sexta-feira, 30 de março de 2007

DOMINGO DE RAMOS


O PARADOXO DA CRUZ
A liturgia do Domingo de Ramos nos ajuda a celebrar dois acontecimentos: por um lado, a entrada de Jesus em Jerusalém, acolhido pelo povo que o aclamava com fé e com alegria; e, por outro, o início da Semana Santa, na qual Jesus realiza a salvação do mundo com o seu amor e o seu sacrifício da Cruz. Eis a razão pela qual neste domingo lemos o comovente relato da Paixão de Jesus segundo Lucas, o qual será novamente proclamado na sexta-feira santa na versão de João.
Entrando em Jerusalém, Jesus é acolhido e aclamado pelo povo como Messias, “Bendito o rei, que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!”. É a confissão alegre da nossa fé. A nossa fé é sempre luz, vida, força, alegria. Aquelas pessoas conduzidas a Cristo, talvez inspiradas e mensageiras da verdadeira fé da humanidade que esperava o Messias, encontram Jesus, celebram, o aclamam com ramos de palmeira. Jesus gosta desta acolhida e desta fé, ele mesmo decidiu entrar em Jerusalém não mais a pé, mas montado num jumentinho. Que humildade! Ele é verdadeiramente o Salvador, o Filho de Deus, vindo ao mundo para nos trazer o amor e a misericórdia do Pai. Também nós queremos viver este dia renovando toda a nossa fé, o nosso fervor, o nosso afeto a Jesus.
Mas é também um momento de contrastes. Jesus gosta da acolhida, mas sabe que a sua glória acontecerá quando for pregado numa cruz: a sua grandeza é o seu amor infinito, o que o leva a doar a vida por todos. Enquanto o povo o aclama, os inimigos se preparam para capturá-lo a fim de condená-lo à morte. Jesus sabe que vai ao encontro da sua hora, ele veio para isso! E ainda que humanamente sinta uma terrível angústia no horto das oliveiras, ele sabe invocar e cumprir a vontade do Pai, que é o verdadeiro bem para ele e para todos nós.
Nesta missa de Ramos, que abre a Semana Santa, combina e muito a leitura do relato da paixão e morte do Senhor. Pois, neste relato se concentra todo o mistério do amor de Deus, do pecado do homem, da salvação que Jesus nos faz merecer. O texto da paixão do Senhor não tem necessidade de ser comentado: é o relato dos fatos através dos quais chegou a cada um de nós a Redenção. Todo o mal, que se realiza sobre a terra, de alguma forma é concentrado naqueles fatos: a violência, a sede de poder, a inveja, a traição dos amigos, a covardia, a bajulação dos poderosos, a maldade, o insulto à dignidade humana, as insinuações, a mentira e todo tipo de maldade que as pessoas cometem, tudo parece estar presente na paixão de Jesus. O paradoxo é que esta dor, este sofrimento foi aceito e este mal foi relevado, tornou-se nas mãos de Deus o instrumento pelo qual ele nos salvou. O amor de Deus venceu este mal e o tornou redenção.
Reunir, como faz a celebração de hoje, as duas atitudes da multidão que antes o aclama e depois o condena, nos faz perceber como é fácil esquecer o amor de Deus, deixar-se conduzir pelo pecado, rejeitar o Senhor. Percebemos isto nas pessoas, mas também em Pedro e nos outros apóstolos. O texto da paixão ressalta a traição de Pedro, quando Jesus anuncia durante a ceia e quando Pedro o nega por três vezes diante da serva.
Se formos confrontar a traição de Pedro àquela de Judas, vemos que Pedro, depois de ter negado Jesus, caiu num pranto, Judas depois da traição, foi enforcar-se. Pedro teve confiança na misericórdia de Deus, enquanto Judas não, se desesperou. Também cada um de nós, muitas vezes, caímos na tentação, no medo, no egoísmo, no pecado, como Pedro e como Judas. Temos, porém, de seguir o exemplo de Pedro: acreditar em Deus, no seu amor infinito, na sua misericórdia sem limites. O amor de Deus, mostrado na cruz é a nossa plena, contínua e eterna salvação! Mesmo quando pecamos gravemente, e sentirmos o peso do nosso pecado, saibamos que Deus é maior do que o nosso pecado, e veio justamente para “tirar” os nossos pecados, para nos dar alegria e os frutos do seu amor. Que esta mensagem nos ajude a celebrar com profunda fé os sacramentos pascais, a viver a semana santa em união com a paixão de Cristo, fazendo nossos os mesmos sentimentos que existiram em Jesus, e implorando a graça e a força da sua morte e ressurreição para todos nós.

