segunda-feira, 22 de outubro de 2007

XXX DOMINGO COMUM - Lc 18,9-14

Será que ainda estou cego?
No domingo passado, Jesus nos falava da necessidade de rezar sempre sem desanimar. Hoje, nos revela o segredo de uma oração verdadeira e também eficaz. Ele nos conta uma parábola sobre a oração de dois homens que pertencem a duas categorias completamente opostas. Na verdade, o Evangelho quer provocar em nós a pergunta: com qual dos dois me identifico? Com o fariseu ou com o publicano?
Prestemos bem atenção a como cada um dos homens reza e assim iremos descobrir. Podemos nos encontrar no lugar do publicano (pecador), que foi justificado; mas também com muita probabilidade, podemos nos encontrar no lugar do fariseu, que por sinal, não justificado; este último é aquele que regularmente vai ao templo, ou seja, somos nós, que regularmente vamos à igreja.
Enfim, a parábola em questão é direcionada para todos aqueles que julgam ser bons e desprezam os outros, diz o evangelista Lucas.
O fariseu é aquele que se acha justo, certinho, pelo fato de conseguir freqüentemente cumprir os preceitos da lei: “eu jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de toda a minha renda”. A atitude dele é aquela de uma pessoa egoísta, cheia de si mesmo. Usa sempre o pronome “eu”. E o que agrava a sua presunção é o fato de desprezar os outros. Não se pode rezar e, ao mesmo tempo, desprezar; dialogar com Deus e ser duros com as pessoas; no fundo, nos deleitamos com os defeitos dos outros para agradar a nossa presunção (Nossa! Comparando-me com fulano de tal, como eu sou bom e correto!). Uma vida assim é cheia de suspeitas e de medos, uma vida triste num mundo corrompido. A oração do fariseu, no final das contas, é um julgamento.
De fato, esta parábola é muito inquietante! Mostra como na oração podemos nos separar de Deus e dos outros quando falsificamos a nossa consciência, enganando-nos quanto a Deus e ao nosso próximo.
Quando estamos falando coisas negativas sobre os outros como aquele fariseu (“não sou como os ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos”), na verdade, estamos envenenando as nossas vidas. Deus está interessado no nosso interior e não naquilo que aparentamos ser. Precisamos nos conscientizar que não é impressionando uns aos outros que interessa a Deus, mas é nossa vida interior que interessa a ele.
O orgulho é uma cegueira que nos impede de ver nossos próprios erros. É difícil ser humilde. Se nos consideramos humildes, isso já é presunção. Ser humilde significa nunca pensar que somos melhores que as outras pessoas, mas que somos humanos, e por isso, limitados tanto quanto os outros. Esta consciência é o que nos estimula a sempre buscar o amadurecimento espiritual.
Às vezes, a única maneira pela qual aprendemos a tratar bem as pessoas, é quando somos maltratados, para que possamos ver como isso machuca e aprender a não fazer com os outros. A pessoa orgulhosa nunca acha que é orgulhosa, porque o orgulho facilmente se esconde. O orgulho é uma máscara que encobre realmente quem somos. O orgulho é um julgamento: julgamos porque somos orgulhosos; julgar, na realidade, é tentar achar um caminho para nos sentirmos melhores em relação a nós mesmos, apontando os erros dos outros. E Deus é um juiz que não faz discriminação de pessoas (I leitura). Deus não discrimina ninguém; como isto deve doer ao ouvido orgulhoso!
Outra coisa também muito freqüente existir é um entendimento errado da humildade: quando ficamos passivos diante de tudo ou quando sempre estamos dizendo que não somos capazes para isto ou para aquilo. Esta é a falsa humildade. A humildade é uma das virtudes mais difíceis de se obter, mas também é uma das mais necessárias.
O publicano é realmente um pecador; ele não arranja uma desculpa para o que fez. Uma transgressão típica dos publicanos era trapacear os outros e ser conivente com as tramóias do império romano. A oração simples do publicano é reconhecer-se pecador. Não julga ninguém, nem mesmo o fariseu, por quem já foi julgado, insultado e excluído.
Deus “jamais despreza a súplica do órfão, nem da viúva, quando desabafa suas mágoas”. Mas, temos que nos entregar totalmente a ele. O publicano foi perdoado não porque fosse melhor que o fariseu, pensar isso seria cair na mesma atitude do fariseu, mas porque com sinceridade mostrou e admitiu sua fraqueza e abriu seu coração a um Deus que é imensamente maior que o seu pecado, a um Deus que nos acolhe, que nos abraça com a sua misericórdia infinita. “Quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado”. Que nossa oração humilde atravesse as nuvens e chegue ao Altíssimo.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

