quinta-feira, 31 de maio de 2007

SANTÍSSIMA TRINDADE: Jo 16,12-15


DEUS: O QUE É?
Na festa de Pentecostes, recebemos o Espírito Santo que nos iluminou e aqueceu o nosso coração de cristão. E é graças à luz deste Espírito que hoje podemos refletir sobre o mistério de Deus. Em que tipo de Deus acreditamos? Esta é uma pergunta que continuamente devemos fazer a nós mesmos, tendo em vista o grande número de cristãos que têm uma concepção errada de Deus, de um Deus diferente daquele que Jesus veio nos revelar, um Deus que muitas vezes decepciona essas pessoas, pois criação delas mesmas.
É realmente inquietante ver como a dois mil anos de cristianismo, conceitos errados de Deus estão cada vez mais difundidos: pessoas supersticiosas que acreditam num Deus que responde através de práticas sem fundamento; pessoas materialistas que vêem um Deus materialista (teologia da prosperidade), pessoas egoístas que vêem um Deus egoísta, pessoas vingativas que vêem um Deus vingativo (Deus tarda mas não falha!) etc.
É preciso purificar a nossa idéia de Deus. E, se acreditamos que Jesus é realmente Deus, por que deixamos de dar ouvido ao que ele nos diz através dos evangelhos para seguir outros pensamentos vindos de fora do cristianismo? Resposta: porque o ser humano sempre procura aquilo que lhe convém. Mas, não é assim.
Jesus não fala por abstração, por dedução, mas por experiência. Ele sabe como Deus é porque ele e Deus são uma coisa só. Depois de toda a revelação de Deus no Antigo Testamento, ele chega com uma novidade inimaginável, inesperada: Deus é um, e ao mesmo tempo é Pai, é Filho e é Espírito Santo. Ou seja, Deus não é o solitário perfeito, o todo-poderoso egoísta, mas é festa, é família, é relação, é comunhão. Deus é três pessoas que se amam tanto que, humanamente falando, nós o vemos como único, como um casal de esposos que de tão unidos parecem ser uma só pessoa.
Que bonito! Ver em Deus aquilo que sempre desejamos: o amor, a comunhão. Três pessoas que não se confundem nem se anulam, que se amam tanto, e que podemos delinear a obra de cada uma delas: o Pai na criação, o Filho na salvação e o sopro do Espírito Santo na nossa santificação.
É impossível entender esse mistério. Claro! Se fosse compreensível deixaria de ser um mistério. Mas, como seres humanos, nós estamos sempre buscando algo que facilite a nossa compreensão de Deus. Nos meus estudos sobre as religiões, vi que entre os milhões de deuses da religião hindu, há uma tríade principal, o Trimúrti, que em sânscrito significa três formas: Bhrama (o criador), Vishnu (o conservador) e Shiva (o destruidor); apesar de muitas vezes ser comparado com a Trindade cristã; vê-se logo que isto é errado já que se trata de três deuses distintos, enquanto no cristianismo é um único Deus.
Entretanto, é no evangelho de hoje, nestes quatro versículos, que vemos como o círculo trinitário das Pessoas divinas é simplesmente perfeito. As três Pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são verdadeiramente um único Deus. Ao cristão batizado é prometido o “Espírito da verdade” que nos conduzirá à plena verdade de Deus. É o Espírito Santo doado no Pentecostes quem introduz pouco a pouco o cristão e a Igreja na sua reflexão teológica e pastoral, na sempre mais profunda compreensão da revelação divina. Conhecimento que devemos ter sempre o cuidado para que não seja somente intelectual, mas, sobretudo experimental, no qual o amor tem um papel absolutamente essencial.
O famoso e belíssimo ícone da Trindade de Andrej Rublev sugere este convite divino. De fato, retrata a visita dos três anjos a Abraão (Gn 18,1-4), imagem da unidade da Trindade. Estes anjos estão sentados em círculo em torno da mesa da Eucaristia. É a Eucaristia que atualiza o Mistério Pascal: síntese de toda a história da salvação. O anjo no centro é Jesus Cristo que indica com o dedo o cálice eucarístico para o qual está voltado o doce olhar dos três, o do Pai à direita e o do Espírito à esquerda. O círculo não está fechado, adiante há um espaço, oferecido a quem contempla o ícone, no convite silencioso do anjo central que indica a Eucaristia, através da qual, entramos na mais perfeita comunhão com a Trindade.
A festa da Trindade é o espelho da nossa atitude profunda, é o segredo da nossa felicidade. O egoísmo é a nossa infelicidade. Somos convidados a olhar para a Trindade no projeto de construção da nossa comunidade: contemplando o amor da Trindade, a Igreja se dá conta de ser capaz de comunhão. Unidos na diversidade, no respeito do outro, no amor simples, concreto, benévolo, tornaremos o nosso ser Igreja esplendor deste inesperado Deus comunhão.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