sexta-feira, 23 de março de 2007

V DOMINGO DA QUARESMA - Jo 8,1-11


QUEM NÃO TEM TETO DE VIDRO QUE ATIRE A PRIMEIRA PEDRA


Sempre que escutava esta canção da roqueira baiana Pitty, automaticamente me lembrava da seguinte frase do Evangelho de João: “Quem de vós não tiver pecado que atire a primeira pedra!”. Resolvi fazer uma busca e descobri que a cantora na realidade combinou esta passagem com o ditado popular: quem tem teto de vidro não atira pedras no telhado do vizinho.
Hoje, passamos da parábola do filho pródigo à realidade: Jesus oferece perdão total à pecadora, muda o seu coração, dá a ela a possibilidade de recomeçar tudo de novo. No Evangelho deste domingo, nos deparamos com Jesus que ensina no templo. O povo está em volta dele, escutando com atenção seus ensinamentos. Desta vez, os fariseus e os mestres da lei levam até ele uma mulher que foi pega em flagrante adultério. O caso parece muito claro: uma mulher que se deita com um homem que não é o seu, não tem piedade. A lei é clara: “Se alguém comete adultério com a mulher do seu próximo, o adúltero e a adúltera devem ser punidos com a morte” (Lv 20,10). Que cilada armaram contra Jesus. Que outra coisa Jesus poderá fazer a não ser concordar com seus adversários?! O mal cometido deve ser eliminado! A mulher deve ser apedrejada. Os escribas conhecem bem a lei e pedem a Jesus para aplicá-la. É uma armadilha bem arquitetada: será Jesus legalista? Ou arriscará contradizer Moisés? Tudo é tramado em torno do que Jesus fará com relação aos pecadores, ao povão que estava em volta dele. Se deixar a mulher ser apedrejada, aprova a lei e o comportamento dos seus adversários contra os pecadores; e assim, seu comportamento de desprezo seria desmascarado diante de todo o povo. Mas, nesse caso, onde ficaria a imagem do Pai bondoso que sai ao encontro do filho pródigo? Se, pelo contrário, ele não aprovar o agir dos fariseus e acolher a pecadora, estará descumprindo uma lei que é claríssima e também nesse caso, diante do povo se mostraria como alguém que infringe a lei.
Todos esperam para ver como Jesus se sairá desta, pois, a pergunta o obriga a tomar uma posição. Temos a impressão de que ele parece não saber decidir. Com a maior calma do mundo, ele ganha tempo, riscando com o dedo a terra: são segundos eternos de impaciente silêncio. Ele parece não estar nem aí para seus opositores, não lhes dá nenhuma resposta. Estes se encontram muito seguros de si mesmos, enquanto a mulher deveria se encontrar num pavor terrível e o povo muito tenso. Aquele silêncio é o silêncio da espera porque está pra surgir uma coisa nova, como nos afirma a primeira leitura: eis que farei coisas novas e que já estão surgindo.
Se como insistiam, eis que Jesus se levanta e com sua inteligência impressionante e movido pelo amor que sempre pregava, rompe o silêncio e a sua palavra é como uma espada que se finca com profundidade na consciência, golpeando todo tipo de hipocrisia: “Quem dentre vós não tiver pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Era como se perguntasse: como você pode condenar esta mulher enquanto você também é adúltero? Porque todo pecado é um adultério aos olhos de Deus. Os acusadores, aqueles presumidos, queriam negar à adúltera a possibilidade de uma mudança. Com a chuva de pedras que pretendiam realizar, queriam sepultar não só o pecado, mas também a pessoa, o seu passado e o seu futuro.
Jesus não responde diretamente a pergunta deles. Chama a atenção pra um fato importante por eles esquecido: sobre a verdadeira situação deles diante de Deus. Deu um tempo pra eles pensarem, voltando a desenhar com o dedo no chão. O mais interessante aparece aqui. Os fariseus, que nunca aceitam o que Jesus diz, dessa vez se tocam. Nenhum dos que estavam lá teve a coragem de jogar sua pedra na mulher. Se deram conta que todos têm pecado e devem cuidar de superar os seus. Quando Jesus se levanta, percebe que todos foram embora. Só estão ele e a mulher. Também Jesus não condenou a mulher, mas exortou: “de agora em diante não peques mais”. Jesus a absolve, mas recorda-lhe sua nova tarefa.
Enfim, todos nós erramos e reconhecer esses erros é o que faz a diferença. Sempre temos uma chance pra começar de novo e o próximo também tem a mesma chance. Quanto a este, só julgá-lo já é um grande erro. Ninguém é perfeito, mas lembremos sempre as palavras de Paulo: esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente. Corro direto para a meta, rumo ao prêmio que, do alto, Deus me chama a receber em Cristo Jesus.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Salmo 72