XXIX DOMINGO COMUM - Lc 18,1-8

O meu socorro vem do Senhor
Pode acontecer que na nossa vida nos questionemos: será que a oração funciona mesmo? Será que Deus escuta mesmo quem reza? Estas perguntas aparecem quando Deus parece não reagir diante da nossa súplica ou quando não nos damos conta de sua ação, como por exemplo, quando fazemos uma oração fervorosa, e depois de obtida a graça, não a consideramos como fruto da oração.
E isto nos leva a pensar que se a oração for realmente inútil, para que perdermos tanto tempo com ela?
Justamente por causa dessas dúvidas, é que a liturgia dominical insiste tanto em tratar o tema da oração. O Evangelho quer mostrar o quanto a oração é essencial na vida do discípulo, através de relatos onde o próprio Jesus reza ou quando ele nos orienta na prática da oração. Ele diz que pra que nossa oração seja eficaz, nós devemos: amar os nossos inimigos e rezar pelos que nos perseguem, rezar ao Pai “no segredo”, perdoar do fundo do nosso coração a quem nos ofendeu, rezar com audácia na certeza do obter e com plena adesão à vontade de Deus.
Na I leitura de hoje, vemos o esforço de Moisés em manter a mão levantada para vencer a batalha; no Evangelho, com a parábola da viúva importuna, Jesus nos exorta à paciência da fé, necessária quando nossa oração parece não ouvida e inútil.
No tempo de Jesus, a mulher viúva ficava numa situação muito difícil, sem meios para viver e sem proteção. A viúva do relato de Jesus tem necessidade de ser defendida e por isso, se dirige ao juiz. Mas, o juiz de sua cidade não tem interesse algum em ouvi-la. Pois, ele sabe que aquela pobre mulher não pode lhe pagar um preço alto e ele não quer perder seu tempo por uma causa que não dê muito lucro. Ele não se importa de maneira alguma com a situação da viúva, é totalmente indiferente, e recusa ouvi-la.
A viúva, porém, não perde a esperança: todos os dias, volta a se apresentar ao juiz, repetindo sempre a mesma coisa: “faze-me justiça contra o meu adversário!”. Os dias passam e o juiz já não agüenta mais aquela viúva importuna. Por um tempo, ele até faz de conta não se incomodar, mas um dia ele cansa de ouvir aquele aborrecimento e pensa: “mesmo não temendo a Deus nem respeitando ninguém, não suporto mais esta viúva me torrando a paciência, e por isso, vou fazer-lhe justiça para que ela me deixe em paz”.
Muitas vezes nos comportamos exatamente como esse juiz, e por isso, entendemos bem a parábola: a quem nos pede um favor que não queremos fazer, damos um sim pra ficarmos livres, que no final das contas, fazemos pensando em nós mesmos. Um comportamento destes não é próprio do coração de Deus.
Jesus termina de contar a parábola e pergunta aos discípulos: “vocês ouviram o que diz este juiz injusto? Pois bem, se até mesmo um juiz desonesto decide atender uma viúva para não ser mais incomodado por ela, como pensam que se comportará Deus que é Pai com relação aos filhos que imploram a ele? Eu lhes digo que Deus fará justiça bem depressa”.
Se não rezarmos, estamos dizendo a Deus que ele é impotente. É necessário que rezemos pacientemente, incessantemente. Entretanto, nós temos de ser conscientes de que não podemos prescrever quando e como ele nos atenderá. Uma coisa sabemos: ele nos fará justiça. Deus pode nos provar por um longo tempo, mas também pode intervir de modo rápido e inesperado.
Temos que ser pacientes no esperar. Esperar não é opção. Todos vamos ter que esperar e não sabemos por quanto tempo. É como nós esperamos o que faz a diferença. Muitas vezes, ficamos esperando em Deus, quando na realidade é Deus quem está esperando por nós. Deus não vai mudar de idéia nunca com a nossa teimosia. Há um tempo pra tudo, Deus faz as coisas conforme o pensamento dele, nunca conforme o nosso. Somos viciados na satisfação imediata. Hoje em dia não queremos esperar por nada.
Por isso, Jesus faz a pergunta: “mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” com esta pergunta, Jesus quer dizer que Deus é sempre fiel, menos segura é a capacidade que nós seres humanos temos de mantermos a fé em Deus em todas as provas. Se não formos pacientes no esperar, então não poderemos ser alcançados pelo socorro do Senhor. A pergunta de Jesus é um convite a ficarmos unidos a Deus por meio da oração confiante.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