PENTECOSTES


O Espírito Santo nos manda continuamente em missão
A festa judaica de Pentecostes (grego = 50º dia) ou Shavuot (hebraico = sete semanas) era celebrada cinqüenta dias após a Páscoa, quando se agradecia a Deus pela colheita do trigo (Ex 23,16). Desta festa agrícola, a festa de Pentecostes foi pouco a pouco se transformando numa festa histórica: um grande memorial da aliança de Deus com o seu povo. Hoje, nós celebramos a solenidade de Pentecostes, que no cristianismo, diz respeito à descida do Espírito Santo sobre os discípulos e Maria no cenáculo, cinqüenta dias depois do domingo da Páscoa. Celebramos o início da missão da Igreja, que é enviada a levar em todos os tempos e lugares, o Evangelho e a graça da salvação em Jesus Cristo, e, por isso, forte e corajosa pela ação do Espírito Santo.
É o Espírito Santo quem faz a Igreja caminhar, renovando-a e transformando-a. É o Espírito Santo quem abre o nosso coração de cristão, purificando-o, curando-o e reconciliando-o, de modo que este supere as barreiras e nos leve à comunhão. É o Espírito de unidade na pluralidade de carismas e de culturas, tal como vimos no acontecimento de Pentecostes (I leitura). Paulo atribui claramente ao Espírito Santo a capacidade de tornar a Igreja una e multíplice na pluralidade de dons, ministérios e atividades (II leitura).
Desta forma, a Igreja tem diante de si o desafio permanente de ser católica e missionária, de passar de Babel a Pentecostes, como nos lembrou bem o Papa Bento XVI em sua viagem ao Brasil: “O Ecumenismo, ou seja, a busca da unidade dos cristãos torna-se nesse nosso tempo, no qual se verifica o encontro das culturas e o desafio do secularismo, uma tarefa sempre mais urgente da Igreja católica... é indispensável uma boa formação histórica e doutrinal, que habilite ao necessário discernimento e ajude a entender a identidade específica de cada uma das comunidades, os elementos que dividem e aqueles que ajudam no caminho de construção da unidade”.
Cada um de nós recebeu do Espírito Santo dons e capacidades que devemos desenvolvê-los, multiplicá-los; não por um ponto de vista material: para realizar uma carreira ou interesses pessoais, para nos sentirmos mais inteligentes ou mais importantes do que os outros. Não! Isto seria um grande pecado. Pelo contrário, qualquer coisa que façamos só consegue o seu devido valor e a sua plenitude quando é vivida e desenvolvida para o bem do outro, seja a nível espiritual seja material. E é na parábola dos talentos que Jesus nos faz compreender que o verdadeiro e justo desenvolvimento dos talentos encontra seu sentido no amor ao próximo.
A este ponto, poderíamos nos perguntar: concluindo esta semana de oração pela unidade dos cristãos, temos consciência de que a nossa vida é cheia de dons de Deus? Como usamos estes dons? Só para nós mesmos, para a nossa pastoral específica, para o nosso grupo, ou sabemos dispô-los aos outros? Com nossas atitudes, procuramos unir ou desunir? A festa de Pentecostes nos dá esta força do Espírito Santo que renova a nossa fé, o nosso fervor, o nosso empenho pela missão da Igreja de unir os cristãos: “Que todos sejam um”.
A II leitura da missa da vigília diz: “temos os primeiros frutos do Espírito”. E como sabemos por Gl 5,22, os frutos do Espírito Santo são: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, lealdade, mansidão e domínio próprio.
Assim, temos presente em nós os frutos do Espírito Santo quando amamos o próximo, com um amor desinteressado como o de Jesus; quando amamos e tratamos bem os nossos irmãos de outras igrejas: Jesus amava os samaritanos, povo de uma religião diferente do judaísmo.
Temos o Espírito Santo em nós quando experimentamos a alegria constante que vem de Deus, quando sentimos a sua paz, diferente da do mundo, já que resiste aos momentos difíceis; quando sabemos dominar nossos impulsos, quando lutamos para aceitar as limitações do próximo e aceitamos as nossas; quando sentimos a vontade de fazer o bem, sendo compreensivos, abertos, generosos e lutamos contra nossa dureza, mesquinhez, egoísmo; quando estamos prontos a perdoar, a vencer o mal com o bem, afastando de nós a inveja e a vingança; quando somos fiéis a Deus, ao próximo, ao Evangelho e à Igreja; quando sabemos controlar nossas palavras, as atitudes externas, o cuidado para não ferir, para não violentar a liberdade do outro; quando sabemos dominar os instintos, os pensamentos, os atos e as palavras, desviando-as do mal.
Quando constatamos estes frutos na nossa vida ou pelo menos se temos o desejo ardente de conseguir desenvolvê-los, mesmo que isso seja uma luta, já é um sinal de que o Espírito Santo está agindo em nós.
Se não conseguimos muito, não desanimemos! Imploremos a Ele seus dons e seus frutos, e se não soubermos como pedir, lembremo-nos que é “o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis”.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

