, Elias deveria vir como o profeta esperado; mas João não aceita esta opinião, por isso responde simplesmente: “Não sou”. À terceira pergunta, “És o profeta?”, responde com um único “Não”. Falar do profeta era como falar do Messias. João só negava. Para ele, responder positivamente? Somente com relação a sua missão e aquele que a confiou.
Mas os interlocutores não estão satisfeitos com as respostas: “por que então andas batizando, se não és o Messias, nem Elias nem o profeta?” Eles queriam uma resposta clara, porque tinham de prestar contas àqueles que os tinham mandado até João. Para eles, não bastava saber quem João não era. Eles queriam saber o papel dele no plano de Deus. E João responde citando o profeta Isaías: “Eu sou a voz que grita no deserto: aplainai o caminho do Senhor”. Ele não é Cristo, mas é só uma voz que convida ao mundo a abrir o coração e a mente para acolher o Messias, esperado ansiosamente pelo povo de Israel. Na verdade, o apelo de João a “aplainar o caminho do Senhor” é uma exortação a abrir-se a verdadeira fé no Salvador. O seu diálogo termina com um reconhecimento humilde perante Jesus. Finalmente, é indicado o lugar onde isso aconteceu, em Betânia, além do Jordão, para dizer que o batismo de João introduz na terra da nova aliança.
Podemos deduzir pela leitura do evangelho que João Batista provocou um movimento popular muito grande a ponto de incomodar os líderes religiosos. O próprio Jesus cristo aderiu ao movimento do Batista e quis ser batizado por ele no rio Jordão. Mesmo depois da morte, João continuava a exercer uma grande atração e influência, seja entre os judeus seja entre os cristãos que vinham do judaísmo. Por isso, a intenção do autor sagrado ao usar este relato foi fundamentalmente para esclarecer que João não era o Messias, mas somente seu precursor. Jesus veio depois de João e também foi discípulo de João. Mas não obstante isso, ele é mais importante do que João, porque existia antes de João. Jesus é a Palavra criadora que estava com o Pai desde a criação. João confessou abertamente: eu não sou o Cristo. Não sou Elias. Não sou o Profeta que o povo espera. Diante de Jesus, João se considera indigno de desatar até mesmo as sandálias.
Meditação – o que me diz o texto?
Diante do significado do texto, me pergunto?
Verdadeiramente, sou testemunha de Jesus Cristo, todos os dias, diante daqueles que se questionam se Jesus é mesmo o Filho de Deus, se realmente Ele é meu único e insuperável amigo, ou se realmente Ele preenche de amor e alegria a minha vida?
Podemos ser testemunhas com pequenos gestos: não se envergonhando da própria fé, não tendo medo de fazer um sinal da cruz, principalmente diante de alguém que mostra descaso com as coisas de Deus. Também posso ser testemunha, falando às pessoas que encontro todos os dias, toda a nossa expectativa alegre pelo Natal que se aproxima, que não é só festa, presente, férias, mas a alegria de comemorar que um dia Deus quis se encontrar conosco através de seu Filho Jesus Cristo.
Outro tema que o texto me fala é o da humildade de João Batista. Este declara a inutilidade do seu batismo, já que é só um sinal. O verdadeiro batismo é aquele do Senhor que com o seu sacrifício cancelou o pecado e as suas conseqüências. E também Jesus Cristo nos ensinou que no caminho para a verdade não há lugar para a soberba, quando quis ser batizado por João. A humildade de João contrasta fortemente com a índole soberba de quem não quer reconhecer o Senhor vindo em meio a nós de modo humilde e quieto. Os orgulhosos e os soberbos não o reconheceram como também não acolheram os profetas.
A resposta: não sou eu o Cristo, é clara e humilde. Pois, ele poderia ter se exaltado como precursor, mas disse que não era digno nem mesmo de desatar as sandálias dos pés de Jesus. Com humildade, João sabia quem era e qual era o seu lugar. Eu também devo saber quem sou e qual é o meu papel. Por isso, tenho que me perguntar constantemente: quem sou eu? Quais são os meus gostos, minhas aspirações, meus medos? Procuro sinceramente conhecer a mim mesmo e ser eu mesmo? Ou deixo de ser eu mesmo para fingir ser uma pessoa que corresponda às expectativas dos outros? Reconheço que tenho uma missão na vida cristã? E, por isso, reconheço que minha vida deve ser um esforço constante para ser coerente com a minha vida cristã? Como posso ser profeta numa sociedade onde existem tantas prisões espirituais?
Hoje, o domingo gaudete (alegrai-vos), convida através de São Paulo a estarmos sempre alegres até a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo; o profeta Isaías convida à alegria o povo liberto da escravidão: a alegria aos prisioneiros do pecado para poder renovar o mundo com novos rebentos. Também Maria com o cântico do Magnificat louva e se alegra em Deus pelas grandes maravilhas que o Senhor operou na sua vida. E eu? Testemunho essa alegria não obstante a atmosfera pessimista, medrosa e desencorajadora do mundo de hoje?

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

2º Domingo do Advento - Ano B - Marcos 1,1-8


Endireite-se o que é torto e alisem-se as asperezas
Leitura (Lectio)
O Evangelho deste 2º domingo do Advento apresenta os oito primeiros versículos do evangelho de Marcos que começa assim: “Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”. O vocábulo evangelho vem do grego “euangelion” e significava nos tempos antigos uma boa notícia ou uma boa mensagem trazida por um mensageiro a um rei e a seu povo. No texto que estamos analisando, esta boa notícia (evangelho) é, na verdade, a maior e melhor notícia que o mundo pôde receber: Deus resolve enviar seu único Filho para salvar a humanidade. Jesus Cristo vem se encontrar com o ser humano para voltar a uni-lo com Deus do qual havia se separado por causa do pecado.
Pois bem, Marcos começa sua obra indicando que todo o seu conteúdo é o anúncio da boa notícia da vinda de Jesus Cristo. É a partir daí, que o vocábulo grego evangelho se torna sinônimo de gênero literário para as obras dos quatro evangelistas.
Logo em seguida, nos versículos posteriores, o texto diz respeito à obra de João Batista. E embora Jesus não apareça ainda, pelo primeiro versículo que vimos acima, já sabemos que toda a obra de João só encontra sentido se conectada a Jesus.
Para entendermos a importância de João na missão de Jesus, é preciso conhecer um costume antigo oriental: quando num determinado lugar se esperava a chegada de um rei ou de uma pessoa importante, havia todo um trabalho nas estradas de forma que quando o rei viesse, elas estivessem boas, acolhedoras, sem perigos, sem buracos nem outros incômodos. Como vemos, as leituras de hoje têm essa linguagem rica em símbolos e é necessário assimilá-los para uma compreensão correta da missão de João.
Na 1ª leitura, por exemplo, Isaías anuncia: “preparai no deserto o caminho do Senhor, aplainai na solidão a estrada do nosso Deus... endireite-se o que é torto e alisem-se as asperezas... então a glória do Senhor se manifestará”. Para receber o Salvador, é necessário preparar o caminho, endireitar a estrada e foi isso o que João Batista como mensageiro de Deus veio exortar.
João grita e renova a mensagem do profeta Isaías que consolava o povo, quando era escravo em terra estrangeira. Anuncia que para se preparar para a vinda do Messias, endireitar a estrada se faz através da conversão, da confissão dos pecados, do batismo e da remissão dos pecados e tudo isso implica na relação do ser humano com Deus. Tudo começa com a conversão quando o homem se destaca do agir errado, voltando novamente a Deus e escutando a sua Palavra. A conversão se demonstra na confissão dos pecados: o homem admite as suas faltas e reconhece estar necessitado da purificação e do perdão.
João tem um grande número de seguidores, mesmo se a sua atuação não é costumeira sob dois aspectos: não é ele quem vai atrás das pessoas como faziam os profetas, mas são as pessoas que vão até o deserto para escutá-lo. Segundo, ele os batiza na água. Este modo de agir é tão original que ele fica conhecido como o Batista, e não somente nos escritos bíblicos, mas inclusive assim é citado por Flávio Josefo, historiador da época.
O v. 6 diz respeito ao alimento e à roupa de João. Mostram claramente que ele se satisfaz com o mínimo indispensável, já que para ele Deus está no centro de tudo. As suas vestes o vinculam a Elias (o meu Deus é Javé), para mostrar que assim como este profeta, João está totalmente a serviço de Deus.
Na proclamação que diz respeito diretamente a Ele, Jesus é definido com relação ao seu poder, que é incomparavelmente superior em dignidade também ao “maior dos nascidos de mulher” que o precedeu (João), e só Ele pode fazer participar do maior presente: a vida divina, a vida em comunhão com Deus. Já a partir desta preparação, e em força desta, a vinda de Jesus se põe como a vinda de Deus mesmo. Jesus é mediador entre Deus e os homens. Vem de Deus, e nele vem Deus, acolhendo a humanidade na vida divina.
Quanto ao batismo de João, não obstante o seu grande valor, reduz-se a um batismo de água, a uma imersão que ajuda a tomar consciência até que ponto o homem tem necessidade de Deus para ser salvo. O batismo dado por Jesus é radicalmente diferente, porque emerge o homem no Espírito de Deus, que é um Espírito de santidade e de vida.
Meditação
Continua para nós o advento de Jesus com o convite de João Batista a estarmos prontos para acolher dignamente o Senhor. O vigiar torna-se um doar-se, um trabalhar a estrada, dentro da própria consciência, na própria experiência espiritual e humana e nas situações nas quais nos encontramos na vida. Requer-se um empenho muito sério, constante, porque não é fácil construir uma estrada e mantê-la. Basta lembrar os asfaltos de nosso Brasil que se não estão em constante reparo, estão repletos de buracos para dificultar o nosso trajeto. O que está torto na nossa vida precisa ser endireitado. O que há dentro de nós que não está segundo o pensamento do Senhor na vida da sociedade é preciso ajeitar. Se endireite! É o conselho que os mais maduros dão às crianças quando agem com pirraça. É o que nos diz Isaías e João Batista. Que possamos nos libertar das asperezas dos pensamentos impuros, hipócritas, injustos, falsos, medíocres, dos sentimentos negativos, das escolhas mal feitas por causa do egoísmo, da indiferença, da inveja, do carreirismo, das brigas, da falta de diálogo, do pecado de omissão para que Jesus possa se dirigir ao nosso coração e encontre espaço nele, onde possa habitar.
Para isso, posso me perguntar?
Para mim, o conhecimento do Evangelho é em verdade uma “Boa Notícia”, uma Grande Notícia que me contagia e me transforma? Ou é uma notícia a mais em meio a tantas notícias? Ou pior, ainda não tenho consciência de que é a maior e melhor notícia para mim?
Se o Evangelho é uma boa notícia, porque tantos não se deixam transformar por ele?
Sou consciente de que hoje temos acesso a um sem fim de notícias e que na grande maioria são notícias más? Por que há tantas más notícias?
Quanto tempo dedico a conhecer a Boa Notícia e quanto tempo dedico a anunciá-la?
Sou consciente que pelo Batismo estou “submergido” no mistério da Trindade, e que através dele, Deus me convida e me capacita a dar testemunho de sua Palavra?
Hoje, ainda há milhões de pessoas que não tiveram o seu encontro pessoal com Cristo e não são conscientes do que ele significa na nossa vida. Sou consciente que na medida em que anuncio a Boa Notícia, estou cumprindo com o que Ele me pede de endireitar os caminhos, principalmente o meu?
Oração (espontânea) - Contemplação (espontânea) - Ação
Se você quiser partilhar estes momentos, especialmente dizer o que o texto de hoje suscitou em você como gesto concreto em preparação para o Natal do Senhor, deixe aqui seu comentário.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

