segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

MARIA, MÃE DE DEUS - Lc 2,16-21


MARIA, UM CORAÇÃO DE PAZ


A liturgia deste 1º de janeiro é particularmente significativa. Afinal, é ano-novo! E os votos mais belos e profundos que podemos receber nos oferece a Palavra de Deus. Votos que são verdadeiramente uma bênção: “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6,24-26). Que maravilha esta invocação ao Senhor para que Ele faça brilhar a sua face sobre nós e para que tenhamos paz! A verdadeira face de Deus é a face de um recém-nascido que busca ardentemente com seus olhinhos entreabertos o colo de sua mãe adolescente. É a face de um Deus que agora caminha lado a lado com a sua criação.
Mais um ano se inicia! E com essa bênção de Deus, não temos necessidade alguma de ler horóscopos nem fazer simpatias como dar um passo com o pé direito, comer lentilhas ou jogar flores no mar para buscar paz e prosperidade. Ora, o que são essas superstições diante do poder de Deus? Absolutamente nada! Confiamos em Deus e isso já basta. Se Deus está o tempo todo com o seu rosto voltado para nós, do que mais precisamos?
A celebração de hoje nos convida a venerar Maria, Mãe de Deus Salvador; a venerar aquela que acolheu e carregou no seu ventre o Filho de Deus. Por ela, Deus entrou no mundo e veio ao nosso encontro. Agora, somos nós quem devemos ir ao encontro dEle. Somos nós quem devemos acolher essa Luz que ilumina os nossos passos. Maria é a mulher que escutou a voz de Deus, acolheu e obedeceu a vontade do Senhor; sempre atenta a acolher os sinais de Deus, renovava diariamente o seu “sim”.
O Evangelho desta liturgia que é uma continuação daquele lido na noite de Natal, coloca Maria numa posição central. Como anunciado no texto anterior, os pastores “encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura”; depois, “voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido”. O mais interessante deste relato, é que há um corte bem no meio do texto para nos dar uma preciosa informação: “quanto a Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração”.
Maria, que hoje invocamos como Mãe de Deus Salvador, é a rainha da paz. Ela é rainha de uma paz que não depende das circunstâncias. Mas, uma paz que brota do coração, uma paz que existe mesmo em meio às provações da vida. Ela guardava a Palavra de Deus em seu coração e a Palavra traz paz.
Hoje também é o dia da paz. Não devemos esquecer que a paz não é somente a ausência de guerras, de violência, é também ausência de qualquer desentendimento, discussão, desunião. E como existe isso nas nossas famílias! A paz que o mundo oferece é um sentimento que temos quando tudo corre bem na nossa vida ou quando as pessoas se comportam como nós queremos. Porém, quando as coisas não acontecem do jeito como esperamos, quando queremos mudar as pessoas e não conseguimos, isso nos frustra e o sentimento de paz nos deixa e a impaciência e o aborrecimento se tomam conta de nós.
A paz que Jesus nos dá é uma paz diferente da que o mundo nos dá. Em cada missa, pedimos essa paz, e às vezes repetimos tão mecanicamente que nem nos inteiramos do seu verdadeiro significado: “livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz”, “Senhor Jesus Cristo, dissestes aos vossos apóstolos: Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz”. E logo em seguida, desejamos a paz do Senhor ao nosso próximo.
Se lembrarmos bem, Jesus não perdeu a paz nem no meio da tempestade. Ele continuou dormindo tranquilamente na popa do barco, enquanto seus discípulos estavam apavorados e indignados porque Ele não se mostrava preocupado com eles. Temos que aprender a receber essa paz de Jesus, essa paz que nos faz esperar no tempo de Deus com paciência, essa paz que nos faz respeitar e tratar bem o próximo.
É preciso que aceitemos na nossa vida a salvação oferecida por Jesus. De fato, este nome contém todo o significado da vinda de sua vinda ao mundo. Oito dias depois do nascimento do Filho de Deus, no momento da circuncisão, símbolo de aliança entre Deus e o povo de Israel, o menino recebe o nome de Jesus. Em aramaico, Yeshua significa “Deus salva”. Ele veio ao mundo para fazer uma aliança conosco, para nos salvar e nos conceder a sua paz.

FELIZ 2008! - Jo 1,1-18


Chegamos ao fim de mais um ano, graças a Deus! A liturgia nos apresenta as palavras do apóstolo João (I leitura): “filhinhos, esta é a última hora. Ouvistes dizer que o anticristo virá”. A última hora é uma hora dramática, porque é a hora do anticristo, isto é, da obstinação direta com o Senhor. “Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos, pois, se fossem realmente dos nossos, teriam permanecido conosco”.
O Evangelho nos consola, retomando o anúncio da Palavra de Deus que vem habitar entre nós. O Evangelho ressoa no último dia do ano com o grande hino de João, que proclama a Palavra de Deus criadora das coisas e do tempo, vindo a habitar entre os homens: “o mundo foi feito por meio dela... e a Palavra se fez carne e habitou entre nós”.
A vida não toma significado por aquilo que conseguimos alcançar, isso é só uma parte. O principal é a novidade da presença do Senhor em nosso coração. O reconhecimento desta presença não é pacífico. Com a vinda da Palavra de Deus se revela o drama do tempo. O tempo deve ser redimido: não só do seu vazio, mas do mal que o habita. Quando o homem quer estar acima de Deus e contra Deus e avança na pretensão de se desenvolver sozinho, como se ele mesmo fosse Deus, então substitui a sua própria imagem sobre aquela do Filho de Deus feito carne: esta presunção é a máscara de Cristo; este é o anticristo (um recado para todos os que vivem como se Deus não existisse e ainda trabalham contra a fé nele).
O tempo, portanto, sofre a luta pelo reconhecimento e a afirmação de Cristo: “veio para o que era seu, e os seus não a acolheram”. Este é o núcleo e a essência da fé cristã. O destino do homem e a sua felicidade dependem da acolhida ou não do Senhor Jesus. Deus veio na carne humana. De fato, só da plenitude do Filho de Deus encarnado, o homem recebe “graça sobre graça”, e lhe é doada a verdade do seu ser. Tornando-se familiares de Jesus, vivemos a nossa vida, caminhando para o cumprimento da nossa vocação: “deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus, isto é, aos que acreditam em seu nome”. Os dias, as semanas, os meses, os anos, nos são dados para que a glória de Cristo se manifeste e cresça no mundo, e os olhos de cada homem, reconhecendo o Senhor, vejam a sua salvação.
Vem, Senhor Jesus. Vem ser a nossa luz que ilumina todo ser humano contra as trevas do pecado. Para a última hora, para cada hora, para cada dia. Vem redimir o nosso tempo, o tempo do mundo, ocupando-o com a tua presença. Na festa de virada de ano, só nos resta agradecer a Deus pelo dom da sua presença no tempo da nossa vida, porque ele veio habitar em meio a nós. Feliz 2008!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

