quinta-feira, 19 de julho de 2007

XVI DOMINGO COMUM - Lc 10,38-42


Marta e Maria, imagem do discipulado
Depois da parábola do “bom samaritano”, Lucas apresenta Jesus que faz uma pausa na sua viagem para Jerusalém para visitar Marta e Maria, onde dá uma nova indicação que complementa àquela do texto anterior sobre o tema de como herdar a vida eterna. Estas duas mulheres eram irmãs de Lázaro e viviam num povoado bem perto de Jerusalém chamado Betânia (Jo 11,1; 12,1-3).
O texto diz que Marta recebeu Jesus em sua casa. O verbo usado em grego para “receber” indica a acolhida que se oferece a um hóspede, uma característica própria do povo judeu do tempo de Jesus.
Nos diversos comentários sobre este trecho evangélico, podemos encontrar uma certa tendência a contrastar a atitude de Maria em detrimento da de Marta. Mas, como iremos notar, a atitude de Maria é uma ilustração concreta do amor a Deus, já que na narração precedente, tivemos uma ilustração do amor ao próximo.
Como diz o texto, Maria se sentou aos pés do Senhor para escutar sua palavra. Maria estava sentada ao lado de Jesus, postura característica do discípulo que escuta atento os ensinamentos do Mestre.
Marta, pelo contrário, estava ocupada com muitos afazeres. É óbvio que Marta também queria escutar os ensinamentos do Mestre, mas alguém tinha que trabalhar para que Jesus se sentisse bem acolhido e não lhe faltasse nada. Afinal de contas, alguém tinha que fazer a refeição; talvez Marta não tivesse empregados nem dispunha dos serviços que dispomos hoje como self-sevice, comida pronta etc.
Enquanto Maria escutava, Marta servia. Esta, inquieta com a atitude da irmã, se aproxima de Jesus e lhe pergunta se ele não estava achando Maria folgada demais, enquanto ela fazia tudo sozinha? Bem que Maria poderia dar uma mãozinha à irmã!
Mas, Jesus com uma suave repreensão, disse: Marta, Marta! Você se preocupa com muitos detalhes? Essa atitude de Jesus ilumina o que ele mesmo disse em Mc 10,45: “eu não vim para ser servido, mas para servir”.
Jesus continua e diz: “porém, uma só coisa é necessária”. Mas, uma tradução que ajuda a entender melhor o texto como um todo diz: “pouca coisa basta, não se preocupe em fazer muitos pratos nem em me oferecer muita coisa. Maria escolheu a parte boa e isto lhe está assegurado”.
Este evangelho é uma exortação à vida contemplativa, um convite a escuta da Palavra de Deus. Mas, querer colocar a escuta como superior a prática, é interpretar de maneira alegórica, que não só carece de fundamento no próprio relato, como vai contra as diretrizes dos últimos documentos sobre a interpretação da Bíblia. O texto quer dizer que a vida do cristão deve ser caracterizada pelo “ora et labora” como expressou tão bem São Bento.
Betânia (Marta e Maria) é um ícone, imagem da Igreja. Igreja, lugar onde Jesus habita, lugar no qual não somente se fala e se celebra a presença de Deus, mas onde o acolhemos no nosso coração, onde preparamos a ceia do Senhor, com gestos simples e intensos de afeto e verdade.
Como seria bom se a nossa casa, os nossos lares, as nossas famílias se tornassem uma Betânia, capazes de acolher, como fez tão bem Abraão na visita inesperada dos três homens junto ao carvalho de Mambré (I leitura – texto onde podemos ver uma imagem da Santíssima Trindade).
Marta e Maria se tornaram modelo, estilo de vida para o cristão. Infelizmente, quase sempre erroneamente elas são confrontadas. O ativismo de Marta em contraposição à atitude contemplativa de Maria. Superioridade da oração sobre a ação. Esta é uma interpretação incapaz de colher o profundo deste texto. Pois, Marta e Maria, as duas irmãs, são o modelo das duas partes da vida cristã: oração e ação. Não pode existir uma sem a outra, não há discipulado autêntico sem ambas. O discípulo busca na oração, na oração silenciosa e constante, cotidiana e autêntica, o encontro com Jesus. A nossa oração deve ser um escutar o silencioso murmúrio de Deus em nós. E o discípulo encontra Jesus quando o reconhece no irmão que sofre. Uma fé que não sai das igrejas, que se resume àquela horinha da missa dominical, que não muda a relação com o próximo, que não ensina a refletir a vida e mudá-la à luz do Evangelho, é e permanece estéril.
Marta e Maria, portanto, são indicação essencial do “ser cristão”.

Um comentário:

Sanynha disse...

Nunca tinha pensado dessa maneira!!
Glória a Deus que nos dá o entendimento mais profundo e sempre de amor pela sua palavra!!
Que Deus continue lhe abençoando servo do Senhor!!! =D