terça-feira, 27 de novembro de 2007

1º DOMINGO DO ADVENTO - Mt 24,37-44


PREPARAR-SE PARA NÃO SER PEGO DE SURPRESA!
Com o 1º Domingo do Advento, damos início a mais um ano litúrgico. Há duas semanas, vimos no evangelho de Lucas os sinais que antecedem a vinda definitiva de Nosso Senhor Jesus Cristo; e, sendo este um momento desconhecido, a liturgia nos convidava a se afastar de qualquer comportamento cego, enquanto o esperamos.
Neste novo ano litúrgico, vamos ler o Evangelho de Mateus; e, hoje, a liturgia retoma o tema da vinda de Jesus, pois o Advento é tempo de espera e preparação para ela. O Evangelho de hoje se encontra em Mt 24; todo o capítulo fala desta vinda, e acrescenta um outro sinal não presente em Lc: “a maldade se espalhará tanto que o amor de muitos esfriará” (Mt 24,12).
Algo semelhante encontramos já no Antigo Testamento: “o Senhor viu o quanto havia crescido a maldade das pessoas na terra e como os projetos de seus corações tendiam unicamente para o mal” (Gn 6,5). Eram os contemporâneos de Noé, completamente esgotados pelas preocupações da vida terrena: só pensavam em comer, beber, casar, ou seja, sempre preocupados em tirar o máximo de vantagem e prazer desta vida.
Olhando para a realidade atual, percebemos como esta maldade está cada vez mais viva e incontida: a propagação do sexo livre como algo extremamente normal; o aborto defendido como um direito; a ganância pelo dinheiro provocada pela falsa idéia de que este traz a felicidade, mesmo depois de tantas pesquisas provando o contrário; o tráfico de drogas que promove furtos, roubos, assaltos, seqüestros, corrupção, assassinatos, balas perdidas, prostituição.
Também as armas biológicas sofisticadas dos países ricos; a troca constante de religião, em outras palavras, o sacrifício de Jesus sendo trocado por uma crença que diz serem necessárias várias e difíceis reencarnações para expiar as nossas culpas; sem falar no secularismo, no consumismo desenfreado e no ateísmo propagado abertamente nas escolas e na mídia. Todos estes sinais da vida moderna produzem uma atmosfera tão sobrecarregada de problemas que muitas pessoas ignoram totalmente o que seja mais importante para as suas vidas. Só tem olhos para si mesmas, não há brecha para enxergar que o horizonte é bem maior.
O exemplo de Noé e do dilúvio nos chama atenção pra tudo isso. Chegando o dilúvio anunciado, só Noé estava pronto e foi salvo das águas porque ouviu o Senhor. É preciso abrir os olhos! Somos tão cabeças-duras e acomodados que muitos de nós, até dizemos acreditar, mas levamos uma vida que refuta a nossa fé. Ou então, vemos como algo tão longe, pra que se preocupar agora? É como disse certo autor uma vez: “os homens perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por nem viver o presente nem o futuro. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivesse vivido”.
Entretanto, inesperada e surpreendente será a vinda de Jesus. Com um exemplo tirado do cotidiano, Jesus mostra que as circunstâncias da vida terrena são iguais para todos (os homens trabalham nos campos e as mulheres moem no moinho). Com a vinda do Senhor, haverá uma radical separação: aqueles que estão preparados para ela serão acolhidos na sua comunhão, os outros serão excluídos. A mensagem do Evangelho nos motiva a amar. É uma mensagem encorajadora e não ameaçadora. Devemos levar em conta que o nosso destino final depende do nosso comportamento, que não é o de desperdiçar a graça de Deus, mas de preservá-la com a nossa prática do amor.
Se pelo menos soubéssemos o dia e a hora da vinda do Senhor, poderíamos nos preparar mais adequadamente. Mas o Senhor virá como um ladrão: inesperado, de surpresa. Portanto, devemos estar preparados para sua vinda sempre.
