segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

MARIA, MÃE DE DEUS - Lc 2,16-21


MARIA, UM CORAÇÃO DE PAZ


A liturgia deste 1º de janeiro é particularmente significativa. Afinal, é ano-novo! E os votos mais belos e profundos que podemos receber nos oferece a Palavra de Deus. Votos que são verdadeiramente uma bênção: “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6,24-26). Que maravilha esta invocação ao Senhor para que Ele faça brilhar a sua face sobre nós e para que tenhamos paz! A verdadeira face de Deus é a face de um recém-nascido que busca ardentemente com seus olhinhos entreabertos o colo de sua mãe adolescente. É a face de um Deus que agora caminha lado a lado com a sua criação.
Mais um ano se inicia! E com essa bênção de Deus, não temos necessidade alguma de ler horóscopos nem fazer simpatias como dar um passo com o pé direito, comer lentilhas ou jogar flores no mar para buscar paz e prosperidade. Ora, o que são essas superstições diante do poder de Deus? Absolutamente nada! Confiamos em Deus e isso já basta. Se Deus está o tempo todo com o seu rosto voltado para nós, do que mais precisamos?
A celebração de hoje nos convida a venerar Maria, Mãe de Deus Salvador; a venerar aquela que acolheu e carregou no seu ventre o Filho de Deus. Por ela, Deus entrou no mundo e veio ao nosso encontro. Agora, somos nós quem devemos ir ao encontro dEle. Somos nós quem devemos acolher essa Luz que ilumina os nossos passos. Maria é a mulher que escutou a voz de Deus, acolheu e obedeceu a vontade do Senhor; sempre atenta a acolher os sinais de Deus, renovava diariamente o seu “sim”.
O Evangelho desta liturgia que é uma continuação daquele lido na noite de Natal, coloca Maria numa posição central. Como anunciado no texto anterior, os pastores “encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura”; depois, “voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido”. O mais interessante deste relato, é que há um corte bem no meio do texto para nos dar uma preciosa informação: “quanto a Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração”.
Maria, que hoje invocamos como Mãe de Deus Salvador, é a rainha da paz. Ela é rainha de uma paz que não depende das circunstâncias. Mas, uma paz que brota do coração, uma paz que existe mesmo em meio às provações da vida. Ela guardava a Palavra de Deus em seu coração e a Palavra traz paz.
Hoje também é o dia da paz. Não devemos esquecer que a paz não é somente a ausência de guerras, de violência, é também ausência de qualquer desentendimento, discussão, desunião. E como existe isso nas nossas famílias! A paz que o mundo oferece é um sentimento que temos quando tudo corre bem na nossa vida ou quando as pessoas se comportam como nós queremos. Porém, quando as coisas não acontecem do jeito como esperamos, quando queremos mudar as pessoas e não conseguimos, isso nos frustra e o sentimento de paz nos deixa e a impaciência e o aborrecimento se tomam conta de nós.
A paz que Jesus nos dá é uma paz diferente da que o mundo nos dá. Em cada missa, pedimos essa paz, e às vezes repetimos tão mecanicamente que nem nos inteiramos do seu verdadeiro significado: “livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz”, “Senhor Jesus Cristo, dissestes aos vossos apóstolos: Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz”. E logo em seguida, desejamos a paz do Senhor ao nosso próximo.
Se lembrarmos bem, Jesus não perdeu a paz nem no meio da tempestade. Ele continuou dormindo tranquilamente na popa do barco, enquanto seus discípulos estavam apavorados e indignados porque Ele não se mostrava preocupado com eles. Temos que aprender a receber essa paz de Jesus, essa paz que nos faz esperar no tempo de Deus com paciência, essa paz que nos faz respeitar e tratar bem o próximo.
É preciso que aceitemos na nossa vida a salvação oferecida por Jesus. De fato, este nome contém todo o significado da vinda de sua vinda ao mundo. Oito dias depois do nascimento do Filho de Deus, no momento da circuncisão, símbolo de aliança entre Deus e o povo de Israel, o menino recebe o nome de Jesus. Em aramaico, Yeshua significa “Deus salva”. Ele veio ao mundo para fazer uma aliança conosco, para nos salvar e nos conceder a sua paz.