1º Domingo do Advento - Ano B - Marcos 13, 33-37


ADVENTO
No novo ano litúrgico que começa hoje, será proclamada a cada domingo uma passagem do evangelho de Marcos, o qual oferece um retrato do Jesus histórico e que é a base dos evangelhos de Mateus e Lucas. Podemos dizer que Marcos é o evangelho mais original entre os evangelistas, pois foi o primeiro a ser escrito: todo centralizado sobre o segredo messiânico, isto é, à luz da Páscoa revela progressivamente o mistério do homem Jesus, o Cristo esperado, mas também inesperado Filho de Deus.
Deste modo, hoje começamos a viver um novo tempo: o tempo do Advento. Advento, do latim, adventus, significa chegada, vinda, e por isso, também o que envolve a chegada, como a espera, a busca, a vigilância, o fazer-se próximo, o aproximar-se de Deus da nossa vida: “Senhor, tu és o nosso pai, nosso redentor; vens ao encontro de quem pratica a justiça com alegria, de quem se lembra de ti em teus caminhos” (Is 63,16b; 64,4).
O Advento, no início do ano litúrgico, é cheio de alegria e esperança. Porque enquanto nós lembramos e comemoramos a primeira vinda de Jesus, nos empenhamos a viver o presente como tempo de responsabilidade e de vigilância. De fato, Jesus já veio uma vez e o Natal é a comemoração desta vinda, mas Jesus virá novamente, e o tempo de Advento nos faz viver esta espera.
Como ajuda para compreendermos e vivermos a Palavra de Jesus que nos leva à plenitude de vida, neste primeiro domingo do Advento, apresento de forma breve e clara os passos para uma correta lectio divina, que pode ser feita tanto individualmente como em grupo (círculo bíblico).
Mas o que é a lectio divina? A Palavra de Deus é base para a oração. A oração é a resposta a Deus que se comunica conosco a cada momento. E, por ser um diálogo, essa resposta deve levar a uma mudança de mentalidade e de vida, à conversão, pois todo diálogo muda a visão precedente, caso contrário seria monólogo. Assim, a oração é um diálogo onde Deus é sempre quem toma a iniciativa e o ser humano responde.
O Sínodo dos Bispos realizado em outubro deste ano no Vaticano favoreceu a Lectio Divina ou a “leitura orante da Sagrada Escritura” como uma forma altamente eficaz da escuta e da vivência dessa Palavra que transforma a nossa vida pessoal e da comunidade na qual estamos inseridos.
O Papa Bento XVI ao término do Sínodo acrescentou: “uma boa exegese bíblica (interpretação de um texto bíblico) exige tanto o método histórico-crítico como o teológico, porque a Sagrada Escritura é Palavra de Deus em palavras humanas. Cada texto, portanto, deve ser lido e interpretado tendo presente a unidade de toda a Escritura, a viva tradição da Igreja e a luz da fé. Exegese científica e lectio divina, portanto, são ambas necessárias e complementares para buscar, através do significado literal, o espiritual, que Deus quer comunicar a nós hoje”.
1. LEITURA (LECTIO): O que diz o texto?
Este primeiro momento consiste numa leitura do texto bíblico a fim de compreender o significado que o autor original quis comunicar aos seus leitores. É útil ler o texto várias vezes e em traduções diferentes para se ter uma compreensão mais profunda do relato. Para esta parte da lectio, os comentários exegéticos podem ser de grande ajuda, especialmente para não se cair no erro de uma interpretação arbitrária do texto bíblico.
Interpretação do texto:
“Cuidado! Ficai atentos!” Este pedido de Jesus aos discípulos para que percebam com um olhar lúcido e apurado aquele que vai chegar e o momento no qual vai chegar atravessa todo o seu discurso no trecho do evangelho de hoje. Com isso, Jesus quer que seus discípulos dêem uma justa interpretação e não se deixem enganar. A ênfase é clara. São quatro vezes em poucos versículos que Jesus os exorta a vigiar. Verdadeiramente, é muito importante estar acordados.
No v. 32 que não aparece no nosso texto, Jesus já tinha afirmado que só o Pai conhece a hora. Dirigindo-se aos quatro discípulos com quem ele fala no relato, ele lembra-lhes que não sabem quando o Senhor virá, e liga esta exortação ao fato de estar sempre acordado. Ele até faz uma comparação para facilitar: os discípulos são os empregados cujo patrão saindo para viajar, confia a eles o cuidado de sua casa, dando a cada um uma tarefa bem precisa, incluindo o porteiro que literalmente tem a tarefa de vigiar. E, justamente, porque esses não sabem quando o dono da casa vai voltar, devem estar sempre prontos, vigilantes para a sua chegada. Pode ser que o patrão chegue a qualquer hora: à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer. A casa está sem o patrão, mas os empregados devem viver como se ele estivesse presente. Enfim, tudo na sua casa fala dele, cada ângulo e cada situação. Quem serve animado pelo amor, respira uma familiaridade e partilha de vida que faz da espera do retorno um momento de plenitude.
Obviamente, este “vigiar” não significa que os discípulos de Jesus tenham que ficar sempre acordados, não possam se deitar pra dormir, o que é fisicamente impossível. Mas, devemos entender este vigiar como uma metáfora que indica estar atento e em oração constante: Vigiai e orai (14,38). Assim, vigiar significa que quem é discípulo de Jesus deve reconhecer continuamente seu estado de servo com relação ao patrão, a quem estão ligados pela tarefa recebida dele e dever viver e agir de acordo com este comportamento.
Mas devemos ter cuidado com uma coisa: se como o patrão não está visivelmente presente, existe sempre o perigo de esquecer-se dele e da tarefa que ele encarregou, o perigo de se achar patrão e de agir segundo os próprios caprichos, e aí a coisa está muito errada por parte do empregado.
Os empregados que vigiam estão sempre ligados ao seu chefe e sempre prontos a prestar-lhe contas de tudo.
Jesus termina o discurso enfatizando e estendendo a todos a sua exortação: “o que vos digo, digo a todos: vigiai! Todas as pessoas, sem exceção, se encaixam nesse “todos” que sai da boca de Jesus.
2. MEDITAÇÃO: o que me diz o texto? O que nos diz o texto?
Este momento consiste numa reflexão sobre a finalidade última do texto. O que o texto quer me dizer hoje? Aqui, deve-se ter muito cuidado para ver o que o texto realmente me diz e não o que eu quero que o texto me diga; isto se consegue quando se está de acordo com o significado original do texto que já deduzimos no momento da leitura.
Eis algumas pistas para ajudar a fazer a meditação de hoje: não sabemos quando será o momento preciso. Para o homem moderno que tudo quer saber, esta palavra é libertadora. A espera cria espaços profundos na pessoa, abre a novidades, e a memórias eficazes. Sou consciente de que todas as coisas que tenho ou com as quais estou envolvido um dia desaparecerão para sempre? Estou preso à moda, a um certo status, a ter muitas coisas, a causar inveja, ao poder, ao prazer, ao possuir, ao dinheiro? Sou consciente de que todas estas coisas acabarão um dia e que só a Palavra de Deus que é o próprio Jesus Cristo permanecerá para sempre e só o que permanecer nele, poderá também permanecer para sempre? É um incômodo para mim, fazer este encontro diário com Jesus através de sua Palavra? Dou-me conta de que a religião não é um formalismo nem um ritualismo, mas algo que me faz ser uma pessoa melhor? O que significa hoje, em minha vida o convite de Jesus: “Ficai atentos!” de que modo posso vigiar hoje? Sou consciente da necessidade de estar sempre preparado, enquanto espero a vinda gloriosa de Jesus? O que isso implica no meu comportamento perante Deus e o meu próximo? Estou pronto a encontrar Deus no meu próximo?
3. ORAÇÃO: o que digo a Deus? O que dizemos a Deus?
Este momento consiste na oração que nasce da meditação. É uma espontânea reação do coração em resposta ao texto. É um pedido de ajuda a Deus para reconhecer o que o texto suscitou em mim e para responder a essa provocação.
4. CONTEMPLAÇÃO: como interiorizo a mensagem? Como interiorizamos a mensagem?
A contemplação consiste na adoração, no louvor e no silêncio diante de Deus que está falando comigo. A verdadeira contemplação cada vez mais me revelará quem eu realmente sou e, ao mesmo tempo, revela Deus que se revela a esta melhor compreensão do eu. Na medida em que estou contemplando, liberto-me do perigo de impor ao texto uma interpretação minha, egoísta, longe do que realmente Deus quer me revelar. Finalmente, Deus me convence que estou errado e que sou capaz de mudar.
5. AÇÃO: com que me comprometo?
Escolha concreta de uma ação a cumprir. O Espírito Santo que inspirou os autores sagrados me inspira quando eu escuto a Palavra, me capacita e me convida a colocar em prática aquilo que eu escolhi.
Proponho-me neste tempo de preparação a fazer um sério exame de consciência. Confrontar todos os dias o que eu faço com o estado de vigilância. Busco sempre o perdão de Deus?
É preciso perceber que um tempo novo começou e, portanto, ter esse desejo de ser vigilante. O que podemos fazer em comunidade para mostrarmos aos demais que estamos em tempo de espera? Tanto como algo interior, mas também de forma visível, favorecendo as obras de caridade e misericórdia.
PARTILHE COM TODOS O QUE A LEITURA DO EVANGELHO DESTE DOMINGO SUSCITOU NO SEU CORAÇÃO! DEIXE AQUI SEU COMENTÁRIO. ELE SERÁ DE GRANDE PROVEITO PARA TODOS NÓS.