SAGRADA FAMÍLIA – Mt 2,13-15.19-23


Jesus, Maria e José: modelo para a família cristã

Um bebê é um ser muito frágil e sem força. Não pode se defender. Para sobreviver, depende totalmente do cuidado e da ajuda dos pais. Muitas crianças têm sido vítimas da própria incapacidade de se defender. Umas não chegam nem a nascer, são abortadas; outras, são jogadas em rios, são maltratadas, são vendidas. Também Jesus depois de ter nascido num lugar tão desconfortável e sujo, correu risco de vida.
No Evangelho de hoje, lemos o drama do exílio e da imigração que teve de experimentar a Sagrada Família para escapar da matança cruel que Herodes tinha ordenado a fim de matar Jesus, a quem considerava um grande rival apesar de sua pouca idade. Tal drama nos mostra que o texto em questão quer mostrar justamente que ameaçado Jesus, fica ameaçada também toda a sua obra de salvação. Mas, Deus o protege.
José recebe de Deus a responsabilidade de marido e pai, de tomar o menino e sua mãe e fugir para salvar-lhes a vida e assim o faz. Ele foge para o Egito (África). Desta forma, José se apresenta como o homem responsável para com a sua família e cuida dela totalmente, desempenhando o papel de protetor, exemplo para tantos pais que já não se preocupam com os seus filhos.
De igual modo, José também obedece a Deus quando deve retornar às suas origens. Depois da morte de Herodes, volta para Israel, sinal evidente de que o seu esforço é para deixar crescer o filho na terra onde nasceu. Ele não se deixa levar pelos seus próprios interesses, mas enfrenta todas as situações pelo bem do seu filho. Até sob este ponto de vista, José é exemplo para todos aqueles pais que ao invés de defender as próprias origens, sobretudo no campo da fé, freqüentemente trocam Deus por outras coisas e outros lugares, influenciando negativamente os seus filhos.
Com José, temos a reafirmação da cultura das próprias origens que ninguém deveria esquecer. Jesus teve de ir ao Egito, porque de lá saiu o povo liberto. Também ele deveria sair do Egito e entrar na Terra prometida, aqui representada por Nazaré, o que pode ser uma alusão a Is 11,1, onde é anunciado um rebento do tronco de Jessé como Príncipe da Paz (nezer). Já o fato de Maria nunca ser chamada pelo nome neste texto, mas sempre por mãe, enfatiza sua função materna da qual Jesus dependeu para crescer.
Pois bem! Como a família atual se afastou desta concepção de família que acabamos de tratar! Os pais e as mães estão sempre mais ocupados, estressados, maltratados, esquecidos, e até mesmo humilhados pelos próprios filhos, o que causa um dano enorme à família, pois se há falta de amor dentro dela, como podemos experimentá-lo em outro lugar?
É uma verdadeira lição o que lemos hoje na I leitura. O autor do Eclesiástico lembra o mandamento da lei mosaica que pede claramente para honrar o pai e a mãe e ainda esclarece que para isso é necessário que também os pais honrem os filhos. Hoje, a família caminha insensivelmente para a autodestruição, principalmente quando se confunde maternidade e paternidade graças ao egocentrismo.
O estilo de uma vida familiar com princípios cristãos se encontra expresso na carta de Paulo aos colossenses (II leitura). É preciso levar uma vida virtuosa em família para salvá-la da sua destruição ou implosão. Os vários sentimentos que Paulo acena na leitura deveriam ser patrimônio de todos os membros de todas as famílias cristãs.
Infelizmente, sabemos muito bem que não é assim, sobretudo hoje. Daí, a necessidade de reforçarmos as experiências positivas da vida familiar em prol da educação dos nossos filhos para combater o mau exemplo sempre mais forte das “falsas” famílias que são propostas na mídia, especialmente nas novelas com sua degradação geral. Estas sempre fazem mais ou menos sucesso de acordo com o maior ou menor número de traições, abandonos, separações, divórcios, filhos ilegítimos, e tantos outros atentados à vida familiar (exemplo mais recente é o programa global “toma lá dá cá”, que nos faz rir tanto, quando deveríamos chorar ao ver a que ponto pode chegar o estrago quando falta amor na família). Jesus, José e Maria nos indicam a estrada melhor para revitalizar às nossas famílias frágeis. Só o amor que vem de Deus é capaz de salvar a família.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

NATAL DO SENHOR - Lc 2,1-14


A GLÓRIA DA SIMPLICIDADE

É Natal! O Evangelho que nos é proposto nesta noite narra o grande acontecimento esperado por toda a humanidade: o nascimento do Salvador, o Cristo Senhor. O texto bíblico é fortemente caracterizado por um grande contraste. Enquanto se esperava uma vinda majestosa, o Salvador veio ao mundo de uma forma inesperada. É neste contraste, pois, que vamos descobrir um dos maiores ensinamentos que o Natal de Senhor nos pode dar.Logo no início do Evangelho, lemos as seguintes informações históricas: em primeiro lugar, aparece o imperador César Augusto, dominador do mundo Mediterrâneo da época, o qual impõe um censo de toda a terra, ou seja, de todos os habitantes submetidos à dominação romana, entre os quais se encontravam os da Palestina. Em seguida, o texto diz que quando ocorreu este censo, o governador da Síria era Quirino, procurador de Augusto na tetrarquia que compreendia a Iduméia, a Samaria e a Judéia, onde está localizada Belém.Longe, porém, de ter provas para estes dados históricos, além de uma diferença notável entre o relato do nascimento do Messias narrado neste texto e no evangelho de Mateus, ficamos com o que nos interessa: este decreto é o que liga José e Maria, residentes em Nazaré da Galiléia a Belém da Judéia. De fato, Lucas sublinha que Belém é a cidade natal de Davi, de onde descende José. Desta maneira, temos uma referência à promessa e à espera messiânica ligada a Belém e a família de Davi: “Grande será o seu reino, e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado” (Is 9,6).Chegando o tempo devido, Maria dá a luz o seu “primogênito” (este termo não quer indicar que Maria teve outros filhos, mas que Jesus é o primeiro filho de Maria, e por isso, tem todos os direitos de primogenitura; para se ter uma idéia da importância da primogenitura, basta lembrar as incansáveis trapaças feitas por Jacó contra seu irmão Esaú até tomar-lhe este direito). Maria, como toda mulher, passa naturalmente por essa experiência. Nem pode escolher o momento, nem esperar uma circunstância melhor. Ela não encontrou um lugar adequado para o seu menino, por isso, deu à luz num estábulo , pondo o menino numa manjedoura. São pobres e sem pretensões. É verdade! O primeiro lugar a receber o Salvador foi um dos lugares mais imundos do mundo, pois não venham me dizer que as vacas e os outros animais faziam suas necessidades num lugar separado da estrebaria!Assim, o que, imediatamente, chama a nossa atenção neste acontecimento é a simplicidade. Na sua grandeza infinita, Deus se abaixa não só à condição humana, mas em qual condição Seu Filho veio ao mundo! O Salvador entrou na nossa condição humana, a partir da fraqueza de um menino enrolado em panos, está do nosso lado e nos acompanha.Em contraste com essa pobreza, aparece o esplendor da luz celeste e a aparição do anjo de Deus aos pastores que que tomavam conta de seus rebanhos, mas o sinal que recebem é simplesmente: “encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”. Aos pastores que estão com muito medo, o anjo anuncia uma grande alegria. Realmente, eles têm um grande motivo para se alegrarem: nasceu para eles e para todo o mundo o Salvador.A maravilha do Natal reside neste contraste: sem a revelação dos anjos nunca entenderíamos que aquele menino na manjedoura é o Senhor. E sem o menino na manjedoura não entenderíamos que a glória do verdadeiro Deus é diferente da glória a qual estamos acostumados.Que possamos ser humildes e simples para que o Senhor, neste Natal, venha ao estábulo do nosso coração e assim, possamos amá-Lo na pessoa do próximo como nos ensina tão bem Madre Teresa de Calcutá: “Da humildade sempre emanam a grandeza e a glória de Deus. Devemos estar vazios do orgulho se quisermos que Deus nos preencha com a sua plenitude. No Natal, vemos Deus como um recém-nascido, pobre e necessitado, que veio para amar e ser amado. Como podemos amar a Deus no mundo de hoje? Amando-o em meu marido, em minha mulher, nos meus filhos, nos meus irmãos, nos meus pais, nos meus vizinhos, nos pobres, nos bêbados, nos presos, nos doentes de lepra, nos excluídos, em todos aqueles que encontramos todos os dias.”