FELIZ 2008! - Jo 1,1-18


Chegamos ao fim de mais um ano, graças a Deus! A liturgia nos apresenta as palavras do apóstolo João (I leitura): “filhinhos, esta é a última hora. Ouvistes dizer que o anticristo virá”. A última hora é uma hora dramática, porque é a hora do anticristo, isto é, da obstinação direta com o Senhor. “Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos, pois, se fossem realmente dos nossos, teriam permanecido conosco”.
O Evangelho nos consola, retomando o anúncio da Palavra de Deus que vem habitar entre nós. O Evangelho ressoa no último dia do ano com o grande hino de João, que proclama a Palavra de Deus criadora das coisas e do tempo, vindo a habitar entre os homens: “o mundo foi feito por meio dela... e a Palavra se fez carne e habitou entre nós”.
A vida não toma significado por aquilo que conseguimos alcançar, isso é só uma parte. O principal é a novidade da presença do Senhor em nosso coração. O reconhecimento desta presença não é pacífico. Com a vinda da Palavra de Deus se revela o drama do tempo. O tempo deve ser redimido: não só do seu vazio, mas do mal que o habita. Quando o homem quer estar acima de Deus e contra Deus e avança na pretensão de se desenvolver sozinho, como se ele mesmo fosse Deus, então substitui a sua própria imagem sobre aquela do Filho de Deus feito carne: esta presunção é a máscara de Cristo; este é o anticristo (um recado para todos os que vivem como se Deus não existisse e ainda trabalham contra a fé nele).
O tempo, portanto, sofre a luta pelo reconhecimento e a afirmação de Cristo: “veio para o que era seu, e os seus não a acolheram”. Este é o núcleo e a essência da fé cristã. O destino do homem e a sua felicidade dependem da acolhida ou não do Senhor Jesus. Deus veio na carne humana. De fato, só da plenitude do Filho de Deus encarnado, o homem recebe “graça sobre graça”, e lhe é doada a verdade do seu ser. Tornando-se familiares de Jesus, vivemos a nossa vida, caminhando para o cumprimento da nossa vocação: “deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus, isto é, aos que acreditam em seu nome”. Os dias, as semanas, os meses, os anos, nos são dados para que a glória de Cristo se manifeste e cresça no mundo, e os olhos de cada homem, reconhecendo o Senhor, vejam a sua salvação.
Vem, Senhor Jesus. Vem ser a nossa luz que ilumina todo ser humano contra as trevas do pecado. Para a última hora, para cada hora, para cada dia. Vem redimir o nosso tempo, o tempo do mundo, ocupando-o com a tua presença. Na festa de virada de ano, só nos resta agradecer a Deus pelo dom da sua presença no tempo da nossa vida, porque ele veio habitar em meio a nós. Feliz 2008!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