sábado, 22 de novembro de 2008

FESTA DE CRISTO REI – Mt 25,31-46


Foi a mim que o fizestes!
Com a festa de Cristo Rei, chegamos a mais um final de ano litúrgico. Durante este, a cada domingo acolhemos os ensinamentos de Jesus através dos escritos do evangelista Mateus. Hoje, a liturgia apresenta uma mensagem clara de recapitulação, que se projeta sobre o passado, o presente e o futuro da vida humana.
A festa que celebramos tem a finalidade não tanto de nos dizer que Jesus é rei, mas de nos mostrar que a natureza do seu reinado é completamente diferente daquela com as quais nós estamos habituados. Vejamos:
Na I leitura, Ezequiel, decepcionado com os pastores de Israel (reis, sacerdotes e mestres) que só pensam em si mesmos e deixam o rebanho se perder, sonha com um pastor diferente: um pastor que não “disperse”, mas “reúna”; um pastor que conduza ao pasto as suas ovelhas e as faça repousar; que procure a ovelha perdida e faça os curativos naquela que se encontra ferida. São traços de um pastor que encontramos no Evangelho, em Jesus Rei Messias. Um rei que é rei para os outros: sua realeza é dom de si mesmo e serviço, não domínio, prefere os pobres e fracos, não os fortes.
Quanto ao Evangelho, o do domingo passado nos dizia que tudo o que somos e tudo o que temos é um bem que nos foi confiado; que não devemos desperdiçá-lo, mas empregá-lo com bom senso e de acordo com a vontade de Deus. Qual seja a vontade de Deus e qual serviço ele nos pede, nos diz Jesus hoje com as suas palavras sobre o “juízo final”: toda ajuda que prestarmos ao próximo necessitado é a ele mesmo que estamos fazendo. E quando ele fala em juízo final, ele não quer nos impor medo, só quer que tenhamos um comportamento correto encaminhado para o futuro, para a vida eterna e não para a ruína eterna.
Pois bem, o texto evangélico começa mostrando uma imagem escatológica da vinda gloriosa do Filho do Homem que se assentará no seu trono. Em seguida, mostra a convocação de todas as pessoas e a separação dos que herdaram o reino e dos que ficaram de fora.
Quanto a esta separação entre os que são bem vindos no reino, figurados por ovelhas (direita) e aos que se auto-excluíram, os cabritos (esquerda), a grande insistência cai sobre as obras de misericórdia (a acolhida ou a rejeição aos necessitados), que o texto enumera quatro vezes. O juiz é chamado “Filho do Homem” e “Rei” e os interlocutores o reconhecem como “Senhor”.
A apresentação é, portanto, solene e gloriosa, e ninguém pode negar que este rei seja Jesus de Nazaré, aquele que foi perseguido e crucificado, rejeitado, e que na sua vida partilhou em tudo a fraqueza da condição humana: a fome, a nudez, a solidão, a prisão, a calúnia. Um rei que se identifica com os mais humildes, os mais fracos. É um rei que vive sob os despojos dos desconhecidos: sob roupas esfarrapadas de seus pequenos irmãos. Jesus é um Rei glorioso, mas a sua glória não é o triunfo da glória, do poder e do domínio, mas da cruz como símbolo da vitória do amor e da doação de si mesmo pelo próximo.
Quem tiver ajudado Jesus numa situação de necessidade, será aprovado por ele no juízo final; quem o tiver deixado na sua situação de necessidade, deverá calar-se diante do seu juízo. Por um instante, todos nós no juízo final, diz o texto escrito no futuro, perguntaríamos ao próprio Jesus onde foi que o encontramos nestas condições. E ele nos responderá: em cada pessoa necessitada que tivermos encontrado. Por isso, toda ajuda feita a um necessitado, tem um valor imortal. Por trás de cada pessoa, e exatamente por trás de cada pessoa pequena, fraca, provada, aí está Jesus.
Ajudar o próximo necessitado é uma tarefa fácil, segundo a capacidade de cada um. O que não podemos é passar de lado se afastando ou recuando diante de quem está na precisão. É interessante notar também que Jesus não diz: eu estava enfermo e vocês me curaram; eu estava na prisão e vocês me libertaram. Às vezes, ele nos pede só uma palavra de conforto, e até isto nós nos recusamos fazer.
Há tantos tipos de necessidades: corporais, psíquicas ou espirituais. A primeira coisa que temos que fazer é percebermos a necessidade de cada pessoa que se apresenta diante de nós. Cada empenho nosso desinteressado de ajuda, de serviço, de encorajamento é feito ao próprio Jesus e é plenamente reconhecido por ele. Madre Teresa, um dos maiores exemplos da nossa atualidade, sabia identificar Jesus nos mais pobres entre os pobres e dizia sempre, que de todas as necessidades, a maior doença do mundo atual é a falta de amor. O nosso amor ao próximo, e, em especial, aquele necessitado, é a medida do nosso amor a Deus.
Enfim, ainda é bom lembrar que pela parábola, pudemos ver que nenhum daqueles que praticou obras de caridade em favor do próximo se deu conta de tê-las feito a Jesus. Isto é muito importante: é um convite do Evangelho para que pratiquemos o bem ao irmão necessitado movidos por um amor desinteressado, já que se atuarmos sempre em vista de uma recompensa, de uma vantagem, o nosso amor ainda não é verdadeiro.