domingo, 16 de dezembro de 2007

4º DOMINGO DO ADVENTO - Mt 1,18-24

O grande sonho de José
Às portas do Natal, a liturgia nos faz refletir sobre a figura de José, um homem simples, carpinteiro, de um pequeno povoado desconhecido da Galiléia chamado Nazaré. José é aquele que aparece na genealogia de Jesus narrada em Mt 1,1-17. Esta liga Jesus a Davi e a Abraão. Porém, o fato curioso é que em Mt 1,16, lemos que José é o esposo de Maria e que Maria é a mãe de Jesus, mas nunca que Jesus seja filho de José. De fato, Mt 1,18.20 diz que é o Espírito Santo quem está na origem da vida de Jesus.
José vivia sua vida tranquilamente, e, segundo o costume, foi lhe prometida em casamento, uma adolescente do povoado, Maria, com a qual ele tinha o sonho de casar e ter filhos. Naquela época, o casamento era feito em duas etapas. A primeira era a “promessa” (noivado): um compromisso moral que tinha a validade do matrimônio, mas não concedia direito algum aos envolvidos, inclusive o de ter relações sexuais. Só algum tempo após o noivado, isto é, um pouco antes da jovem completar os 14 anos, realizava-se a segunda etapa, onde a noiva era conduzida à casa do marido por duas testemunhas (se a jovem completasse os 14 anos e não fosse prometida, era livre para escolher o noivo, coisa quase impossível, pois os pais da moça escolhiam o noivo para assegurar-lhe um futuro). Segundo o direito judaico, já no noivado, os prometidos em casamento, são considerados marido e mulher. Por isso, José é chamado o esposo de Maria em Mt 1,16.19, e, Maria, a esposa de José em Mt 1,20.24. Mas somente depois da segunda etapa, começa propriamente a vida conjugal.
Tudo corria tranquilamente entre o noivado e a passagem para a casa do noivo, quando um dia, o mundo de José revirou. Aquele sonho parecia que tinha acabado. Ele soube que sua mulher estava grávida. E só ele sabia com certeza que aquele filho não era seu. Num caso destes, a lei judaica dizia que o homem deveria deixar a mulher. Sendo José um homem justo, ou seja, que cumpria a vontade de Deus presente nas escrituras judaicas, sendo traído, tinha que repudiar Maria, com todas as conseqüências civis e penais que ela deveria sofrer, aparecendo aos olhos de todos como uma adúltera, rejeitada e excluída não só pelos parentes, mas por todos os habitantes de Nazaré.
José, porém, agindo com muita prudência, e, porque amava Maria, decidiu repudiá-la secretamente, para não expô-la a esta situação penosa. Não lhe restava nada a não ser refletir sobre aquela situação amarga. Que drama este homem deve ter enfrentado, quantos pensamentos podem ter passado em sua mente! Mas Deus não o deixou sozinho com seus pensamentos. Exatamente quando se perguntava amargurado, José teve um sonho bem maior que o primeiro. Neste, apareceu um anjo do Senhor que lhe disse: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo”. Assim, José fez como o anjo lhe tinha ordenado: tomou consigo Maria e reconheceu o menino como filho diante da lei. Por mandato de Deus, José tornou-se perante a lei o pai de Jesus; assim, Jesus é inserido legalmente na genealogia de José. Deus entra naquela história começada desde Abraão e Davi.
O sonho de José é um sinal de Deus. Uma criança salvará o mundo inteiro dos seus pecados, uma criança libertará o mundo de todas as escravidões; seu nome Yeshua (Jesus) significa Deus salva. Hoje, José está diante de nós para nos exortar a escutar o Evangelho, a acolher a palavra do anjo que estava dentro do seu sonho. José não está entre os personagens principais do Evangelho, mas, mesmo assim, tomou parte daquela grandeza e alegria: acolheu consigo Maria e o menino. A cada um de nós é pedido de tomar consigo o Evangelho e de abandonar seu individualismo banal. Também nós, devemos tomar parte no grande desígnio de amor que Deus tem pelos homens. Com José, nos aproximamos da Santa Noite para acolher o Senhor e para caminhar com ele. Em Jesus, o “Emanuel”, Deus está conosco.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

2º DOMINGO DO ADVENTO - Mt 3,1-12


CONVERTAM-SE, PORQUE O REINO DOS CÉUS ESTÁ PRÓXIMO!
No domingo passado, refletíamos sobre o risco real de não nos darmos conta da vinda de Jesus Cristo por causa das preocupações deste mundo. E, por isso, hoje, nos perguntamos: de que modo este tempo de Advento nos adverte para a chegada do Messias?
Ligamos a TV e vemos um exagero de propagandas de produtos em promoção; junto a isso, um sem fim de anúncio dos especiais de fim de ano. Muitas luzes brancas ou coloridas piscam enfeitando ruas, igrejas, lojas. Nas casas, árvores de natal, presépios, guirlandas. Começam as festas com a brincadeira de amigo oculto e distribuição de presentes.
São sinais que deveriam dizer pra nós com força: é tempo de preparar o interior para acolher o Salvador do mundo. Convertam-se! Mudem de mentalidade! Mas parece que tais sinais nos estimulam a fazer exatamente o contrário: preocupem-se com o material, comprem, bebam, esqueçam quem na realidade deve ser lembrado.
O cristão autêntico vive neste mundo, e, apesar das dificuldades, deve considerar estes sinais precursores que aqueçam o nosso coração para esperar, desejar e acolher aquele que está para chegar. Assim, ninguém poderá dizer: “ah, eu não sabia que o Natal estava próximo”.
A liturgia de hoje apresenta um precursor, aquele por excelência: João. Aparece no deserto vestindo pele de camelo e cinturão de couro. Ao mostrar João vestido dessa forma, Mateus quer nos dizer que ele é profeta ao modo de Elias; tal profeta conduziu o povo de volta ao Deus verdadeiro. Além da roupa simples, se alimenta de gafanhotos (alimento próprio dos beduínos pobres) e de mel. Esta fuga de popularidade é explicada pelo fato de que “aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. Eu nem sou digno de carregar suas sandálias”; ele não quer chamar a atenção, nem está preocupado com o próprio prestígio, interesse ou sucesso, mas encaminha tudo exclusivamente a Jesus.
Uma das tarefas principais do AT era denunciar os desvios do caminho do Senhor. Por isso, João é o precursor definido pelo profeta Isaías como “a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!”.
João Batista tem uma voz forte, clara e decidida porque sabe muito bem quem está para chegar, ele faz de tudo para que as pessoas se preparem de modo justo para esta chegada. Ele convida a conversão: “convertei-vos, porque o reino dos céus está próximo”. A conversão é simbolizada aqui pelo tempo no deserto, tempo de prova, tempo de transformação, assim como o povo liberto do Egito foi conduzido por Deus até a terra prometida, alcançando-a finalmente pela travessia no Jordão.
Quem escuta João, se batiza no Jordão, confessando os próprios pecados. O batismo de João era algo tão raro que ele ficou conhecido como João, o Batista. De fato, através do batismo nas águas do Jordão, a pessoa confessava os pecados, purificando-se para se aproximar do Messias.
Um ponto importante é que não devemos identificar esta conversão com o comportamento farisaico. Ser fariseu é fazer a coisa certa pelo motivo errado. Somos fariseus quando fazemos algo correto por medo, por interesse, pela busca da aprovação e admiração. O fariseu vive naquele que apresenta uma boa imagem, sem de fato ser bom. Podemos chegar a ser tão orgulhosos que ouvindo a mensagem de Jesus, fingimos acreditar ser pecadores, e, consequentemente, fingimos acreditar ser perdoados.
“Raça de cobras venenosas, quem vos ensinou a fugir da ira que vai chegar? Produzi frutos que provem a vossa conversão”. Eles cumpriam a lei, mas desprezavam os fracos, condenando-os ao castigo divino. João deixa bem claro que quem não produz frutos bons será cortado e jogado no fogo. Estes frutos bons são fáceis de entender, é simplesmente o modo como tratamos uns aos outros: com amor.
“Acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo vos acolheu”, diz a II leitura. Acolher é uma parte do amor, quem sabe, a mais difícil. Quantas vezes na nossa família não nos suportamos, discutimos, ofendemos com palavrões o próximo ou mesmo com o desprezo. Como Cristo acolheu a nós: a ovelha perdida, o bom ladrão, com o amor misericordioso, assim devemos acolher o próximo. Para isto, somos batizados com o fogo e com o Espírito Santo na totalidade de seu amor e de seus dons.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

