sexta-feira, 16 de março de 2007

Salmo 72

O Salmo 72 é o único expressivamente atribuído a Salomão, embora possa se traduzir a preposição hebraica LE, na antífona, como "a" Salomão, ao invés de "por" Salomão. A tradição talmúdica e rabínica, no entanto, prefere atribuir este salmo a Davi, que o teria escrito como uma oração por seu filho Salomão, o herdeiro do trono. Mas, independente de quem o escreve, o que o Salmo 72 teria a nos falar?

Não me disponho a fazer aqui uma exegese do texto, antes um comentário do que mais me chama a atenção. Assim sendo, divido o salmo enquanto da seguinte forma:

1 – Verso 1: um pedido a favor do rei, a fim de que governe com justiça;
2 – Versos 2-14: promessas de obras maravilhosas desse rei – caso Deus o abençoe – a favor dos pobres e dos oprimidos da terra, e sobre o estabelecimento do seu reino universal e justo;
3 – Versos 15-17: votos ao tal rei e seu reinado;
4 – Versos 18-19: ação de graças a Deus, por Suas maravilhosas obras, inclusive o rei justo;
5 – Verso 20: apenas de caráter informativo, indicando o fim das orações de Davi (e sua autoria?).

Ao lermos o AT tendo o NT como luz, conseguimos enxergar sem muita dificuldade referências a Jesus, seu ministério e reinado. Mas não podemos afirmar se de fato Salomão (ou Davi) tinha intenção de escrever aqui um salmo sobre o reinado o Messias. É mais provável que ele se referisse a outro ungido, àquele que o sucederia logo em seguida. Dessa perspectiva, o salmista reconhece a desordem sócio-econômica já presente em Israel, e a incapacidade humana de administrar justiça aos oprimidos. Por isso inicia sua oração apelando à ajuda divina: "Reveste da tua justiça o rei, ó Deus, e o filho do rei, da tua retidão, para que julgue com retidão e com justiça os que sofrem opressão." (v.1-2).

Num sentido mais messiânico, esse salmo aponta para aquilo que muitos séculos depois os evangelhos indicariam como sendo a preocupação maior do Messias Jesus: ir ao socorro dos pobres e oprimidos. Não que Jesus desprezasse aos ricos, Ele mesmo disse que não rejeitaria quem a Ele fosse (Jo 6.37), mas sua urgência eram os pobres, que eram marginalizados até mesmo espiritualmente, pois não tinha condições de viajar a Jerusalém para se purificar, nem mesmo possuíam dinheiro suficiente para pagar pelos animais e sacrifícios religiosos e, por isso, também, aos olhos da religião, e dos líderes religiosos, e dos poderosos, eram impuros e indignos de Deus.

Os versos que mais me emocionam nesse salmo, e que tenho grifados em minha Bíblia, são o 13 e 14, que dizem assim: "Ele se compadece dos fracos e dos pobres, e os salva da morte. Ele os resgatará da opressão e da violência, pois aos seus olhos a vida deles é preciosa."

Quando medito nesses versos, me alegro e grito dentro de mim "halleluia!", pois lembro que foi com os pobres que Jesus se identificou, abdicando sua glória divina, fazendo-se semelhante a escravo – a mais baixa camada social – e morrendo a morte de cruz, a morte mais humilhante, a morte dos escravos, como era chamada pelo Império Romano: servile supplicum.

Concluindo, se temos uma aplicação desse salmo para hoje, essa é que cuidemos em manter o Evangelho integral, não apenas anunciando a salvação com palavras, mas atuando na sociedade como pudermos, a fim de que haja justiça na terra e o Reino de Deus entre os homens.

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