SAGRADA FAMÍLIA – Mt 2,13-15.19-23


Jesus, Maria e José: modelo para a família cristã

Um bebê é um ser muito frágil e sem força. Não pode se defender. Para sobreviver, depende totalmente do cuidado e da ajuda dos pais. Muitas crianças têm sido vítimas da própria incapacidade de se defender. Umas não chegam nem a nascer, são abortadas; outras, são jogadas em rios, são maltratadas, são vendidas. Também Jesus depois de ter nascido num lugar tão desconfortável e sujo, correu risco de vida.
No Evangelho de hoje, lemos o drama do exílio e da imigração que teve de experimentar a Sagrada Família para escapar da matança cruel que Herodes tinha ordenado a fim de matar Jesus, a quem considerava um grande rival apesar de sua pouca idade. Tal drama nos mostra que o texto em questão quer mostrar justamente que ameaçado Jesus, fica ameaçada também toda a sua obra de salvação. Mas, Deus o protege.
José recebe de Deus a responsabilidade de marido e pai, de tomar o menino e sua mãe e fugir para salvar-lhes a vida e assim o faz. Ele foge para o Egito (África). Desta forma, José se apresenta como o homem responsável para com a sua família e cuida dela totalmente, desempenhando o papel de protetor, exemplo para tantos pais que já não se preocupam com os seus filhos.
De igual modo, José também obedece a Deus quando deve retornar às suas origens. Depois da morte de Herodes, volta para Israel, sinal evidente de que o seu esforço é para deixar crescer o filho na terra onde nasceu. Ele não se deixa levar pelos seus próprios interesses, mas enfrenta todas as situações pelo bem do seu filho. Até sob este ponto de vista, José é exemplo para todos aqueles pais que ao invés de defender as próprias origens, sobretudo no campo da fé, freqüentemente trocam Deus por outras coisas e outros lugares, influenciando negativamente os seus filhos.
Com José, temos a reafirmação da cultura das próprias origens que ninguém deveria esquecer. Jesus teve de ir ao Egito, porque de lá saiu o povo liberto. Também ele deveria sair do Egito e entrar na Terra prometida, aqui representada por Nazaré, o que pode ser uma alusão a Is 11,1, onde é anunciado um rebento do tronco de Jessé como Príncipe da Paz (nezer). Já o fato de Maria nunca ser chamada pelo nome neste texto, mas sempre por mãe, enfatiza sua função materna da qual Jesus dependeu para crescer.
Pois bem! Como a família atual se afastou desta concepção de família que acabamos de tratar! Os pais e as mães estão sempre mais ocupados, estressados, maltratados, esquecidos, e até mesmo humilhados pelos próprios filhos, o que causa um dano enorme à família, pois se há falta de amor dentro dela, como podemos experimentá-lo em outro lugar?
É uma verdadeira lição o que lemos hoje na I leitura. O autor do Eclesiástico lembra o mandamento da lei mosaica que pede claramente para honrar o pai e a mãe e ainda esclarece que para isso é necessário que também os pais honrem os filhos. Hoje, a família caminha insensivelmente para a autodestruição, principalmente quando se confunde maternidade e paternidade graças ao egocentrismo.
O estilo de uma vida familiar com princípios cristãos se encontra expresso na carta de Paulo aos colossenses (II leitura). É preciso levar uma vida virtuosa em família para salvá-la da sua destruição ou implosão. Os vários sentimentos que Paulo acena na leitura deveriam ser patrimônio de todos os membros de todas as famílias cristãs.
Infelizmente, sabemos muito bem que não é assim, sobretudo hoje. Daí, a necessidade de reforçarmos as experiências positivas da vida familiar em prol da educação dos nossos filhos para combater o mau exemplo sempre mais forte das “falsas” famílias que são propostas na mídia, especialmente nas novelas com sua degradação geral. Estas sempre fazem mais ou menos sucesso de acordo com o maior ou menor número de traições, abandonos, separações, divórcios, filhos ilegítimos, e tantos outros atentados à vida familiar (exemplo mais recente é o programa global “toma lá dá cá”, que nos faz rir tanto, quando deveríamos chorar ao ver a que ponto pode chegar o estrago quando falta amor na família). Jesus, José e Maria nos indicam a estrada melhor para revitalizar às nossas famílias frágeis. Só o amor que vem de Deus é capaz de salvar a família.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