1º DOMINGO DO ADVENTO - Mt 24,37-44


PREPARAR-SE PARA NÃO SER PEGO DE SURPRESA!
Com o 1º Domingo do Advento, damos início a mais um ano litúrgico. Há duas semanas, vimos no evangelho de Lucas os sinais que antecedem a vinda definitiva de Nosso Senhor Jesus Cristo; e, sendo este um momento desconhecido, a liturgia nos convidava a se afastar de qualquer comportamento cego, enquanto o esperamos.
Neste novo ano litúrgico, vamos ler o Evangelho de Mateus; e, hoje, a liturgia retoma o tema da vinda de Jesus, pois o Advento é tempo de espera e preparação para ela. O Evangelho de hoje se encontra em Mt 24; todo o capítulo fala desta vinda, e acrescenta um outro sinal não presente em Lc: “a maldade se espalhará tanto que o amor de muitos esfriará” (Mt 24,12).
Algo semelhante encontramos já no Antigo Testamento: “o Senhor viu o quanto havia crescido a maldade das pessoas na terra e como os projetos de seus corações tendiam unicamente para o mal” (Gn 6,5). Eram os contemporâneos de Noé, completamente esgotados pelas preocupações da vida terrena: só pensavam em comer, beber, casar, ou seja, sempre preocupados em tirar o máximo de vantagem e prazer desta vida.
Olhando para a realidade atual, percebemos como esta maldade está cada vez mais viva e incontida: a propagação do sexo livre como algo extremamente normal; o aborto defendido como um direito; a ganância pelo dinheiro provocada pela falsa idéia de que este traz a felicidade, mesmo depois de tantas pesquisas provando o contrário; o tráfico de drogas que promove furtos, roubos, assaltos, seqüestros, corrupção, assassinatos, balas perdidas, prostituição.
Também as armas biológicas sofisticadas dos países ricos; a troca constante de religião, em outras palavras, o sacrifício de Jesus sendo trocado por uma crença que diz serem necessárias várias e difíceis reencarnações para expiar as nossas culpas; sem falar no secularismo, no consumismo desenfreado e no ateísmo propagado abertamente nas escolas e na mídia. Todos estes sinais da vida moderna produzem uma atmosfera tão sobrecarregada de problemas que muitas pessoas ignoram totalmente o que seja mais importante para as suas vidas. Só tem olhos para si mesmas, não há brecha para enxergar que o horizonte é bem maior.
O exemplo de Noé e do dilúvio nos chama atenção pra tudo isso. Chegando o dilúvio anunciado, só Noé estava pronto e foi salvo das águas porque ouviu o Senhor. É preciso abrir os olhos! Somos tão cabeças-duras e acomodados que muitos de nós, até dizemos acreditar, mas levamos uma vida que refuta a nossa fé. Ou então, vemos como algo tão longe, pra que se preocupar agora? É como disse certo autor uma vez: “os homens perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por nem viver o presente nem o futuro. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivesse vivido”.
Entretanto, inesperada e surpreendente será a vinda de Jesus. Com um exemplo tirado do cotidiano, Jesus mostra que as circunstâncias da vida terrena são iguais para todos (os homens trabalham nos campos e as mulheres moem no moinho). Com a vinda do Senhor, haverá uma radical separação: aqueles que estão preparados para ela serão acolhidos na sua comunhão, os outros serão excluídos. A mensagem do Evangelho nos motiva a amar. É uma mensagem encorajadora e não ameaçadora. Devemos levar em conta que o nosso destino final depende do nosso comportamento, que não é o de desperdiçar a graça de Deus, mas de preservá-la com a nossa prática do amor.
Se pelo menos soubéssemos o dia e a hora da vinda do Senhor, poderíamos nos preparar mais adequadamente. Mas o Senhor virá como um ladrão: inesperado, de surpresa. Portanto, devemos estar preparados para sua vinda sempre.
Recuse deixar que o seu amor esfrie. Aqueça o amor em sua vida para com o seu cônjuge, a sua família, amigos, vizinhos, e colegas de trabalho. Estenda a mão para os que estão sofrendo e na necessidade. Reze pelas pessoas e as abençoe. Cultive a idéia de que você deve ter sempre no seu coração o desejo ardente de amar e abençoar mais alguém.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO – Lc 23,35-43


CAÇA AO TESOURO DO REINO DE DEUS

Este ano, o cinema americano lançou o último filme da trilogia Piratas do Caribe. São sempre envolventes as histórias que tratam o tema da caça ao tesouro. Muitas são as voltas que os protagonistas da aventura podem dar até chegar ao tesouro: às vezes, se passa pertinho do tesouro e nem se desconfia, e, outras vezes, se interpreta erradamente uma pista e assim, começa-se a seguir um caminho no qual se distancia cada vez mais da mina. É sempre uma tarefa difícil e cansativa, mas muito prazerosa.
Jesus durante toda a sua atividade pública falava do seu Reino. E o apresentou como uma pedra preciosa e um tesouro num campo: bens preciosos escondidos; o que torna bastante interessante e desafiadora a busca deste reino, e não impossível a sua descoberta para quem o procura. O tesouro, obviamente, é o próprio Jesus; e, no Evangelho de hoje, vemos claramente como este tesouro está escondido, pois, é preciso ver com os olhos da fé para entender que um homem pendurado numa cruz, que sofre por horas a condenação à morte com uma das penas mais humilhantes, parecendo nada mais que um derrotado, um perdedor, rejeitado e desprezado, seja verdadeiramente um Rei. Para a lógica do mundo, isto é um absurdo.
Esta lógica é a dos chefes judaicos. Enquanto o povo observava tudo aquilo com grande dificuldade de compreensão, os chefes do povo caçoavam de Jesus, dizendo: “a outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o escolhido!”; mas, no fundo, não acreditavam naquilo que diziam, por isso mesmo, o provocavam e o insultavam.
Também os soldados faziam algo semelhante, mas como não eram judeus, até o chamavam de “rei dos judeus”, e pediam que ele se salvasse por si só. Pediam para que ele mostrasse o seu poder. Até mesmo a escrita colocada sobre a cruz: “este é o rei dos judeus”, era uma maneira de ofensa. Nesta mesma direção, um dos malfeitores que estava sendo crucificado junto com Jesus, o insultava pedindo com ironia pra que Jesus salvasse a si mesmo e a eles também, os dois malfeitores.
Realmente, a cruz põe uma grande interrogação sobre toda a obra precedente de Jesus, pois parece desmentir claramente tudo aquilo que ele fez e disse. Uma pessoa que está pendurada numa cruz preste a morrer, como pode salvar a outros? Quem depende da sua ajuda, vendo aquela cena, só poderia rir, encontrar uma outra ajuda ou se desesperar. É uma imagem bem diferente da que temos de rei na nossa mente. E agora?
Aparece, então, uma última fala que parece até um milagre. Pelo menos um dos presentes, diretamente envolvido na situação, já que também está sendo crucificado, compreende estar pertinho do tesouro da sua vida. É o outro malfeitor, que nós o chamamos “bom ladrão”, o qual consegue compreender aquele tesouro de graça, mesmo só nos últimos momentos de sua vida. Ele reconhece que aquele homem crucificado, que não desce da cruz, mas morre nela, é o seu Rei salvador. Ele tem fé em Jesus Cristo. Sua oração testemunha isto: “Jesus, lembra- te de mim quando entrares no teu reinado”; é o que pede a Jesus condenado ao seu lado, que está sofrendo a mesma terrível morte vergonhosa. Ele está convencido de que Jesus não fez nada de mal e por isso, não merece morrer; e, que, por isso, Jesus não acaba com a morte, mas que é através dela que ele entrará no seu reino.
Assim, Jesus, com um último “decreto real” afirma, e assegura ao malfeitor que pediu o seu amor que ele provará da alegria do seu reino: “em verdade eu te digo, ainda hoje estarás comigo no paraíso”. Jesus entrou no paraíso com um malfeitor, que na cruz conseguiu a fé. Que imagem forte! É uma imagem como esta que nos conscientiza claramente que nunca devemos condenar ninguém, nem a nós mesmos, mas sempre estar dispostos a aceitar o tesouro de Deus: o seu amor incondicional por nós. Na cruz, a obra de Jesus chega ao ponto mais alto. O crucificado mostra não ser um rei que garanta o bem estar terreno. Não salvou a si mesmo da cruz. Não nos preserva nem das enfermidades nem da morte. O seu poder refere-se a nossa vida com Deus. Jesus salva da queda do afastamento de Deus e reconduz à comunhão com ele. Quem busca isto nele, será salvo por ele, mesmo que seja um malfeitor. A festa de Cristo Rei, é a festa do deste amor que se doou por toda a humanidade.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

