quarta-feira, 26 de setembro de 2007

XXVI DOMINGO COMUM - Lc 16,19-31


Um grande abismo chamado indiferença
Neste XXVI Domingo do Tempo Comum, o que a liturgia nos propõe é claramente uma continuação do tema do domingo passado sobre o bom uso do dinheiro.
Na I leitura, o profeta Amós faz uma forte denúncia à injustiça daqueles que levam uma vida luxuosa à custa da exploração dos pobres, sendo totalmente indiferentes ao sofrimento e miséria destes. Para eles, Amós anuncia que Deus não vai tolerar este egoísmo, reservando-lhes um final infeliz: serão deportados de seu país “na primeira fila”.
Também Lucas continua a denunciar o mau uso do dinheiro por parte de alguns à custa da miséria de tantos. É uma mensagem forte também para nós, homens e mulheres de hoje, que vivemos num mundo cada vez mais injusto. Antes, se a Palavra de Deus é sempre válida, esta parábola é uma fotografia do mundo atual, onde uma mínina parte da população vive no consumismo e no desperdício e uma grande maioria vive na miséria.
É um absurdo hoje só se falar em progresso e ainda existir tanta fome no mundo, tantas pessoas desabrigadas sem os cuidados mais elementares de saúde. Que tipo de progresso é este?
Na parábola do homem rico e do miserável Lázaro, Jesus descreve a vida terrena de ambos: os dois extremos da sociedade. O rico tem um estilo de vida alto, suas roupas são das grifes mais caras, elegantes e luxuosas. Ele usa a sua riqueza para levar uma vida cheia de prazeres. O sentido da vida pra ele é o prazer das coisas materiais. O que o separa do miserável Lázaro é apenas a porta de sua casa. Ele não acolhe o pobre. Este leva uma vida dura; não só é desprovido de bens, mas se encontra doente e desabrigado. Seu corpo não é coberto de roupas finas, mas de muitas feridas. Ele quer matar sua fome com o sobejo da mesa do rico. Sua companhia são os cães sujos que se aproximam dele para lamber-lhe as feridas. Faminto e doente, vive na sujeira das ruas. Mas, diferentemente do rico, Jesus faz questão de lembrar o seu nome: Lázaro (Deus ajuda). Na extrema pobreza, ele não perde a confiança, mas é convicto de que Deus o ajuda.
Morre o miserável, único instrumento de salvação do rico. Morre também o rico. A morte os torna iguais. Não há como escapar dela. E a este ponto, o destino deles se inverte completamente. O que é descrito sobre a vida depois da morte dos protagonistas da parábola não quer ser uma descrição precisa da vida eterna; mas quer caracterizar a radical diversidade entre a vida daquele que um tempo foi rico e a do que foi pobre. Lázaro é levado para o seio de Abraão, para o banquete festivo. Quanto ao rico, dois elementos mostram como mudou a sua situação. Ele que vivia no luxo, agora é rodeado de fogo e grandes tormentos. Ele que tinha a sua disposição comidas finas e bebidas importadas, agora implora por uma simples gota d’água. Na vida terrena, Lázaro faminto tinha lhe pedido os restos da sua mesa sem receber nada. Agora, é o rico que pede uma gota d’água na ponta do dedo de Lázaro e não pode recebê-la. Tarde demais! O modo no qual empregou sua riqueza e consumou a sua vida o reduziu a uma condição na qual sofre dor e tormento.
O rico reconhece tanto que o modo que conduziu sua vida estava errado que queria que Lázaro fosse avisar aos seus irmãos para mudarem de vida a fim de evitar aquele trágico destino. Mas, Abraão não permite e responde: “Eles têm Moisés e os profetas, que os escutem” Pra evitar esse destino, é necessário escutar a Palavra de Deus, pois ela mostra a vontade de Deus, a orientação para uma vida justa. Nela, é expressa a nossa responsabilidade social com relação aos mais pobres. Mas somente seremos capazes de praticá-la se tivermos um coração bom e aberto. O coração cego é endurecido pelo egoísmo e não se interessa por Deus nem pelo próximo. Jesus nos convida sempre a tomar consciência dos verdadeiros problemas do mundo e a atuar num empenho cristão, que não se limita a alguma esmola, mas procura ir às causas da desigualdade, das injustiças, com obras de partilha e de solidariedade. Quantas coisas supérfluas nós temos? Quanto tempo da nossa vida desperdiçamos com coisas inúteis? Quantas coisas podemos fazer pelos mais necessitados e não o fazemos? Ele não nos condena se usarmos coisas materiais boas, o que ele denuncia é se isso significa egoísmo e indiferença para com os nossos irmãos mais necessitados.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