NATAL DO SENHOR - Lc 2,1-14


A GLÓRIA DA SIMPLICIDADE

É Natal! O Evangelho que nos é proposto nesta noite narra o grande acontecimento esperado por toda a humanidade: o nascimento do Salvador, o Cristo Senhor. O texto bíblico é fortemente caracterizado por um grande contraste. Enquanto se esperava uma vinda majestosa, o Salvador veio ao mundo de uma forma inesperada. É neste contraste, pois, que vamos descobrir um dos maiores ensinamentos que o Natal de Senhor nos pode dar.Logo no início do Evangelho, lemos as seguintes informações históricas: em primeiro lugar, aparece o imperador César Augusto, dominador do mundo Mediterrâneo da época, o qual impõe um censo de toda a terra, ou seja, de todos os habitantes submetidos à dominação romana, entre os quais se encontravam os da Palestina. Em seguida, o texto diz que quando ocorreu este censo, o governador da Síria era Quirino, procurador de Augusto na tetrarquia que compreendia a Iduméia, a Samaria e a Judéia, onde está localizada Belém.Longe, porém, de ter provas para estes dados históricos, além de uma diferença notável entre o relato do nascimento do Messias narrado neste texto e no evangelho de Mateus, ficamos com o que nos interessa: este decreto é o que liga José e Maria, residentes em Nazaré da Galiléia a Belém da Judéia. De fato, Lucas sublinha que Belém é a cidade natal de Davi, de onde descende José. Desta maneira, temos uma referência à promessa e à espera messiânica ligada a Belém e a família de Davi: “Grande será o seu reino, e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado” (Is 9,6).Chegando o tempo devido, Maria dá a luz o seu “primogênito” (este termo não quer indicar que Maria teve outros filhos, mas que Jesus é o primeiro filho de Maria, e por isso, tem todos os direitos de primogenitura; para se ter uma idéia da importância da primogenitura, basta lembrar as incansáveis trapaças feitas por Jacó contra seu irmão Esaú até tomar-lhe este direito). Maria, como toda mulher, passa naturalmente por essa experiência. Nem pode escolher o momento, nem esperar uma circunstância melhor. Ela não encontrou um lugar adequado para o seu menino, por isso, deu à luz num estábulo , pondo o menino numa manjedoura. São pobres e sem pretensões. É verdade! O primeiro lugar a receber o Salvador foi um dos lugares mais imundos do mundo, pois não venham me dizer que as vacas e os outros animais faziam suas necessidades num lugar separado da estrebaria!Assim, o que, imediatamente, chama a nossa atenção neste acontecimento é a simplicidade. Na sua grandeza infinita, Deus se abaixa não só à condição humana, mas em qual condição Seu Filho veio ao mundo! O Salvador entrou na nossa condição humana, a partir da fraqueza de um menino enrolado em panos, está do nosso lado e nos acompanha.Em contraste com essa pobreza, aparece o esplendor da luz celeste e a aparição do anjo de Deus aos pastores que que tomavam conta de seus rebanhos, mas o sinal que recebem é simplesmente: “encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”. Aos pastores que estão com muito medo, o anjo anuncia uma grande alegria. Realmente, eles têm um grande motivo para se alegrarem: nasceu para eles e para todo o mundo o Salvador.A maravilha do Natal reside neste contraste: sem a revelação dos anjos nunca entenderíamos que aquele menino na manjedoura é o Senhor. E sem o menino na manjedoura não entenderíamos que a glória do verdadeiro Deus é diferente da glória a qual estamos acostumados.Que possamos ser humildes e simples para que o Senhor, neste Natal, venha ao estábulo do nosso coração e assim, possamos amá-Lo na pessoa do próximo como nos ensina tão bem Madre Teresa de Calcutá: “Da humildade sempre emanam a grandeza e a glória de Deus. Devemos estar vazios do orgulho se quisermos que Deus nos preencha com a sua plenitude. No Natal, vemos Deus como um recém-nascido, pobre e necessitado, que veio para amar e ser amado. Como podemos amar a Deus no mundo de hoje? Amando-o em meu marido, em minha mulher, nos meus filhos, nos meus irmãos, nos meus pais, nos meus vizinhos, nos pobres, nos bêbados, nos presos, nos doentes de lepra, nos excluídos, em todos aqueles que encontramos todos os dias.”

