sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

DIANTE DE QUEM ME PROSTO?


Lc 4, 1-13 - I Domingo de Quaresma

Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do rio Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto. Ali ele foi tentado pelo Diabo durante quarenta dias. Nesse tempo todo ele não comeu nada e depois sentiu fome. Então o Diabo lhe disse: - Se você é o Filho de Deus, mande que esta pedra vire pão. Jesus respondeu: - As Escrituras Sagradas afirmam que o ser humano não vive só de pão. Aí o Diabo levou Jesus para o alto, mostrou-lhe num instante todos os reinos do mundo e disse: - Eu lhe darei todo este poder e toda esta riqueza, pois tudo isto me foi dado, e posso dar a quem eu quiser. Isto tudo será seu se você se ajoelhar diante de mim e me adorar. Jesus respondeu: - As Escrituras Sagradas afirmam: "Adore o Senhor, seu Deus, e sirva somente a ele." Depois o Diabo o levou a Jerusalém e o colocou na parte mais alta do Templo e disse: - Se você é o Filho de Deus, jogue-se daqui, pois as Escrituras Sagradas afirmam: "Deus mandará que os seus anjos cuidem de você. Eles vão segurá-lo com as suas mãos, para que nem mesmo os seus pés sejam feridos nas pedras." Então Jesus respondeu: - As Escrituras Sagradas afirmam: "Não ponha à prova o Senhor, seu Deus." Quando o Diabo acabou de tentar Jesus de todas as maneiras, foi embora por algum tempo.

No Evangelho deste I domingo da Quaresma, vemos qual é a relação de Jesus com o diabo, o qual representa o afastamento e a oposição a Deus. Por outro lado, vemos também a relação de Jesus com Deus. Também nas tentações aparece esta relação que é confirmada através da rejeição àquele que se encontra em oposição radical com Deus. É justamente aqui que aparece a firmeza e a certeza da relação de Jesus com Deus, já que neste confronto se revela de uma vez por todas que Jesus está da parte de Deus.
A tentação, o peso, a prova, estão presentes e é necessário tomar posição e fazer uma decisão. A maneira na qual se comporta Jesus mostra sua relação com Deus. Ele responde de modo tranqüilo, seguro. Demonstra com absoluta clareza o que é válido. No seu comportamento, não se pode notar nenhum medo, nenhuma impaciência e nenhum conflito interior. No confronto não há luta, batalha. A cada proposta do tentador, Jesus dá o seu ponto de vista. Assim, ele demonstra a certeza e a clareza de sua relação com o Pai. Tudo aquilo que o Pai havia dito dele é confirmado aqui pelo seu comportamento. Quanto a nós, devemos nos orientar através da clareza e da decisão de Jesus. Não podemos nos enganar, pensando que estamos livres de uma luta cansativa com o tentador. Porém, hoje recebemos esta boa notícia: existe alguém que permanece fiel a Deus. Mesmo que não resistamos à prova e caiamos freqüentemente, só o fato de que há alguém que permanece firme e fiel a Deus nos deve infundir alegria e coragem.
As tentações não foram para Jesus um jogo de ficção, foram verdadeiras provas, como existem para o cristão e para a Igreja. E justamente por ter sido verdadeiramente provado, Jesus é exemplo e pode vir em ajuda a quem está na prova.
Jesus realmente lutou contra satanás sobre a escolha de possíveis métodos e caminhos para realizar sua missão de Messias. As três tentações são uma síntese significativa de um longo período de luta contra o mal, sustentada por Jesus nos 40 dias de deserto e durante toda a sua vida, compreendida a cruz. As tentações representam modelos diferentes de Messias, e, portanto, para nós também de missão. Para Jesus as tentações eram três saídas para não passar pela cruz. Uma relacionada com as coisas materiais, outra com as pessoas e outra com Deus mesmo.
A primeira começa com a fome de Jesus. O tentador o convida a usar o poder para eliminar a sua fome. Na fome, o que está em jogo é a vida. Para viver, o homem precisa de pão, de alimento. O que deve fazer o homem com a sua vida? Jesus responde, dizendo que o homem não vive somente de pão. Ele tem uma vida que é superior àquela que depende do pão. Uma vida que consiste na sua ligação incondicional e cheia de confiança em Deus. A busca de Deus e a confiança no seu poder devem ter o primeiro lugar na nossa vida e nunca devem ser substituídos por uma vida garantida pelo pão. Assim, a primeira tentação é a de aceitar o pão como fonte da vida.
A segunda tentação não se dirige ao homem que luta para ter o mínimo necessário para sobreviver, mas ao homem que mira além da própria pessoa humana e aspira ao domínio do mundo. Aqui entra em jogo o fascínio do poder, do domínio. Mas, Jesus responde que há um só Deus. A busca exclusiva do poder não combina com o reconhecimento da senhoria de Deus. Jesus reconhece a autoridade no âmbito humano: porém, que não deve ser exercitada como domínio sobre os outros, mas vivida como serviço.
Finalmente, a terceira tentação é a de um Messias mirabolante: atira-te daqui abaixo! Um gesto que teria assegurado fama e espetáculo. Porém, Jesus não tem necessidade de uma prova de que Deus o ama, ele confia no Pai.Jesus supera as tentações: escolhe respeitar o senhorio de Deus, confia no Pai e no seu plano salvífico pelo mundo. Renuncia instrumentalizar egoisticamente as coisas materiais para o próprio proveito (não muda as pedras em pão para si; mais tarde multiplicará para a multidão faminta); rejeita dominar as pessoas e prefere servir: mantém sempre uma relação filial com Deus, confiando na sua fidelidade. Aceita a cruz por amor e morre perdoando: somente assim, quebra o espiral da violência e tira da morte o seu veneno. Enfim, vale lembrar que Jesus supera as tentações porque está cheio da força do Espírito Santo. Nós também somos convidados a pedir auxílio ao Espírito Santo para que nos ajude a vencer as tentações, pois o tentador sempre está prestes a retornar no momento oportuno.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

