sexta-feira, 31 de agosto de 2007

XXII DOMINGO COMUM - Lc 14,1.7-14


Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração
A liturgia deste domingo propõe-nos uma reflexão sobre alguns valores que acompanham o desafio do “Reino”: a humildade e o amor desinteressado.
A palavra de Deus nos ensina com muita sabedoria nas palavras de um sábio do início do séc. II a.C. que é a humildade o caminho para ser agradável a Deus e aos homens, para se ter êxito e ser feliz. Esta humildade é deve vir acompanhada de mansidão e também da sabedoria da escuta.
Tais virtudes podem ser reduzidas a um denominador comum: a relação com o próprio eu. Humilde é aquele que não perde a consciência do próprio limite, manso é aquele que não se impõe de modo agressivo e sábio é aquele que não presume saber já tudo, mas é consciente das riquezas que estão fora de si, e por isso, escuta. Escutar é esquecer-se de si, é abrir-se ao outro, porque o seu horizonte não é inteiramente ocupado pelo próprio eu. Assim, o caminho para a felicidade é a abertura. É ela quem nos põe em harmonia com Deus, que responderá com uma nova efusão de sua graça; com os outros, que por sua vez, também mostrarão abertura e benevolência; e, conosco mesmos, dando-nos uma paz nunca experimentada pela pessoa egoísta.
Quem, determinado a fazer ressaltar as próprias riquezas e os títulos, se gaba e quer pôr-se em destaque, suscita antipatia e hostilidade. Para vencer as resistências e continuar sobre a própria estrada, usa da agressividade, tornando-se arrogante e competitivo. Não tem necessidade de escutar nem Deus nem ninguém, e só tem olhos para si mesmo, incapaz de ver os sofrimentos dos outros.
A lição do Eclesiástico é importante. O ego pode chegar a tal ponto de tomar conta de tudo, sufocando qualquer outra instância e enfim, também a si mesmo, não permitindo a Deus respirar em nós o seu Espírito. Humildade, mansidão, escuta e misericórdia nos salvam deste sufocamento, tornando-nos felizes.
O Evangelho de hoje segue a mesma idéia; aí, encontramos Jesus comendo na casa de um dos chefes dos fariseus, que percebendo que os convidados procuram os primeiros lugares, conta uma parábola. Esta percepção de Jesus é mais do que nunca válida nos dias de hoje: a busca dos primeiros lugares a qualquer preço, o carreirismo, o desejo de poder, competições causadas pelo orgulho. Da boca pra fora, qualquer pessoa pode-se dizer humilde, desapegado, mas basta às vezes uma palavra para ficar ofendida e alimentar sentimentos de crítica e de vingança.
Devemos buscar os primeiros lugares sim, mas diante de Deus. E para conseguir isso, devemos fazer o contrário do que o mundo prega. O maior diante de Deus é aquele que se faz menor: “quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”.
Mas, então, o que significa fazer-se último? Não significa, certamente, enterrar os próprios talentos, fugir das responsabilidades. Não! A menos que sejamos impedidos, devemos fazer com que frutifiquem ao máximo. Temos que dar o nosso melhor para o bem dos outros, não, porém, para nos sentirmos melhores que os outros. Fazer-se humilde significa libertar-se da ânsia da estima humana e ter serena consciência de que cada um de nós tem valor para Deus. A verdadeira humildade é esta verdade, esta serenidade. Santo Cura d’Ars dá seu testemunho: “eu recebi duas cartas muito fortes, uma me dizia que eu era um grande santo, outra que eu era um hipócrita. A primeira não me acrescentou nada, a segunda não tirou nada de mim, diante de Deus somos aquilo que somos e nada mais”.
Enfim, Jesus nos convida à virtude da gratuidade, “quando deres um almoço ou um jantar, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos”. Hoje, os relacionamentos são quase sempre feitos em vista do proveito próprio, do interesse. Fazer-se humilde significa por o pensamento primeiramente no servir: é grande quem serve, quem doa, quem entra no mistério do amor. O humilde é um incansável servo do próximo: o humilde sente que tudo é dom de Deus e tem pressa de doar tudo, porque aquilo que não se doa, perde. O humilde trabalha, age, serve, mas não espera recompensa. Poder servir é já a recompensa. Mesmo que ninguém agradeça. É muito importante ser humilde e amar o próximo desinteressadamente, sobretudo onde se há mais necessidade e onde se é menos visto, “então tu serás feliz”.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