O Salmo 72 é o único expressivamente atribuído a Salomão, embora possa se traduzir a preposição hebraica LE, na antífona, como "a" Salomão, ao invés de "por" Salomão. A tradição talmúdica e rabínica, no entanto, prefere atribuir este salmo a Davi, que o teria escrito como uma oração por seu filho Salomão, o herdeiro do trono. Mas, independente de quem o escreve, o que o Salmo 72 teria a nos falar?

Não me disponho a fazer aqui uma exegese do texto, antes um comentário do que mais me chama a atenção. Assim sendo, divido o salmo enquanto da seguinte forma:

1 – Verso 1: um pedido a favor do rei, a fim de que governe com justiça;
2 – Versos 2-14: promessas de obras maravilhosas desse rei – caso Deus o abençoe – a favor dos pobres e dos oprimidos da terra, e sobre o estabelecimento do seu reino universal e justo;
3 – Versos 15-17: votos ao tal rei e seu reinado;
4 – Versos 18-19: ação de graças a Deus, por Suas maravilhosas obras, inclusive o rei justo;
5 – Verso 20: apenas de caráter informativo, indicando o fim das orações de Davi (e sua autoria?).

Ao lermos o AT tendo o NT como luz, conseguimos enxergar sem muita dificuldade referências a Jesus, seu ministério e reinado. Mas não podemos afirmar se de fato Salomão (ou Davi) tinha intenção de escrever aqui um salmo sobre o reinado o Messias. É mais provável que ele se referisse a outro ungido, àquele que o sucederia logo em seguida. Dessa perspectiva, o salmista reconhece a desordem sócio-econômica já presente em Israel, e a incapacidade humana de administrar justiça aos oprimidos. Por isso inicia sua oração apelando à ajuda divina: "Reveste da tua justiça o rei, ó Deus, e o filho do rei, da tua retidão, para que julgue com retidão e com justiça os que sofrem opressão." (v.1-2).

Num sentido mais messiânico, esse salmo aponta para aquilo que muitos séculos depois os evangelhos indicariam como sendo a preocupação maior do Messias Jesus: ir ao socorro dos pobres e oprimidos. Não que Jesus desprezasse aos ricos, Ele mesmo disse que não rejeitaria quem a Ele fosse (Jo 6.37), mas sua urgência eram os pobres, que eram marginalizados até mesmo espiritualmente, pois não tinha condições de viajar a Jerusalém para se purificar, nem mesmo possuíam dinheiro suficiente para pagar pelos animais e sacrifícios religiosos e, por isso, também, aos olhos da religião, e dos líderes religiosos, e dos poderosos, eram impuros e indignos de Deus.

Os versos que mais me emocionam nesse salmo, e que tenho grifados em minha Bíblia, são o 13 e 14, que dizem assim: "Ele se compadece dos fracos e dos pobres, e os salva da morte. Ele os resgatará da opressão e da violência, pois aos seus olhos a vida deles é preciosa."

Quando medito nesses versos, me alegro e grito dentro de mim "halleluia!", pois lembro que foi com os pobres que Jesus se identificou, abdicando sua glória divina, fazendo-se semelhante a escravo – a mais baixa camada social – e morrendo a morte de cruz, a morte mais humilhante, a morte dos escravos, como era chamada pelo Império Romano: servile supplicum.