DESARME O INIMIGO!

VII DOMINGO COMUM - Lc 6, 27-38

- Mas eu digo a vocês que estão me ouvindo: amem os seus inimigos e façam o bem para os que odeiam vocês. Desejem o bem para aqueles que os amaldiçoam e orem em favor daqueles que maltratam vocês. Se alguém lhe der um tapa na cara, vire o outro lado para ele bater também. Se alguém tomar a sua capa, deixe que leve a túnica também. Dê sempre a qualquer um que lhe pedir alguma coisa; e, quando alguém tirar o que é seu, não peça de volta. Façam aos outros a mesma coisa que querem que eles façam a vocês. - Se vocês amam somente aqueles que os amam, o que é que estão fazendo de mais? Até as pessoas de má fama amam as pessoas que as amam. E, se vocês fazem o bem somente para aqueles que lhes fazem o bem, o que é que estão fazendo de mais? Até as pessoas de má fama fazem isso. E, se vocês emprestam somente para aqueles que vocês acham que vão lhes pagar, o que é que estão fazendo de mais? Até as pessoas de má fama emprestam aos que têm má fama, para receber de volta o que emprestaram. Façam o contrário: amem os seus inimigos e façam o bem para eles. Emprestem e não esperem receber de volta o que emprestaram e assim vocês terão uma grande recompensa e serão filhos do Deus Altíssimo. Façam isso porque ele é bom também para os ingratos e maus. Tenham misericórdia dos outros, assim como o Pai de vocês tem misericórdia de vocês. - Não julguem os outros, e Deus não julgará vocês. Não condenem os outros, e Deus não condenará vocês. Perdoem os outros, e Deus perdoará vocês. Dêem aos outros, e Deus dará a vocês. Ele será generoso, e as bênçãos que ele lhes dará serão tantas, que vocês não poderão segurá-las nas suas mãos. A mesma medida que vocês usarem para medir os outros Deus usará para medir vocês.
No domingo passado, Jesus nos dizia: “Bem-aventurados sereis, quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos insultarem e amaldiçoarem o vosso nome por causa do Filho do homem! Alegrai-vos e exultai, pois será grande a vossa recompensa no céu” (Lc 6,22-23).
Muitas pessoas arruínam suas vidas e sua saúde com o veneno da amargura, do ressentimento e da falta de perdão. O fato de não perdoarmos aqueles que nos ofenderam nos custa uma vida de tortura, pois como é atormentador cultivar pensamentos hostis dentro de nós com relação a alguém. Entretanto, normalmente, fazemos muita resistência em deixar pra trás o mal que alguém nos causou, e até nutrimos sentimentos de vingança.
Hoje, Jesus, como freqüentemente faz, pede que mudemos radicalmente o nosso modo de pensar e de viver: “Amai os vossos inimigos...”. Mas, como é possível amar os inimigos? Para Deus, tudo é possível! E a boa notícia de hoje é que Deus nos torna capazes de acolher e amar a quem nos fere e nos faz o mal. Precisamos nos lembrar que Jesus foi o primeiro a dar o exemplo quando perdoou aqueles que o crucificaram, intercedendo ao Pai por eles: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”.
Mas, como é difícil perdoar! E se ainda não conseguimos fazê-lo, primeiramente, temos que ter consciência que quando perdoamos a quem nos tem ofendido, estamos ajudando a nós mesmos, curando o nosso coração. Também ajudamos a pessoa que nos machucou a receber de Deus um coração novo.