ASCENSÃO DO SENHOR


A ÚLTIMA PALAVRA DE JESUS: UMA BÊNÇÃO!
Jesus morreu de modo desumano numa cruz. Parecia até que os seus inimigos tinham razão quando diziam que sua obra tinha fracassado. Até mesmo os seus discípulos ficaram um pouco confusos e decepcionados (discípulos de Emaús). Entretanto, o próprio Jesus Ressuscitado convence os seus discípulos de estar vivo. Ele aparece a muitos deles, cancelando-lhes toda espécie de dúvida quanto a sua ressurreição (Tomé). Seguindo esta trajetória, no domingo passado, Jesus lhes falava: “Vou, mas voltarei a vós”; “se me amásseis, ficaríeis alegres porque vou para o Pai...”
Hoje, o Evangelho fala que a estes discípulos, Jesus promete o Espírito Santo para a compreensão das Escrituras, já que eles não têm capacidade de compreendê-las a não ser por um precioso dom do Ressuscitado: o cumprimento delas. Jesus promete revestir seus discípulos com o poder do alto, lhes mandará o Espírito Santo, que os tornará capazes de anunciar com convicção e coragem a sua obra e a sua ressurreição.
Jesus ressuscitado é a chave para toda e qualquer interpretação das Escrituras. É o plano de salvação que deve ser anunciado a todos os povos para a conversão e o perdão dos pecados. Os discípulos devem começar esta pregação em Jerusalém, lugar onde se realizou a missão de Jesus: “permanecei na cidade”.
Depois de ter convencido os discípulos de diversos modos da sua ressurreição e de tê-los preparado e capacitado para a missão, Jesus os conduz para perto de Betânia e se despede deles com as mãos levantadas, abençoando-os. Concede a eles toda a força da sua bênção, o que os sustentará durante a vida deles. Também Deus quando terminou a criação, abençoou o sétimo dia. Isaac e Jacó, despedindo-se, abençoaram a sua descendência. Também na nossa região vemos este costume judaico de pedir a bênção aos pais quando nos despedimos deles. A bênção final da missa também apresenta este significado: quer conservar-nos na vida e na salvação durante todos os momentos do nosso dia-a-dia. Jesus não fica no altar, mas ele segue dentro de cada um de nós.
Finalmente, depois de toda esta caminhada junto com os seus discípulos, Jesus foi levado para o céu: subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso; é o que professamos no Credo. O ato da ascensão constitui a glorificação de Jesus no instante mesmo da sua ressurreição. Não devemos entender a ascensão de Jesus como um vôo semelhante ao do Superman. Nem como os espíritos esbranquiçados que aparecem nas novelas da Globo e vão subindo lentamente até desaparecerem entre as nuvens, tal como a gente encontra na primeira leitura (Atos). A ascensão tem uma característica simbólica, é um sinal. O “Céu” não deve ser entendido aqui em sentido cosmológico, como a esfera sobre a terra, mas num sentido teológico, como o âmbito da presença de Deus. Já no momento da sua ressurreição, Jesus entrou na sua glória. A ascensão e o desaparecer diante dos discípulos são sinal de que as aparições terminaram. Por fim, Lucas conclui o seu Evangelho, dizendo que os discípulos louvavam continuamente a Deus no templo.
Para nós, hoje é dia de grande esperança: um homem com o seu corpo, não só volta à vida, mas chega àquela plenitude de vida divina e eterna que Deus tinha prometido desde a criação do mundo para cada um de nós.
Se somos cristãos autênticos, se tivermos tido a graça de conhecer com clareza e certeza o nosso fim, não é porque somos melhores do que os outros, o privilégio existe para uma missão. O mundo espera este anúncio, o qual nós devemos gritar com o nosso testemunho de vida. O futuro, a morte já não amedronta, porque Cristo nos disse: “eu vou preparar para vós um lugar”.
Deixemos de lado, então, essa influência do mundo virtual. E, ao invés, de gastarmos tempo procurando Jesus entre as nuvens do céu, vamos procurá-lo no nosso dia-a-dia. É lá onde Jesus habita hoje: em meio a este mundo conturbado. Jesus se encontra no rosto pobre e sofrido do irmão que tratamos mal e não o perdoamos. O Senhor nos diz que é possível construir aqui e agora o seu Reino. A ascensão marca o início da Igreja, o início de uma nova aventura, da qual somos os protagonistas.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

