quarta-feira, 4 de abril de 2007

VIGÍLIA PASCAL - SOL NASCENTE SOL POENTE ÉS TU JESUS


Na liturgia da vigília pascal, a leitura de Ex 14 ocupa um lugar central porque há uma ligação entre o episódio da passagem do mar no AT e o desenvolvimento da própria liturgia. Gostaria de mostrar brevemente algumas notas sobre esse assunto, resultado de um curso que fiz sobre o Êxodo com o biblista Jean Louis Ska. Acredito que tais notas nos ajudarão a perceber muita coisa interessante desta solenidade a fim de vivenciarmos bem o momento que estamos celebrando.
1. Lucas nos dá a informação que “no primeiro dia da semana, bem de madrugada, as mulheres foram ao túmulo de Jesus”. Portanto, a ressurreição foi constatada na manhã do primeiro dia da semana e por isso, está ligada àquele momento.
Em Gn 1, Deus criou a luz no primeiro dia da primeira semana do universo (Gn 1,3-5). No mesmo dia, Jesus ressuscita. Assim, o Evangelho religa a ressurreição de Jesus Cristo à criação do mundo. No primeiro dia da primeira semana do universo, Deus criou a luz; no primeiro dia da primeira semana da nova criação, Jesus Cristo, a luz do mundo (Jo 1,4-5.; 8,12; 9,5), vence a morte.
2. Gn 1 inicia com uma descrição das trevas que cobrem o abismo (Gn 1,2). No princípio, havia só trevas, exatamente como iniciamos a nossa liturgia pascal no escuro completo, fora da igreja. Depois, Deus cria a luz, cria a primeira manhã e o primeiro dia, separando a luz das trevas (Gn 1,3-5). A partir daí, há uma alternância entre luz e trevas, entre dia e noite.
3. O Apocalipse, no fim das Escrituras, conhece um dia sem fim, porque a noite não existe mais na Nova Jerusalém (Ap 21,25; 22,5). Porém, em meio a esta linha que conduz das trevas fixas de Gn 1,2 à luz total do Apocalipse, o dia da ressurreição marca a vitória definitiva da luz sobre as trevas e antecipa o dia sem o anoitecer da Jerusalém celeste.
4. Outra particularidade desta liturgia é a valência simbólica do sol e da sua revolução cotidiana. Há duas faces este simbolismo, ligada uma ao percurso diurno e outra ao percurso noturno do sol.
Percurso diurno: o sol nasce a cada manhã a leste e se põe a oeste. Este percurso torna-se espontaneamente em muitas religiões símbolo da vida humana: também esta última conhece um ponto de partida, um tempo de crescimento, a chegada ao cume, depois do qual inicia um movimento de descida, que termina com um desaparecimento final. Assim, os vários momentos da trajetória diurna do sol se recarregam de valores simbólicos: o leste torna-se o lugar do nascimento e da origem da vida; lá, começa o movimento de crescimento que chega ao seu ápice ao meio-dia; depois, a existência pouco a pouco se dirige até o seu ocaso e ao seu fim, cujo lugar simbólico é o oeste.
Percurso noturno: todas as tardes, o sol desaparece a oeste e a cada manhã reaparece a leste. É o inverso, vai da morte ao nascimento; portanto, torna-se símbolo de ressurreição. Este itinerário noturno do sol é misterioso porque invisível. Neste itinerário inacessível e escondido se cumpre o mistério de regeneração do sol. Trata-se, certo, de uma ressurreição cíclica. A ressurreição de Jesus Cristo, pelo contrário, é única e não se repete. Porém, na Escritura e na liturgia as imagens usadas para descrever o mistério da ressurreição são freqüentemente empréstimos do simbolismo solar.
Assim, a trajetória diurna do sol do leste a oeste é símbolo da vida humana, com os seus dois pontos extremos, o nascimento e a morte; já o percurso noturno do sol é percurso de ressurreição que vai da morte ao renascimento, do oeste ao leste.
5. O simbolismo solar presente em Ex 14 é aquele do percurso noturno do sol, porque Israel atravessa o mar durante a noite. Trata-se, portanto, de um caminho de ressurreição:
a. a passagem acontece durante a noite. Começa à tardinha, quando Israel preparava o seu acampamento (Ex 14,9), dura toda a noite (14,20-21) e acaba “ao romper da manhã” (14,27). À aurora, Israel pode contemplar a derrota dos seus inimigos e celebrar a sua salvação. A marcha de Israel durante a noite simboliza a sua passagem da morte à vida.
