quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Ap 12: “Quem é aquela mulher?”


O Apocalipse é um dos mais belos livros da Bíblia. Entretanto, devido ao fato de ser composto por milhares de símbolos, é tão difícil, e, uma interpretação ao pé da letra, fundamentalista, o torna assombroso e evitado.
Na I leitura da missa deste domingo, no qual a Igreja comemora a Assunção de Maria, lemos uma pequena parte de Ap 12, texto famoso onde aparece uma batalha no céu entre uma mulher e um dragão. É este texto que agora vamos interpretar.
João apresenta à assembléia um “sinal” que devemos decodificar e aplicá-lo à realidade; um sinal de grande importância, como nos indica o “grande” que o acompanha. É dever da Igreja interpretá-lo.
Na dimensão que é própria de Deus, no céu, aparece uma “mulher”, que no grego, significa imediatamente, esposa e mãe, e nos faz pensar à aliança de Deus com o seu povo, muitas vezes expressas em termos de amor nupcial, como é o caso também do Apocalipse.
Vestida de sol porque cheia da glória de Deus; com a lua sob os pés porque já na eternidade, a lua tinha a função de regular o desenvolvimento do tempo no AT. E neste contexto de eternidade já conseguida, ela tem uma coroa de doze estrelas na cabeça. A coroa como símbolo de vitória (vocabulário grego próprio para a corrida olímpica onde os ganhadores recebiam uma coroa de louro). A esta altura, as doze tribos de Israel não são somadas aos doze apóstolos, mas se sobrepõem, mostrando a unidade do povo de Deus. Mas, quem é esta mulher?
A assembléia eclesial que com muito esforço decifra o sinal à luz do AT já intuiu: trata-se do povo de Deus, visto nas suas dimensões transcendentes. A assembléia se enxerga estupefata com alegria nesta cena. Mas, o sinal não termina aqui. O quadro parece mudar bruscamente, mesmo se a protagonista, a mulher, permanece. Ela está em trabalho de parto. A fecundidade que a palavra “mulher” indica, agora é explicitada. Esta mulher está para dar à luz, não obstante os obstáculos que deverá enfrentar. Será que ela dará à luz realmente? Quem será o filho?
O autor deixa-nos com muitos interrogativos? Para compreender o sentido do parto é indispensável compreender um outro sinal, contraposto ao primeiro, pois facilita a interpretação: um imenso dragão cor de fogo, cor que evoca destruição e morte. Ele age entrando na história humana, especialmente atiçando nas realidades que dão tom à vida dos outros: são as estruturas, os centros de poderes (as cabeças com os diademas). Esta monstruosidade de negatividade demoníaca e maldade humana se opõem ao parto da mulher e têm a intenção de destruir o seu filho. O simbolismo complica, pois a pergunta era: o que significa o parto? Agora: por que este filho é este tão odiado?
João finalmente nos dá uma resposta que ilumina: um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro. Quanto a isto, não resta dúvidas. O filho é Cristo. Mas, Cristo projetado no futuro escatológico, no final da história da salvação, quando terá a vitória final sobre o mal. É um Cristo que nasce da Igreja. A assembléia se identifica com a Igreja e com a mulher: exatamente ela, deverá, com muita fadiga, dia após dia, anunciar Cristo. Como Paulo mesmo diz: “Meus filhos, por vós sinto, de novo, as dores do parto, até Cristo ser formado em vós” (Gl 4,19).
A pergunta agora é: o que significam, então, as tentativas da Igreja em confronto com os elementos hostis do mundo moderno? Não seria ilusório sonhar em anunciar, no esforço cotidiano, o Cristo em crescimento que derrotará definitivamente o mal, quando o mal é hoje tão potente e a assembléia litúrgica tão limitada?
O autor nos dá uma resposta: “mas o filho foi levado para junto de Deus e do seu trono. E a mulher fugiu para o deserto, onde Deus tinha preparado um lugar”. O que a Igreja consegue fazer, por mais limitado que seja e aparentemente em vão em confronto com o ambiente na qual esta se encontra, pertence a Cristo e isto não será perdido. O fruto deste parto doloroso da Igreja é levado pra junto de Deus, posto num lugar protegido pelo poder de Deus. Nenhuma força humana, nenhuma força demoníaca poderá destruí-lo.
A mulher, porém, foge para o deserto. No AT, este era o lugar do amadurecimento na relação entre Deus e seu povo. A Igreja deverá sentir o deserto, cansaço no caminho, esperança e confiança; também poderá significar aquela constatação de autenticidade que virá das provas e das perseguições. Mas, sobretudo deverá expressar um amor absoluto e radical.
Quem é esta mulher? É a Igreja, já falamos. Mas, existe uma continuidade na obra de João entre a “mãe de Jesus” e a “mulher” no IV evangelho, por um lado, e a “mulher” do Apocalipse 12, por outro. A “mãe de Jesus” que ele chama “mulher” em Jo 2,4 evoca a Igreja, da qual, Maria, Jesus e os discípulos representam a primeira realização. O termo “mulher” aparece depois da pergunta provocante de Jesus sobre a sua relação com Maria (Mulher, o que tenho a ver contigo?), faz alusão a “hora” de Jesus. Mais adiante, a “hora” de Jesus qualifica a “mulher” e lhe dá uma explicação. Mediando entre mãe física de Jesus e mãe espiritual dos discípulos (Mulher, eis aí o teu filho!), o termo “mulher” liga Maria “a Igreja, que já é constituída pelos discípulos de Jesus. A mãe de Jesus aparece, de fato, em função da Igreja. Acolhida na Igreja de João, exercita a sua função de maternidade e convida a Igreja a ver-se nela. Neste sentido, ela se identifica com a Igreja.
Estas designações “mulher” e “mãe de Jesus” vão aparecer com todo o seu significado no Apocalipse. A Igreja, espelhando-se em Maria, descobrirá a sua identidade e a sua função de geradora e anunciadora de Cristo na história. Então, a Igreja pode se autodenominar, “a mulher”.
Esta interpretação dá um grande suporte para o dogma da Assunção de Maria, como aquela que já completou a corrida e obteve a coroa da vitória, imagem do que todos nós almejamos. Se prescindirmos, porém, de todo o valor da figura “mãe de Jesus – mulher”, não entendermos toda a riqueza da “mulher” do Apocalipse, mesmo que salvemos o elemento eclesial. Pois, compreendemos adequadamente a mulher-igreja relacionando-a a Maria.
Maria é a imagem da Igreja. Maria é mãe de Jesus no sentido mais amplo do termo: é mãe física de Jesus e se torna mãe moral favorecendo o crescimento nos discípulos. Assim, é posta em contato direto com a Igreja-mulher da qual constitui o símbolo ideal e na qual poderá reconhecer-se: a maternidade da Igreja que levará Cristo na história prolonga a maternidade de Maria.
A mulher do Apocalipse, portanto, é cada um de nós (Igreja), que, a exemplo de Maria, devemos, não obstante os obstáculos e as perseguições (dragão), anunciar a Boa Nova da salvação de Jesus Cristo (Filho com cetro de ferro) para todo o mundo.





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