XXV DOMINGO COMUM - Lc 16,1-13


Espertos, mas honestos
As palavras do profeta Amós (I leitura) e aquelas de Jesus nos convidam a refletir sobre a amarga realidade das coisas que hoje em dia é muito difícil poder fugir e na qual nos encontramos continuamente lutando contra todo tipo de manifestação sua: a realidade da injustiça, da maldade, da corrupção, da desonestidade. Ora, se a própria Bíblia cita em vários livros episódios de opressão, de exploração, é porque esta sempre foi uma constante na história da humanidade e não é de se admirar que ainda hoje experimentemos algo igual.
Estranhamente, no Evangelho de hoje, Jesus se utiliza de uma pessoa corrupta para ensinar algo útil para nossa vida de cristãos. Mas como é possível ser elogiado um homem que se apropria indevidamente de bens alheios e faz amigos à custa do patrão?
A parábola fala que um homem rico soube que seu empregado estava administrando mal os seus bens, e, por isso, ele exige uma prestação de contas antes de demitir tal empregado; este, por sua vez, com muita esperteza, raciocina: ‘vou ser demitido, não tenho como me defender. Como vou me sustentar? Não posso encarar um trabalho braçal e tenho vergonha de pedir esmolas. Já sei o que vou fazer. Vou diminuir as dívidas que as pessoas têm com meu patrão; assim, elas ficam me devendo este favor e por isso, vão me ajudar com algo enquanto eu estiver desempregado’.
Muito espertinho o empregado! Na época, a cobrança de juros era proibida pela Lei, assim, para obter o máximo dos outros, os vendedores diminuíam medidas, aumentavam pesos, adulteravam balanças, compravam os pobres, nada diferente do que existe por aí em todos os âmbitos da sociedade. Então, aquele empregado resolve reduzir as contas devidas ao seu valor real, perdendo os juros para o patrão e fazendo amigos para si mesmo. Usou o presente para providenciar o futuro.
Jesus com esta parábola constata: “realmente, os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz”. Somo filhos da luz, seguimos a luz do mundo que é Jesus; mas, muitas vezes, como cristãos, nos faltam a prontidão e o zelo daquele administrador da parábola em vez de ficarmos nos lamentando e reclamando.
Por isso, Jesus com base nessa verdade, dá três orientações com relação ao uso do dinheiro. Primeiramente, que devemos usar o dinheiro em favor do nosso próximo. Os bens que Deus confia a nossa administração não devem ser gastos de maneira egoística em vista de uma “boa vida”, mas devem ser usados conforme à vontade de Deus. Ou seja, sendo uma bênção para o outro. Jesus fala de dinheiro, mas aí devemos incluir tudo o que é bem terreno: as nossas capacidades, talentos, educação recebida etc. Tudo deve ser administrado fielmente e não pode ser esbanjado para engrandecer a nós mesmos e para o bem da nossa pessoa. A maneira como nos relacionarmos com o dinheiro contará muito para o nosso bem espiritual.
Em segundo lugar, ele nos ensinou que em tudo o que fizermos devemos ter bem claro na mente a honestidade: quem é fiel, quem é honesto no pouco, será no grande. Quem é desonesto nas pequenas coisas, também o será nas grandes; não podemos nos enganar e pensar que nas grandes coisas nos comportaremos de modo diferente. É como quando conseguimos um emprego de vendedor numa loja. Somente, se o patrão estiver seguro da nossa honestidade nas pequenas coisas, ele nos eleva de cargo. Até mesmo nas mínimas coisas da nossa vida, devemos ser honestos, principalmente com Deus.
Por fim, Jesus nos alerta para o perigo do dinheiro atrapalhar a nossa relação com Deus. Pois, estando envolvidos somente com lucro, corremos o risco de o colocarmos no lugar de Deus, já que não se pode servir ao mesmo tempo a dois senhores.
Às vezes, pensamos que ser cristãos significa ser ingênuos; que o cristão deve rejeitar as espertezas do mundo, deve opor-se aos compromissos do mundo e às astúcias da sociedade, deve evitar a ambigüidade e a vida dupla dos prepotentes: numa palavra deve ser simples. É! Mas devemos entender que não podemos ser ingênuos. Jesus não elogia quem age de maneira desonesta, mas ele nos convida a usarmos da esperteza como aquele empregado desonesto que viu que aqueles bens estavam prestes a acabar e se tocou que com eles poderia buscar valores mais duradouros, como os amigos que fazemos quando praticamos o amor ao próximo.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