sábado, 15 de novembro de 2008

Ex 20,4-5


No domingo, 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, um leitor me perguntou o significado da passagem bíblica: Ex 20,4-6. Hoje, arranjei um tempinho e respondo com muito prazer.
O texto diz: 4 Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. 5 Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. 6 E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.
Para começar, temos que ler os dois versículos anteriores que fazem parte de um todo: 2Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. 3 Não terás outros deuses diante de mim.
Pois bem, diante de um mundo politeísta, onde as pessoas daquele período em que foi escrito o Antigo Testamento adoravam vários deuses. Reconheciam que havia um deus para cada campo da vida humana, sendo um dos principais o deus Baal, bem próximo do povo, com estas ordens, Deus quer fazer entender que não existem outros deuses, mas somente UM, ele, Javé. Em seguida, nos versículos 4,5,6: Deus explica que o ser humano representou de vários modos estes deuses em esculturas; mas Ele, o único e verdadeiro Deus está tão acima dos nossos conhecimentos. Seria um absurdo querer fazer uma imagem de um Deus tão imenso, invisível, seria querer reduzir a grandiosidade de Deus a uma estatura ou pintura que cada um pudesse fazer. Enfim, o mandamento bíblico proíbe de construir estátuas, mas com duas indicações: a primeira é que elas são proibidas quando se refere a representar Deus; a segunda é que sejam fabricadas estátuas de Deus com a intenção de adorá-las como ídolos.
Pronto, está aí a explicação, que em poucas palavras, significa que Deus querendo instaurar o monoteísmo num mundo completamente politeísta (crença em vários deuses), proibiu que ELE fosse representado por qualquer escultura ou pintura com a intenção de ser adorado através dessa escultura, pois até aquele momento Deus não tinha se revelado numa imagem que podemos ver como Jesus se revelou na imagem de homem, e o Espírito Santo na imagem de uma pomba, de línguas de fogo etc. Para ver que Deus nunca foi contra imagens, no próprio Antigo Testamento, temos várias passagens, inclusive uma depois dessa que estamos explicando, na qual, ele manda Moisés construir uma serpente de bronze e para que todo aquele que olhasse para ela vivesse (Conferir: Números 21,8-9). Isto é, podemos construir à vontade imagens de qualquer material, pinturas, fotografias, estátuas das pessoas que amamos, e inclusive dos santos que deram tanto testemunho e exemplo para nós.
Enfim, temos que interpretar cada passagem de acordo com o tempo em que foi escrito cada trecho que corresponde a uma realidade em desenvolvimento até Jesus Cristo. Para confirmar, nesse mesmo trecho de Ex 20, 5: o próprio Deus se autodenomina ciumento e vingativo, castigador, quando no Novo Testamento Jesus afirma que seu Pai não castiga ninguém; basta ler Lc 13, 1-5 juntamente com o episódio do cego de nascença (quem pecou para que nascesse cego? Jo 9,3).
Espero ter esclarecido suas dúvidas, prezado leitor! Um bom domingo!

XXXIII DOMINGO COMUM – Mt 25,14-30


Fiéis e responsáveis
O termo “talento” entrou na nossa linguagem comum como indicativo de habilidades e capacidades de cada um e, portanto, o dever de desenvolvê-lo, fazendo-o crescer, exatamente como se faz no campo econômico onde é preciso investir sabiamente para se ter um bom proveito.
Mas, no Evangelho deste domingo, a parábola que Jesus conta a seus discípulos designa com o termo “talento” um significado anterior ao usado hoje em dia: o patrão “deu a cada qual de acordo com a sua capacidade”. Então, o talento em ouro ou prata era a unidade de moeda grega e depois romana para grandes quantidades de dinheiro (equivalia a 6.000 dracmas), e que por isso, significava na parábola as responsabilidades e os deveres que nos são confiados e em torno dos quais gira a nossa vida. Por exemplo, quais as responsabilidades de um pai de família, uma mãe de família, um padre, um agente de pastoral, um missionário. Há responsabilidades grandes e pequenas, nem todos receberam o mesmo, pois a medida de Deus é diferente da nossa.
Deus nos confia vários talentos, ele nos entrega a vida não como um peso nem como um castigo, mas como um dom, uma graça, uma bênção e uma grande oportunidade para nós e para os outros. Dentro desses talentos, está o da nossa responsabilidade de cristãos. Sermos testemunhas do Evangelho, de vivermos esse Evangelho com garra dentro da realidade da nossa vida diária.
Mas, muitas pessoas hoje convivem com o problema de uma sociedade que exige tanto que elas se sentem inadequadas e incapacitadas. Deus nos conhece profundamente e não nos dá tarefas que não possamos realizá-las. Por isso, devemos ter uma estima sadia de nós mesmos antes de tudo porque existimos e somos fruto de um amor que quer que olhemos a vida como o nosso maior empreendimento.
O Evangelho deste domingo é muito claro; logo de cara, vemos que Jesus quer chamar a nossa atenção para o terceiro servo. Mas vamos falar também um pouco dos dois primeiros. No geral, a parábola nos mostra que somos dependentes de Deus e que somos obrigados a prestar-lhe contas; tudo o que temos é um bem que nos foi confiado, que não podemos usá-lo do jeito que bem entendermos, mas devemos empregá-lo da maneira como Deus quer que o usemos. Através do comportamento e do destino dos dois servos bons e fiéis, Jesus nos faz ver como devemos lidar com a nossa situação atual; através do comportamento e do destino do servo mau, Jesus nos esclarece como uma pessoa com estas características vai acabar. Isso deve nos convencer a se afastar de um comportamento semelhante.
A este servo mau se opõe também claramente a sabedoria do livro dos Provérbios (I leitura), mostrando a figura admirável da mulher forte. Ela é habilidosa e generosa. Trabalha e se empenha em tudo o que faz sem se deixar levar pela beleza externa (passageira). À luz do Evangelho podemos dizer que a ela Deus confiou o talento da vida familiar. Um talento que tantos consideram pequeno, dona do lar, mas que na verdade todos sabem que é um talento enorme.
Tudo o que Deus nos confia nesta vida não pode ser enterrado nem desperdiçado. Os nossos talentos devem ser investidos em favor de todos, não só de nós mesmos. E temos que enfrentar os riscos, pois seja lá o que for, casar, ter filhos, ser padre, ter fé, pregar, testemunhar, é arriscado. Mas se não arriscarmos, não avançaremos nem cresceremos nunca na vida, ficaríamos como o terceiro servo.
O coração da parábola e a chave que poderia desbloquear a situação do terceiro servo é justamente a relação entre ele e o patrão, entre cada um de nós e Deus. Enquanto os dois primeiros servos se sentiram estimulados para agir e não tiveram medo do patrão porque o conheciam e confiavam nele, o terceiro permaneceu condicionado somente pelo medo e ficou paralisado. Ele tem uma relação falsa com o seu patrão, uma imagem errada de um Deus como um juiz duro e implacável. Teve medo de perder o talento, de ser julgado e condenado por isso. E assim não quis sujar suas mãos, teve medo de errar, de se arriscar, ficou preguiçoso, acomodado, se fechou.
Mas o amor tem a capacidade de mover a vida, e o amor de Deus pode nos levantar para assumirmos a responsabilidade de uma vida sem fugas e sem temores, com coragem, paixão e iniciativa. A consciência de que Deus no final nos pedirá contas dos frutos da nossa vida não nos deve fazer medo, mas pode ser uma justa provocação para não nos acomodarmos e podermos participar da alegria de Deus.

