quinta-feira, 15 de março de 2007

IV DOMINGO DA QUARESMA - DEUS FAZ FESTA QUANDO O FILHO REGRESSA

Lc 15,1-3.11-32
Ninguém decidiu nascer. Não fomos nós que escolhemos como seríamos: o nosso corpo, os nossos talentos, o nosso temperamento, a época em que vivemos. Não pudemos escolher nem mesmo a educação recebida, pelo menos até certo ponto da nossa existência. O fato de ter nascido marca irremediavelmente a nossa vida.
No coração da famosíssima parábola contada por Jesus, conhecida como “a parábola do filho pródigo”, encontramos o drama fundamental da existência humana. O que gira em torno de nossa identidade fundamental: quer queiramos ou não, somos filhos e por isso, não somos donos absolutos da nossa vida. O problema já é grande a nível humano; e se complica mais ainda quando passamos ao nível religioso: nos foi ensinado que Deus é Pai, e que todos nós somos seus filhos: é o que rezamos na oração do Pai-Nosso. Ser cristão significa então acreditar num Pai que é dono da nossa vida, o que significa que nunca podemos ser autônomos, completamente livres?
Voltando à parábola, o filho mais novo, completamente independente de qualquer figura superior, representa o pecador. Ele não considera sua relação com o pai e afasta-se deste. Pede sua herança e a gasta de maneira irresponsável. É a grande ilusão de querer se desligar de sua própria origem, de poder tomar decisões sem vínculos e sem condicionamentos, pois esta vida “livre” torna-se uma vida humilhante. O jovem alegre se torna escravo do dono dos porcos. Pior, ele chega a desejar a comida dos porcos, o que é mais humilhante ainda quando se trata de um judeu, por serem os porcos os animais mais impuros.
No entanto, tal situação leva o filho caçula a rever suas idéias. Ele se lembra como “era bom” estar junto do pai. Ele não procura justificar seu comportamento passado, nem se desespera com a situação presente. Tem humildade, coragem e confiança de reconhecer que o próprio caminho está errado e decide voltar para o pai. Está pronto para confessar a sua própria culpa. Não pretende nem mesmo ser tratado como um filho, mas como um servo qualquer do seu pai. Este filho representa todos os pecadores, do ladrão arrependido na cruz a cada um de nós.
O pai representa Deus. Ele acolhe de braços abertos o pecador que retorna a casa. Mais, quando vê o filho regressando, ainda longe, o sentimento que prova não é de rancor, nem de ira nem de prazer pela desgraça alheia, mas de sincera compaixão. Ele corre para encontrar o filho, o abraça e o beija: expressão de um infinito amor. Nenhum sinal de reprovação, nenhuma palavra dura. Escuta com amor a confissão da culpa por parte do filho. E o pai não o trata como um pecador, mas como um filho. O pai o reveste com a túnica mais bela e faz uma festa. Nenhum olhar para o passado. O que interessa ao pai é saber que o filho está de novo com ele.
O filho mais velho representa aqueles que permanecem fiéis ao pai e aderem aos seus mandamentos. Este filho se recusa a participar da alegria do pai. Fica indignado com o comportamento do pai e se sente prejudicado. Contrariamente ao pai, este filho olha só pra o passado. Vê somente o pecado do outro, mas não consegue enxergar quem é o outro. É totalmente indiferente ao fato de que o outro é seu irmão e que tenha voltado pra casa. Também este filho precisa rever seu ponto-de-vista.
Será que pensamos que somos filhos de Deus porque não fazemos “nada de mal”? Ou porque sempre vamos à missa? Ou porque não somos como os outros... mas sentimos o peso de ser “bons cristãos”. Será que somos capazes de nos alegrarmos com o Pai e de abraçar o filho que retorna? Só se reconhecermos o pecador como nosso irmão, nos tornamos filhos do Pai. Afinal, todos nós somos pecadores.
Em seu famosíssimo livro, inspirado na obra “A volta do filho pródigo” do pintor Rembrandt, o padre holandês Henri Nouwen, afirma com muita convicção: “Fui tão profundamente tocado por essa imagem do abraço de dar a vida entre pai e filho porque tudo em mim ansiava ser recebido do mesmo modo que o Filho pródigo foi recebido. Esse encontro passou a ser o começo da minha volta”. Depois, ele se dá conta que nesta imagem, “há reconciliação, mas também há raiva. Há comunhão, mas também distanciamento. Há o brilho cálido da cura, mas também a frieza do olho crítico; há a oferenda da misericórdia, mas também enorme resistência para recebê-la. Não demorou para que eu descobrisse o filho mais velho em mim”.
Muitas vezes, somos o filho mais novo, e como é bom desfrutar a misericórdia do Pai. Mas, muitas vezes também, somos o filho mais velho, e temos a exemplo do filho mais novo, termo humildade para admitirmos que estamos errados e coragem para mudarmos e sermos misericordiosos para com nossos irmão e irmãs.

Um comentário:

Anônimo disse...

O seu comentário sobre a parábola do filho pródigo, mostrando a relação de compaixão do Pai para com este filho foi belíssimo. Demorei um pouco para compreender sobre a reação do filho mais velho. Realmente, ser misericordioso é difícil. Precisamos pedir a unção do Espírito Santo, pois para sermos cristãos temos que agir como tal. Como diz Pe. Zezinho, amar como Jesus amou.