XXIV DOMINGO COMUM - Lc 15,1-32


REENCONTRANDO O AMOR PERDIDO
O Evangelho de hoje nos apresenta três parábolas. Cada vez que lemos uma mesma parábola, descobrimos novos significados que nos guiam em nosso caminho. O que estas parábolas logo de imediato falam para o mundo de hoje é que Deus não é um ser distante, severo, castigador. Ficar com uma idéia dessas atrapalha a nossa maneira de pensar, de agir, de viver. Deus é um pai amoroso, cheio de ternura para com todos e com cada um em particular.
Logo nos primeiros dois versículos, encontramos a chave de leitura para o sentido do texto: ali, encontramos os fariseus e escribas, convencidos de serem perfeitos que, por isso, desprezam os pecadores e ignoram a atitude de Jesus de se juntar com estes.
Na primeira parábola, Jesus nos convida a encontrar a ovelha perdida. “Se um de vós (todos nós somos interrogados) tem cem ovelhas e perde uma, não deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás daquela que se perdeu até encontrá-la?” Para nós, pode ser absurdo deixar noventa e nove num lugar deserto para ir atrás de uma única ovelha, mas para Jesus isso é óbvio; tanto que a própria maneira de fazer a pergunta, já prevê uma resposta afirmativa. Para Deus, cada ser humano tem igual valor.
Encontrar qualquer coisa que perdemos traz uma imensa satisfação e se tratando de uma pessoa, mais ainda. Podemos imaginar uma mãe que depois de uma busca incansável movida pela esperança, encontra seu filho desaparecido, como há tantos casos no nosso Brasil. É uma alegria fora do normal. Assim eu imagino que seja a alegria que Deus sente cada vez que nos reencontramos com Ele: “coloca-a nos ombros com alegria”; “alegrai-vos comigo” e “haverá no céu mais alegria”.
A esta altura, todos já entendemos que Jesus com seu comportamento queria mostrar o amor misericordioso que recebera do Pai para com todos e ao mesmo tempo, fazer entender ao fariseus que eles estavam errados. É como se ele nos dissesse: eu cumpro o que recebi do meu Pai, o amor infinito e por isso, me aproximo dos pecadores sim; e o que eu faço vocês devem fazer também.
Devemos ir ao encontro das pessoas desprezadas e que já se entregaram a autocondenação. Até porque também nós precisamos deste amor. Há pessoas que se acham corretas demais e não se misturam com “qualquer tipo de gente” com medo de se contaminar. É a atitude de fariseu, do falso eu, do mascarado. Façamos como Jesus: ele comia com os pecadores, com as pessoas de má reputação, mas o diferencial de Jesus era que, envolvendo-se com estas pessoas, ele nunca era influenciado por elas; pelo contrário, com sua atitude, contagiava todas elas.
Nós somos canais do amor de Deus para os outros, principalmente para os mais necessitados de amor. “A maior doença do mundo de hoje não é a tuberculose nem a lepra, mas o não sentir-se amado, o sentir-se abandonado”, dizia Madre Teresa. As pessoas precisam sentir o amor de Deus através de nós e vice-versa.
A segunda parábola: a da moeda perdida vai no mesmo caminho: fala da alegria que a dona de casa sente e partilha com suas amigas por achar aquela moeda necessária para sua sobrevivência.
Quanto a terceira parábola, já se encontra interpretada no IV domingo da Quaresma; mas, gostaria apenas de destacar alguns traços que nos ajudam a aprofundar a melhor a mensagem central deste capítulo. Nas duas parábolas anteriores, a iniciativa é sempre de Deus, já que a ovelha nem a moeda têm como voltar pra seus donos por si só. Já a parábola dos dois filhos, é o filho pródigo quem começa o caminho de volta, mas antes que chegue, é o pai que quando o avista, corre ao seu encontro, o abraça e o cobre de beijos. Que imagem bonita! Esta iniciativa do filho de retornar é para mostrar que somente é possível receber este amor de Deus se deixarmos de ser cabeças-duras e estarmos abertos para este amor. A reação do filho maior revela ainda a atitude dos fariseus: inveja, raiva, presunção, superioridade em relação aos outros. Ele chega a dizer ao pai: “este teu filho”, como se não fosse irmão dele. Que desprezo, que coração soberbo. Quantas vezes fazemos o mesmo interpretando mal a vida dos outros? Não condenemos o que não conhecemos.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