VI DOMINGO DA PÁSCOA



UMA PAZ DIFERENTE
“Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns ao outros”. Amar-nos uns aos outros com o mesmo amor com o qual Jesus nos amou é o único modo pelo qual todos podem reconhecer que nós somos seguidores de Jesus Cristo. O bom pastor nos disse isto com muita clareza no domingo passado. Hoje, continuando o assunto, nos diz como demonstrar o nosso amor por ele e pelo Pai. De fato, se o nosso amor pelo próximo não transparece no modo como o tratamos, como demonstramos ao Senhor que o amamos? Podemos dizer-lhe com as palavras... Mas com palavras corre-se o risco de ser uma coisa só da boca pra fora.
Concretamente, como poderemos mostrar a Deus Pai que o amamos? Ensina-nos o próprio Jesus: “se alguém me ama, observa a minha palavra... quem não me ama, não observa as minhas palavras”. Parece tudo tão simples, mas é fundamental. Só podemos demonstrar a Deus que o amamos, escutando a sua palavra, conservando-a no coração e colocando-a em prática. É importante escutar com atenção a Palavra de Jesus e do mesmo jeito é importante colocá-la em prática, isto é, fazer o que ele nos pede, caminhar seguindo os seus passos.
Assim, se na missa dominical ouvimos a Palavra de Deus, e talvez até a escutamos com atenção, mas depois que saímos da igreja, nos esquecemos do que ouvimos, a que serve? Pior ainda, se passamos a semana inteira fazendo exatamente o contrário daquilo que Jesus nos ensinou, no fundo, demonstramos que ele não importa muito pra nós. É como se disséssemos com as palavras: te amo, Senhor; mas, com o comportamento: mas eu faço do jeito que eu quero. Esta atitude não parece mesmo um modo para mostrar a Deus que queremos bem a ele. Pelo contrário, se não guardamos os seus mandamentos, não o amamos.
Todos, queremos guardar as palavras de Jesus no nosso coração, e para isso, ele nos assegura que o Espírito Santo enviado do Pai nos recordará tudo: “o Espírito Santo que o Pai mandará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse”. Se nós ficarmos atentos todo domingo à Palavra de Deus, com certeza, durante toda a semana o Espírito Santo que está em nós nos ajudará a lembrar e a entender as palavras de Jesus, e nos fará lembrar no momento justo.
Por exemplo, acontece algo na nossa vida, principalmente quando alguém nos machuca; imediatamente, ficamos com raiva, pensando numa maneira de como não ficar por baixo. Se tivermos escutado bem o Evangelho, com certeza, o Espírito Santo nos fará lembrar como devemos nos comportar neste momento: “amai-vos uns aos outros”. Como é possível que naquele momento nos lembremos daquela palavra de Jesus? Eu acredito que tenha sido o Espírito Santo.
Mais adiante, Jesus deixa bem claro o efeito do cumprimento de sua palavra: “eu vos dou a paz, eu vos dou a minha paz. Não como o mundo dá, eu a dou a vós. Que não se turbe o vosso coração e não tenhais medo”. Quando estivermos tristes, preocupados, com medo, é muito bom pensar nestas palavras. É o próprio Jesus quem nos assegura: “não tenham medo nem fiquem tristes. Não vos inquieteis com aquilo que acontece a vocês, porque eu dou um dom precioso: a minha paz”.
A paz que Jesus nos dá é diferente da que o mundo dá. Não é somente a ausência de guerra, o viver em segurança e tranqüilidade, a tolerância. Não! É uma paz que brota do amor e uma paz que conseguimos ter mesmo em tempo de dificuldade e provação. É uma paz que nos torna capaz de reconhecer no rosto de quem está ao nosso lado um irmão para amar.
Que Nossa Senhora de Fátima nos faça sentir a sua presença materna, e que ela nos guie, a Serva do Senhor, a nos abrirmos a sua palavra, acolhendo-a, para uma vida transformada.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