Concluindo, se temos uma aplicação desse salmo para hoje, essa é que cuidemos em manter o Evangelho integral, não apenas anunciando a salvação com palavras, mas atuando na sociedade como pudermos, a fim de que haja justiça na terra e o Reino de Deus entre os homens.

quinta-feira, 15 de março de 2007

IV DOMINGO DA QUARESMA - DEUS FAZ FESTA QUANDO O FILHO REGRESSA

Lc 15,1-3.11-32
Ninguém decidiu nascer. Não fomos nós que escolhemos como seríamos: o nosso corpo, os nossos talentos, o nosso temperamento, a época em que vivemos. Não pudemos escolher nem mesmo a educação recebida, pelo menos até certo ponto da nossa existência. O fato de ter nascido marca irremediavelmente a nossa vida.
No coração da famosíssima parábola contada por Jesus, conhecida como “a parábola do filho pródigo”, encontramos o drama fundamental da existência humana. O que gira em torno de nossa identidade fundamental: quer queiramos ou não, somos filhos e por isso, não somos donos absolutos da nossa vida. O problema já é grande a nível humano; e se complica mais ainda quando passamos ao nível religioso: nos foi ensinado que Deus é Pai, e que todos nós somos seus filhos: é o que rezamos na oração do Pai-Nosso. Ser cristão significa então acreditar num Pai que é dono da nossa vida, o que significa que nunca podemos ser autônomos, completamente livres?
Voltando à parábola, o filho mais novo, completamente independente de qualquer figura superior, representa o pecador. Ele não considera sua relação com o pai e afasta-se deste. Pede sua herança e a gasta de maneira irresponsável. É a grande ilusão de querer se desligar de sua própria origem, de poder tomar decisões sem vínculos e sem condicionamentos, pois esta vida “livre” torna-se uma vida humilhante. O jovem alegre se torna escravo do dono dos porcos. Pior, ele chega a desejar a comida dos porcos, o que é mais humilhante ainda quando se trata de um judeu, por serem os porcos os animais mais impuros.
No entanto, tal situação leva o filho caçula a rever suas idéias. Ele se lembra como “era bom” estar junto do pai. Ele não procura justificar seu comportamento passado, nem se desespera com a situação presente. Tem humildade, coragem e confiança de reconhecer que o próprio caminho está errado e decide voltar para o pai. Está pronto para confessar a sua própria culpa. Não pretende nem mesmo ser tratado como um filho, mas como um servo qualquer do seu pai. Este filho representa todos os pecadores, do ladrão arrependido na cruz a cada um de nós.
O pai representa Deus. Ele acolhe de braços abertos o pecador que retorna a casa. Mais, quando vê o filho regressando, ainda longe, o sentimento que prova não é de rancor, nem de ira nem de prazer pela desgraça alheia, mas de sincera compaixão. Ele corre para encontrar o filho, o abraça e o beija: expressão de um infinito amor. Nenhum sinal de reprovação, nenhuma palavra dura. Escuta com amor a confissão da culpa por parte do filho. E o pai não o trata como um pecador, mas como um filho. O pai o reveste com a túnica mais bela e faz uma festa. Nenhum olhar para o passado. O que interessa ao pai é saber que o filho está de novo com ele.
O filho mais velho representa aqueles que permanecem fiéis ao pai e aderem aos seus mandamentos. Este filho se recusa a participar da alegria do pai. Fica indignado com o comportamento do pai e se sente prejudicado. Contrariamente ao pai, este filho olha só pra o passado. Vê somente o pecado do outro, mas não consegue enxergar quem é o outro. É totalmente indiferente ao fato de que o outro é seu irmão e que tenha voltado pra casa. Também este filho precisa rever seu ponto-de-vista.
Será que pensamos que somos filhos de Deus porque não fazemos “nada de mal”? Ou porque sempre vamos à missa? Ou porque não somos como os outros... mas sentimos o peso de ser “bons cristãos”. Será que somos capazes de nos alegrarmos com o Pai e de abraçar o filho que retorna? Só se reconhecermos o pecador como nosso irmão, nos tornamos filhos do Pai. Afinal, todos nós somos pecadores.
Em seu famosíssimo livro, inspirado na obra “A volta do filho pródigo” do pintor Rembrandt, o padre holandês Henri Nouwen, afirma com muita convicção: “Fui tão profundamente tocado por essa imagem do abraço de dar a vida entre pai e filho porque tudo em mim ansiava ser recebido do mesmo modo que o Filho pródigo foi recebido. Esse encontro passou a ser o começo da minha volta”. Depois, ele se dá conta que nesta imagem, “há reconciliação, mas também há raiva. Há comunhão, mas também distanciamento. Há o brilho cálido da cura, mas também a frieza do olho crítico; há a oferenda da misericórdia, mas também enorme resistência para recebê-la. Não demorou para que eu descobrisse o filho mais velho em mim”.
Muitas vezes, somos o filho mais novo, e como é bom desfrutar a misericórdia do Pai. Mas, muitas vezes também, somos o filho mais velho, e temos a exemplo do filho mais novo, termo humildade para admitirmos que estamos errados e coragem para mudarmos e sermos misericordiosos para com nossos irmão e irmãs.

quinta-feira, 8 de março de 2007

AINDA UMA CHANCE PARA DAR FRUTO!