Recuse deixar que o seu amor esfrie. Aqueça o amor em sua vida para com o seu cônjuge, a sua família, amigos, vizinhos, e colegas de trabalho. Estenda a mão para os que estão sofrendo e na necessidade. Reze pelas pessoas e as abençoe. Cultive a idéia de que você deve ter sempre no seu coração o desejo ardente de amar e abençoar mais alguém.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO – Lc 23,35-43


CAÇA AO TESOURO DO REINO DE DEUS

Este ano, o cinema americano lançou o último filme da trilogia Piratas do Caribe. São sempre envolventes as histórias que tratam o tema da caça ao tesouro. Muitas são as voltas que os protagonistas da aventura podem dar até chegar ao tesouro: às vezes, se passa pertinho do tesouro e nem se desconfia, e, outras vezes, se interpreta erradamente uma pista e assim, começa-se a seguir um caminho no qual se distancia cada vez mais da mina. É sempre uma tarefa difícil e cansativa, mas muito prazerosa.
Jesus durante toda a sua atividade pública falava do seu Reino. E o apresentou como uma pedra preciosa e um tesouro num campo: bens preciosos escondidos; o que torna bastante interessante e desafiadora a busca deste reino, e não impossível a sua descoberta para quem o procura. O tesouro, obviamente, é o próprio Jesus; e, no Evangelho de hoje, vemos claramente como este tesouro está escondido, pois, é preciso ver com os olhos da fé para entender que um homem pendurado numa cruz, que sofre por horas a condenação à morte com uma das penas mais humilhantes, parecendo nada mais que um derrotado, um perdedor, rejeitado e desprezado, seja verdadeiramente um Rei. Para a lógica do mundo, isto é um absurdo.
Esta lógica é a dos chefes judaicos. Enquanto o povo observava tudo aquilo com grande dificuldade de compreensão, os chefes do povo caçoavam de Jesus, dizendo: “a outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o escolhido!”; mas, no fundo, não acreditavam naquilo que diziam, por isso mesmo, o provocavam e o insultavam.
Também os soldados faziam algo semelhante, mas como não eram judeus, até o chamavam de “rei dos judeus”, e pediam que ele se salvasse por si só. Pediam para que ele mostrasse o seu poder. Até mesmo a escrita colocada sobre a cruz: “este é o rei dos judeus”, era uma maneira de ofensa. Nesta mesma direção, um dos malfeitores que estava sendo crucificado junto com Jesus, o insultava pedindo com ironia pra que Jesus salvasse a si mesmo e a eles também, os dois malfeitores.
Realmente, a cruz põe uma grande interrogação sobre toda a obra precedente de Jesus, pois parece desmentir claramente tudo aquilo que ele fez e disse. Uma pessoa que está pendurada numa cruz preste a morrer, como pode salvar a outros? Quem depende da sua ajuda, vendo aquela cena, só poderia rir, encontrar uma outra ajuda ou se desesperar. É uma imagem bem diferente da que temos de rei na nossa mente. E agora?
Aparece, então, uma última fala que parece até um milagre. Pelo menos um dos presentes, diretamente envolvido na situação, já que também está sendo crucificado, compreende estar pertinho do tesouro da sua vida. É o outro malfeitor, que nós o chamamos “bom ladrão”, o qual consegue compreender aquele tesouro de graça, mesmo só nos últimos momentos de sua vida. Ele reconhece que aquele homem crucificado, que não desce da cruz, mas morre nela, é o seu Rei salvador. Ele tem fé em Jesus Cristo. Sua oração testemunha isto: “Jesus, lembra- te de mim quando entrares no teu reinado”; é o que pede a Jesus condenado ao seu lado, que está sofrendo a mesma terrível morte vergonhosa. Ele está convencido de que Jesus não fez nada de mal e por isso, não merece morrer; e, que, por isso, Jesus não acaba com a morte, mas que é através dela que ele entrará no seu reino.