Para perdoar, temos que decidir. Se ficarmos esperando sentir que Deus mude o nosso coração sem a nossa cooperação, não perdoaremos nunca. Temos que tomar uma decisão e Deus se encarregará de curar nossas emoções feridas a seu devido tempo. E perdoar não é esquecer, antes, é exatamente a lembrança da dor provada o que torna mais louvável a prática do perdão.
Depois, temos que contar com a ajuda do Espírito Santo. Se nós realmente queremos perdoar, com certeza, Deus nos tornará capazes de fazê-lo. Por fim, temos que obedecer a Palavra de Deus no que diz respeito a nossa relação com os inimigos. No Evangelho, Jesus contrapõe dois modos completamente opostos de comportamento: de um lado, ser inimigo, odiar, amaldiçoar, caluniar; de outro, amar, fazer o bem, abençoar e interceder. Devemos seguir o exemplo do Pai: “Sede misericordiosos como também vosso Pai é misericordioso”. Devemos orar pelos nossos inimigos e aqueles que nos tratam mal.
Como é poderosa a oração de alguém que intercede por seus inimigos. Jó teve que orar pelos seus amigos que o haviam desapontado e Deus lhe deu em dobro. Quando oramos pelos que nos perseguem, ajudamos a estas pessoas a enxergarem suas faltas, e a amolecerem seu coração de pedra. Abençoar é falar bem e amaldiçoar é falar mal. Então, temos que parar de repetir várias vezes a ofensa cometida contra nós. Jesus nos diz que se alguém nos der uma bofetada numa face, devemos oferecer a outra. Ou seja, nunca devemos combater a violência com violência, mas vencer o mal com o bem. O que desejamos que os outros nos façam, devemos também fazer a eles, esta é a medida para o nosso comportamento com relação ao próximo.
E quem é o nosso inimigo? É o diferente, aquele que não tem os gostos iguais aos nossos nem o nosso modo de pensar, e, com o qual, acabamos sempre discutindo; é o adversário, aquele que critica tudo o que fazemos, que não nos perdoa; é o falso, o que se mostra amigo, nos mostra um sorriso, é cordial, mas, depois, nos apunhala pelas costas por causa de sua inveja; o perseguidor, aquele que sente prazer em nos humilhar e nos fazer sofrer com insinuações e com ciúmes desenfreados que não nos dão paz.
Enfim, quase sempre, são as pessoas mais próximas a nós, os nossos familiares e amigos, aqueles que sentimos serem nossos inimigos, aqueles que têm necessidade do nosso perdão (amai os vossos inimigos), da nossa oração (orai pelos que vos maltratam), da nossa bênção (abençoai aqueles que vos amaldiçoam). Jesus se opõe totalmente ao julgamento, à condenação, ao rancor e ao egoísmo.
O amor ao inimigo tem este objetivo: desarmá-lo, torná-lo novo, porque só o amor e o perdão renova e é capaz de transformar o homem numa obra nova. No fundo, cada um de nós é inimigo de alguém e somos os primeiros a precisar de um amor gratuito que nos renove. E nunca devemos esquecer que “com a mesma medida com que medirdes os outros, sereis medidos”. Portanto, quanto mais formos misericordiosos, mais Deus será misericordioso conosco.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