b. a passagem de Israel acontece do oeste ao leste. Certo, para ir ao Egito em direção ao deserto do Sinai, é necessário caminhar do oeste para o leste. Porém, há outras indicações que seguem a mesma direção. Duas vezes, o texto de Ex 14 afirma que os israelitas atravessaram o mar que formava duas muralhas, uma à direita e a outra à esquerda (14,22.29). Ora, na Bíblia, a direita corresponde ao sul e a esquerda ao norte. De fato, para se orientar, como diz a palavra mesma (orient-ar), os antigos olhavam para o leste o oriente, que era o ponto de referência. Quando se olha para o oriente, o sul esta à direita e o norte à esquerda. Assim, Israel foi do Egito para o deserto, do oeste para o leste, da escravidão para a liberdade, das trevas para a aurora da salvação.
c. a passagem acontece à noite. As trevas e a noite correspondem ao mundo da morte. Basta recordar o simbolismo da criação: Deus fez surgir todo o universo do caos primitivo no qual existiam só trevas (Gn 1,2). A nova criação do Apocalipse será um mundo sem noite e sem trevas (Ap 21,25; 22,5). Em Ex 14, o simbolismo é bastante claro, porque os israelitas alcançam a outra orla do mar pela manhã.
d. Israel atravessa o mar. Ora, o mundo do mar tem conotações negativas no mundo bíblico. É um mundo essencialmente ambíguo e perigoso, hostil e indomado, símbolo do caos e da morte. Jesus mostra a sua potência acalmando o mar (Mt 8,23-27); Deus, no Antigo Testamento, é o único capaz de domar o mar (Jó 38,8-11; Sl 104,9; Pr 8,29; Jr 5,22). No Apocalipse se diz que não haverá mais o mar na nova criação (Ap 21,1). Deus faz desaparecer a geração malvada do dilúvio nas águas que cobrem a terra (Gn 6-7). Também os egípcios desaparecem no mar, porque são cidadãos deste mundo de violência, de opressão e de morte. Para os israelitas, a passagem é uma via que conduz à salvação, para os egípcios, pelo contrário, conduz à perdição.
Para os israelitas, a marcha através do mar, torna-se uma experiência de transformação, isto é, de morte e de ressurreição, no sentido amplo da palavra. Entraram no mar, escravos e temerosos (Ex 14,10b-12), saíram livres e crentes (14,31). O mundo do mar é o mundo da morte. Israel atravessa o mar durante a noite, ou seja, atravessa o mundo da morte e “morre”. Porém, aquilo que morre é o Israel escravo, assustado pelo exército egípcio e que quer retornar ao Egito (v.10b-12). O Israel que sai do mar já não teme o faraó, mas o Senhor; já não tem medo, mas acredita no Senhor e em Moisés, seu servo (v.30-31). O Israel que contempla a aurora, sobre a outra orla do mar não é mais o mesmo. É um Israel transformado, transfigurado, regenerado pela sua experiência, como o sol se regenera a cada noite.
O mesmo simbolismo é expresso pelo batismo: quem entra nas águas batismais é prisioneiro das forças do pecado, morre e é sepultado com Cristo, depois, sai das águas, redimido e renovado, ressuscita com Cristo para entrar na vida nova do Cristo ressuscitado (cf. Rm 6,1-14).
6. A liturgia da vigília pascal retomou no seu desenvolvimento todo o simbolismo inerente à passagem do mar que é descrito em Ex 14. A liturgia começa fora da igreja, no escuro. Se as igrejas são “orientadas”, e muitas igrejas antigas o são, a entrada da igreja se coloca a oeste. Entrar numa igreja significa, portanto, ir do ocidente ao oriente e fazer um percurso de ressurreição. Ali, a oeste, acende-se o fogo, símbolo da ressurreição de Cristo. Este fogo guia os fiéis para a igreja e finalmente o círio pascal é celebrado (“Exultet”). A procissão do círio pascal vai do oeste ao leste, como o sol durante a noite e como os israelitas que atravessavam o mar, para aclamar enfim, Cristo, morto e ressuscitado, vitorioso da morte.
7. Além do simbolismo da marcha do ocidente ao oriente, a vigília pascal retoma o simbolismo das águas. O momento mais claro a propósito é a bênção da água. Há um gesto muito significativo em mérito: a imersão do círio pascal na água. Ora, esse gesto queria simbolizar a entrada de Jesus Cristo nas águas da morte e a sua ressurreição. Além disso, como Jesus Cristo saiu vitorioso da morte, fez da morte não o fim da vida, mas a passagem para a vida. O círio pascal, imerso nas águas, transforma as águas mortíferas em águas regeneradoras.
Nesta noite, no mar, Israel passa da escravidão à liberdade, do medo diante do exército do faraó ao temor do Senhor, da servidão no Egito ao serviço do Senhor, da covardia à fé. Peçamos ao Senhor para nós e para toda a Igreja que o caminho de Páscoa seja uma experiência semelhante, isto é, uma passagem das trevas à luz e que Deus possa transformar qualquer morte numa via para a ressurreição.

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