XXI DOMINGO COMUM - Lc 13,22-30


O ESFORÇO PARA ENTRAR PELA PORTA ESTREITA
A liturgia deste Domingo nos propõe o tema da “salvação”. Nos indica que para se chegar ao “Reino”, à vida plena, à felicidade eterna, dom de Deus oferecido a todos os homens e mulheres, sem exceção, é preciso renunciar a uma vida baseada naqueles valores que nos tornam orgulhosos, egoístas, prepotentes, auto-suficientes, e seguir Jesus no seu caminho de amor, de entrega, de dom da vida.
No Evangelho de hoje, Jesus anuncia sua mensagem de salvação, ensinando de cidade em cidade, de povoado em povoado. Ao mesmo tempo, se aproxima de Jerusalém, onde alguém lhe pergunta: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” É a pergunta curiosa do devoto fiel, evidentemente pondo-se no grupo dos salvos. É a tentação de sempre, a tentação dos nossos amados irmãos judeus da época de Jesus, especialmente dos fariseus; mas também é a nossa tentação: saber se levamos uma vida correta e se o nosso lugar no paraíso já está assegurado. É a tentação que temos nós discípulos, quando perdemos a dimensão da espera; quando acreditamos que os muros da nossa cidade interior são tão seguros a ponto de não precisarem de vigilância. É terrível para nós discípulos, quando depois de uma bela experiência de Deus, sentimos imediatamente ter entrado num grupo a parte, e começamos a olhar com suficiência os outros, aqueles que não entendem, que não conhecem, que têm seguido outros percursos diferentes do de Jesus.
Para mantermos a vida de fé, necessitamos fazer todo o esforço possível, diz o Senhor, para passar pela porta estreita. Com este símbolo, Jesus não tem intenção de dizer que devido ao monte de gente que quer a vida eterna, tenhamos que empurrar uns aos outros pra poder garantir nosso lugar. Não! Mas que devemos nos esforçar. Não basta querermos. Certamente, é verdade que nós somos salvos e que não podemos nos salvar pelas nossas próprias forças, mas isto não acontece sem a nossa ação, com uma atitude de pura passividade (Cf. Declaração conjunta católico-luterana sobre a doutrina da justificação). Deus nos salva, mas nos leva a sério como pessoas livres e responsáveis. Devemos nos esforçar e lutar, aproximando-se decididamente e conscientemente dele, para superar os obstáculos e testemunhá-lo com a nossa vida.
Com a afirmação sobre a porta que é fechada pelo dono da casa, Jesus quer dizer que nós devemos nos esforçar a tempo. Devemos levar em conta que o nosso tempo é curto. Não podemos adiar pra não sei quando o esforço para viver em comunhão com Deus. Com a nossa morte, a porta será fechada e será decidido o nosso destino. Então será muito tarde para querer, chamar e bater. Devemos levar em conta também que o nosso tempo, além de limitado, não temos controle sobre ele. Não podemos viver uma vida segundo o nosso bel-prazer e adiar para a velhice a preocupação pela salvação. Não somos nós a fechar a porta, mas o Senhor. Por isso, devemos estar sempre prontos.
Nas palavras do dono da casa, vemos uma ênfase na justiça, na orientação da vida segundo a vontade do Senhor. Não basta uma comunhão somente externa com ele, tê-lo conhecido, ter ouvido os seus ensinamentos, conhecer o Evangelho e o cristianismo. Pois, corremos o risco dele nos dizer: “não sei de onde sois. Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça!”. Quem não se orienta pela vontade de Deus, quem rejeita conscientemente a comunhão com Deus, já excluiu a si mesmo da salvação. Esta sua decisão é respeitada e confirmada pelo Senhor. E seria triste chorar de desgosto e ranger os dentes de raiva por se dá conta do que foi perdido.

A boa notícia de Jesus não diz coisas que nos agradam e não nos prometem uma vida fácil e sem esforços. Ela contém algumas verdades incômodas. Mas, justo porque não nos esconde nada e exatamente porque manifesta a verdade completa, nos indica a verdadeira via para a felicidade plena. Aquilo que conta, enfim, é o empenho com o qual se vive a própria existência cristã, testemunhando a pertença a Cristo.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Ap 12: “Quem é aquela mulher?”