sábado, 8 de novembro de 2008

SOLENIDADE DA BASÍLICA LATERANENSE - Jo 2,13-22


SOMOS O SANTUÁRIO DE DEUS
Neste domingo, com uma solenidade particular, recordamos e celebramos a Dedicação da Basílica de São João do Latrão, a Catedral de Roma, a mãe e cabeça de todas as igrejas (Roma) e do mundo. Construída pelo imperador Constantino em 325, foi sede oficial do bispo de Roma até o século XIV. Comemorar a dedicação desta casa de Deus tão importante para todos os cristão faz refletir sobre o papel do templo judaico e como Jesus o elevou.
O templo na história do povo de Israel tinha uma importância vital. Situado na cidade santa de Jerusalém, era considerado o lugar mais sagrado da presença de Deus. Depois, infelizmente, destruído, até hoje restam os muros do Templo onde os judeus costumam se lamentar. O templo era um lugar tão sagrado que até hoje qualquer igreja católica antes de ser admitida a lugar de culto, é consagrada com uma liturgia especial para ser usada pelos fiéis para as celebrações da sagrada liturgia e para a oração.
No Evangelho de hoje, Jesus nos fala de um novo templo, isto é, um novo lugar de encontro com Deus. No templo de Jerusalém, Jesus se desentende com os vendedores de animais e cambistas que pensam somente nos seus próprios interesses. O comércio que era permitido pelas autoridades religiosas e pelo sumo sacerdote Caifás para fazer concorrência ao mercado operado pelo Sinédrio próximo ao Cedron, provocou uma dura reação em Jesus, que constata amargamente o caráter profano assumido pela festa da “Páscoa dos judeus”. Mercado se opõe a casa. No mercado se fazem negócios, não é um bom lugar onde se possa encontrar Deus.
E com seu gesto de reprovação: “Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!”, Jesus quer fazer entender a todos que o templo deve retornar a ser a casa do “meu Pai”. O gesto violento de Jesus deve ser lido à luz dos textos proféticos: “E de repente chegará ao seu templo o Senhor que vós estáveis procurando, o mensageiro da Aliança” (Ml 3,1); “naquele dia não haverá mais comerciantes dentro da Casa do Senhor dos exércitos” (Zc 14,21). Também se refere a esta atitude de Jesus os textos proféticos nos quais Deus diz não se agradar de um culto externo feito de sacrifícios de animais e baseado sobre o interesse pessoal (Am 5,21-24).
É interessante notar como aqui Jesus no início de Jo chama pela primeira vez Deus “meu Pai” e fala do templo como a casa do seu Pai. Ele, como Filho, purifica da profanação do comércio a casa de seu Pai antes de tomar posse dele, pois “o zelo por tua casa me consumirá”. Jesus cita o salmo 69,10, colocando o verbo no futuro. Jesus se sentirá tão consumido por este zelo que o faz cumprir agora sua missão com extrema radicalidade.
Ao pedido de um sinal, Jesus responde prometendo o maior de todos os sinais, a sua ressurreição: “Destruí este templo, e em três dias o levantarei”. E o evangelista esclarece: “mas Jesus estava falando do templo do seu corpo”. Cristo ressuscitado é o novo templo, o único lugar da presença de Deus entre os homens, o templo do qual jorra uma fonte de água que vivifica (I leitura). Naquele momento, os discípulos não compreenderam o significado profundo deste episódio, mas depois da ressurreição de Jesus, foram iluminados pelo Espírito sobre tudo aquilo que Jesus lhes tinha dito e “acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus”.
Como pudemos notar, João não nos abandona junto às ruínas do velho templo, mas nos indica o novo santuário de Deus. O Templo sempre atual e duradouro é o corpo de Cristo ressuscitado dos mortos. Deus aparece num corpo real, humano, carregado de glória divina. O Deus conosco é para sempre Jesus ressuscitado.
O valor e a sacralidade do templo dependem, portanto da verdade e pelo espírito que o anima. É o lugar da comunhão com Deus e entre nós, irmãos e parte de um único Corpo. Hoje deveríamos reforçar o propósito de respeitar o lugar sagrado, onde celebramos os divinos mistérios, rever os nossos comportamentos e, sobretudo nos interrogarmos se somos conscientes que formamos o Corpo de Cristo, o Santuário de Deus e que o Espírito de Deus mora em nós.
Que o recolhimento e a intimidade que se encontram na nossa igreja contribuam para que semanalmente ela seja o lugar de encontro e de comunhão da inteira comunidade eclesial que escuta a Palavra de Deus, comungando juntos o Banquete Eucarístico para viver a comunhão com o mesmo Senhor e entre todos os membros do Corpo que o compõem.

sábado, 1 de novembro de 2008

FIÉIS DEFUNTOS – Jo 6,37-40


Morte: porta para a Vida

Cada vez que vamos a um enterro, nos damos conta claramente que nos encontramos na escola da vida, e que os ensinamentos que a morte de uma pessoa nos dá são tão fortes que nunca conseguimos esquecer. Os seus ensinamentos são tão tocantes que exercem grande influência na nossa vida e no profundo da nossa alma. Isto porque a morte nos obriga a morrer a cada dia: os problemas pessoais de saúde mostram isso. Se pensarmos, na verdade, cada aniversário nosso significa que estamos mais próximos da morte. Mas, se tivermos a persistência de colher tudo de bom que ela tem a nos oferecer, com certeza veremos que tudo aquilo que num primeiro momento parece perdido é recuperado, ao ponto até mesmo de ver que mais nada será perdido. Quando nós cristãos, nos damos conta que a morte nos educa ao verdadeiro sentido da vida, não à vida que nós queremos, mas à vida que Deus quis que vivêssemos, que ela tem um valor bem maior, então não temos mais porque nos desesperarmos perante a morte, mas sim nos enchermos de esperança.
Existe tanta injustiça nesse mundo terreno, e a morte ensina que todos somos iguais: dela ninguém pode escapar, nem com poder, nem com dinheiro, nem com amizades. Não há nada que se possa fazer. Nada pode fugir ao seu toque. Aqueles que não têm fé, também têm que enfrentar este medo e mistério que é a morte. Mas há uma diferença: enquanto os ateus buscam em vão o seu sentido, nós o encontramos na Palavra de Cristo nosso Senhor. Assim, o dia da morte não será um dia de tristeza nem de desespero, mas de esperança, porque a morte não é o fim, mas um confim, uma fronteira; a morte não separa, ela nos reúne com Deus e com todos aqueles que já fizeram esta passagem; Jesus, com a sua morte, pagou um preço caríssimo para nos libertar do pecado e da morte e trazer da morte para cada um de nós, a vida, a ressurreição.
Nos diz o salmista neste domingo: “O Senhor é minha luz e salvação. De quem eu terei medo? O Senhor é a proteção da minha vida. Perante quem eu tremerei?” É esta a verdade que brota no nosso coração, e que nos faz pôr toda a nossa esperança no Senhor: “ao Senhor eu peço apenas uma coisa, e é só isto que eu desejo, habitar no santuário do Senhor, por toda a minha vida, saborear a suavidade do Senhor e contemplá-lo no seu templo”.
Às vezes, podemos até cair na besteira de pensar que sozinhos nos bastamos, ou que só os outros morrem ou que a nossa morte vai demorar séculos para chegar; pensar que não precisamos de horizontes que encham de sentido o nosso morrer ou nos iludirmos de que o ter a vida seja parecer, ter, poder. Mas a luz que a revelação de Deus estende sobre a nossa existência, a luz que sai do túmulo de Cristo Ressuscitado, a orientação luminosa que Deus pôs no nosso coração, mesmo que os olhos se encham de lágrimas pela sensação de perca que a morte inclui, nos faz dizer como Jó, o homem que bebeu até o fim o cálice amargo da dor, da solidão, da falência: “depois que tiverem destruído esta minha pele, na minha carne (e, portanto o nosso “eu”), verei a Deus. Eu mesmo o verei, meus olhos o contemplarão, e não os olhos de outro”.
Esta luz se faz plena nas palavras de Jesus, aquele que veio revelar os segredos do Pai, comunicar a vida de Deus e executar a vontade do Pai: “Esta é a vontade do meu Pai: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, nada, nem mesmo o nosso ser de carne, mas o ressuscite no último dia”.
Deus nos chamou à vida não pela morte, mas passando através do Filho que é a porta, nós recebemos o prêmio da liberdade para acolhê-lo, a sua Palavra, o seu chamado, os seus dons que ele pôs na vida de cada um e que significam felicidade eterna.
“Deus”, diz São Paulo, “dá uma prova de amor por nós porque quando ainda éramos pecadores, Cristo deu a sua vida para que tivéssemos a vida”.
Hoje é dia de lembrarmos os nossos mortos, lembrarmos a vida que Deus dá a todos quantos ele chamou a si. Hoje podemos sentir a paz, a plenitude dos bens de Deus. Hoje cada um dos nossos caros é acolhido além dos seus limites, na sua verdadeira dimensão de amado por Deus e na sua fidelidade ao amor. “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá”.