XXXIII DOMINGO COMUM - Lc 21,5-19

Quando e como o mundo vai acabar?
A liturgia deste domingo lança um olhar para o futuro. O futuro que está diante de nós, escondido e desconhecido. Vivemos na esperança de que nos traga o bem e que mude sempre para melhor nossa situação. Mas também é verdade que estamos sujeitos a muitas coisas ruins: doenças, acidentes, morte de pessoas caras, desemprego, perca da nossa casa, catástrofes naturais, etc.
É esta situação de insegurança que favorece o aparecimento das muitas tentativas de saber o futuro; basta pensar no número de pessoas que diariamente lêem horóscopos e recorrem a simpatias e outras práticas com o intuito de mudar o seu destino.
O Evangelho de hoje é somente a primeira parte de um longo discurso onde Jesus, recorrendo a uma linguagem cheia de imagens fortes e paradoxais (apocalíptica), anuncia o fim do homem e do mundo, fim este que coincidirá com a vinda do Cristo. Este discurso, que aparece antes do relato da paixão, é um verdadeiro testamento: Jesus, conhecendo que estava próxima sua morte, revela o que nos espera no final da história, quando ele vier na glória.
Em Lucas, este discurso, além dos discípulos, é dirigido também à multidão do templo. É o discurso de despedida de Jesus a Jerusalém, da qual anuncia a destruição. Jesus começa sua fala partindo do entusiasmo com que alguns dos presentes se deleitam com a imponente construção do templo e a sua beleza. Para os hebreus, o templo era motivo de orgulho e sinal de poder e segurança: quem ousaria profanar um lugar sagrado e demolir uma semelhante obra de arte? Jesus anuncia: o templo será reduzido a ruínas: não ficará pedra sobre pedra.
E isto aconteceu de fato pela ação das tropas romanas do general Tito no ano 70 d.C., quase 40 anos depois desta profecia. Jesus quer nos dizer que toda grandeza artificial, todo símbolo e fortaleza de poder, mesmo sendo religioso, onde somos tentados a por a nossa segurança, estão sujeitos a cair.
Os ouvintes pedem, indignados e sem acreditar, quando esta profecia seria realizada e quais fossem os sinais que precederiam aquele trágico acontecimento. Mas, Jesus não está interessado em falar nem sobre os sinais do fim do mundo nem da sua vinda nem muito menos da queda de Jerusalém. Mas sim no destino dos seus e como devem se comportar a conduta destes durante o tempo não breve da espera.
Um perigo contra o qual Jesus adverte seus discípulos é com relação aos falsos profetas que anunciam próxima a sua vinda. A fé dos discípulos desde o início será sempre ameaçada por supostos libertadores da humanidade, por pretenciosos representantes de Deus, sedutores de toda espécie. Basta lembrarmos as várias seitas fundamentalistas que afirmam saber com certeza o dia exato do fim do mundo.
É necessário vigiar para não se deixar enganar. O curso da história é marcado por todas estas coisas terríveis. É perigoso interpretar todos estes acontecimentos como sinais de um próximo fim do mundo, semeando alarmismos infundados. Assim mesmo, a ruína de Jerusalém e do templo é considerada pelos judeus como uma tragédia sem proporções, são inconformados até hoje. Para Jesus, porém, tal acontecimento faz parte do desígnio de Deus, mas não tem uma relação direta com o fim do mundo.
Jesus nos pede, por isso, aceitar com coragem o tempo em que vivemos. Ele quer que saibamos olhar a realidade e enfrentá-la sem medo, mesmo se for dolorosa e cheia de incógnitas. A coragem é requisito frente ao ódio e à perseguição que acompanharão sempre os discípulos. É esta uma constante no caminho da Igreja e na existência dos cristãos. Jesus quer que quando nos encontremos perseguidos, não percamos a confiança e não nos deixemos sufocar pelo medo e pelas preocupações.
Ele ainda nos motiva: este tempo difícil é ocasião para darmos testemunho. É preciso perseverança: paciência, constância, coragem, confiança, e sobretudo resistência de frente a todas as provas até o fim. Trata-se de permanecer fiéis a Palavra e à vontade de Deus que nos pede de viver cotidianamente no amor. Daquilo que o futuro traz Jesus leva em consideração somente aquilo que cria dificuldade e pode colocar em perigo a fé nele e na sua palavra.
O mal continua a fazer parte da história humana e a atormentar os homens, mas não devemos ficar desorientados por isto, nem devemos pensar que estes acontecimentos como o aquecimento global é sinal de que o fim está próximo, mas ter consciência que somente permanecendo firmes, no fim ele nos concederá a plenitude da vida e da salvação.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