O Apocalipse é um dos mais belos livros da Bíblia. Entretanto, devido ao fato de ser composto por milhares de símbolos, é tão difícil, e, uma interpretação ao pé da letra, fundamentalista, o torna assombroso e evitado.
Na I leitura da missa deste domingo, no qual a Igreja comemora a Assunção de Maria, lemos uma pequena parte de Ap 12, texto famoso onde aparece uma batalha no céu entre uma mulher e um dragão. É este texto que agora vamos interpretar.
João apresenta à assembléia um “sinal” que devemos decodificar e aplicá-lo à realidade; um sinal de grande importância, como nos indica o “grande” que o acompanha. É dever da Igreja interpretá-lo.
Na dimensão que é própria de Deus, no céu, aparece uma “mulher”, que no grego, significa imediatamente, esposa e mãe, e nos faz pensar à aliança de Deus com o seu povo, muitas vezes expressas em termos de amor nupcial, como é o caso também do Apocalipse.
Vestida de sol porque cheia da glória de Deus; com a lua sob os pés porque já na eternidade, a lua tinha a função de regular o desenvolvimento do tempo no AT. E neste contexto de eternidade já conseguida, ela tem uma coroa de doze estrelas na cabeça. A coroa como símbolo de vitória (vocabulário grego próprio para a corrida olímpica onde os ganhadores recebiam uma coroa de louro). A esta altura, as doze tribos de Israel não são somadas aos doze apóstolos, mas se sobrepõem, mostrando a unidade do povo de Deus. Mas, quem é esta mulher?
A assembléia eclesial que com muito esforço decifra o sinal à luz do AT já intuiu: trata-se do povo de Deus, visto nas suas dimensões transcendentes. A assembléia se enxerga estupefata com alegria nesta cena. Mas, o sinal não termina aqui. O quadro parece mudar bruscamente, mesmo se a protagonista, a mulher, permanece. Ela está em trabalho de parto. A fecundidade que a palavra “mulher” indica, agora é explicitada. Esta mulher está para dar à luz, não obstante os obstáculos que deverá enfrentar. Será que ela dará à luz realmente? Quem será o filho?
O autor deixa-nos com muitos interrogativos? Para compreender o sentido do parto é indispensável compreender um outro sinal, contraposto ao primeiro, pois facilita a interpretação: um imenso dragão cor de fogo, cor que evoca destruição e morte. Ele age entrando na história humana, especialmente atiçando nas realidades que dão tom à vida dos outros: são as estruturas, os centros de poderes (as cabeças com os diademas). Esta monstruosidade de negatividade demoníaca e maldade humana se opõem ao parto da mulher e têm a intenção de destruir o seu filho. O simbolismo complica, pois a pergunta era: o que significa o parto? Agora: por que este filho é este tão odiado?
João finalmente nos dá uma resposta que ilumina: um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro. Quanto a isto, não resta dúvidas. O filho é Cristo. Mas, Cristo projetado no futuro escatológico, no final da história da salvação, quando terá a vitória final sobre o mal. É um Cristo que nasce da Igreja. A assembléia se identifica com a Igreja e com a mulher: exatamente ela, deverá, com muita fadiga, dia após dia, anunciar Cristo. Como Paulo mesmo diz: “Meus filhos, por vós sinto, de novo, as dores do parto, até Cristo ser formado em vós” (Gl 4,19).