O SEGREDO DA FELICIDADE: A CONFIANÇA NO SENHOR


VI Domingo Comum - Lc 6, 17. 20-26

Jesus desceu do monte com eles e parou com muitos dos seus seguidores num lugar plano. Uma grande multidão estava ali. Era gente de toda a Judéia, de Jerusalém e das cidades de Tiro e Sidom, que ficam na beira do mar. Jesus olhou para os seus discípulos e disse: - Felizes são vocês, os pobres, pois o Reino de Deus é de vocês. - Felizes são vocês que agora têm fome, pois vão ter fartura. - Felizes são vocês que agora choram, pois vão rir. - Felizes são vocês quando os odiarem, rejeitarem, insultarem e disserem que vocês são maus por serem seguidores do Filho do Homem. Fiquem felizes e muito alegres quando isso acontecer, pois uma grande recompensa está guardada no céu para vocês. Pois os antepassados dessas pessoas fizeram essas mesmas coisas com os profetas. - Mas ai de vocês que agora são ricos, pois já tiveram a sua vida boa. - Ai de vocês que agora têm tudo, pois vão passar fome. - Ai de vocês que agora estão rindo, pois vão chorar e se lamentar. - Ai de vocês quando todos os elogiarem, pois os antepassados dessas pessoas também elogiaram os falsos profetas.

A mensagem principal da liturgia de hoje se concentra numa contraposição que encontramos seja na leitura do profeta Jeremias seja no salmo como também no evangelho segundo Lucas. Somos convidados a acolher com fé essa Palavra de Deus e de experimentar em nossa vida a verdade profunda que ela contém.
“Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana, enquanto seu coração se afasta do Senhor... Bendito é o homem que confia no Senhor... é como a árvore plantada junto às águas... não sofre míngua em tempo de seca e nunca deixa de dar frutos” (Jr 17,5-8). “Feliz é todo aquele que encontra seu prazer na lei de Deus e a medita dia e noite, sem cessar... eis que tudo o que ele faz vai prosperar... mas, a estrada dos maus leva à morte” (Sl 1). E no Evangelho, a primeira coisa que Jesus diz é: “Bem-aventurados (felizes) vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus!” Sua correspondente é: “mas, ai de vós, ricos, porque já tendes vossa consolação!”
Jesus anuncia o Evangelho a todos, mas só os pobres são capazes de acolhê-lo. Os pobres são todos aqueles que reconhecem que suas próprias forças e os bens terrenos não bastam nem trazem segurança e felicidade, mas dependem completamente de Deus para viver a vida em plenitude. Os discípulos de Jesus são estes pobres que deixaram tudo pra segui-lo. O próprio Jesus nasceu pobre e com sua vida, nos ensinou a virtude da pobreza (que não é sinônimo de miséria).
Na sua pregação, Jesus sempre contrapõe pobreza à riqueza. Ele fala como é difícil para um rico entrar no reino de Deus, porque ele vê na riqueza um sério obstáculo, já que essa sendo idolatrada é fonte de tantos males e de toda a injustiça. E Deus está do lado da justiça. Mas, ele também prega que o poder e a misericórdia de Deus são ilimitados. Zaqueu era um homem muito rico, porém, soube tratar no modo justo a sua riqueza, vendendo metade delas pra ajudar os pobres.
O melhor comentário do trecho evangélico deste domingo é a parábola do rico e do pobre Lázaro. Nela, aparece o rico, que vive de maneira puramente terrena e no egoísmo. Conhece o pobre que reside na sua porta e não lhe ajuda de maneira alguma. Lázaro, pelo contrário, em qualquer necessidade sua, depende totalmente de Deus. Depois da morte, que torna todos igualmente pobres de bens terrenos, Lázaro é levado à comunhão com Deus, enquanto o rico é excluído de tal comunhão.
“Bem-aventurados vós, os pobres... bem aventurados, vós que agora tendes fome... bem aventurados vós, que chorais... bem-aventurados sereis quando vos odiarem, vos expulsarem, vos insultarem e amaldiçoarem por causa do Filho”. Escutando essas palavras, o nosso pensamento duvida, quer uma prova. Pois para nós é muito evidente que pobreza, fome, pranto, insulto, estão longe de trazer a felicidade, pelo contrário, são uma desgraça.
E Jesus sabia que pobreza, fome e choro não têm nada de belo. Por isso, ele inverte os conceitos de pobreza e riqueza. É como se ele nos dissesse: Bem-aventurados são vocês, pobres, porque na realidade, são ricos! Vocês que dependem completamente de Deus. Vocês preparam os verdadeiros bens que duram para sempre. Mas, ai de vós, ricos, (este ai não é uma ameaça, mas uma lamentação), porque na realidade vocês são pobres. Pobres de amor, de valores, vocês têm o coração fechado e não amam o irmão, pois se amassem partilhariam os seus bens com os que precisam.
Esta Palavra de Deus é verdadeira, é bela, é possível, é o que nós realmente temos necessidade para vivermos felizes. Os bens não existem para serem acumulados, mas para serem partilhados: há fome pra saciar, há lágrimas pra enxugar. E não estamos falando só de dar dinheiro, mas principalmente de dar amor, compreensão, encorajamento, confiança, um “sorriso”.
Há ricos que são pobres e há pobres que são ricos (têm a ânsia de tornar-se ricos e querem aparentar ser ricos). Os que ainda não entenderam que valemos não pelo ter, nem pelo poder, nem pelo prestígio, mas pelo nosso coração. Jesus anuncia a Boa Nova aos pobres. Isto não significa que ele condene todos os bens e as alegrias terrenas assim como todos os ricos; e que deveríamos viver na pobreza absoluta ou que cada esforço por uma vida boa e segura seja falso. Porém, no centro da mensagem de Jesus existe o fato de que a vida terrena não é tudo e é errado ambicionar só os bens terrenos e excluir a morte e Deus do próprio projeto de vida. Você deve confiar totalmente em Deus, porque é impossível conseguir o sentido da sua vida sem Ele. Você deve amar a Deus e ao próximo. Qualquer relação com os bens terrenos que se opõe a este mandamento é ilusão e traz um tremendo vazio.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

