sexta-feira, 31 de agosto de 2007

XXII DOMINGO COMUM - Lc 14,1.7-14


Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração
A liturgia deste domingo propõe-nos uma reflexão sobre alguns valores que acompanham o desafio do “Reino”: a humildade e o amor desinteressado.
A palavra de Deus nos ensina com muita sabedoria nas palavras de um sábio do início do séc. II a.C. que é a humildade o caminho para ser agradável a Deus e aos homens, para se ter êxito e ser feliz. Esta humildade é deve vir acompanhada de mansidão e também da sabedoria da escuta.
Tais virtudes podem ser reduzidas a um denominador comum: a relação com o próprio eu. Humilde é aquele que não perde a consciência do próprio limite, manso é aquele que não se impõe de modo agressivo e sábio é aquele que não presume saber já tudo, mas é consciente das riquezas que estão fora de si, e por isso, escuta. Escutar é esquecer-se de si, é abrir-se ao outro, porque o seu horizonte não é inteiramente ocupado pelo próprio eu. Assim, o caminho para a felicidade é a abertura. É ela quem nos põe em harmonia com Deus, que responderá com uma nova efusão de sua graça; com os outros, que por sua vez, também mostrarão abertura e benevolência; e, conosco mesmos, dando-nos uma paz nunca experimentada pela pessoa egoísta.
Quem, determinado a fazer ressaltar as próprias riquezas e os títulos, se gaba e quer pôr-se em destaque, suscita antipatia e hostilidade. Para vencer as resistências e continuar sobre a própria estrada, usa da agressividade, tornando-se arrogante e competitivo. Não tem necessidade de escutar nem Deus nem ninguém, e só tem olhos para si mesmo, incapaz de ver os sofrimentos dos outros.
A lição do Eclesiástico é importante. O ego pode chegar a tal ponto de tomar conta de tudo, sufocando qualquer outra instância e enfim, também a si mesmo, não permitindo a Deus respirar em nós o seu Espírito. Humildade, mansidão, escuta e misericórdia nos salvam deste sufocamento, tornando-nos felizes.
O Evangelho de hoje segue a mesma idéia; aí, encontramos Jesus comendo na casa de um dos chefes dos fariseus, que percebendo que os convidados procuram os primeiros lugares, conta uma parábola. Esta percepção de Jesus é mais do que nunca válida nos dias de hoje: a busca dos primeiros lugares a qualquer preço, o carreirismo, o desejo de poder, competições causadas pelo orgulho. Da boca pra fora, qualquer pessoa pode-se dizer humilde, desapegado, mas basta às vezes uma palavra para ficar ofendida e alimentar sentimentos de crítica e de vingança.
Devemos buscar os primeiros lugares sim, mas diante de Deus. E para conseguir isso, devemos fazer o contrário do que o mundo prega. O maior diante de Deus é aquele que se faz menor: “quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”.
Mas, então, o que significa fazer-se último? Não significa, certamente, enterrar os próprios talentos, fugir das responsabilidades. Não! A menos que sejamos impedidos, devemos fazer com que frutifiquem ao máximo. Temos que dar o nosso melhor para o bem dos outros, não, porém, para nos sentirmos melhores que os outros. Fazer-se humilde significa libertar-se da ânsia da estima humana e ter serena consciência de que cada um de nós tem valor para Deus. A verdadeira humildade é esta verdade, esta serenidade. Santo Cura d’Ars dá seu testemunho: “eu recebi duas cartas muito fortes, uma me dizia que eu era um grande santo, outra que eu era um hipócrita. A primeira não me acrescentou nada, a segunda não tirou nada de mim, diante de Deus somos aquilo que somos e nada mais”.
Enfim, Jesus nos convida à virtude da gratuidade, “quando deres um almoço ou um jantar, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos”. Hoje, os relacionamentos são quase sempre feitos em vista do proveito próprio, do interesse. Fazer-se humilde significa por o pensamento primeiramente no servir: é grande quem serve, quem doa, quem entra no mistério do amor. O humilde é um incansável servo do próximo: o humilde sente que tudo é dom de Deus e tem pressa de doar tudo, porque aquilo que não se doa, perde. O humilde trabalha, age, serve, mas não espera recompensa. Poder servir é já a recompensa. Mesmo que ninguém agradeça. É muito importante ser humilde e amar o próximo desinteressadamente, sobretudo onde se há mais necessidade e onde se é menos visto, “então tu serás feliz”.

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