V DOMINGO DA PÁSCOA

A novidade do mandamento de Jesus: amar “como” ele amou
O contexto do Evangelho deste V Domingo da Páscoa é aquele da Última Ceia. Depois que Jesus anuncia a traição de Judas, este deixa o cenáculo, e, daí em diante segue-se à prisão, à condenação e à morte de Jesus. Depois disso, Judas se perde numa grande escuridão a ponto de não achar saída, ele agora serve ao mundo das trevas, e se desespera. Jesus, por sua vez, começa a falar de glorificação, de revelação no esplendor da luz. É da morte, pela qual deveria ser destruído, que ele ressurge como luz para o mundo.
Esta luz irradia a hora da despedida, momento difícil para os discípulos. Somente aqui Jesus se dirige a eles com o diminutivo: “filhinhos”, uma expressão de amor, cuidado. Até aquele momento, Jesus está com seus discípulos e os protege. Agora, ele deve morrer. Os discípulos não o seguirão na sua morte nem na sua glória; por isso, Jesus os prepara para este período de separação: “por pouco tempo ainda estou convosco”.
Com o mandamento: “amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”, Jesus mostra aos discípulos o modo como ele continuará a estar presente no meio deles e determina como devem se comportar. Estes devem se orientar pelo amor que receberam de Jesus, e este amor em cada um deve representar para o outro o próprio amor de Jesus, aceitando o outro como ele é, ajudando-o, prestando atenção as suas necessidades, exatamente como fazia Jesus.
A palavra que freqüentemente aparece nas leituras bíblicas deste domingo e que constitui o ponto determinante do mandamento de Jesus é o adjetivo “novo”. João diz: “vi um novo céu e uma nova terra... a nova Jerusalém”; o próprio Deus diz: “Eis que eu faço novas todas as coisas”; finalmente, Jesus diz: “vos dou um novo mandamento”.
Mas, enfim, em que consiste a novidade deste mandamento, se este era conhecido desde o AT e por que Jesus o declara como “seu”: Porque só agora, com ele, este mandamento torna-se possível. Antes, as pessoas se amavam porque eram parentes, aliadas, amigas, membros de uma mesma tribo, isto é, se amavam por alguma coisa que as unia entre si, separando-as de outras pessoas. Agora, é necessário ir mais além: amar quem nos persegue, amar os inimigos, aqueles que não nos amam. Amar o irmão por ele mesmo e não por aquilo que ele pode me oferecer. É a palavra “próximo” que muda de conteúdo; esta compreende não somente quem está perto, mas qualquer pessoa, a qual, devemos torná-la próxima.
O mandamento de Cristo é novo pelo seu conteúdo, e mais ainda pela sua possibilidade. Jesus viveu o amor até as últimas conseqüências: até o ponto de nos perdoar e morrer por nós. Amando-nos, Jesus nos redimiu: tornou-nos filhos do mesmo Pai e irmãos, pelo qual devemos e podemos nos amar.
Há um motivo pelo qual cada um de nós, qualquer que seja a sua situação, pode e deve ser amado: o motivo é que somos amados por Deus e ele quer nos salvar. O motivo não é o da aparência: beleza, simpatia, juventude, mas a realidade “nova” criada por Cristo. Por essa razão, este amor novo encontra a sua manifestação mais autêntica não no cumprimentar quem nos cumprimenta, nem no convidar quem nos convida, mas no amar quem tem menos motivos para ser amado: o excluído, e principalmente, o inimigo, porque neste caso é claro que não se ama o irmão por aquilo que ele tem ou pode nos dar, mas somente por aquilo que ele é aos olhos da fé.O mandamento de Cristo é “novo” porque renova, é capaz de mudar a face da terra, de transformar as relações humanas. E como o mundo tem necessidade deste amor? Nos vários problemas que assolam o mundo em que vivemos é natural ficar se lamentando, apontando o dedo sobre qualquer forma de ódio, violência e maldade. Mas isto não serve para nada, apenas para continuarmos no mesmo lugar onde estamos. Acredito firmemente que cada um de nós pode viver e oferecer a este nosso mundo um pouco de amor, gestos de amor, de justiça, de verdade, de paz: se nos unirmos a tantos outros podemos contribuir para a transformação de tantas coisas. Lembremo-nos que seremos conhecidos como discípulos de Jesus pelo nosso amor para com o próximo e a medida deste amor é o modo como ele amou.