domingo, 16 de dezembro de 2007

4º DOMINGO DO ADVENTO - Mt 1,18-24

O grande sonho de José
Às portas do Natal, a liturgia nos faz refletir sobre a figura de José, um homem simples, carpinteiro, de um pequeno povoado desconhecido da Galiléia chamado Nazaré. José é aquele que aparece na genealogia de Jesus narrada em Mt 1,1-17. Esta liga Jesus a Davi e a Abraão. Porém, o fato curioso é que em Mt 1,16, lemos que José é o esposo de Maria e que Maria é a mãe de Jesus, mas nunca que Jesus seja filho de José. De fato, Mt 1,18.20 diz que é o Espírito Santo quem está na origem da vida de Jesus.
José vivia sua vida tranquilamente, e, segundo o costume, foi lhe prometida em casamento, uma adolescente do povoado, Maria, com a qual ele tinha o sonho de casar e ter filhos. Naquela época, o casamento era feito em duas etapas. A primeira era a “promessa” (noivado): um compromisso moral que tinha a validade do matrimônio, mas não concedia direito algum aos envolvidos, inclusive o de ter relações sexuais. Só algum tempo após o noivado, isto é, um pouco antes da jovem completar os 14 anos, realizava-se a segunda etapa, onde a noiva era conduzida à casa do marido por duas testemunhas (se a jovem completasse os 14 anos e não fosse prometida, era livre para escolher o noivo, coisa quase impossível, pois os pais da moça escolhiam o noivo para assegurar-lhe um futuro). Segundo o direito judaico, já no noivado, os prometidos em casamento, são considerados marido e mulher. Por isso, José é chamado o esposo de Maria em Mt 1,16.19, e, Maria, a esposa de José em Mt 1,20.24. Mas somente depois da segunda etapa, começa propriamente a vida conjugal.
Tudo corria tranquilamente entre o noivado e a passagem para a casa do noivo, quando um dia, o mundo de José revirou. Aquele sonho parecia que tinha acabado. Ele soube que sua mulher estava grávida. E só ele sabia com certeza que aquele filho não era seu. Num caso destes, a lei judaica dizia que o homem deveria deixar a mulher. Sendo José um homem justo, ou seja, que cumpria a vontade de Deus presente nas escrituras judaicas, sendo traído, tinha que repudiar Maria, com todas as conseqüências civis e penais que ela deveria sofrer, aparecendo aos olhos de todos como uma adúltera, rejeitada e excluída não só pelos parentes, mas por todos os habitantes de Nazaré.
José, porém, agindo com muita prudência, e, porque amava Maria, decidiu repudiá-la secretamente, para não expô-la a esta situação penosa. Não lhe restava nada a não ser refletir sobre aquela situação amarga. Que drama este homem deve ter enfrentado, quantos pensamentos podem ter passado em sua mente! Mas Deus não o deixou sozinho com seus pensamentos. Exatamente quando se perguntava amargurado, José teve um sonho bem maior que o primeiro. Neste, apareceu um anjo do Senhor que lhe disse: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo”. Assim, José fez como o anjo lhe tinha ordenado: tomou consigo Maria e reconheceu o menino como filho diante da lei. Por mandato de Deus, José tornou-se perante a lei o pai de Jesus; assim, Jesus é inserido legalmente na genealogia de José. Deus entra naquela história começada desde Abraão e Davi.
O sonho de José é um sinal de Deus. Uma criança salvará o mundo inteiro dos seus pecados, uma criança libertará o mundo de todas as escravidões; seu nome Yeshua (Jesus) significa Deus salva. Hoje, José está diante de nós para nos exortar a escutar o Evangelho, a acolher a palavra do anjo que estava dentro do seu sonho. José não está entre os personagens principais do Evangelho, mas, mesmo assim, tomou parte daquela grandeza e alegria: acolheu consigo Maria e o menino. A cada um de nós é pedido de tomar consigo o Evangelho e de abandonar seu individualismo banal. Também nós, devemos tomar parte no grande desígnio de amor que Deus tem pelos homens. Com José, nos aproximamos da Santa Noite para acolher o Senhor e para caminhar com ele. Em Jesus, o “Emanuel”, Deus está conosco.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