Assim, Jesus, com um último “decreto real” afirma, e assegura ao malfeitor que pediu o seu amor que ele provará da alegria do seu reino: “em verdade eu te digo, ainda hoje estarás comigo no paraíso”. Jesus entrou no paraíso com um malfeitor, que na cruz conseguiu a fé. Que imagem forte! É uma imagem como esta que nos conscientiza claramente que nunca devemos condenar ninguém, nem a nós mesmos, mas sempre estar dispostos a aceitar o tesouro de Deus: o seu amor incondicional por nós. Na cruz, a obra de Jesus chega ao ponto mais alto. O crucificado mostra não ser um rei que garanta o bem estar terreno. Não salvou a si mesmo da cruz. Não nos preserva nem das enfermidades nem da morte. O seu poder refere-se a nossa vida com Deus. Jesus salva da queda do afastamento de Deus e reconduz à comunhão com ele. Quem busca isto nele, será salvo por ele, mesmo que seja um malfeitor. A festa de Cristo Rei, é a festa do deste amor que se doou por toda a humanidade.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

XXXIII DOMINGO COMUM - Lc 21,5-19

Quando e como o mundo vai acabar?
A liturgia deste domingo lança um olhar para o futuro. O futuro que está diante de nós, escondido e desconhecido. Vivemos na esperança de que nos traga o bem e que mude sempre para melhor nossa situação. Mas também é verdade que estamos sujeitos a muitas coisas ruins: doenças, acidentes, morte de pessoas caras, desemprego, perca da nossa casa, catástrofes naturais, etc.
É esta situação de insegurança que favorece o aparecimento das muitas tentativas de saber o futuro; basta pensar no número de pessoas que diariamente lêem horóscopos e recorrem a simpatias e outras práticas com o intuito de mudar o seu destino.
O Evangelho de hoje é somente a primeira parte de um longo discurso onde Jesus, recorrendo a uma linguagem cheia de imagens fortes e paradoxais (apocalíptica), anuncia o fim do homem e do mundo, fim este que coincidirá com a vinda do Cristo. Este discurso, que aparece antes do relato da paixão, é um verdadeiro testamento: Jesus, conhecendo que estava próxima sua morte, revela o que nos espera no final da história, quando ele vier na glória.
Em Lucas, este discurso, além dos discípulos, é dirigido também à multidão do templo. É o discurso de despedida de Jesus a Jerusalém, da qual anuncia a destruição. Jesus começa sua fala partindo do entusiasmo com que alguns dos presentes se deleitam com a imponente construção do templo e a sua beleza. Para os hebreus, o templo era motivo de orgulho e sinal de poder e segurança: quem ousaria profanar um lugar sagrado e demolir uma semelhante obra de arte? Jesus anuncia: o templo será reduzido a ruínas: não ficará pedra sobre pedra.
E isto aconteceu de fato pela ação das tropas romanas do general Tito no ano 70 d.C., quase 40 anos depois desta profecia. Jesus quer nos dizer que toda grandeza artificial, todo símbolo e fortaleza de poder, mesmo sendo religioso, onde somos tentados a por a nossa segurança, estão sujeitos a cair.
Os ouvintes pedem, indignados e sem acreditar, quando esta profecia seria realizada e quais fossem os sinais que precederiam aquele trágico acontecimento. Mas, Jesus não está interessado em falar nem sobre os sinais do fim do mundo nem da sua vinda nem muito menos da queda de Jerusalém. Mas sim no destino dos seus e como devem se comportar a conduta destes durante o tempo não breve da espera.
Um perigo contra o qual Jesus adverte seus discípulos é com relação aos falsos profetas que anunciam próxima a sua vinda. A fé dos discípulos desde o início será sempre ameaçada por supostos libertadores da humanidade, por pretenciosos representantes de Deus, sedutores de toda espécie. Basta lembrarmos as várias seitas fundamentalistas que afirmam saber com certeza o dia exato do fim do mundo.
