domingo, 23 de março de 2008

II DOMINGO DA PÁSCOA - Jo 20,19-31


Do pânico à paz, da dúvida à fé
O Evangelho deste II Domingo de Páscoa nos informa que “ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana”, os discípulos se encontravam trancados por medo dos judeus. Medo: este sentimento negativo que está sempre querendo atrapalhar o nosso progresso, chegando às vezes até a tornar-se uma doença: a síndrome do pânico. Até mesmo o próprio Jesus, que se fez homem em tudo, menos no pecado, teve um ataque de pânico no jardim do Getsêmani, a ponto de suar sangue. Ele passou por isso para nos ensinar que nunca devemos fugir do medo, mas enfrentá-lo. Jesus não fugiu do jardim das Oliveiras, mas foi mergulhando nele que obteve de Deus a paz para abraçar o seu destino com toda serenidade. Os discípulos de Jesus não devem fechar-se no medo diante do mundo, mas devem entrar no mundo cheios de confiança.
De fato, o dom que o Ressuscitado vem trazer aos discípulos trancados é a paz. “A paz esteja convosco!” Não é uma saudação, mas é a paz que ele tinha prometido quando eles estavam aflitos por causa de sua partida. Jesus ressuscitado não livra os discípulos das aflições do mundo, mas lhes dá segurança e serena confiança. É uma paz diferente da que o mundo oferece. É uma paz que resiste aos problemas, às provações, vence o medo. É a paz messiânica, o cumprimento das promessas de Deus, a libertação de todo tipo de medo, a vitória sobre o pecado e sobre a morte, a reconciliação com Deus, tudo isto como fruto de sua paixão e morte de cruz.
Jesus mostra suas chagas nas mãos e no lado, comprovando assim que ele é aquele que foi crucificado. Os discípulos devem ver que ele efetivamente passou pela morte, vencendo-a. Mostrando as feridas, Jesus quer também evidenciar que a paz que ele dá vem da cruz.
Jesus torna-se para sempre o fundamento seguro da paz. E novamente, ele dá a paz aos seus discípulos e associa este gesto a sua missão. Somente se estes forem repletos de sua paz, poderão cumprir a missão a eles confiada, vencendo a rejeição e o ódio que deverão enfrentar. Para esta missão, Jesus sopra nos discípulos o Espírito Santo. Este gesto recorda o sopro de Deus que dá a vida ao homem. É sinal de uma nova criação: “Recebei o Espírito Santo!”
Aqui se trata da transmissão do Espírito Santo para uma missão particular, enquanto o Pentecostes é a descida do Espírito Santo sobre todo o povo de Deus. De fato, aqui, Jesus concede o poder de perdoar ou não perdoar os pecados. É Deus quem tem o poder de perdoar os pecados. Jesus concede este poder e o transmite à sua Igreja através dos discípulos. Convém lembrar que neste poder está incluído o que chamamos “sacramento da reconciliação” expresso em diversas formas no curso da história da Igreja. O “reter os pecados” não é uma condenação, mas é um renovado apelo à conversão.
Depois disso, nos deparamos com Tomé, chamado Dídimo (=gêmeo). Este não estava presente quando Jesus apareceu por primeira vez ao grupo. Estes lhe relatam: “Vimos o Senhor!”. Mas Tomé não acredita no que eles disseram, ele mesmo quer comprovar. É muito importante esta parte do Evangelho para nós, leitores de hoje, pois, de fato, não vimos Jesus Ressuscitado. E neste ponto, somos irmãos gêmeos de Tomé.
Freqüentemente, na nossa vida, os outros nos contam o que fazem e às vezes não acreditamos. Por quê? Porque queremos ver nós mesmos, não confiamos. Ou mesmo que confiemos, é sempre bom comprovarmos, nunca se sabe! Tomé escuta dos outros que Jesus está vivo. E se não for verdade? Se fosse uma ilusão pelo desejo ardente de ver Jesus? Ele é prudente. Pensa aí se nenhum dos discípulos tivesse tocado nem tivesse dito que viu Jesus depois da sua morte. Acreditaríamos? Parte daí o interesse para buscar provas. Jesus não vê em Tomé uma pessoa indiferente, mas um homem que busca a verdade. Ele ajuda Tomé. Ele tem compaixão de Tomé porque sabe que este ainda não tem a paz que vem da fé, por isso o satisfaz plenamente: “põe, Tomé, o teu dedo nas minhas chagas”. Melhor pra nós hoje, pois sabemos que os apóstolos viram e tocaram as feridas das mãos e do lado de Jesus; portanto, ele ressuscitou verdadeiramente!
Bom pra nós que aconteceu tudo isto. Até porque Jesus nos deixou um recado precioso: “Bem aventurados os que creram sem terem visto!” Que recebamos à paz que vem da fé na Ressurreição!

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