Lc 13, 1-9 - III DOMINGO DA QUARESMA

Naquela mesma ocasião algumas pessoas chegaram e começaram a comentar com Jesus como Pilatos havia mandado matar vários galileus, no momento em que eles ofereciam sacrifícios a Deus. Então Jesus disse: - Vocês pensam que, se aqueles galileus foram mortos desse jeito, isso quer dizer que eles pecaram mais do que os outros galileus? De modo nenhum! Eu afirmo a vocês que, se não se arrependerem dos seus pecados, todos vocês vão morrer como eles morreram. E lembrem daqueles dezoito, do bairro de Siloé, que foram mortos quando a torre caiu em cima deles. Vocês pensam que eles eram piores do que os outros que moravam em Jerusalém? De modo nenhum! Eu afirmo a vocês que, se não se arrependerem dos seus pecados, todos vocês vão morrer como eles morreram. Então Jesus contou esta parábola: - Certo homem tinha uma figueira na sua plantação de uvas. E, quando foi procurar figos, não encontrou nenhum. Aí disse ao homem que tomava conta da plantação: "Olhe! Já faz três anos seguidos que venho buscar figos nesta figueira e não encontro nenhum. Corte esta figueira! Por que deixá-la continuar tirando a força da terra sem produzir nada?" Mas o empregado respondeu: "Patrão, deixe a figueira ficar mais este ano. Eu vou afofar a terra em volta dela e pôr bastante adubo. Se no ano que vem ela der figos, muito bem. Se não der, então mande cortá-la."
O Evangelho deste domingo nos faz lembrar as notícias que diariamente chegam até nós através dos jornais: pessoas mortas por causa da violência como a menina de 12 anos, vítima de uma bala perdida num morro do Rio de Janeiro nesta segunda-feira; pessoas mortas por causa de alguma desgraça, como as 23 que morreram no acidente aéreo ocorrido na Indonésia nesta quarta-feira.
Por que tudo isso acontece? O que vem a nossa cabeça quando escutamos estas notícias? Ficamos chocados com o fato de que tudo isso possa acontecer? Começamos a ter mais cuidado com a nossa vida? Ficamos contentes que não tenhamos sido nós as vítimas? Ou estas coisas já não chamam mais a nossa atenção porque já nos acostumamos com notícias deste tipo?
No texto evangélico, lemos que algumas pessoas vão até Jesus para dar a notícia dos galileus mortos por Pilatos, enquanto ofereciam seus sacrifícios. O massacre deve ter acontecido no templo de Jerusalém, porque só ali era costume a prática de ofertar animais em sacrifício. Não nos é claro porque as pessoas contem a Jesus este acontecido nem muito menos se esperam dele alguma reação. Provavelmente, transmitem a notícia assim como nós também temos o costume de fazer com as más notícias que chegam aos nossos ouvidos. O interessante é que Jesus aproveita esta situação para passar a sua mensagem de conversão, de mudança de mentalidade. Ele diz a estas pessoas que não devem chegar a falsas conclusões e ainda diz o que elas devem fazer.
Segundo a mentalidade do tempo, baseada na doutrina da retribuição, qualquer desgraça era castigo divino devido a um pecado: “Mestre, quem pecou, este ou seus pais para que nascesse cego?” (Jo 9,2). Assim, pela morte dos galileus, chegava-se à conclusão de que estes eram pecadores e por isso, tinham sido castigados. E mais, que os outros que não tinham sido assassinados, não eram culpados, e, por isso, poderiam se sentir seguros e levar a vida como bem entendessem.