A pergunta agora é: o que significam, então, as tentativas da Igreja em confronto com os elementos hostis do mundo moderno? Não seria ilusório sonhar em anunciar, no esforço cotidiano, o Cristo em crescimento que derrotará definitivamente o mal, quando o mal é hoje tão potente e a assembléia litúrgica tão limitada?
O autor nos dá uma resposta: “mas o filho foi levado para junto de Deus e do seu trono. E a mulher fugiu para o deserto, onde Deus tinha preparado um lugar”. O que a Igreja consegue fazer, por mais limitado que seja e aparentemente em vão em confronto com o ambiente na qual esta se encontra, pertence a Cristo e isto não será perdido. O fruto deste parto doloroso da Igreja é levado pra junto de Deus, posto num lugar protegido pelo poder de Deus. Nenhuma força humana, nenhuma força demoníaca poderá destruí-lo.
A mulher, porém, foge para o deserto. No AT, este era o lugar do amadurecimento na relação entre Deus e seu povo. A Igreja deverá sentir o deserto, cansaço no caminho, esperança e confiança; também poderá significar aquela constatação de autenticidade que virá das provas e das perseguições. Mas, sobretudo deverá expressar um amor absoluto e radical.
Quem é esta mulher? É a Igreja, já falamos. Mas, existe uma continuidade na obra de João entre a “mãe de Jesus” e a “mulher” no IV evangelho, por um lado, e a “mulher” do Apocalipse 12, por outro. A “mãe de Jesus” que ele chama “mulher” em Jo 2,4 evoca a Igreja, da qual, Maria, Jesus e os discípulos representam a primeira realização. O termo “mulher” aparece depois da pergunta provocante de Jesus sobre a sua relação com Maria (Mulher, o que tenho a ver contigo?), faz alusão a “hora” de Jesus. Mais adiante, a “hora” de Jesus qualifica a “mulher” e lhe dá uma explicação. Mediando entre mãe física de Jesus e mãe espiritual dos discípulos (Mulher, eis aí o teu filho!), o termo “mulher” liga Maria “a Igreja, que já é constituída pelos discípulos de Jesus. A mãe de Jesus aparece, de fato, em função da Igreja. Acolhida na Igreja de João, exercita a sua função de maternidade e convida a Igreja a ver-se nela. Neste sentido, ela se identifica com a Igreja.
Estas designações “mulher” e “mãe de Jesus” vão aparecer com todo o seu significado no Apocalipse. A Igreja, espelhando-se em Maria, descobrirá a sua identidade e a sua função de geradora e anunciadora de Cristo na história. Então, a Igreja pode se autodenominar, “a mulher”.
Esta interpretação dá um grande suporte para o dogma da Assunção de Maria, como aquela que já completou a corrida e obteve a coroa da vitória, imagem do que todos nós almejamos. Se prescindirmos, porém, de todo o valor da figura “mãe de Jesus – mulher”, não entendermos toda a riqueza da “mulher” do Apocalipse, mesmo que salvemos o elemento eclesial. Pois, compreendemos adequadamente a mulher-igreja relacionando-a a Maria.
Maria é a imagem da Igreja. Maria é mãe de Jesus no sentido mais amplo do termo: é mãe física de Jesus e se torna mãe moral favorecendo o crescimento nos discípulos. Assim, é posta em contato direto com a Igreja-mulher da qual constitui o símbolo ideal e na qual poderá reconhecer-se: a maternidade da Igreja que levará Cristo na história prolonga a maternidade de Maria.
A mulher do Apocalipse, portanto, é cada um de nós (Igreja), que, a exemplo de Maria, devemos, não obstante os obstáculos e as perseguições (dragão), anunciar a Boa Nova da salvação de Jesus Cristo (Filho com cetro de ferro) para todo o mundo.