XXXII DOMINGO COMUM – Lc 20,27-38

FOMOS CRIADOS PARA VIVER ETERNAMENTE
Há algum tempo atrás, a vida de um cristão era orientada pela crença na vida eterna e na ressurreição. Hoje, vivemos num mundo onde cada vez mais as pessoas acreditam que a nossa vida terrena é a nossa única vida. Isto se percebe principalmente quando vemos os ideais pelos quais estas pessoas lutam: muitas querem ser famosas, ter muito dinheiro, para aproveitar os prazeres que a vida oferece e sem nenhuma responsabilidade, aproveitar a vida enquanto é tempo. Pior, querem isto a todo custo mesmo que seja preciso passar por cima dos outros.
Realmente, esta vida terrena tem uma duração, às vezes pode ser longa, às vezes muito curta devido a uma doença sem cura ou a um acidente trágico, por exemplo. Mas será que Deus que é todo-poderoso gastou todo o seu poder e sua inteligência só com este mundo temporal? Não seria a vida terrena uma preparação para algo muito maior? Será que a morte acaba com tudo mesmo? Foi essa questão que fez os autores do Antigo Testamento, ao longo dos séculos, iluminados por Deus, desenvolverem a doutrina da imortalidade da alma e da ressurreição dos mortos.
Na I leitura de hoje, foi a fé na imortalidade da alma e na ressurreição que possibilitou os irmãos macabeus manterem-se firmes em meio à perseguição que estavam vivendo: “tu, ó malvado, nos tiras desta vida presente. Mas o rei do universo nos ressuscitará para uma vida eterna”.
No tempo de Jesus, a maioria dos judeus já acreditava na vida eterna e na ressurreição dos mortos; e o próprio Jesus Cristo compartilha esta doutrina com os fariseus e a confirma; entretanto, havia um grupo de muito prestígio, já que daí vinham os sacerdotes judaicos, os saduceus, que negavam a vida após a morte e a ressurreição.
A pergunta que os saduceus fazem a Jesus revela como tomavam com banalidade um argumento tão profundo. Eles constroem de propósito a seguinte argumentação para embaraçar Jesus: se uma mulher foi casada com sete irmãos e todos morreram sem deixar filhos, na ressurreição de quem ela será esposa? Na verdade, não lhes interessava saber uma resposta a tal pergunta, queriam somente justificar a opinião deles. E a argumentação não é totalmente ridícula, pois a lei do levirato em Dt 25,5-10 previa que se uma mulher ficasse viúva sem ter filhos do seu marido, ela era obrigada a casar com o cunhado (em hebraico: levir) para garantir a continuidade da descendência. Também o irmão do defunto tinha a obrigação de aceitar casar com a viúva e se recusasse, sofria um rito punitivo.
E aí? Teria aquela mulher sete maridos na vida eterna? Ora, isto é totalmente contra a lei de Moisés. Jesus é muito perspicaz na sua resposta, ele responde dizendo que as condições nas quais as pessoas vivem neste mundo não são as únicas previstas por Deus. No mundo atual, as pessoas se casam. A ressurreição, porém, comporta uma nova dimensão final, um mundo renovado e definitivo no bem que Deus prometeu ao término da história e que nós esperamos como evento pleno e definitivo do Reino de Deus.
A problemática levantada pelos descrentes saduceus não tem vigor, porque na ressurreição a plenitude da vida supera as categorias terrenas de matrimônio para nos tornarmos todos semelhantes aos anjos na visão face a face de Deus.
Jesus dá algumas características dessa nova vida: “já não poderão morrer, pois serão iguais aos anjos, serão filhos de Deus”. Jesus diz que este mundo terreno só pode continuar se as pessoas se casarem e tiverem filhos, já que envelhecem e morrem. A vida nova é radicalmente diferente. É uma ilimitada comunhão com Deus, sem morte, sem enfermidade, sem matrimônio, sem filhos. Seremos semelhantes aos anjos. E que fique bem claro que não estamos falando de reencarnação. É uma vida nova, mas onde cada um ressurgirá com a mesma identidade desta vida terrena num corpo glorioso.
Tudo o que Jesus diz aos saduceus é de uma importância decisiva para a nossa compreensão de Deus e para o direcionamento que devemos dar a nossa vida. Jesus nos diz que “Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos, pois todos vivem para ele”. A vida terrena não é a única que nós temos; quem a considera como realidade última e sem esperança, vive a vida com cobiça, com preocupações, num consumismo desenfreado. Quem, pelo contrário, acredita que ela é o caminho para a plenitude, se deixará guiar pelos ensinamentos do Mestre.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

TODOS OS SANTOS - Mt 5,1-12


O CAMINHO PARA A FELICIDADE PLENA
“Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do cordeiro”. Com esta imagem, o livro do Apocalipse indica todos aqueles que participaram do sacrifício expiatório de Cristo, cordeiro sem mancha. Estes, agora, formam a multidão imensa, simbolizados pelo número 144.000 (12 tribos de Israel x 12 apóstolos x 1.000 = idéia de abundância). São todos aqueles que conseguiram a visão eterna de Deus depois de ter atravessado o tempo da prova, lutando constantemente contra as ciladas do mal, animados pela coragem e segurança que vem do Senhor. Estamos falando dos santos.
Os santos são aquelas pessoas canonizadas pela Igreja, depois de uma minuciosa investigação da vida destas. Mas, os canonizados constituem uma pequena parte. Há muitíssimos outros que celebramos hoje, uma multidão que ninguém podia contar, diz o livro do Ap. São aqueles que com humildade se submeteram à vontade de Deus durante a sua vida, e estão na presença do Senhor para sempre. Dentre estes, podem constar nossos amigos e familiares já falecidos. São os santos anônimos, e são exatamente como os canonizados.
Também nós não devemos nem duvidar que possamos participar desta comunhão. Cristo não exclui ninguém da salvação. Porém, Cristo não impõe, ele só propõe. Cada um é livre em aceitar ou rejeitar esta salvação.
O Evangelho de hoje nos apresenta um itinerário de santidade humana que abraça todas as etapas da nossa vida, abarcando cada situação e considerando os desafios que a cada dia estamos sujeitos: Deus não quer que fiquemos passivos, há um caminho a seguir. As bem-aventuranças indicam que caminho é este, mostrando o caráter do cristão enquanto herdeiro do Reino de Deus, da felicidade plena, da alegria perfeita.
Ser pobre em espírito é ser humilde. É quando reconhecemos nossa necessidade, nossa insuficiência e nossa dependência, nossos limites, e, nos dirigimos a Deus na oração com confiança. Para tal, é necessário arrancar de nós toda soberba, orgulho, presunção, egoísmo, auto-suficiência, superioridade, intolerância. Esta bem-aventurança não diz respeito só aos que são pobres materialmente: um milionário pode reconhecer e confessar que a riqueza material não é tudo para ele e que ele depende de Deus; enquanto, um pobre materialmente pode ser cheio de inveja e esperar tudo da riqueza terrena.
A segunda bem-aventurança parece contraditória, pois o pranto é o contrário de alegria. Os motivos podem ser vários: a morte, a doença, as desgraças, o pecado e a fraqueza, as mudanças drásticas da vida. O aflito é aquele que sofre por sua situação ou pela dor alheia, movido pela compaixão. O pecado contrário é quando somos indiferentes e almejamos uma “vida boa”, cheia de prazeres, confortos, tranqüilidades; é o pecado da indiferença com o próximo, da dureza de coração.
Jesus era manso. Ele chama felizes os mansos, que deixemos toda grosseria, desrespeito, desamor, agressões. A santidade deve mostrar-se no modo como tratamos as pessoas. É preciso trabalhar o autocontrole, aceitar o próximo, não querer dominá-lo, controlá-lo, humilhá-lo nem impor-lhe nossas idéias.
Fome e sede são uma necessidade natural, fundamental para vivermos. Felizes são os que tem fome e sede de justiça: ser justo significa ser reto, honesto, correto com relação ao próximo, a Deus e às coisas materiais.
Ser feliz significa ser misericordioso. Significa não ficar indiferente perante o sofrimento alheio nem mostrar um coração duro perante as ofensas que nos foram causadas. Sentir a miséria do outro e perdoá-lo. Só perdoando, seremos perdoados.
O que busca a santidade busca a pureza. Humanamente falando, nos damos conta que é impossível ser totalmente puro, mas o sangue de Jesus nos lava de todo o pecado.
O caminho da santidade é uma busca constante de paz. Deus é um Deus da paz. Ele quer que nós também sejamos pessoas de paz. Temos que aprender a lidar com o pecado da maledicência, da intriga, da vingança, da provocação. Somos felizes quando não só fizermos as pazes com os outros, mas também quando formos instrumentos de paz entre duas pessoas ou grupos etc.
Ser bem-aventurado implica ser perseguido ou até morrer por causa de Jesus Cristo. Talvez seja esta uma questão das mais difíceis da santidade: conviver com isto enquanto se segue a Jesus. Talvez alguém possa se enganar pensando que quanto mais próximos a Deus estivermos, mais amados seremos por todos. Errado! Pois, seremos cada vez mais invejados, contrariados, insultados e perseguidos. O diabo fica desconcertado com os que, sinceramente, buscam seguir Cristo. O próprio Jesus Cristo foi odiado e crucificado.
Enfim, o caminho indicado por Jesus para nossa felicidade parece ser uma restrição, uma limitação da liberdade humana. Mas, Jesus não veio prender, veio libertar. Na verdade, as bem-aventuranças são um caminho para a liberdade, para a salvação, para a felicidade.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