No entanto, Jesus se opõe radicalmente a este modo de pensar e sublinha com força que todos devem se converter. Todos são culpados, todos têm uma relação equivocada com Deus, todos estão no caminho errado, todos devem mudar de vida para serem aprovados pelo juízo de Deus.
Para facilitar ainda mais a compreensão daquilo que quer transmitir, Jesus acrescenta outro caso, no qual dezoito homens foram mortos em Jerusalém na queda da torre de Siloé. Neste segundo caso, ele se dirige aos habitantes de Jerusalém, ou seja, o que ele adverte vale para todos, sem exceção, todos precisam se converter.
Jesus quer abolir a idéia de que Deus existe para castigar. “Se não vos convertedes, ireis morrer todos do mesmo modo”. As tragédias humanas são um convite à aceitação do projeto libertador iniciado por Jesus Cristo. Rejeitar este projeto é rejeitar a vida. Para aceitar este projeto, é necessária uma mudança de mentalidade. Se nós não aceitamos este convite de Jesus, seremos construtores da nossa própria desgraça.
A parábola da figueira que não dá frutos é uma parábola muito interessante. Com ela, Jesus confirma seu pensamento. A figueira é uma das plantas mais comuns e generosas da Palestina. Geralmente, dá boa sombra e produz frutos durante dez meses por ano. A figueira representa o povo de Israel e não só. Representa todos os que ouvem a Palavra de Deus. Jesus é o Agricultor. Ele plantou a figueira e espera a abundância dos frutos. Não encontrando frutos, o patrão emite uma dura sentença: já que Israel é uma figueira ociosa, não faz sentido que continue a viver. Talvez Lucas estivesse pensando na rejeição do Evangelho praticado pelos chefes religiosos daquele tempo.
No entanto, a grande novidade acontece pela ação do agricultor: ele aduba o terreno: sinal de uma dedicação especial. Os camponeses sabiam que a figueira não tinha necessidade de adubo. Mas, Jesus vai além das expectativas. Aposta no ser humano até onde possa parecer absurdo. Esta é a solidariedade de Deus.Freqüentemente, esquecemos o trabalho do Agricultor. Exigimos bons frutos das pessoas como se fôssemos os mais perfeitos em fazer boas obras. O adubo da paciência, ensinado a nós pelo agricultor é a oportunidade que cada pessoa deveria merecer. Jesus nos ensina que a misericórdia divina não conhece limites: pode ser que o próximo ano produza! Uma planta comum se torna para nós símbolo de conversão. Mas, sem a nossa cooperação, tornamos estéril a solidariedade divina. O nosso agricultor espera de nós bons frutos. E estes frutos não são um imposto que devemos pagar pelo direito de existir, mas são a nossa própria realização pessoal, que dá sentido a nossa vida. Portanto, vamos parar de justificar as desgraças alheias com atitudes orgulhosas para demonstrar a nossa superioridade ou presumida boa consciência. Todos nós precisamos de conversão. À figueira sempre é dada uma nova chance: não temos tempo a perder. O momento é agora. É muito triste olhar pra trás e constatar que temos sido uma figueira que não soube produzir frutos. Se for o caso, é agora o momento de arregaçar as mangas e crer firmemente na paciência do Agricultor.