quinta-feira, 9 de agosto de 2007

XIX DOMINGO COMUM - Lc 12,32-48


LONGE DOS OLHOS, PERTO DO CORAÇÃO
Uma das coisas mais difíceis que temos que aprender durante a nossa caminhada cristã é a ter fé em Deus e crer que ele realmente caminha conosco lado a lado; e, hoje, isso se torna mais difícil porque o mundo atual, principalmente os cientistas ateus, nos ensina a acreditar só no que é evidente, difundindo cada vez com mais força a não necessidade de Deus.
Mas, apesar de atuarem com força esses cientistas ateus, temos belos testemunhos de fé entre os cientistas em geral, como o biólogo americano Francis Collins, que liderou por 10 anos o projeto Genoma Humano. No seu livro, intitulado, “A Linguagem de Deus”, ele afirma: “é nosso dever levar em consideração todo o poder das perspectivas científica e espiritual para entendermos tanto aquilo que enxergamos quanto aquilo que não enxergamos... a integração entre estas duas perspectivas”. Acreditar é justamente tomar como verdadeiro aquilo que não se vê. Também para o ateu a fé uma atitude essencial. Estamos a todo tempo acreditando e confiando em coisas que não vemos: acredito no amor das pessoas por mim, acredito na pessoa que preparou o alimento pra mim, acredito no motorista que dirige o ônibus que eu vou tomar, acredito nos médicos que vão cuidar de mim. Acreditar e confiar é indispensável. O nosso dia a dia contradiz a expressão tantas vezes usada por nós: eu só acredito vendo!
Não podemos viver neste mundo sem confiar uns nos outros. A fé em Deus é semelhante: cada um de nós é empurrado pelo testemunho dos outros a encontrar a face de Deus. E travamos esta busca trabalhosa da fé, que poderá durar toda a nossa vida. Um grande exemplo para nós foi Abraão. Como são belos estes versículos da II leitura sobre Abraão: ele viveu pela fé, partiu da sua terra seguindo uma intuição, um chamado interior, sem saber para onde ia; foi pela fé, que sua mulher Sara engravidou, sendo estéril e já de idade; foi pela fé, que sendo provado, não vacilou quando estava para oferecer seu filho Isaac.
Na nossa vida, acontecem muitas experiências, relações, catástrofes, doenças, misérias; acontecimentos que tentam nos dominar e imaginar um Deus longe e fraco. Corremos o risco de nos cansarmos, a ponto de nossa ligação com Deus ficar cada vez mais fraca e ter cada vez menos valor na nossa vida.
No Evangelho de hoje, Jesus quer nos alertar contra este perigo; e, ao mesmo tempo, mostra o que o Senhor doa aqueles que permanecem vigilantes e fiéis.
Antes de tudo, ele encoraja os seus discípulos a não temerem, mesmo sendo um grupo pequeno, pois eles têm Deus como Pai, o qual lhes deu uma herança magnífica: o seu Reino, a plena e eterna comunhão com Deus. Este tesouro deve ser conhecido por eles na fé e deve preencher o coração deles, os quais, devem usar os bens terrenos como instrumentos necessários para a vida, mas o seu coração não devem apegar-se a eles.
O ponto chave para a interpretação das parábolas é a ausência do patrão. Quer mostrar como deve se comportar o servo durante esta ausência. A primeira coisa é estar vigilante e preparado. Segundo o costume daquele tempo, tirar o cíngulo e levar a túnica solta, indicava que o servo já havia acabado o trabalho. Pôr o cíngulo é sinal de quem está pronto para trabalhar ou para viajar. A lâmpada indica que aquela atividade possa acontecer mesmo à noite. Portanto, requer-se prontidão em todos os momentos. A comparação com a vinda de um ladrão mostra isso: o improviso e inesperado que pode ser a vinda do Senhor.
A ausência do patrão traz como conseqüência quase necessária que o vínculo com ele enfraqueça. Nós seres humanos temos necessidade da presença do outro, do encontro contínuo com ele, se quisermos que uma relação permaneça forte e viva. O constante pedido na parábola à vigilância e prontidão indica a orientação intensa e viva para com o Senhor. Mesmo que ele esteja longe dos nossos olhos, nosso coração deve estar pleno dele.
A reação do patrão para com os seus servos é descrita de modo novo. Ele assume a tarefa de servo e os trata como seus patrões. Ele os faz sentar a mesa e os serve o banquete. Ele, porém, continua sendo o patrão, por isso mesmo, o seu serviço é tão significativo. E os servos continuam como tal, por isso, a honra que recebem é tão grande. Esta relação patrão-servo não é desumana nem impessoal, pelo contrário, mostra que o patrão deseja que seus servos estejam unidos a ele de modo pessoal e cordial, e sabe valorizar tal comportamento de modo muito pessoal. Os servos devem ter no coração o patrão ausente e devem deixar-se guiar pela sua vontade, mas podem também estar seguros que o patrão tem um coração para eles.
Todos os servos devem estar acordados quando o patrão vier. Todavia, há servos que têm uma responsabilidade particular. A eles, o patrão confiou uma função de guia para com os outros servos. Isto pode mostrar um perigo, pois eles são só administradores, não são chefes por direito próprio. Estes devem tomar conta deles mesmos e servir aos outros servos. Se aproveitarem da sua posição e tratarem com opressão os seus companheiros, serão punidos duramente. Se, ao invés, se demonstram confiantes, o patrão manifestará a eles o seu reconhecimento e a sua confiança.
Enfim, na nossa vida de cristão é indispensável a nossa comunhão constante com Deus e a fidelidade à missão que ele nos confiou. Isto deve ser vivido, mesmo com as dificuldades que surgem pelo fato de que a presença do patrão seja pouco visível. A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se vêem.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