É necessário vigiar para não se deixar enganar. O curso da história é marcado por todas estas coisas terríveis. É perigoso interpretar todos estes acontecimentos como sinais de um próximo fim do mundo, semeando alarmismos infundados. Assim mesmo, a ruína de Jerusalém e do templo é considerada pelos judeus como uma tragédia sem proporções, são inconformados até hoje. Para Jesus, porém, tal acontecimento faz parte do desígnio de Deus, mas não tem uma relação direta com o fim do mundo.
Jesus nos pede, por isso, aceitar com coragem o tempo em que vivemos. Ele quer que saibamos olhar a realidade e enfrentá-la sem medo, mesmo se for dolorosa e cheia de incógnitas. A coragem é requisito frente ao ódio e à perseguição que acompanharão sempre os discípulos. É esta uma constante no caminho da Igreja e na existência dos cristãos. Jesus quer que quando nos encontremos perseguidos, não percamos a confiança e não nos deixemos sufocar pelo medo e pelas preocupações.
Ele ainda nos motiva: este tempo difícil é ocasião para darmos testemunho. É preciso perseverança: paciência, constância, coragem, confiança, e sobretudo resistência de frente a todas as provas até o fim. Trata-se de permanecer fiéis a Palavra e à vontade de Deus que nos pede de viver cotidianamente no amor. Daquilo que o futuro traz Jesus leva em consideração somente aquilo que cria dificuldade e pode colocar em perigo a fé nele e na sua palavra.
O mal continua a fazer parte da história humana e a atormentar os homens, mas não devemos ficar desorientados por isto, nem devemos pensar que estes acontecimentos como o aquecimento global é sinal de que o fim está próximo, mas ter consciência que somente permanecendo firmes, no fim ele nos concederá a plenitude da vida e da salvação.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

XXXII DOMINGO COMUM – Lc 20,27-38

FOMOS CRIADOS PARA VIVER ETERNAMENTE
Há algum tempo atrás, a vida de um cristão era orientada pela crença na vida eterna e na ressurreição. Hoje, vivemos num mundo onde cada vez mais as pessoas acreditam que a nossa vida terrena é a nossa única vida. Isto se percebe principalmente quando vemos os ideais pelos quais estas pessoas lutam: muitas querem ser famosas, ter muito dinheiro, para aproveitar os prazeres que a vida oferece e sem nenhuma responsabilidade, aproveitar a vida enquanto é tempo. Pior, querem isto a todo custo mesmo que seja preciso passar por cima dos outros.
Realmente, esta vida terrena tem uma duração, às vezes pode ser longa, às vezes muito curta devido a uma doença sem cura ou a um acidente trágico, por exemplo. Mas será que Deus que é todo-poderoso gastou todo o seu poder e sua inteligência só com este mundo temporal? Não seria a vida terrena uma preparação para algo muito maior? Será que a morte acaba com tudo mesmo? Foi essa questão que fez os autores do Antigo Testamento, ao longo dos séculos, iluminados por Deus, desenvolverem a doutrina da imortalidade da alma e da ressurreição dos mortos.
Na I leitura de hoje, foi a fé na imortalidade da alma e na ressurreição que possibilitou os irmãos macabeus manterem-se firmes em meio à perseguição que estavam vivendo: “tu, ó malvado, nos tiras desta vida presente. Mas o rei do universo nos ressuscitará para uma vida eterna”.
No tempo de Jesus, a maioria dos judeus já acreditava na vida eterna e na ressurreição dos mortos; e o próprio Jesus Cristo compartilha esta doutrina com os fariseus e a confirma; entretanto, havia um grupo de muito prestígio, já que daí vinham os sacerdotes judaicos, os saduceus, que negavam a vida após a morte e a ressurreição.