2º DOMINGO DO ADVENTO - Mt 3,1-12


CONVERTAM-SE, PORQUE O REINO DOS CÉUS ESTÁ PRÓXIMO!
No domingo passado, refletíamos sobre o risco real de não nos darmos conta da vinda de Jesus Cristo por causa das preocupações deste mundo. E, por isso, hoje, nos perguntamos: de que modo este tempo de Advento nos adverte para a chegada do Messias?
Ligamos a TV e vemos um exagero de propagandas de produtos em promoção; junto a isso, um sem fim de anúncio dos especiais de fim de ano. Muitas luzes brancas ou coloridas piscam enfeitando ruas, igrejas, lojas. Nas casas, árvores de natal, presépios, guirlandas. Começam as festas com a brincadeira de amigo oculto e distribuição de presentes.
São sinais que deveriam dizer pra nós com força: é tempo de preparar o interior para acolher o Salvador do mundo. Convertam-se! Mudem de mentalidade! Mas parece que tais sinais nos estimulam a fazer exatamente o contrário: preocupem-se com o material, comprem, bebam, esqueçam quem na realidade deve ser lembrado.
O cristão autêntico vive neste mundo, e, apesar das dificuldades, deve considerar estes sinais precursores que aqueçam o nosso coração para esperar, desejar e acolher aquele que está para chegar. Assim, ninguém poderá dizer: “ah, eu não sabia que o Natal estava próximo”.
A liturgia de hoje apresenta um precursor, aquele por excelência: João. Aparece no deserto vestindo pele de camelo e cinturão de couro. Ao mostrar João vestido dessa forma, Mateus quer nos dizer que ele é profeta ao modo de Elias; tal profeta conduziu o povo de volta ao Deus verdadeiro. Além da roupa simples, se alimenta de gafanhotos (alimento próprio dos beduínos pobres) e de mel. Esta fuga de popularidade é explicada pelo fato de que “aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. Eu nem sou digno de carregar suas sandálias”; ele não quer chamar a atenção, nem está preocupado com o próprio prestígio, interesse ou sucesso, mas encaminha tudo exclusivamente a Jesus.
Uma das tarefas principais do AT era denunciar os desvios do caminho do Senhor. Por isso, João é o precursor definido pelo profeta Isaías como “a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!”.
João Batista tem uma voz forte, clara e decidida porque sabe muito bem quem está para chegar, ele faz de tudo para que as pessoas se preparem de modo justo para esta chegada. Ele convida a conversão: “convertei-vos, porque o reino dos céus está próximo”. A conversão é simbolizada aqui pelo tempo no deserto, tempo de prova, tempo de transformação, assim como o povo liberto do Egito foi conduzido por Deus até a terra prometida, alcançando-a finalmente pela travessia no Jordão.
Quem escuta João, se batiza no Jordão, confessando os próprios pecados. O batismo de João era algo tão raro que ele ficou conhecido como João, o Batista. De fato, através do batismo nas águas do Jordão, a pessoa confessava os pecados, purificando-se para se aproximar do Messias.
Um ponto importante é que não devemos identificar esta conversão com o comportamento farisaico. Ser fariseu é fazer a coisa certa pelo motivo errado. Somos fariseus quando fazemos algo correto por medo, por interesse, pela busca da aprovação e admiração. O fariseu vive naquele que apresenta uma boa imagem, sem de fato ser bom. Podemos chegar a ser tão orgulhosos que ouvindo a mensagem de Jesus, fingimos acreditar ser pecadores, e, consequentemente, fingimos acreditar ser perdoados.
“Raça de cobras venenosas, quem vos ensinou a fugir da ira que vai chegar? Produzi frutos que provem a vossa conversão”. Eles cumpriam a lei, mas desprezavam os fracos, condenando-os ao castigo divino. João deixa bem claro que quem não produz frutos bons será cortado e jogado no fogo. Estes frutos bons são fáceis de entender, é simplesmente o modo como tratamos uns aos outros: com amor.
“Acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu”, diz a II leitura. Acolher é uma parte do amor, quem sabe, a mais difícil. Quantas vezes na nossa família não nos suportamos, discutimos, ofendemos com palavrões o próximo ou mesmo com o desprezo. Como Cristo acolheu a nós: a ovelha perdida, o bom ladrão, com o amor misericordioso, assim devemos acolher o próximo. Para isto, somos batizados com o fogo e com o Espírito Santo na totalidade de seu amor e de seus dons.