XVIII DOMINGO COMUM - Lc 12,13-21


O DES(APEGO)
“A acumulação de riquezas e a ostentação estão deturpando os valores das coisas e das pessoas. Em um mundo no qual o dinheiro é mais valorizado que os sentimentos, a aparência também acaba sendo mais importante que a essência”, nota o autor Roberto Shinyashiki no seu best-seller “Heróis de Verdade”. Neste livro, ele esclarece que o mundo de hoje deu um passo mais adiante: antes, as pessoas procuravam a todo custo ter, mas “como a cada dia está mais difícil ter, muitas pessoas passaram a buscar maneiras de parecer ter”. Esta cobrança para obter sucesso a todo custo criou uma multidão que se sente perdedora, mas que, apesar disto, prefere seguir adiante levando uma vida mergulhada na aparência. Estas pessoas “cobram-se ser bem-sucedidas financeiramente, mas, como nem sempre conseguem isso, começam a comprar coisas que demonstrem ser pessoas de sucesso”, fazendo dívidas impagáveis e se sentindo cada vez mais vazias.
A liturgia deste Domingo faz-nos refletir acerca da atitude que assumimos face aos bens deste mundo: o ter, o poder, o parecer. Indica que eles não podem ser os deuses que dirigem a nossa vida; e convida-nos a descobrir e a amar outros bens, as coisas do alto, que dão verdadeiro sentido à nossa existência e que nos garantem a vida em plenitude.
Tem razão o livro do Eclesiastes quando diz: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade”; onde a palavra hebraica para vaidade seria bem melhor traduzida por fugacidade, efemeridade. Toda riqueza, luxo, excessiva segurança depositada nos bens materiais não só passa, mas enquanto dura não nos garante de jeito nenhum uma vida com sentido. Sem contar o fato de que quem gasta a vida acumulando riquezas é uma pessoa sem paz em ter que defender a cada momento os seus bens dos mal intencionados e de amizades interesseiras. “Nem mesmo de noite repousa seu coração”.
É! O Eclesiastes tem toda a razão. Entretanto, também é verdade que o dinheiro e os bens de consumo, pelo fato mesmo que existem, têm uma certa importância na nossa vida: como poderíamos viver o cotidiano, comer, vestir-se, se não os tivéssemos? Eles têm a sua utilidade, não devem descartados. A questão, então, é qual o papel que eles têm na nossa vida.
Paulo, na segunda leitura de hoje, escrevendo aos colossenses, nos convida à identificação com Cristo: isso significa deixarmos os “deuses” que nos escravizam e nos revestirmos do Homem Novo e nos comportarmos como tal: “irmãos, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo. Afeiçoai-vos às coisas celestes e nãos às terrestres”. Não tanto o dinheiro em si, mas este o acúmulo deste já é resultado de uma série de vícios que devem ser evitados: “imoralidade, impureza, paixão, maus desejos e a cobiça, que é idolatria”.
Mesmo sendo tão forte hoje a ideologia do capitalismo selvagem neoliberal que promete todos os paraísos possíveis, Lucas, no Evangelho de hoje, com a parábola do rico insensato nos assegura que a riqueza não garante a segurança da pessoa humana nem a sua felicidade.
O ensinamento de Jesus parte de uma desavença entre dois irmãos por causa de uma herança. Talvez se tratasse do irmão mais jovem que quisesse a sua parte para usá-la de modo independente. Em tais situações, se recorria logo a um rabino que devia esclarecer o problema. Jesus rejeita totalmente realizar esta função, já que seu ponto de vista é totalmente diferente do daquele jovem. Mas, aproveita a ocasião para ensinar sobre a justa relação que o homem deve ter para com os bens materiais. Ainda hoje na nossa sociedade as brigas por herança mostram um forte desejo de possuir, e muitas vezes conduzem a inimizades que duram toda a vida. Talvez seja por isso que Jesus adverte fortemente contra a ganância. “Atenção! Cuidado contra todo tipo de ganância, porque mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens”. O ter não é o valor mais alto, pelo qual tudo deva ser sacrificado. Com a parábola, Jesus quer mostrar o quanto pequeno seja o valor dos bens terrenos e como o apegar-se a eles se demonstre um cálculo errado. Tão errado que Jesus chega a chamar quem age assim de “louco”. Esqueceu o que realmente dá sentido à existência. De que adiantou tanto esforço daquele homem se naquela noite morreu?
O sentido da vida não é o comodismo, mas o amor; não é acúmulo de coisas, mas partilha. Sem dúvida, a vida terrena depende dos bens materiais, mas não pode ser assegurada nem conseguir o seu cumprimento por meio deles. Para sermos ricos diante de Deus, temos de ter estima pelas coisas do alto, onde está a nossa meta e onde queremos chegar.