XXX DOMINGO COMUM - Lc 18,9-14

Será que ainda estou cego?
No domingo passado, Jesus nos falava da necessidade de rezar sempre sem desanimar. Hoje, nos revela o segredo de uma oração verdadeira e também eficaz. Ele nos conta uma parábola sobre a oração de dois homens que pertencem a duas categorias completamente opostas. Na verdade, o Evangelho quer provocar em nós a pergunta: com qual dos dois me identifico? Com o fariseu ou com o publicano?
Prestemos bem atenção a como cada um dos homens reza e assim iremos descobrir. Podemos nos encontrar no lugar do publicano (pecador), que foi justificado; mas também com muita probabilidade, podemos nos encontrar no lugar do fariseu, que por sinal, não justificado; este último é aquele que regularmente vai ao templo, ou seja, somos nós, que regularmente vamos à igreja.
Enfim, a parábola em questão é direcionada para todos aqueles que julgam ser bons e desprezam os outros, diz o evangelista Lucas.
O fariseu é aquele que se acha justo, certinho, pelo fato de conseguir freqüentemente cumprir os preceitos da lei: “eu jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de toda a minha renda”. A atitude dele é aquela de uma pessoa egoísta, cheia de si mesmo. Usa sempre o pronome “eu”. E o que agrava a sua presunção é o fato de desprezar os outros. Não se pode rezar e, ao mesmo tempo, desprezar; dialogar com Deus e ser duros com as pessoas; no fundo, nos deleitamos com os defeitos dos outros para agradar a nossa presunção (Nossa! Comparando-me com fulano de tal, como eu sou bom e correto!). Uma vida assim é cheia de suspeitas e de medos, uma vida triste num mundo corrompido. A oração do fariseu, no final das contas, é um julgamento.
De fato, esta parábola é muito inquietante! Mostra como na oração podemos nos separar de Deus e dos outros quando falsificamos a nossa consciência, enganando-nos quanto a Deus e ao nosso próximo.
Quando estamos falando coisas negativas sobre os outros como aquele fariseu (“não sou como os ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos”), na verdade, estamos envenenando as nossas vidas. Deus está interessado no nosso interior e não naquilo que aparentamos ser. Precisamos nos conscientizar que não é impressionando uns aos outros que interessa a Deus, mas é nossa vida interior que interessa a ele.
O orgulho é uma cegueira que nos impede de ver nossos próprios erros. É difícil ser humilde. Se nos consideramos humildes, isso já é presunção. Ser humilde significa nunca pensar que somos melhores que as outras pessoas, mas que somos humanos, e por isso, limitados tanto quanto os outros. Esta consciência é o que nos estimula a sempre buscar o amadurecimento espiritual.
Às vezes, a única maneira pela qual aprendemos a tratar bem as pessoas, é quando somos maltratados, para que possamos ver como isso machuca e aprender a não fazer com os outros. A pessoa orgulhosa nunca acha que é orgulhosa, porque o orgulho facilmente se esconde. O orgulho é uma máscara que encobre realmente quem somos. O orgulho é um julgamento: julgamos porque somos orgulhosos; julgar, na realidade, é tentar achar um caminho para nos sentirmos melhores em relação a nós mesmos, apontando os erros dos outros. E Deus é um juiz que não faz discriminação de pessoas (I leitura). Deus não discrimina ninguém; como isto deve doer ao ouvido orgulhoso!
Outra coisa também muito freqüente existir é um entendimento errado da humildade: quando ficamos passivos diante de tudo ou quando sempre estamos dizendo que não somos capazes para isto ou para aquilo. Esta é a falsa humildade. A humildade é uma das virtudes mais difíceis de se obter, mas também é uma das mais necessárias.
O publicano é realmente um pecador; ele não arranja uma desculpa para o que fez. Uma transgressão típica dos publicanos era trapacear os outros e ser conivente com as tramóias do império romano. A oração simples do publicano é reconhecer-se pecador. Não julga ninguém, nem mesmo o fariseu, por quem já foi julgado, insultado e excluído.
Deus “jamais despreza a súplica do órfão, nem da viúva, quando desabafa suas mágoas”. Mas, temos que nos entregar totalmente a ele. O publicano foi perdoado não porque fosse melhor que o fariseu, pensar isso seria cair na mesma atitude do fariseu, mas porque com sinceridade mostrou e admitiu sua fraqueza e abriu seu coração a um Deus que é imensamente maior que o seu pecado, a um Deus que nos acolhe, que nos abraça com a sua misericórdia infinita. “Quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado”. Que nossa oração humilde atravesse as nuvens e chegue ao Altíssimo.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

XXIX DOMINGO COMUM - Lc 18,1-8

O meu socorro vem do Senhor
Pode acontecer que na nossa vida nos questionemos: será que a oração funciona mesmo? Será que Deus escuta mesmo quem reza? Estas perguntas aparecem quando Deus parece não reagir diante da nossa súplica ou quando não nos damos conta de sua ação, como por exemplo, quando fazemos uma oração fervorosa, e depois de obtida a graça, não a consideramos como fruto da oração.
E isto nos leva a pensar que se a oração for realmente inútil, para que perdermos tanto tempo com ela?
Justamente por causa dessas dúvidas, é que a liturgia dominical insiste tanto em tratar o tema da oração. O Evangelho quer mostrar o quanto a oração é essencial na vida do discípulo, através de relatos onde o próprio Jesus reza ou quando ele nos orienta na prática da oração. Ele diz que pra que nossa oração seja eficaz, nós devemos: amar os nossos inimigos e rezar pelos que nos perseguem, rezar ao Pai “no segredo”, perdoar do fundo do nosso coração a quem nos ofendeu, rezar com audácia na certeza do obter e com plena adesão à vontade de Deus.
Na I leitura de hoje, vemos o esforço de Moisés em manter a mão levantada para vencer a batalha; no Evangelho, com a parábola da viúva importuna, Jesus nos exorta à paciência da fé, necessária quando nossa oração parece não ouvida e inútil.
No tempo de Jesus, a mulher viúva ficava numa situação muito difícil, sem meios para viver e sem proteção. A viúva do relato de Jesus tem necessidade de ser defendida e por isso, se dirige ao juiz. Mas, o juiz de sua cidade não tem interesse algum em ouvi-la. Pois, ele sabe que aquela pobre mulher não pode lhe pagar um preço alto e ele não quer perder seu tempo por uma causa que não dê muito lucro. Ele não se importa de maneira alguma com a situação da viúva, é totalmente indiferente, e recusa ouvi-la.
A viúva, porém, não perde a esperança: todos os dias, volta a se apresentar ao juiz, repetindo sempre a mesma coisa: “faze-me justiça contra o meu adversário!”. Os dias passam e o juiz já não agüenta mais aquela viúva importuna. Por um tempo, ele até faz de conta não se incomodar, mas um dia ele cansa de ouvir aquele aborrecimento e pensa: “mesmo não temendo a Deus nem respeitando ninguém, não suporto mais esta viúva me torrando a paciência, e por isso, vou fazer-lhe justiça para que ela me deixe em paz”.
Muitas vezes nos comportamos exatamente como esse juiz, e por isso, entendemos bem a parábola: a quem nos pede um favor que não queremos fazer, damos um sim pra ficarmos livres, que no final das contas, fazemos pensando em nós mesmos. Um comportamento destes não é próprio do coração de Deus.
Jesus termina de contar a parábola e pergunta aos discípulos: “vocês ouviram o que diz este juiz injusto? Pois bem, se até mesmo um juiz desonesto decide atender uma viúva para não ser mais incomodado por ela, como pensam que se comportará Deus que é Pai com relação aos filhos que imploram a ele? Eu lhes digo que Deus fará justiça bem depressa”.
Se não rezarmos, estamos dizendo a Deus que ele é impotente. É necessário que rezemos pacientemente, incessantemente. Entretanto, nós temos de ser conscientes de que não podemos prescrever quando e como ele nos atenderá. Uma coisa sabemos: ele nos fará justiça. Deus pode nos provar por um longo tempo, mas também pode intervir de modo rápido e inesperado.
Temos que ser pacientes no esperar. Esperar não é opção. Todos vamos ter que esperar e não sabemos por quanto tempo. É como nós esperamos o que faz a diferença. Muitas vezes, ficamos esperando em Deus, quando na realidade é Deus quem está esperando por nós. Deus não vai mudar de idéia nunca com a nossa teimosia. Há um tempo pra tudo, Deus faz as coisas conforme o pensamento dele, nunca conforme o nosso. Somos viciados na satisfação imediata. Hoje em dia não queremos esperar por nada.
Por isso, Jesus faz a pergunta: “mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?” com esta pergunta, Jesus quer dizer que Deus é sempre fiel, menos segura é a capacidade que nós seres humanos temos de mantermos a fé em Deus em todas as provas. Se não formos pacientes no esperar, então não poderemos ser alcançados pelo socorro do Senhor. A pergunta de Jesus é um convite a ficarmos unidos a Deus por meio da oração confiante.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

