quinta-feira, 9 de agosto de 2007

XIX DOMINGO COMUM - Lc 12,32-48


LONGE DOS OLHOS, PERTO DO CORAÇÃO
Uma das coisas mais difíceis que temos que aprender durante a nossa caminhada cristã é a ter fé em Deus e crer que ele realmente caminha conosco lado a lado; e, hoje, isso se torna mais difícil porque o mundo atual, principalmente os cientistas ateus, nos ensina a acreditar só no que é evidente, difundindo cada vez com mais força a não necessidade de Deus.
Mas, apesar de atuarem com força esses cientistas ateus, temos belos testemunhos de fé entre os cientistas em geral, como o biólogo americano Francis Collins, que liderou por 10 anos o projeto Genoma Humano. No seu livro, intitulado, “A Linguagem de Deus”, ele afirma: “é nosso dever levar em consideração todo o poder das perspectivas científica e espiritual para entendermos tanto aquilo que enxergamos quanto aquilo que não enxergamos... a integração entre estas duas perspectivas”. Acreditar é justamente tomar como verdadeiro aquilo que não se vê. Também para o ateu a fé uma atitude essencial. Estamos a todo tempo acreditando e confiando em coisas que não vemos: acredito no amor das pessoas por mim, acredito na pessoa que preparou o alimento pra mim, acredito no motorista que dirige o ônibus que eu vou tomar, acredito nos médicos que vão cuidar de mim. Acreditar e confiar é indispensável. O nosso dia a dia contradiz a expressão tantas vezes usada por nós: eu só acredito vendo!
Não podemos viver neste mundo sem confiar uns nos outros. A fé em Deus é semelhante: cada um de nós é empurrado pelo testemunho dos outros a encontrar a face de Deus. E travamos esta busca trabalhosa da fé, que poderá durar toda a nossa vida. Um grande exemplo para nós foi Abraão. Como são belos estes versículos da II leitura sobre Abraão: ele viveu pela fé, partiu da sua terra seguindo uma intuição, um chamado interior, sem saber para onde ia; foi pela fé, que sua mulher Sara engravidou, sendo estéril e já de idade; foi pela fé, que sendo provado, não vacilou quando estava para oferecer seu filho Isaac.
Na nossa vida, acontecem muitas experiências, relações, catástrofes, doenças, misérias; acontecimentos que tentam nos dominar e imaginar um Deus longe e fraco. Corremos o risco de nos cansarmos, a ponto de nossa ligação com Deus ficar cada vez mais fraca e ter cada vez menos valor na nossa vida.
No Evangelho de hoje, Jesus quer nos alertar contra este perigo; e, ao mesmo tempo, mostra o que o Senhor doa aqueles que permanecem vigilantes e fiéis.
Antes de tudo, ele encoraja os seus discípulos a não temerem, mesmo sendo um grupo pequeno, pois eles têm Deus como Pai, o qual lhes deu uma herança magnífica: o seu Reino, a plena e eterna comunhão com Deus. Este tesouro deve ser conhecido por eles na fé e deve preencher o coração deles, os quais, devem usar os bens terrenos como instrumentos necessários para a vida, mas o seu coração não devem apegar-se a eles.
O ponto chave para a interpretação das parábolas é a ausência do patrão. Quer mostrar como deve se comportar o servo durante esta ausência. A primeira coisa é estar vigilante e preparado. Segundo o costume daquele tempo, tirar o cíngulo e levar a túnica solta, indicava que o servo já havia acabado o trabalho. Pôr o cíngulo é sinal de quem está pronto para trabalhar ou para viajar. A lâmpada indica que aquela atividade possa acontecer mesmo à noite. Portanto, requer-se prontidão em todos os momentos. A comparação com a vinda de um ladrão mostra isso: o improviso e inesperado que pode ser a vinda do Senhor.
A ausência do patrão traz como conseqüência quase necessária que o vínculo com ele enfraqueça. Nós seres humanos temos necessidade da presença do outro, do encontro contínuo com ele, se quisermos que uma relação permaneça forte e viva. O constante pedido na parábola à vigilância e prontidão indica a orientação intensa e viva para com o Senhor. Mesmo que ele esteja longe dos nossos olhos, nosso coração deve estar pleno dele.
A reação do patrão para com os seus servos é descrita de modo novo. Ele assume a tarefa de servo e os trata como seus patrões. Ele os faz sentar a mesa e os serve o banquete. Ele, porém, continua sendo o patrão, por isso mesmo, o seu serviço é tão significativo. E os servos continuam como tal, por isso, a honra que recebem é tão grande. Esta relação patrão-servo não é desumana nem impessoal, pelo contrário, mostra que o patrão deseja que seus servos estejam unidos a ele de modo pessoal e cordial, e sabe valorizar tal comportamento de modo muito pessoal. Os servos devem ter no coração o patrão ausente e devem deixar-se guiar pela sua vontade, mas podem também estar seguros que o patrão tem um coração para eles.
Todos os servos devem estar acordados quando o patrão vier. Todavia, há servos que têm uma responsabilidade particular. A eles, o patrão confiou uma função de guia para com os outros servos. Isto pode mostrar um perigo, pois eles são só administradores, não são chefes por direito próprio. Estes devem tomar conta deles mesmos e servir aos outros servos. Se aproveitarem da sua posição e tratarem com opressão os seus companheiros, serão punidos duramente. Se, ao invés, se demonstram confiantes, o patrão manifestará a eles o seu reconhecimento e a sua confiança.
Enfim, na nossa vida de cristão é indispensável a nossa comunhão constante com Deus e a fidelidade à missão que ele nos confiou. Isto deve ser vivido, mesmo com as dificuldades que surgem pelo fato de que a presença do patrão seja pouco visível. A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se vêem.

Um comentário:

Micheline Macedo disse...

Padre, porque as pessoas de Deus são as mais provadas? Fé consiste em acreditar mesmo quando todas as circunstancias são contrarias ao acontecimento. Nós cristãos devemos sofrer as demoras do Senhor sem lamentações e murmúrias, pois o Deus cumpre o que promete. Assim como canta Eliana Ribeiro: "basta confiar, saber esperar e Ele agirá. Sua benção, padre Carlos!