quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

IV DOMINGO COMUM - ANO C - Lc 4,21-30

IV Domingo do Tempo Comum - Lc 4,21-30

Então ele começou a falar. Ele disse: - Hoje se cumpriu o trecho das Escrituras Sagradas que vocês acabam de ouvir. Todos começaram a elogiar Jesus, admirados com a sua maneira agradável e simpática de falar, e diziam: - Ele não é o filho de José? Então Jesus disse: - Sem dúvida vocês vão repetir para mim o ditado: "Médico, cure-se a você mesmo." E também vão dizer: "Nós sabemos de tudo o que você fez em Cafarnaum; faça as mesmas coisas aqui, na sua própria cidade." E continuou: - Eu afirmo a vocês que isto é verdade: nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra. Eu digo a vocês que, de fato, havia muitas viúvas em Israel no tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e meio, e houve uma grande fome em toda aquela terra. Porém Deus não enviou Elias a nenhuma das viúvas que viviam em Israel, mas somente a uma viúva que morava em Sarepta, perto de Sidom. Havia também muitos leprosos em Israel no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi curado. Só Naamã, o sírio, foi curado. Quando ouviram isso, todos os que estavam na sinagoga ficaram com muita raiva. Então se levantaram, arrastaram Jesus para fora da cidade e o levaram até o alto do monte onde a cidade estava construída, para o jogar dali abaixo. Mas ele passou pelo meio da multidão e foi embora.

No Evangelho do domingo passado, víamos que Jesus, andando de cidade em cidade, ficava famoso; as pessoas já o conheciam e o admiravam. Num dia de sábado, ele retorna a Nazaré, cidade onde cresceu, entra na sinagoga e lê em voz alta um trecho do profeta Isaías. Todos os que estavam ali o observavam, curiosos para saber o que Ele tinha pra dizer. Para estes, Jesus leu Is 61,1-2 e explicou que naquele momento em que estava lendo, todos que o escutavam, experimentavam o cumprimento daquela Palavra de Deus, a qual tornava-se verdadeira “hoje”. Este “hoje” nunca acaba. Ainda continua, agora! Graças a Jesus, os cegos recobram a vista, os prisioneiros são libertados, aos pobres é anunciada a Boa Nova. O que Jesus disse é um programa de vida não só para Ele, mas para todos que O seguem.
No Evangelho de hoje, que é continuação daquele que Lucas começou a contar domingo passado, vemos como terminou a visita de Jesus a sua cidade. Esta informação é significativa, pois nos mostra um Jesus ligado a um determinado lugar, a pessoas. Também nós temos este sentimento em relação ao lugar onde nascemos, onde passamos nossa infância e ao qual de tempos em tempos gostamos de retornar para rever amigos e familiares.
A reação dos habitantes de Nazaré tem dois aspectos com relação a Jesus: por um lado, estes ficaram “admirados com as palavras cheias de encanto que saíam de sua boca” (4,22). Por outro lado, com a pergunta: “Não é este o filho de José?”, todos ficaram surpresos com tudo o que Jesus diz e faz, porque, no fundo, em Nazaré, todos já o conheciam há muito tempo. Sabem que Ele é o filho de Maria e de José, O viram quando menino brincar pelas ruas da cidadezinha com outras crianças. Todos se lembravam quando Ele estava lá na carpintaria, trabalhando com seu pai. Todos sabiam como Jesus tinha crescido modestamente e sem estudar, e agora fala com encanto e autoridade.
Mas, tem outra coisa: os habitantes de Nazaré souberam que enquanto anuncia a Boa Nova, Jesus também realiza milagres; e, também eles, não vêem a hora de Jesus fazer algum sinal no meio deles. Porém, para a sua surpresa, Jesus deixa claro que não fará nenhum milagre. Frente às indagações, Ele não permanece calado e cita um provérbio popular: “nenhum profeta é bem aceito em sua pátria”. Que no nosso contexto, se expressa melhor assim: “santo de casa não faz milagre”. Jesus ilustra isso, relembrando os profetas Elias e Eliseu, os quais operaram milagres para pessoas que não pertenciam ao seu povo. Na verdade, Jesus é impedido de fazer milagres em Nazaré por causa da incredulidade das pessoas.
“Quando ouviram estas palavras de Jesus”, todos ficaram decepcionados e com muita raiva. Sentiram-se ofendidos, e querem expulsar Jesus da cidade. Jesus é rejeitado. Que momento difícil! Podemos pensar nas pessoas empurrando, insultando Jesus. Ele sente essa corrente de rejeição que se move contra ele, que O conduz ao monte a fim de lançá-lo ao precipício. É uma cena de ficar assustado. Porém, Jesus não se deixa levar por aquela raiva nem por aqueles gritos: permanece tranquilo. Sem dizer nada, se mistura à multidão e retoma seu caminho. Podemos imaginar com quanto desgosto. Tinha chegado a Nazaré em meio a aplausos, e agora deve escapar em silêncio.
Ninguém está livre da rejeição, nem mesmo Jesus Cristo esteve. Ser rejeitado e sentir-se rejeitado certamente não são experiências agradáveis. Quem já passou por uma grande rejeição sabe muito bem o sentimento que ela provoca. Jesus passou por essas experiência, sentiu-se rejeitado e desprezado por sua própria gente. Também em nossas comunidades, isso acontece bastante. Pessoas sentem-se não aceitas, não acolhidas.
Há muitas causas de rejeição: abuso físico, verbal, sexual, emocional; conflitos no lar, adoção, abandono, infidelidade no casamento, deficiências física e mental, divórcio, rejeição dos colegas, etc. E isto traz muitas consequências negativas durante a vida das pessoas, como a rebelião, a ira, a amargura, a culpa, a inferioridade, a mania de criticar, o medo, a desesperança, a dureza, a desconfiança, o desrespeito, a competição, o ciúme, o perfeccionismo, o consumo de drogas e ácool etc. Tudo isso mostra de alguma forma o resultado de uma rejeição sofrida. Enfim, Jesus não tinha de enfrentar aquela rejeição por sua própria causa. Ele não tinha problemas. Nós sim temos problemas! Assim, Ele, voluntariamente, desejou vir e tomar nossos problemas, nossas feridas, nossa dores e até nossas rejeições , e levá-las a Si mesmo. Ele nos ensina que “hoje” (a cada instante) se cumpre sua Palavra, a qual, nos encoraja a continuar o caminho, deixando o que passou para trás e prosseguindo para o alvo que é o próprio Jesus.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