TODOS OS SANTOS - Ap 7,2-4.9-14; Mt 5,1-12)


O CAMINHO PARA A FELICIDADE PLENA

“Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do cordeiro”. Com esta imagem, o livro do Apocalipse indica todos aqueles que participaram do sacrifício expiatório de Cristo, cordeiro sem mancha. Estes, agora, formam a multidão imensa, simbolizados pelo número 144.000 (12 tribos de Israel x 12 apóstolos x 1.000 = idéia de abundância). São todos aqueles que conseguiram a visão eterna de Deus depois de ter atravessado o tempo da prova, lutando constantemente contra as ciladas do mal, animados pela coragem e segurança que vem do Senhor. Estamos falando dos santos.Os santos são aquelas pessoas canonizadas pela Igreja, depois de uma minuciosa investigação da vida destas. Mas, os canonizados constituem uma pequena parte. Há muitíssimos outros que celebramos hoje, uma multidão que ninguém podia contar, diz o livro do Ap. São aqueles que com humildade se submeteram à vontade de Deus durante a sua vida, e estão na presença do Senhor para sempre. Dentre estes, podem constar nossos amigos e familiares já falecidos. São os santos anônimos, e são exatamente como os canonizados.Também nós não devemos nem duvidar que possamos participar desta comunhão. Cristo não exclui ninguém da salvação. Porém, Cristo não impõe, ele só propõe. Cada um é livre em aceitar ou rejeitar esta salvação.O Evangelho de hoje nos apresenta um itinerário de santidade humana que abraça todas as etapas da nossa vida, abarcando cada situação e considerando os desafios que a cada dia estamos sujeitos: Deus não quer que fiquemos passivos, há um caminho a seguir. As bem-aventuranças indicam que caminho é este, mostrando o caráter do cristão enquanto herdeiro do Reino de Deus, da felicidade plena, da alegria perfeita.Ser pobre em espírito é ser humilde. É quando reconhecemos nossa necessidade, nossa insuficiência e nossa dependência, nossos limites, e, nos dirigimos a Deus na oração com confiança. Para tal, é necessário arrancar de nós toda soberba, orgulho, presunção, egoísmo, auto-suficiência, superioridade, intolerância. Esta bem-aventurança não diz respeito só aos que são pobres materialmente: um milionário pode reconhecer e confessar que a riqueza material não é tudo para ele e que ele depende de Deus; enquanto, um pobre materialmente pode ser cheio de inveja e esperar tudo da riqueza terrena.A segunda bem-aventurança parece contraditória, pois o pranto é o contrário de alegria. Os motivos podem ser vários: a morte, a doença, as desgraças, o pecado e a fraqueza, as mudanças drásticas da vida. O aflito é aquele que sofre por sua situação ou pela dor alheia, movido pela compaixão. O pecado contrário é quando somos indiferentes e almejamos uma “vida boa”, cheia de prazeres, confortos, tranqüilidades; é o pecado da indiferença com o próximo, da dureza de coração.Jesus era manso. Ele chama felizes os mansos, que deixemos toda grosseria, desrespeito, desamor, agressões. A santidade deve mostrar-se no modo como tratamos as pessoas. É preciso trabalhar o autocontrole, aceitar o próximo, não querer dominá-lo, controlá-lo, humilhá-lo nem impor-lhe nossas idéias.Fome e sede são uma necessidade natural, fundamental para vivermos. Felizes são os que tem fome e sede de justiça: ser justo significa ser reto, honesto, correto com relação ao próximo, a Deus e às coisas materiais.Ser feliz significa ser misericordioso. Significa não ficar indiferente perante o sofrimento alheio nem mostrar um coração duro perante as ofensas que nos foram causadas. Sentir a miséria do outro e perdoá-lo. Só perdoando, seremos perdoados.O que busca a santidade busca a pureza. Humanamente falando, nos damos conta que é impossível ser totalmente puro, mas o sangue de Jesus nos lava de todo o pecado.O caminho da santidade é uma busca constante de paz. Deus é um Deus da paz. Ele quer que nós também sejamos pessoas de paz. Temos que aprender a lidar com o pecado da maledicência, da intriga, da vingança, da provocação. Somos felizes quando não só fizermos as pazes com os outros, mas também quando formos instrumentos de paz entre duas pessoas ou grupos etc.Ser bem-aventurado implica ser perseguido ou até morrer por causa de Jesus Cristo. Talvez seja esta uma questão das mais difíceis da santidade: conviver com isto enquanto se segue a Jesus. Talvez alguém possa se enganar pensando que quanto mais próximos a Deus estivermos, mais amados seremos por todos. Errado! Pois, seremos cada vez mais invejados, contrariados, insultados e perseguidos. O diabo fica desconcertado com os que, sinceramente, buscam seguir Cristo. O próprio Jesus Cristo foi odiado e crucificado.Enfim, o caminho indicado por Jesus para nossa felicidade parece ser uma restrição, uma limitação da liberdade humana. Mas, Jesus não veio prender, veio libertar. Na verdade, as bem-aventuranças são um caminho para a liberdade, para a salvação, para a felicidade.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

XXX DOMINGO COMUM - Mt 22,34-40


Se você não se amar, não vai amar o próximo 
Somavam um total de 613 as prescrições, mandamentos e proibições que os escribas observavam do Antigo Testamento. Por isso, no Evangelho de hoje não é de estranhar que alguns fariseus já confusos com tantas leis e sabendo que Jesus tinha feito calar muito bem os saduceus que o tentaram pegar na palavra no debate sobre a ressurreição dos mortos, dirijam-se ao “Mestre” para que lhes diga qual seja o mandamento mais importante dentre tantos.
Jesus responde: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento”; e o segundo que Jesus relaciona intimamente a este primeiro é: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”.
Qual seja a importância deste(s) mandamento(s) para a nossa vida de cristãos já somos acostumados a ouvir desde a nossa infância no catecismo. Por isso, hoje vou me deter num detalhe que muitas vezes nós nem percebemos e que sem uma boa compreensão deste detalhe, inclusive a sua prática, ficamos meio que impedidos de praticar o mandamento que o próprio Jesus nos pediu.
Começo perguntando: você já parou para pensar se você ama a si mesmo? E de verdade? Hoje mais do que nunca, vemos tantas pessoas magoadas, feridas, insatisfeitas, mal amadas, tristes, amargas, doentes emocionalmente, mentalmente e espiritualmente. Já que, de fato, na nossa sociedade, um grande número de pessoas não se amam, não gostam delas mesmas, não se sentem satisfeitas com elas mesmas; e o pior, muitas se odeiam. Odeiam seu jeito de ser, odeiam seu corpo, etc. Umas têm isso bem claro em suas mentes, enquanto outras não. E quase todas nem sonham que isto é com certeza a raiz de muitos dos problemas de suas vidas: é falta de amor-próprio, diferente de egoísmo (quer tudo para si e exclui) e de egocentrismo (se acha o centro).
Deus criou o mundo e as pessoas para que nós tenhamos ótimas relações com elas; mas quando nós nos rejeitamos ou nos odiamos, isso provoca em nós muitos problemas de relacionamentos. Se somos pessoas feridas, nossa tendência é ferir o outro. 
Se pegarmos o mandamento de Jesus do Evangelho deste domingo vamos ver que aí há três tipos relações: minha relação com Deus, com o próximo e comigo mesmo. Como é a nossa relação com o nosso próximo? Com os nossos pais? Com os nossos amigos? Vizinhos? Colegas? E com Deus? Enfim, e a relação que nós temos com nós mesmos? 
Você gosta de estar com você mesmo? Você se sente bem em sua companhia? Ou você acha que tudo que possa lhe preencher vem de algum outro ser humano? Às vezes, gastamos muito tempo sozinhos pensando como é bom estar na companhia de outras pessoas e como é ruim ficarmos sozinhos, quando poderíamos muito bem gastarmos este tempo para aprendermos a nos sentirmos bem com nós mesmos. Quer queiramos ou não, a única pessoa com quem estaremos 24 horas neste mundo é com nós mesmos. 
Nós todos sabemos como é chato conviver, por exemplo, todo dia no trabalho com alguém que nutramos algum tipo de antipatia, não vemos a hora daquele trabalho encerrar para descansarmos um pouco daquela convivência. Pois é, mas de nós não podemos fugir, nem mesmo por um único segundo, então é de suma importância que nós tenhamos paz conosco mesmos, é preciso que nos amemos.
Mas porque é que tantos não se amam? Porque caem no que podemos chamar auto-rejeição quando sentem que as pessoas não as aceitam como realmente são. Se sentirmos que ninguém nos ama nem nos aceita, porque deveríamos nos amar? Isso é uma mentira que quanto mais acreditarmos, mais as coisas vão piorar pro nosso lado.
Assim, o Evangelho mostra uma lógica, uma seqüência de como devemos nos comportar com relação a tudo isso. Deus é amor. Deus nos ama em primeiro lugar. Ele teve a iniciativa. Ele nos aceita, mesmo que os outros não nos aceitem. E isso basta para encher o nosso ser. Ninguém pode dar aquilo que não tem. Assim, nós só podemos dar amor ao nosso próximo se aceitarmos esse amor de Deus na nossa vida e conseqüentemente nos amarmos. Nós temos que nos amar, não de modo egoísta nem egocentrista, mas de maneira equilibrada. 
Nós devemos ter um tipo de amor por nós mesmos no qual sabemos que Deus nos ama e que dessa maneira podemos amar o que ele escolheu amar. Podemos até não estarmos de acordo com todas as coisas erradas que nós fazemos, mas devemos aceitar a nós mesmos com os nossos defeitos porque Deus nos aceita assim. Nós devemos amadurecer o nosso amor a ponto de dizer: eu sei que eu preciso mudar e eu quero mudar. De fato, eu acredito que Deus está mudando meu ser, mas durante este processo, eu não me rejeitarei porque Deus me aceita exatamente como sou.
Que todos nós saibamos acolher o amor imenso que Deus tem por cada um de nós, para que assim possamos amá-lo, amar a nós mesmos e assim, cheios de amor, amar de coração sincero o nosso próximo.



