domingo, 16 de dezembro de 2007

4º DOMINGO DO ADVENTO - Mt 1,18-24

O grande sonho de José
Às portas do Natal, a liturgia nos faz refletir sobre a figura de José, um homem simples, carpinteiro, de um pequeno povoado desconhecido da Galiléia chamado Nazaré. José é aquele que aparece na genealogia de Jesus narrada em Mt 1,1-17. Esta liga Jesus a Davi e a Abraão. Porém, o fato curioso é que em Mt 1,16, lemos que José é o esposo de Maria e que Maria é a mãe de Jesus, mas nunca que Jesus seja filho de José. De fato, Mt 1,18.20 diz que é o Espírito Santo quem está na origem da vida de Jesus.
José vivia sua vida tranquilamente, e, segundo o costume, foi lhe prometida em casamento, uma adolescente do povoado, Maria, com a qual ele tinha o sonho de casar e ter filhos. Naquela época, o casamento era feito em duas etapas. A primeira era a “promessa” (noivado): um compromisso moral que tinha a validade do matrimônio, mas não concedia direito algum aos envolvidos, inclusive o de ter relações sexuais. Só algum tempo após o noivado, isto é, um pouco antes da jovem completar os 14 anos, realizava-se a segunda etapa, onde a noiva era conduzida à casa do marido por duas testemunhas (se a jovem completasse os 14 anos e não fosse prometida, era livre para escolher o noivo, coisa quase impossível, pois os pais da moça escolhiam o noivo para assegurar-lhe um futuro). Segundo o direito judaico, já no noivado, os prometidos em casamento, são considerados marido e mulher. Por isso, José é chamado o esposo de Maria em Mt 1,16.19, e, Maria, a esposa de José em Mt 1,20.24. Mas somente depois da segunda etapa, começa propriamente a vida conjugal.
Tudo corria tranquilamente entre o noivado e a passagem para a casa do noivo, quando um dia, o mundo de José revirou. Aquele sonho parecia que tinha acabado. Ele soube que sua mulher estava grávida. E só ele sabia com certeza que aquele filho não era seu. Num caso destes, a lei judaica dizia que o homem deveria deixar a mulher. Sendo José um homem justo, ou seja, que cumpria a vontade de Deus presente nas escrituras judaicas, sendo traído, tinha que repudiar Maria, com todas as conseqüências civis e penais que ela deveria sofrer, aparecendo aos olhos de todos como uma adúltera, rejeitada e excluída não só pelos parentes, mas por todos os habitantes de Nazaré.
José, porém, agindo com muita prudência, e, porque amava Maria, decidiu repudiá-la secretamente, para não expô-la a esta situação penosa. Não lhe restava nada a não ser refletir sobre aquela situação amarga. Que drama este homem deve ter enfrentado, quantos pensamentos podem ter passado em sua mente! Mas Deus não o deixou sozinho com seus pensamentos. Exatamente quando se perguntava amargurado, José teve um sonho bem maior que o primeiro. Neste, apareceu um anjo do Senhor que lhe disse: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo”. Assim, José fez como o anjo lhe tinha ordenado: tomou consigo Maria e reconheceu o menino como filho diante da lei. Por mandato de Deus, José tornou-se perante a lei o pai de Jesus; assim, Jesus é inserido legalmente na genealogia de José. Deus entra naquela história começada desde Abraão e Davi.
O sonho de José é um sinal de Deus. Uma criança salvará o mundo inteiro dos seus pecados, uma criança libertará o mundo de todas as escravidões; seu nome Yeshua (Jesus) significa Deus salva. Hoje, José está diante de nós para nos exortar a escutar o Evangelho, a acolher a palavra do anjo que estava dentro do seu sonho. José não está entre os personagens principais do Evangelho, mas, mesmo assim, tomou parte daquela grandeza e alegria: acolheu consigo Maria e o menino. A cada um de nós é pedido de tomar consigo o Evangelho e de abandonar seu individualismo banal. Também nós, devemos tomar parte no grande desígnio de amor que Deus tem pelos homens. Com José, nos aproximamos da Santa Noite para acolher o Senhor e para caminhar com ele. Em Jesus, o “Emanuel”, Deus está conosco.

2 comentários:

Micheline Macedo disse...

Pe. Carlos primeiramente quero agradecer pelos seus comentários, durante todo o ano de 2007. Aprendi muito com eles, faz parte do meu estudo biblico. Tenho certeza que todos são ungidos pelo dom da sabedoria do Espírito Santo. Feliz Natal e que seu sacerdócio seja exemplo para todos nós.

Ivan Vieira disse...

Estamos sempre acostumados a ouvir nas homilias deste dia sobre a importância de Maria na história da salvação. Uma reflexão como esta exaltando a figura de José e o seu papel, não tão menos importante quanto o de Maria, caiu suavemente ao meus ouvidos e me fez perceber a grandeza e a nobreza desse homem carpinteiro e temente a Deus "que nessa vida só queria ser feliz com sua Maria".