XVIII DOMINGO COMUM - Lc 17,11-19


CADÊ OS OUTROS NOVE?
No tempo de Jesus, a lepra era uma doença que excluía duramente a pessoa enferma do lugar onde vivia e de sua própria família. A pessoa ficava condenada a viver na periferia das cidades. Um leproso só podia conviver com outros leprosos para evitar o contágio em pessoas sadias. Se uma pessoa sadia se aproximasse do lugar onde os leprosos ficavam, estes eram obrigados a gritar para informar o quanto eram contagiosos, e, ao mesmo tempo, tinham que se afastar.
É nesse contexto que Jesus, numa zona de fronteiras entre a Galiléia e a Samaria, encontra dez pessoas com lepra na periferia de um povoado; elas se aproximam dele, mas param a distância e gritam: “Jesus, mestre, tem piedade de nós!”. Estes leprosos pedem ajuda a Jesus. Eles não podem fazer nada por si mesmos, mas podem receber ajuda de alguém que tem poder sobre a sua enfermidade.
Mas o texto parece mostrar que Jesus quer se livrar deles também. Manda eles irem aos sacerdotes, sem ter feito absolutamente nada para curá-los. Segundo as leis do AT, os sacerdotes têm a competência de verificar a cura de um leproso, e, assim, reintegrá-lo na sociedade. Na I leitura, do II Livro dos Reis, quando o sírio Naamã é curado por Deus, vai apresentar-se imediatamente a Eliseu e agradece ao profeta.
Os dez leprosos devem ser, antes de tudo, curados para que possa haver sentido irem se apresentar aos sacerdotes; mas, Jesus, simplesmente os põe a caminhar; e é aí, que vemos a fé e a confiança daqueles leprosos em Jesus, na esperança de que, cumprindo seu mandamento, conseguirão aquilo que desejam.
Um deles ao perceber que estava curado, toma uma atitude diferente da dos outros nove que correram apressadamente para serem readmitidos na sociedade; este retorna a Jesus para agradecê-lo. Aqueles nove olham só para seus próprios interesses, só para o futuro, já não se lembram de quem os livrou daquele destino miserável; e, Jesus, se decepciona com eles: “onde estão os outros nove?”
Todos gritavam por Jesus quando estavam no momento do sufoco, mas por que só um gritou de agradecimento: glorificando a Deus? Na realidade, é que só para este, a cura foi um verdadeiro encontro com Deus.
E quanto a nós? Quando recebemos uma graça de Deus na nossa vida, o que vale mais para nós? O dom ou aquele que nos concedeu o dom?
Quando ganhamos um presente, se a nossa atenção se restringe ao bem material, somos egoístas; se, pelo contrário, se a experiência do presente nos leva a colocar a nossa atenção no amor e na benevolência daquele que nos presenteou, isto torna-se um encontro novo e pessoal com o nosso benfeitor.
Ganhar um presente é muito bom. Mas, nos dá mais felicidade ainda reconhecer a benevolência e a ajuda daquele que nos presenteou e poder agradecê-lo. Junto com o pedido, a ação de graças deve ser a forma fundamental da nossa oração e da nossa relação com Deus. Quantas vezes durante a nossa vida pedimos, imploramos a Deus por uma série de coisas e quando ele finalmente nos concede a graça, esquecemos completamente dele. Desta forma, perdemos a chance de reconhecer e experimentar o amor de Deus.
A lepra tinha levado a um primeiro encontro com Jesus, mas um encontro à distância. Movido pela fé em Deus, o samaritano foi curado, sua relação com Deus tornou-se mais íntima, o que lhe rendeu uma fé mais firme. Que nós também tenhamos a coragem de gritar por socorro ao Senhor para que ele cure a nossa lepra, especialmente, aquela espiritual, a fim de que reconhecendo as maravilhas que ele opera na nossa vida, possamos cada vez mais ter uma fé fortalecida e contagiante.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