CORAGEM DE AVANÇAR PARA O ALTO-MAR


Lc 5, 1-11 - V Domingo Comum
Certo dia Jesus estava na praia do lago da Galiléia, e a multidão se apertava em volta dele para ouvir a mensagem de Deus. Ele viu dois barcos no lago, perto da praia. Os pescadores tinham saído deles e estavam lavando as redes. Jesus entrou num dos barcos, o de Simão, e pediu que ele o afastasse um pouco da praia. Então sentou-se e come-çou a ensinar a multidão. Quando acabou de falar, Jesus disse a Simão: - Leve o barco para um lugar onde o lago é bem fundo. E então você e os seus companheiros joguem as redes para pescar. Simão respondeu: - Mestre, nós trabalhamos a noite toda e não pescamos nada. Mas, já que o senhor está mandando jogar as redes, eu vou obedecer. Quando eles jogaram as redes na água, pescaram tanto peixe, que as redes estavam se rebentando. Então fizeram um sinal para os compa-nheiros que estavam no outro barco a fim de que viessem ajudá-los. Eles foram e encheram os dois barcos com tanto peixe, que os barcos quase afundaram. Quando Simão Pedro viu o que havia acontecido, ajoelhou-se diante de Jesus e disse: - Senhor, afaste-se de mim, pois eu sou um pecador! Simão e os outros que estavam com ele ficaram admirados com a quantidade de peixes que haviam apanhado. Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão, também ficaram muito admirados. Então Jesus disse a Simão: - Não tenha medo! De agora em diante você vai pescar gente. Eles arrastaram os barcos para a praia, deixaram tudo e seguiram Jesus.