A pergunta que os saduceus fazem a Jesus revela como tomavam com banalidade um argumento tão profundo. Eles constroem de propósito a seguinte argumentação para embaraçar Jesus: se uma mulher foi casada com sete irmãos e todos morreram sem deixar filhos, na ressurreição de quem ela será esposa? Na verdade, não lhes interessava saber uma resposta a tal pergunta, queriam somente justificar a opinião deles. E a argumentação não é totalmente ridícula, pois a lei do levirato em Dt 25,5-10 previa que se uma mulher ficasse viúva sem ter filhos do seu marido, ela era obrigada a casar com o cunhado (em hebraico: levir) para garantir a continuidade da descendência. Também o irmão do defunto tinha a obrigação de aceitar casar com a viúva e se recusasse, sofria um rito punitivo.
E aí? Teria aquela mulher sete maridos na vida eterna? Ora, isto é totalmente contra a lei de Moisés. Jesus é muito perspicaz na sua resposta, ele responde dizendo que as condições nas quais as pessoas vivem neste mundo não são as únicas previstas por Deus. No mundo atual, as pessoas se casam. A ressurreição, porém, comporta uma nova dimensão final, um mundo renovado e definitivo no bem que Deus prometeu ao término da história e que nós esperamos como evento pleno e definitivo do Reino de Deus.
A problemática levantada pelos descrentes saduceus não tem vigor, porque na ressurreição a plenitude da vida supera as categorias terrenas de matrimônio para nos tornarmos todos semelhantes aos anjos na visão face a face de Deus.
Jesus dá algumas características dessa nova vida: “já não poderão morrer, pois serão iguais aos anjos, serão filhos de Deus”. Jesus diz que este mundo terreno só pode continuar se as pessoas se casarem e tiverem filhos, já que envelhecem e morrem. A vida nova é radicalmente diferente. É uma ilimitada comunhão com Deus, sem morte, sem enfermidade, sem matrimônio, sem filhos. Seremos semelhantes aos anjos. E que fique bem claro que não estamos falando de reencarnação. É uma vida nova, mas onde cada um ressurgirá com a mesma identidade desta vida terrena num corpo glorioso.
Tudo o que Jesus diz aos saduceus é de uma importância decisiva para a nossa compreensão de Deus e para o direcionamento que devemos dar a nossa vida. Jesus nos diz que “Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos, pois todos vivem para ele”. A vida terrena não é a única que nós temos; quem a considera como realidade última e sem esperança, vive a vida com cobiça, com preocupações, num consumismo desenfreado. Quem, pelo contrário, acredita que ela é o caminho para a plenitude, se deixará guiar pelos ensinamentos do Mestre.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

TODOS OS SANTOS - Mt 5,1-12


O CAMINHO PARA A FELICIDADE PLENA
“Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do cordeiro”. Com esta imagem, o livro do Apocalipse indica todos aqueles que participaram do sacrifício expiatório de Cristo, cordeiro sem mancha. Estes, agora, formam a multidão imensa, simbolizados pelo número 144.000 (12 tribos de Israel x 12 apóstolos x 1.000 = idéia de abundância). São todos aqueles que conseguiram a visão eterna de Deus depois de ter atravessado o tempo da prova, lutando constantemente contra as ciladas do mal, animados pela coragem e segurança que vem do Senhor. Estamos falando dos santos.
Os santos são aquelas pessoas canonizadas pela Igreja, depois de uma minuciosa investigação da vida destas. Mas, os canonizados constituem uma pequena parte. Há muitíssimos outros que celebramos hoje, uma multidão que ninguém podia contar, diz o livro do Ap. São aqueles que com humildade se submeteram à vontade de Deus durante a sua vida, e estão na presença do Senhor para sempre. Dentre estes, podem constar nossos amigos e familiares já falecidos. São os santos anônimos, e são exatamente como os canonizados.