FAÇAMOS O QUE ELE NOS DISSER

Jo 2,1-11 - II Domingo Comum
O Evangelho deste II Domino do Tempo Comum nos convida à alegria. A uma alegria que brota de um vinho saboroso oferecido pelo noivo presente entre nós. Também nós, Igreja noiva de Cristo, somos a alegria de nosso Deus, "como a noiva é a alegria do noivo" (Is 62,5). Este Evangelho também nos permite continuar a meditação sobre a figura de Maria, o que, de fato, nos ajuda a compreendermos o sentido pleno do texto em questão.
Na relação entre Jesus e Maria, segundo os evangelhos, podemos distinguir 3 períodos: 1. a vida oculta; 2. a vida pública; 3. a "hora", ou seja, a paixão. No primeiro, Jesus se comporta como filho em todos os aspectos. No segundo período, Jesus age guiado unicamente pela vontade do Pai, sem condicionamentos nem interferências. Para o evangelista João, este segundo momento inicia exatamente em Caná da Galiléia, no momento em que Jesus diz a Maria: Mulher, está na hora de parar de interferir nas minhas decisões. Finalmente, no terceiro momento, aquele da "hora", aos pés da cruz, Maria aparece novamente. E, lembrando o Gênesis, Jesus a chama ainda uma vez de "mulher", como em Caná. Ela torna-se a nova Eva, recebendo a missão de ser mãe de cada discípulo.
O "vinho melhor" é fruto da "hora" de Jesus. O vinho é sinal de alegria e de festa, daquilo que serve não pra "sobreviver", mas para viver em plenitude. Agora, já podemos entender o sentido da estranha frase que o Filho dirige a Mãe: "o que tenho a ver contigo, ó Mulher?" ou "Mulher, por que dizes isto a mim?" "Minha hora ainda não chegou". Estamos entrando na fase na qual nós também fazemos parte. Jesus nos está dizendo que na sua "hora", junto ao vinho novo da Páscoa, Ele dará a nós, seus discípulos, Maria como mãe.E na resposta de Maria, vemos o seu êxodo, o seu caminho pessoal em direção a Páscoa, através do superamento de seu papel de mãe no sentido humano para uma maternidade nova e mais ampla.
Conhecemos esta resposta: "Fazei o que ele vos disser". Isso ela responde aos que estavam servindo, mas diz, em primeiro lugar, a ela mesma: plenamente confiante na Palavra do Seu Filho, se dispõe a seguir o caminho que Ele indica: um caminho que, como aquele do Filho mesmo e de cada discípulo, requer a humildade que conduz à exaltação. Também desta vez a sua humildade é exaltada, Maria se abandona a vontade de Jesus, o qual cumpre o milagre do vinho como gesto que exprime antecipadamente o fruto da sua "hora": a festa da libertação plena, da vitória sobre a morte.Maria, imagem e modelo de cada discípulo, nos convida a fazer como ela e nos acompanha no nosso êxodo.
Também nós somos chamados a fazer-nos pequenos e nos colocarmos a serviço para nos tornarmos grandes, a perder a vida para salvá-la. E por isso, com alegria, acolhemos hoje o seu convite: qualquer que seja a situação em que nos encontremos na nossa vida, "façamos aquilo que Jesus nos disser".