XXIII DOMINGO COMUM - Lc 14,25-33


Que bela a reflexão da primeira leitura de hoje. O autor do livro da Sabedoria, olhando para dentro de si, coisa raríssima hoje em dia, constata que “os pensamentos dos mortais são tímidos e nossas reflexões incertas... qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus?” O homem que fez e continua fazendo progressos incríveis na ciência, pena para crescer em sabedoria. Vivemos num mundo tecnológico com produtos cada vez mais sofisticados e que deseja passear pelo espaço sideral, que conhece grande parte dos segredos do universo, que consegue melhorar continuamente o bem estar das pessoas (pelo menos o dos que têm mais condições), mas que não consegue dar uma resposta válida a um jovem que se refugia na droga, no álcool, que se entrega ao ódio, à indiferença e à solidão. Que contradição! É nosso dever dar respostas às perguntas verdadeiras e profundas que moram no coração do homem, sem nos deixar inebriar pelo limitado sucesso da ciência. E para isso, temos realmente necessidade do dom da sabedoria.
São muito duras as palavras de Jesus no Evangelho deste domingo: “se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até de sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. São tão pesadas que a tradução usada na liturgia até suavize o original hebraico: “quem não odeia seu pai, sua mãe...” Mas, não fiquemos perplexos com a linguagem. Antes de explicar, fique claro que tais palavras de Jesus não são dirigidas somente àqueles que o seguem “mais de perto”, como os padres, os religiosos, os consagrados. Tal interpretação não convence: seja porque obviamente os consagrados não são melhores que os outros; seja, sobretudo porque Jesus pronunciou estas palavras para “grande multidões” que o acompanhavam e não para um grupo restrito de pessoas.
Jesus, pedindo para “odiar” os próprios familiares na verdade está querendo dizer que ele deve estar em primeiro lugar na nossa vida. Ele é o centro da nossa vida, é o tudo em nosso coração. Mais do que qualquer afeto, mais do que uma família, mais do que qualquer outra coisa ou satisfação que o mundo nos possa dar. Jesus com convicção nos diz que só ele pode preencher o coração de quem o segue, e por isso, é extremamente duro e exigente. Mas, porque ele nos pede para que nós o sigamos sem condições? Como pretende preencher o incompleto coração do ser humano?
Na verdade, as palavras de Jesus tocam certas durezas da vida de todos, onde os afetos mais belos, dos pais, dos filhos, do cônjuge, dos irmãos e dos amigos, são marcados muitas vezes pelo cansaço e pela incompreensão. Até mesmo quando se está apaixonado, ou quando nos alegramos pelo carinho de uma pessoa querida, experimentamos de algum modo a precariedade daquela relação, já que ela sempre é condicionada e limitada. É esta precariedade que Jesus quer evidenciar nas suas duras palavras.
Naturalmente, Jesus não pretende desvalorizar os afetos humanos. Ele orienta, porém, para que vivamos como sinais e não como absolutos. O amor dos pais, do cônjuge, dos amigos e dos irmãos testemunham que a vida tem um sentido; mas, o sentido da nossa vida não é esgotado nestes afetos. Este deve ser buscado a cada dia, e nunca pode ser conseguido em plenitude. Se pensarmos tê-lo conquistado totalmente nas pessoas caras, estamos indo de encontro a uma grande desilusão; se pelo contrário, reconhecemos que o sentido da vida é algo maior, então mesmo as decepções que virão das pessoas que amamos serão menos intensas.
Este é o cálculo que todos devemos fazer, como os protagonistas das duas breves parábolas contadas por Jesus. Ambos são questionados sobre os planos feitos a respeito de uma construção ou de uma guerra para se ter bom êxito ; se quisermos que a empreitada da nossa vida tenha sucesso, ao contrário de ficar tristemente incompleta, temos necessidade de deixar Deus ser o centro da nossa vida incondicionalmente, e para isso temos que renunciar a tudo que temos: a segurança que colocamos nas pessoas caras, em nós mesmos e nas coisas materiais. Em outras palavras, temos necessidade de repetir dia após dia o salmo 89: “ensinai-nos a contar os nossos dias e dai ao nosso coração sabedoria”.