O evangelista Lucas hoje descreve o episódio da pesca milagrosa e com isso, nos mostra a relação entre Jesus e os seus colaboradores: tudo começa por iniciativa de Jesus e termina com a experiência que Pedro fará dele mesmo. Pedro era um simples pescador, e, naquela ocasião, vinha de uma pesca falida. Tinha trabalhado toda a noite no mar (lago) de Genesaré, o qual ele conhecia perfeitamente. Ser pescador era a única escolha de vida que ele poderia fazer naquela região da Galiléia. E um bom pescador nunca se lança ao mar se não tem quase certeza de retornar com as redes se não cheias, mas ao menos, com uma boa quantidade de peixes que lhe permita viver. É o desejo de viver com dignidade: “Mestre!” Disse Pedro a Jesus que lhe pedia a barca para pregar o Evangelho, “nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos”. Que terrível aquele “nada”; significa um fracasso total. Jesus, entretanto, quer dar um sinal de sua divindade a Pedro, justamente na área de competência deste; e, sem lhe dar nenhuma motivação nem esclarecimento, ele diz: "Avança para o alto-mar e lançai as vossas redes para a pesca”. Incrivelmente, Pedro com seus companheiros de trabalho, deixa de lado o seu fracasso e põe toda a confiança nas palavras de Jesus: “em atenção a tuas palavras vou lançar as redes”. É admirável esta atitude de Pedro. Tinha mil e uma razões para ficar irado consigo mesmo, com o mar e contra toda esperança por achar-se de mãos vazias depois de uma noite de cansaço. No entanto, Pedro supera a si mesmo e com a docilidade de uma criança, confia na palavra de alguém, que ele conhecia pela cura de sua sogra, experimentando o poder de Jesus; assim, aventura-se no alto-mar, onde se mede capacidade e coragem de esperar. “Assim fizeram e apanharam tamanha quantidade de peixes, que as redes se rompiam”.É aí que Pedro experimenta quem é Jesus e experimenta quem é ele mesmo. Ele atira-se aos pés de Jesus e confessa a sua pobreza de homem, que é também a nossa pobreza diante de Deus e do seu amor. "Senhor, afasta-te de mim porque sou um pecador". Ótima confissão. Precisamos cada vez mais reconhecer e admitir isto diante de Deus. A experiência do Senhor lhe abriu os olhos para reconhecer a real situação de sua própria pessoa. Tantas coisas nele estão erradas. Entretanto, o comportamento de Jesus não é aquele de se afastar dos pescadores e de lhes abandonar no pecado. Ele não veio converter os justos, mas os pecadores. A consciência de Pedro é justa, mas a sua solução do problema não é aceita por Jesus, o qual não se afasta dele, mas o acolhe e o chama para a sua missão: “de hoje em diante tú serás pescador de homens”. É um pouco a história de todos aqueles que Deus chamou para ser pescadores de homens. Ou seja, é a história de cada batizado. Todos somos convidados a nos lançarmos em alto-mar. O resultado desta ação nunca virá da nossa capacidade de “pecadores”, mas unicamente da fé na Palavra de Jesus. A Palavra de Jesus é um convite que nos diz: “você tem que deixar de lado todas as experiências e considerações humanas. É verdade, que, do ponto de vista humano, não há nenhuma esperança de sucesso pra você. É verdade que você é pecador. Mas, tudo isto é nada diante da minha Palavra. Você será meu apóstolo e pescador de homens”. O inteiro episódio da pesca milagrosa é orientado a infundir coragem para o serviço apostólico, não obstante as dificuldades. E esta coragem só pode vir da Palavra e da pessoa de Jesus. É fácil ser tomado pelo medo ou pelo desencorajamento. Quantas vezes dizemos: “Não sei mais o que fazer por meu marido, por minha esposa, pelos meus filhos, pelos meus amigos, pela minha comunidade”. É as confissões de tantos esposos. É a confissão de tantos pais que vêem os próprios filhos, não obstante a grande fadiga de uma educação que parecia boa, escolher estradas que não levam a lugar nenhum ou pior, levam muito longe... como se todo o trabalho feito resultasse em “nada” como a pesca de Pedro. Quantos padres ou educadores, vendo suas fadigas frutificarem pouco ou nada, entraram no desânimo. Têm-se a impressão que tudo está indo mal. E pode acontecer que realmente esteja.
Porém, é maravilhoso o tempo de coragem de ir para o alto-mar, ou seja, o tempo dos desafios que o Evangelho sugere e a Graça favorece. É tempo de abandonar-se à Palavra do Mestre que nos chama e convida a ir “além”, confiando em Deus, que não tem certamente medo da pobreza do homem. Não é lícito a quem tem boa vontade, ficar na janela, contemplando acomodado os tantos males de cada dia. É tempo de ter a coragem dos mártires. Estar com as mãos dadas só para expressar indignação não serve. O homem, juntamente com sua pobreza, espera que quem se aproxime dele e seja companheiro dele na barca de Pedro, encontre coragem na Palavra de Jesus.