sábado, 18 de outubro de 2008

XXIX DOMINGO COMUM - Mt 22,15-21


Dai a César o que é de César, mas a Deus o que é de Deus
No Evangelho deste domingo, os fariseus tentam fazer com que Jesus se contradiga através de um plano bem articulado, definido pelo próprio Jesus como plano hipócrita. Temos que ter em mente que nem todos os fariseus do tempo de Jesus eram iguais, como também nós cristãos de hoje. De fato, o “verdadeiro” fariseu era aquele que vivia a própria fé com autenticidade, pela qual as práticas externas derivavam da observância da lei de Deus como fruto de uma vida plasmada pela escuta obediente da Palavra de Deus. O verdadeiro fariseu sabia ser acolhedor, misericordioso e certamente teria prestado socorro ao samaritano perseguido e caído pela estrada de Jerusalém a Jericó.
Mas os fariseus que encontramos no Evangelho de hoje são hipócritas. Chamam Jesus de “Mestre”, mas não o seguem. Pedem-lhe qual seja o caminho para conhecer a verdade, mas não o percorrem. Depois, perguntam acerca da verdade, mas querem aquela cômoda, a verdade subjetiva, aquela que pode ser dominada, manipulada a seu bel prazer. A visão parcial destes fariseus ligada ao culto, mas desligada da vida, e portanto, não incidente na vida mesma, impossibilita-lhes compreender e conhecer a Verdade. Estes fariseus são da mesma raça daqueles que Jesus reprovou na parábola do bom samaritano como incapazes de amar o próximo, mesmo se sentindo iludidos de ser amados por Deus só porque observavam as leis cultuais. Estes fariseus são muito espertos. É a esperteza cruel de quem busca os próprios interesses: eliminar Jesus porque ele incomoda. Jesus não deve ser acolhido pois atrapalha os planos deles. Então, armam de tudo para confundí-lo e prendê-lo com a célebre frase: “é lícito ou não pagar o imposto a César?”
Ironia do Evangelho. Estes fariseus elaboraram a cilada para eles mesmos. Na resposta, Jesus desmascara a mesquinharia da fé deles.
Ora, o povo de Israel vivia sob o domínio dos romanos. Um sinal de domínio dos romanos sobre o povo era exatamente o excesso de impostos. E então? Deus quer ou não que se pague o imposto a César? Se Jesus tivesse respondido sim, teria ido contra o povo que era sobrecarregado pelas taxas, especialmente pelos hostis zelotas, mas teria como aliados os romanos, os fariseus e os sacerdotes judaicos que dos romanos gozavam de alguns privilégios (sempre interesseiros); se tivesse respondido não, poderia ser acusado como rebelde ao imperador e ser condenado. Dessa vez, os fariseus acham mesmo que Jesus está sem saída.
Mas, Jesus não cai na armadilha deles, não se deixa determinar pela pergunta como ela foi formulada. Responde a ela, mas vai muito além. Com a sua resposta, Jesus evita tal cilada, recuperando integralmente os dados da realidade. Ele revela às pessoas a sua identidade. “De quem é a imagem sobre a moeda?” O denário era uma moeda romana com o qual eram pagas as taxas. E no tempo de Jesus, o denário de prata tinha a imagem do imperador Tibério Cesar. Então, que se devolva a César aquilo que é de César, isso não representa problema nenhum pra Jesus.
Por outro lado, Jesus acrescenta: mas, devolva a Deus o que é de Deus. Com isso, Jesus quer fazer entender que a pergunta sobre o imposto não diz respeito diretamente a Deus e que neste âmbito César não está em concorrência com Deus. Mas, que as disposições e exigências de César podem ser respeitadas desde que não contradigam a vontade de Deus. Isso significa que toda pessoa que vive numa civilização organizada com as próprias instituições políticas, sociais, econômicas, deve ser respeitada, sua dignididade de pessoa enquanto criada por Deus a sua imagem e semelhança.
É no amor por cada pessoa humana que se dá a Deus aquilo que é de Deus e a César o que é de César.
Não se pode separar fé, vida econômica, política e social. A pessoa cristã nã pode estar dividida, de outro modo arrisca tornar-se como os fariseus hipócritas do Evangelho de hoje. Hoje sentimos falar tanto de liberdade religiosa, ou seja, que podemos ser cristãos e que podemos manifestar nossa fé abertamente e protegida pela lei. Mas, infelizmente, há também tantas pessoas no mundo impossibilitadas de praticar sua fé, como a China, onde, por exemplo, os cristãos são obrigados a abortar o segundo filho.
Que possamos cada vez mais devolver a Deus o que é dele, colocá-lo em primeiro lugar na nossa vida, e abrirmos o nosso coração à escuta acolhedora da sua Palavra que nos liberta e nos faz capazes de entender que somos profundamente amados por ele.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

NOSSA SENHORA APARECIDA - Jo 2,1-11


FAÇAMOS O QUE ELE NOS DISSER

O Evangelho deste domingo, dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, nos convida à alegria. A uma alegria que brota de um vinho saboroso oferecido pelo noivo presente entre nós. Também nós, Igreja noiva de Cristo, somos a alegria de nosso Deus, "como a noiva é a alegria do noivo" (Is 62,5). Este Evangelho também nos permite meditar sobre a figura de Maria, o que, de fato, nos ajuda a compreendermos o sentido pleno do texto em questão.
Na relação entre Jesus e Maria, segundo os evangelhos, podemos distinguir 3 períodos: 1. a vida oculta; 2. a vida pública; 3. a "hora", ou seja, a paixão. No primeiro, Jesus se comporta como filho em todos os aspectos. No segundo período, Jesus age guiado unicamente pela vontade do Pai, sem condicionamentos nem interferências. Para o evangelista João, este segundo momento inicia exatamente em Caná da Galiléia, no momento em que Jesus diz a Maria: “Mulher, está na hora de parar de interferir nas minhas decisões”. Finalmente, no terceiro momento, aquele da "hora", aos pés da cruz, Maria aparece novamente. E, lembrando o Gênesis, Jesus a chama ainda uma vez de "mulher", como em Caná. Ela torna-se a nova Eva, recebendo a missão de ser mãe de cada discípulo.
O "vinho melhor" é fruto da "hora" de Jesus. O vinho é sinal de alegria e de festa, daquilo que serve não pra "sobreviver", mas para viver em plenitude. Agora, já podemos entender o sentido da estranha frase que o Filho dirige a Mãe: "o que tenho a ver contigo, ó Mulher?" ou "Mulher, por que dizes isto a mim?" "Minha hora ainda não chegou". Estamos entrando na fase na qual nós também fazemos parte. Jesus nos está dizendo que na sua "hora", junto ao vinho novo da Páscoa, Ele dará a nós, seus discípulos, Maria como mãe. E na resposta de Maria, vemos o seu êxodo, o seu caminho pessoal em direção a Páscoa, através da superação de seu papel de mãe no sentido humano para uma maternidade nova e mais ampla.
Conhecemos esta resposta: "Fazei o que ele vos disser". Isso ela responde aos que estavam servindo, mas diz, em primeiro lugar, a ela mesma: plenamente confiante na Palavra do Seu Filho, se dispõe a seguir o caminho que Ele indica: um caminho que, como aquele do Filho mesmo e de cada discípulo, requer a humildade que conduz à exaltação. Também desta vez a sua humildade é exaltada, Maria se abandona a vontade de Jesus, o qual cumpre o milagre do vinho como gesto que exprime antecipadamente o fruto da sua "hora": a festa da libertação plena, da vitória sobre a morte. Maria, imagem e modelo de cada discípulo, nos convida a fazer como ela e nos acompanha no nosso êxodo.
Também nós somos chamados a fazer-nos pequenos e nos colocarmos a serviço do próximo para nos tornarmos grandes, a perder a vida para salvá-la. E por isso, com alegria, acolhemos hoje o seu convite: qualquer que seja a situação em que nos encontremos na nossa vida, "façamos aquilo que Jesus nos disser".