XXVII DOMINGO COMUM - Lc 17,5-10


SOMOS SOMENTE SERVOS!
A Palavra de Deus que hoje nos é dirigida fala de dois temas: a fé e a atitude correta que o homem deve assumir perante Deus. As leituras são um convite a reconhecermos nossa pequenez e a acolher com gratidão os dons que Deus nos dá.
Na primeira parte do Evangelho, vemos um pedido por parte dos apóstolos ao Senhor: “aumenta a nossa fé!”. Não sabemos precisamente o que tenha feito os apóstolos pedirem ao Senhor para que aumentasse a fé deles; podemos imaginar que seja algo ligado ao perdão ilimitado (texto imediatamente anterior): por ser uma tarefa muito difícil, principalmente quando se tem que perdoar o próximo que nos magoa constantemente; às vezes, a paciência e o amor querem fraquejar. Por isso, é necessária muita fé.
Os apóstolos e nós, hoje, nos damos conta como é fraca a nossa fé em Deus. Mas, como eles, não abandonamos a luta nem diminuímos os nossos trabalhos, mas pedimos ao Senhor uma fé maior. E é o que devemos fazer mesmo! Só Deus pode vir em nosso auxílio.
Jesus não responde diretamente ao pedido dos apóstolos. Mas, com a sua resposta, ressalta a importância da fé. Somente se tivermos uma autêntica confiança em Deus, acontecerá aquilo que para a razão humana é impossível. Esta impossibilidade é exemplificada através da imagem do “transportar montanhas” (aqui uma amoreira). Não há limites para o poder de Deus. Mesmo que Deus nos peça coisas aparentemente impossíveis, ele pode nos tornar capazes de realizá-las. E mesmo que esta fé seja microscópica como uma semente de mostarda, se for verdadeira fé, Deus fará com que ela desenvolva. (contraste entre a pequenez da semente de mostarda preta e a altura dessa árvore: uns 5 metros).
Na I leitura, vemos o profeta Habacuc que discute com Deus: como fazer pra acreditar em Deus se as coisas estão indo mal? E Deus responde: “o justo viverá por sua fé”. Talvez estejamos na mesma situação de Habacuc? Quanta violência, injustiças, tragédias. É preciso termos fé, é necessário confiar.
Em tudo aquilo que Jesus faz, ele encoraja os apóstolos a crerem. Ele diz a Pedro: “eu orei por ti para que tua fé não desfaleça” (Lc 22,32). Desta forma, o Senhor cumpre o pedido feito por seus apóstolos de aumentar a fé deles. Também nós devemos contar com a oração de Jesus e pedir esta forma de relação fundamental com Deus: a confiança nele.
Com a parábola do servo, Jesus nos indica um outro aspecto essencial da nossa relação com Deus. Esta parábola não pretende mostrar o comportamento de Deus com relação ao homem, mas quer indicar qual a justa posição em que nos encontramos perante ele. Jesus não quer passar a idéia de um Deus como um patrão que manda, é servido sem agradecer, e alimenta os seus servos só com o resto! Não! O que importa aqui é: qual a justa visão que os apóstolos devem ter de sua relação com Deus: os servos devem fazer tudo aquilo que o seu patrão ordena. Obedecendo estas ordens, fazem somente o seu dever e não merecem nada por isso. Devem aceitar esta realidade.
Reconhecer a nossa relação de dependência a Deus significa entender que não somos independentes. Ninguém veio à existência sozinho. Também não somos autônomos, não podemos viver a nossa vida a nosso bel prazer sem prestarmos contas a Deus. Temos deveres para com Deus. Mas também devemos estar conscientes de que ele nunca nos pede nada de arbitrário ou absurdo. O dever é aquele de nos comportarmos como administradores fiéis: da nossa vida, das nossas capacidades, dos nossos dons.
Nunca devemos pensar que cumprindo a vontade do Senhor temos direitos e privilégios perante Deus. Devemos ser conscientes que o que fazemos não é outra coisa que o nosso dever. Às vezes, podemos pensar que o fato de rezarmos, de fazermos caridade, de cumprir a vontade de Deus represente um favor a ele e que por isso, ele deve ser grato a nós. Há muita gente que pensa assim. Pois, saibamos que Deus se alegra pelo nosso esforço. Mas, ele não precisa disso. De jeito nenhum. Nós é que precisamos. De nossa relação com Deus devemos excluir qualquer pretensão.
Assim, com humildade e modéstia, a nossa condição perante Deus é fazer tudo aquilo que é nosso dever, e por isso, o Evangelho nos chama de simples servos, não de “servos inúteis”. A palavra grega utilizada aqui traduzida por inútil indica a falta de mérito, a humildade, a pequenez, e não a inutilidade: a idéia de não servir para nada. Não somos servos inúteis, pois trabalhamos no arado de Deus, mas nem por isso deixamos de ser “simples servos”.