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

ESTAMOS A CAMINHO!

Domingo da Epifania

Celebramos a festa da Epifania: essa palavra estranha vem do grego e significa "manifestação". A manifestação acontece quando pessoas se reúnem para uma coisa importante e desejam que todos a conheçam e a vejam; pode ser uma manifestação de protesto, de solidariedade, ou mesmo uma apresentação artística. No que diz respeito a festa que a Igreja hoje celebra, estamos diante de uma manifestação de Deus. É a festa na qual Deus se manifesta a todos os povos. Ele quebra o vínculo com o povo de Israel para estendê-lo a toda a humanidade.
A manifestação de Deus em Jesus não é destinada a um grupo restrito de pessoas, mas inclui todo o mundo como mostra o texto evangélico. Nele, aparecem três grupos de pessoas e sua relação com o recém-nascido em Belém: os magos, Herodes e os doutores da Lei e os escribas.
O termo "mago" é muito vago, mas de certo modo, refere-se aos espertos na observação dos astros, eram astrólogos. Tinham conhecimento da espera messiânica pelos judeus e tendo recebido uma indicação do nascimento do Messias, põem-se a caminho. Conhecem a direção, mas não sabem exatamente o que os espera. Estão a caminho. Vêm do Oriente e enfrentam todos os incômodos de uma viagem cansativa até Belém em busca do rei que nasceu.
Representam todos os pagãos, chamados a crer em Cristo. Representam todos nós. Representam a caminhada de todos os povos, anunciada pelo profeta Isaías: "os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora" (Is 60,1-6). A viagem dos magos é imagem do caminho de fé e de esperança que o homem de cada tempo realiza até Deus. A fé é sempre uma busca. Aquele que crê está sempre a caminho.
Chegando em Jerusalém, são mandados a um outro lugar. Agora, sabem com mais precisão, onde podem encontrar o rei. De fato, os escribas são espertos na Sagrada Escritura e dela deduzem o lugar de nascimento do Messias, Belém da Judéia: "E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo".
Os magos, que são pagãos, perseveram na busca do rei, pondo-se de novo a caminho. Por sua vez, os escribas para quem nasceu o rei, ficam indiferentes. Assim, o texto bíblico apresenta um grande contraste: os de fora (magos) buscam e encontram o Salvador e os de dentro (Herodes e os habitantes de Jerusalém) ficam indiferentes, rejeitam, têm medo. Herodes que defendia seu reino com violência e era odiado pelos judeus porque favorecia o império romano, agora, sente-se incomodado pela notícia do nascimento do rei dos judeus. Ele queria matar o menino, como demonstra a matança dos inocentes. Herodes significa todos aqueles que são tão apegados aos próprios interesses que não deixam nenhum espaço para este menino; pelo contrário, este é importuno e ameaçador.
Finalmente, a luz guia os magos até o menino; essa luz é símbolo de Cristo, luz do mundo. Ele nos chama a si através de uma grande variedade de sinais e indicadores luminosos, como a Palavra de Deus.
Os magos vêem o menino, dão-se conta que Ele não apresenta nenhum poder externo, nenhum esplendor; mas mediante a fé, o reconhecem como rei, senhor e pastor da humanidade. Seus presentes também são uma forma de reconhecimento: ouro, incenso e mirra. Ouro destinado aos reis, incenso destinado a Deus e mirra, planta medicinal de onde se estrai uma resina, que misturada a óleos, era usada como óleo curativo, cosmético e unções religiosas: Jesus é o Messias, o Cristo, o Ungido.
Os magos do Oriente não eram nem reis, nem três, nem se chamavam Gaspar, Melquior e Baltazar como apresenta a tradição popular. Isto não corresponde ao texto bíblico. Porém, corresponde ao espírito do Evangelho. São representados por um jovem, um adulto e um ancião; um asiático, um europeu e um africano (o mundo de então, já que as américas e a oceania não tinham sido "descobertas".). Tudo isto para significar que todas as idades e todas as pessoas caminham em direção a esta estrela que é Cristo, luz do mundo.
Jesus veio para todos nós: para os jovens e os idosos, para os sábios e os simples, para as pessoas de qualquer cor e de qualquer forma de vida, a fim de mostrar-nos Deus como Nosso Pai e ser uma Luz para a nossa vida. Como magos, não devemos deixar nos desviar do caminho que é Jesus, e sim sermos guiados por Deus, até atingirmos a meta. Podemos estar longe ou podemos estar perto, mas todos estamos a caminho!