Também nós não devemos nem duvidar que possamos participar desta comunhão. Cristo não exclui ninguém da salvação. Porém, Cristo não impõe, ele só propõe. Cada um é livre em aceitar ou rejeitar esta salvação.
O Evangelho de hoje nos apresenta um itinerário de santidade humana que abraça todas as etapas da nossa vida, abarcando cada situação e considerando os desafios que a cada dia estamos sujeitos: Deus não quer que fiquemos passivos, há um caminho a seguir. As bem-aventuranças indicam que caminho é este, mostrando o caráter do cristão enquanto herdeiro do Reino de Deus, da felicidade plena, da alegria perfeita.
Ser pobre em espírito é ser humilde. É quando reconhecemos nossa necessidade, nossa insuficiência e nossa dependência, nossos limites, e, nos dirigimos a Deus na oração com confiança. Para tal, é necessário arrancar de nós toda soberba, orgulho, presunção, egoísmo, auto-suficiência, superioridade, intolerância. Esta bem-aventurança não diz respeito só aos que são pobres materialmente: um milionário pode reconhecer e confessar que a riqueza material não é tudo para ele e que ele depende de Deus; enquanto, um pobre materialmente pode ser cheio de inveja e esperar tudo da riqueza terrena.
A segunda bem-aventurança parece contraditória, pois o pranto é o contrário de alegria. Os motivos podem ser vários: a morte, a doença, as desgraças, o pecado e a fraqueza, as mudanças drásticas da vida. O aflito é aquele que sofre por sua situação ou pela dor alheia, movido pela compaixão. O pecado contrário é quando somos indiferentes e almejamos uma “vida boa”, cheia de prazeres, confortos, tranqüilidades; é o pecado da indiferença com o próximo, da dureza de coração.
Jesus era manso. Ele chama felizes os mansos, que deixemos toda grosseria, desrespeito, desamor, agressões. A santidade deve mostrar-se no modo como tratamos as pessoas. É preciso trabalhar o autocontrole, aceitar o próximo, não querer dominá-lo, controlá-lo, humilhá-lo nem impor-lhe nossas idéias.
Fome e sede são uma necessidade natural, fundamental para vivermos. Felizes são os que tem fome e sede de justiça: ser justo significa ser reto, honesto, correto com relação ao próximo, a Deus e às coisas materiais.
Ser feliz significa ser misericordioso. Significa não ficar indiferente perante o sofrimento alheio nem mostrar um coração duro perante as ofensas que nos foram causadas. Sentir a miséria do outro e perdoá-lo. Só perdoando, seremos perdoados.
O que busca a santidade busca a pureza. Humanamente falando, nos damos conta que é impossível ser totalmente puro, mas o sangue de Jesus nos lava de todo o pecado.
O caminho da santidade é uma busca constante de paz. Deus é um Deus da paz. Ele quer que nós também sejamos pessoas de paz. Temos que aprender a lidar com o pecado da maledicência, da intriga, da vingança, da provocação. Somos felizes quando não só fizermos as pazes com os outros, mas também quando formos instrumentos de paz entre duas pessoas ou grupos etc.
Ser bem-aventurado implica ser perseguido ou até morrer por causa de Jesus Cristo. Talvez seja esta uma questão das mais difíceis da santidade: conviver com isto enquanto se segue a Jesus. Talvez alguém possa se enganar pensando que quanto mais próximos a Deus estivermos, mais amados seremos por todos. Errado! Pois, seremos cada vez mais invejados, contrariados, insultados e perseguidos. O diabo fica desconcertado com os que, sinceramente, buscam seguir Cristo. O próprio Jesus Cristo foi odiado e crucificado.
Enfim, o caminho indicado por Jesus para nossa felicidade parece ser uma restrição, uma limitação da liberdade humana. Mas, Jesus não veio prender, veio libertar. Na verdade, as bem-aventuranças são um caminho para a liberdade, para a salvação, para a felicidade.