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

XXVII DOMINGO COMUM - Mt 21,33-43


A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular
O profeta Isaías dedica um dos seus mais apaixonantes cânticos poéticos à vinha de um amigo seu (I leitura). Trata-se de uma vinha plantada com amor, protegida, podada com muito cuidado e cheia de tantas esperanças. A vinha do Senhor é o seu povo: “a vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel, e o povo de Judá, sua dileta plantação”. Mas, infelizmente, esta vinha, isto é, o seu povo lhe foi infiel. No tempo da colheita, as expectativas deixam lugar a decepções e amarguras: uvas selvagens em vez de uvas de verdade; em vez de frutos de justiça e retidão, o povo produziu derramamento de sangue e gritos de opressão. O drama daquela vinha torna-se, de fato, uma verdadeira tragédia na parábola que Jesus nos conta hoje no Evangelho.
Os cultivadores da vinha (vinhateiros) além do fato de se apropriarem injustamente da colheita, tornam-se homicidas: espancam, apedrejam, matam, não somente os enviados do patrão, mas até mesmo seu filho. Aqui, já percebemos a ligação evidente com a morte de Jesus. O Filho de Deus tem muitas coisas em comum com os seus servos: também ele foi enviado, e será morto de modo violento. Mas a sua relação pessoal com Deus é completamente diferente. Só ele é o Filho de Deus; todos aqueles que foram enviados antes dele eram servos de Deus. Assim, depois que matam o Filho, Deus intervém.
Neste momento, Jesus passa da linguagem figurada da vinha para a construção de um edifício e já não se refere mais somente à sua morte, mas também à sua ressurreição. Os vinhateiros que matam o filho correspondem aos construtores que rejeitam a pedra. Deus agora opera de modo espetacular em favor da pedra rejeitada e lhe dá uma missão nova e fundamental. Através da morte e rejeição, os homens parecem ter acabado com ele. Porém, Deus é mais forte do que todos eles, e é ele a determinar o destino de seu Filho. Eles, por outro lado, se não se converterem, correm o perigo de destruir a si mesmos com o seu comportamento e de perder a posição privilegiada que Deus determinou pra eles no campo da salvação: “quando o dono da vinha voltar, o que fará com esses vinhateiros?”. O que Jesus diz é uma advertência final e muito séria. Ele mostra a seus interlocutores o que está em jogo nesta discussão. Se eles não escutarem, então acontecerá tudo o que está descrito: “o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produzirá frutos”.
De fato, o amor de Deus pelo seu povo supera qualquer maldade. Deus, que se inseriu na história, dá um sentido novo aos fatos humanos: recupera a pedra (Jesus), rejeitada pelos construtores e faz dela a pedra angular, isto é, a base da salvação para todos os povos. Agora fica claro: quem rejeita a Deus se auto-condena à improdutividade; só quem o aceita e permanece nele pode dar muitos frutos. Porque sem ele não podemos fazer nada. Deus quer firmemente o nosso bem, e, portanto, não cansa, não desanima, não renuncia aos frutos. Deus ficou sempre tentando e depois de cada rejeição, propondo a novos povos o mesmo Salvador, a fim de que, unidos a ele, dêem frutos de vida.
Jesus não fala de modo obscuro e não age com palavras ambíguas. Ele claramente mostra às autoridades judaicas quem ele é, qual o lugar dele no plano da salvação e qual é o peso do comportamento deles. Nisto, consiste todo o significado deste encontro. E isto se torna significativo também para nós. Também nós devemos saber claramente quem é a pessoa de Jesus Cristo e quais são as conseqüências para nós do nosso comportamento em relação a ele. Que o nosso comportamento seja como nos pede São Paulo: ocupando-nos com tudo o que é verdadeiro, respeitável, justo, puro, amável, honroso, tudo o que é virtude ou de qualquer modo mereça louvor. Assim, o Deus da paz estará conosco.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

XXVI DOMINGO COMUM - Mt 21,28-32


Faça mais, fale menos
“Os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no reino dos céus”, disse Jesus às autoridades judaicas que o escutavam no templo. Podemos imaginar o escândalo que estas palavras causaram aos ouvidos dos “justos” de Israel! Ser precedido nos céus por uma prostituta ou um cobrador de impostos (no tempo de Jesus, eram totalmente desonestos)?! Não poderia se ouvir ofensa maior. Ser colocado para trás logo por quem? Por pessoas de má fama!?
Mas por que Jesus reprova tanto estes sacerdotes e anciãos? Onde foi que eles erraram? Exatamente na incoerência entre o “falar” e o “fazer” deles. E Jesus mostra isso claramente com a parábola dos dois filhos. Nela, para ambos os filhos o pai pede cordialmente que trabalhem na vinha. O primeiro se prontifica imediatamente: “Sim, Senhor!”, mas não move uma palha. O segundo está decidido: “não quero!”, mas pensa melhor e aparece lá para trabalhar.
No primeiro filho, as palavras são boas e gentis, mas falta a sua realização. No segundo, as palavras até parecem brutas, mas a ação é boa. As palavras por si só não salvam, é preciso praticá-las. O próprio Jesus já havia alertado: “Não quem me diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus (Mt 7,21). Já o exemplo do segundo filho é autêntico: ele cumpre a vontade do pai não com palavras, mas com ações.
Os chefes judaicos até que estavam de acordo que a vontade do Pai só pudesse ser cumprida com ações, mas não estavam de acordo de jeito nenhum com a aplicação que Jesus fizera desta parábola. Assim, percebemos que tipo de distância abismal havia entre o dizer e o fazer na religiosidade farisaica e que é tão viva ainda hoje. A reprovação de Jesus é dirigida a quem dá mais valor às aparências do que à essência, mais às palavras que à prática, mas ao exterior que o interior. Se formos fazer um exame de consciência bem feito, vamos perceber imediatamente como somos fariseus, como o primeiro filho pronto a dizer sim com os lábios, mas a não fazer quase nada quando o assunto é cumprir a vontade de Deus.
A exortação de Jesus se torna ainda mais provocante, como já dissemos acima, porque contrapõe aos seus interlocutores os publicanos e as prostitutas. Para os chefes dos judeus, o fato de serem mencionados juntamente com pessoas dessa classe era muito ofensivo. Eles desprezavam e excluíam totalmente estas pessoas. Jesus, pelo contrário, vê nelas o segundo filho. Num primeiro momento, deram um não, mas depois se arrependeram e fizeram a vontade do Pai. Jesus não aprova o modo de vida delas, mas reconhece a acolhida que elas deram à mensagem de conversão de João Batista e a julga como o cumprimento da vontade de Deus.
Jesus afirma que só aquele que reconhece o seu pecado pode se arrepender; aquele que se acha justo, um auto-suficiente, seguro de sua justiça, nunca vai reconhecer que erra. De fato, foi isto o que aconteceu pela pregação de João Batista: os fariseus o rejeitaram, enquanto os pecadores se arrependeram e se converteram. Aqueles, de fato, não se agradaram em ouvi-lo, estavam fechados ao Evangelho e só quem se deixa tocar pelo Evangelho, se afasta de si mesmo (já que, no fundo, a religiosidade farisaica é o agradar a si mesmo, pelo próprio comportamento, pelas próprias ações) e se abandona à vontade de Deus.
Até que os fariseus faziam boas e muitas ações, pois observavam a lei de Moisés, mas esqueciam a parte fundamental: reconhecer os sinais da presença de Deus, primeiramente em João Batista, depois em Jesus. Descobrimos assim que a manifestação concreta da vontade de Deus não coincide nunca com aquilo que nós desejamos e que já preestabelecemos como o nosso bem, mas tem sempre a ver com a fé, uma fé que envolve todo o nosso ser e se concretiza numa pequena, simples, mas dificílima ação. O importante não é, portanto, fazer alguma coisa, mas fazer aquilo que Deus quer que nós façamos pela obediência da fé.