sexta-feira, 2 de março de 2007

DO ROSTO TRANSFIGURADO AOS ROSTOS DESFIGURADOS


Lc 9, 28b-36 - II DOMINGO DA QUARESMA

Jesus levou Pedro, João e Tiago e subiu o monte para orar. Enquanto orava, o seu rosto mudou de aparência, e a sua roupa ficou muito branca e brilhante. De repente, dois homens apareceram ali e começaram a falar com ele. Eram Moisés e Elias, que estavam cercados por um brilho celestial. Eles falavam com Jesus a respeito da morte que, de acordo com a vontade de Deus, ele ia sofrer em Jerusalém. Pedro e os seus companheiros estavam dormindo profundamente, mas acordaram e viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. Quando esses dois homens estavam se afastando de Jesus, Pedro disse: - Mestre, como é bom estarmos aqui! Vamos armar três barracas: uma para o senhor, outra para Moisés e outra para Elias. Pedro não sabia o que estava dizendo. Ele ainda estava falando, quando apareceu uma nuvem e os cobriu. Os discípulos ficaram com medo quando a nuvem desceu sobre eles. E da nuvem veio uma voz, que disse: - Este é o meu Filho, o meu escolhido. Escutem o que ele diz! Quando a voz parou, eles viram que Jesus estava sozinho. Os discípulos ficaram calados e naquela ocasião não disseram nada a ninguém sobre o que tinham visto.
No Evangelho deste II Domingo da Quaresma, somos convidados a subir a montanha em companhia de Pedro, Tiago e João, seguindo os passos de Jesus que se afasta da multidão e se recolhe para rezar. Lucas nos conta o que se passou naquele episódio: enquanto Jesus estava rezando, “seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante”.
Eu penso que cada um de nós tenha sua própria imagem de como tenha acontecido isto; até porque Lucas não nos dá muitos detalhes para compreendermos bem essa mudança na aparência de Jesus. Se formos pesquisar as exegeses existentes sobre o relato, encontraremos uma imensa variedade de interpretações.
Esta mudança no rosto de Jesus que o torna luminoso é o que chamamos “Transfiguração”. Transfigurar, segundo o Aurélio, é mudar a figura ou a feição. Pensando e repensando como poderíamos entender melhor a transfiguração de Jesus, lembremos o rosto de algumas pessoas que nos passam essa idéia: o rosto de uma mãe que amamenta seu filhinho, o de um adolescente apaixonado, o de um pai que se emociona ao ver seu filho fazendo uma apresentação na escola, ou no dia da sua primeira comunhão. O que caracteriza todos eles é o olhar brilhante. E o que faz iluminar a expressão destas pessoas? O amor. É o amor que transparece do rosto deles e os torna luminosos.
Com certeza, foi o amor que tornou o rosto de Jesus resplandecente. Enquanto estava rezando, ele entra em contato com o Pai, e o amor entre eles é tão grande que chega a alterar a aparência de Jesus. Os três apóstolos que o acompanhavam certamente ficaram perplexos ao verem esta mudança. E ainda mais quando viram que “dois homens conversavam com Jesus: Moisés e Elias”. Moisés, que guiou o povo de Israel da escravidão do Egito à libertação dada por Deus; e Elias, que foi assunto ao céu numa carruagem de fogo (2 Rs 2,11). Os dois, que representam toda a história de Israel, aparecem na montanha para conversarem com Jesus.
Mas, qual era mesmo o assunto da conversa deles? “Conversavam sobre a morte que Jesus iria sofrer em Jerusalém”. Eles falavam da paixão de Jesus, o que estamos, neste tempo de Quaresma, nos preparando para celebrar.
Entretanto, quando os apóstolos perceberam que Moisés e Elias estavam se afastando, Pedro faz uma bela proposta: “Mestre, é bom estarmos aqui! Vamos fazer três tendas! Uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro tem razão: deve ter sido muito bom mesmo estar ali imersos na luz do amor entre o Pai e o Filho, escutando o diálogo com Moisés e Elias. Era tão bom que Pedro queria que aquele momento nunca acabasse. É por isso que ele propôs fazer três tendas. Normalmente, quando as pessoas vão a uma montanha para acampar, ou seja, querem passar mais tempo lá, levam e armam suas barracas.
Porém, enquanto Pedro fazia a sua proposta, saiu uma voz do céu com outra indicação: para saborear aquele momento extraordinário, não era preciso armar as tendas, mas ter um coração atento para ouvir a Palavra de Jesus. De fato, o Pai diz: “Este é meu Filho, o escolhido. Escutai o que Ele diz”. Não faz muito tempo que ouvimos a mesma declaração no Batismo de Jesus. E este é um detalhe muito interessante, pois o Pai está dizendo que aquele Filho que começou o ministério no Jordão é o mesmo que está prestes a morrer crucificado. A força da voz do Pai deve ter sido um dom belíssimo para os apóstolos, a ponto de não quererem falar por muito tempo este episódio, guardado no coração.
A força da voz do pai deve ter sido um dom belíssimo para os apóstolos, a ponto de não quererem falar por muito tempo este episódio, guardado no coração: “Escutai!” Escutar! É a melhor maneira para se preparar para a Páscoa: escutar a Palavra que Jesus veio nos dar. Escutar com os ouvidos, mas, sobretudo, escutar com o coração. Só assim podemos ficar com o nosso rosto transfigurado.
Infelizmente, hoje, o rosto de Jesus aparece mais desfigurado que transfigurado. Desfigurado em tantos rostos humanos por causa da pobreza extrema. Jesus sofredor aparece desfigurado no rosto de crianças doentes, abandonadas, desfrutadas; no de jovens desorientados, perdidos; no dos excluídos da sociedade; no de desempregados, no de idosos abandonados até mesmo pela família. São muitos os desafios que os missionários de Jesus têm de enfrentar. Coragem!