XVIII DOMINGO COMUM - Lc 17,11-19


CADÊ OS OUTROS NOVE?
No tempo de Jesus, a lepra era uma doença que excluía duramente a pessoa enferma do lugar onde vivia e de sua própria família. A pessoa ficava condenada a viver na periferia das cidades. Um leproso só podia conviver com outros leprosos para evitar o contágio em pessoas sadias. Se uma pessoa sadia se aproximasse do lugar onde os leprosos ficavam, estes eram obrigados a gritar para informar o quanto eram contagiosos, e, ao mesmo tempo, tinham que se afastar.
É nesse contexto que Jesus, numa zona de fronteiras entre a Galiléia e a Samaria, encontra dez pessoas com lepra na periferia de um povoado; elas se aproximam dele, mas param a distância e gritam: “Jesus, mestre, tem piedade de nós!”. Estes leprosos pedem ajuda a Jesus. Eles não podem fazer nada por si mesmos, mas podem receber ajuda de alguém que tem poder sobre a sua enfermidade.
Mas o texto parece mostrar que Jesus quer se livrar deles também. Manda eles irem aos sacerdotes, sem ter feito absolutamente nada para curá-los. Segundo as leis do AT, os sacerdotes têm a competência de verificar a cura de um leproso, e, assim, reintegrá-lo na sociedade. Na I leitura, do II Livro dos Reis, quando o sírio Naamã é curado por Deus, vai apresentar-se imediatamente a Eliseu e agradece ao profeta.
Os dez leprosos devem ser, antes de tudo, curados para que possa haver sentido irem se apresentar aos sacerdotes; mas, Jesus, simplesmente os põe a caminhar; e é aí, que vemos a fé e a confiança daqueles leprosos em Jesus, na esperança de que, cumprindo seu mandamento, conseguirão aquilo que desejam.
Um deles ao perceber que estava curado, toma uma atitude diferente da dos outros nove que correram apressadamente para serem readmitidos na sociedade; este retorna a Jesus para agradecê-lo. Aqueles nove olham só para seus próprios interesses, só para o futuro, já não se lembram de quem os livrou daquele destino miserável; e, Jesus, se decepciona com eles: “onde estão os outros nove?”
Todos gritavam por Jesus quando estavam no momento do sufoco, mas por que só um gritou de agradecimento: glorificando a Deus? Na realidade, é que só para este, a cura foi um verdadeiro encontro com Deus.
E quanto a nós? Quando recebemos uma graça de Deus na nossa vida, o que vale mais para nós? O dom ou aquele que nos concedeu o dom?
Quando ganhamos um presente, se a nossa atenção se restringe ao bem material, somos egoístas; se, pelo contrário, se a experiência do presente nos leva a colocar a nossa atenção no amor e na benevolência daquele que nos presenteou, isto torna-se um encontro novo e pessoal com o nosso benfeitor.
Ganhar um presente é muito bom. Mas, nos dá mais felicidade ainda reconhecer a benevolência e a ajuda daquele que nos presenteou e poder agradecê-lo. Junto com o pedido, a ação de graças deve ser a forma fundamental da nossa oração e da nossa relação com Deus. Quantas vezes durante a nossa vida pedimos, imploramos a Deus por uma série de coisas e quando ele finalmente nos concede a graça, esquecemos completamente dele. Desta forma, perdemos a chance de reconhecer e experimentar o amor de Deus.
A lepra tinha levado a um primeiro encontro com Jesus, mas um encontro à distância. Movido pela fé em Deus, o samaritano foi curado, sua relação com Deus tornou-se mais íntima, o que lhe rendeu uma fé mais firme. Que nós também tenhamos a coragem de gritar por socorro ao Senhor para que ele cure a nossa lepra, especialmente, aquela espiritual, a fim de que reconhecendo as maravilhas que ele opera na nossa vida, possamos cada vez mais ter uma fé fortalecida e contagiante.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

XXVII DOMINGO COMUM - Lc 17,5-10


SOMOS SOMENTE SERVOS!
A Palavra de Deus que hoje nos é dirigida fala de dois temas: a fé e a atitude correta que o homem deve assumir perante Deus. As leituras são um convite a reconhecermos nossa pequenez e a acolher com gratidão os dons que Deus nos dá.
Na primeira parte do Evangelho, vemos um pedido por parte dos apóstolos ao Senhor: “aumenta a nossa fé!”. Não sabemos precisamente o que tenha feito os apóstolos pedirem ao Senhor para que aumentasse a fé deles; podemos imaginar que seja algo ligado ao perdão ilimitado (texto imediatamente anterior): por ser uma tarefa muito difícil, principalmente quando se tem que perdoar o próximo que nos magoa constantemente; às vezes, a paciência e o amor querem fraquejar. Por isso, é necessária muita fé.
Os apóstolos e nós, hoje, nos damos conta como é fraca a nossa fé em Deus. Mas, como eles, não abandonamos a luta nem diminuímos os nossos trabalhos, mas pedimos ao Senhor uma fé maior. E é o que devemos fazer mesmo! Só Deus pode vir em nosso auxílio.
Jesus não responde diretamente ao pedido dos apóstolos. Mas, com a sua resposta, ressalta a importância da fé. Somente se tivermos uma autêntica confiança em Deus, acontecerá aquilo que para a razão humana é impossível. Esta impossibilidade é exemplificada através da imagem do “transportar montanhas” (aqui uma amoreira). Não há limites para o poder de Deus. Mesmo que Deus nos peça coisas aparentemente impossíveis, ele pode nos tornar capazes de realizá-las. E mesmo que esta fé seja microscópica como uma semente de mostarda, se for verdadeira fé, Deus fará com que ela desenvolva. (contraste entre a pequenez da semente de mostarda preta e a altura dessa árvore: uns 5 metros).
Na I leitura, vemos o profeta Habacuc que discute com Deus: como fazer pra acreditar em Deus se as coisas estão indo mal? E Deus responde: “o justo viverá por sua fé”. Talvez estejamos na mesma situação de Habacuc? Quanta violência, injustiças, tragédias. É preciso termos fé, é necessário confiar.
Em tudo aquilo que Jesus faz, ele encoraja os apóstolos a crerem. Ele diz a Pedro: “eu orei por ti para que tua fé não desfaleça” (Lc 22,32). Desta forma, o Senhor cumpre o pedido feito por seus apóstolos de aumentar a fé deles. Também nós devemos contar com a oração de Jesus e pedir esta forma de relação fundamental com Deus: a confiança nele.
Com a parábola do servo, Jesus nos indica um outro aspecto essencial da nossa relação com Deus. Esta parábola não pretende mostrar o comportamento de Deus com relação ao homem, mas quer indicar qual a justa posição em que nos encontramos perante ele. Jesus não quer passar a idéia de um Deus como um patrão que manda, é servido sem agradecer, e alimenta os seus servos só com o resto! Não! O que importa aqui é: qual a justa visão que os apóstolos devem ter de sua relação com Deus: os servos devem fazer tudo aquilo que o seu patrão ordena. Obedecendo estas ordens, fazem somente o seu dever e não merecem nada por isso. Devem aceitar esta realidade.
Reconhecer a nossa relação de dependência a Deus significa entender que não somos independentes. Ninguém veio à existência sozinho. Também não somos autônomos, não podemos viver a nossa vida a nosso bel prazer sem prestarmos contas a Deus. Temos deveres para com Deus. Mas também devemos estar conscientes de que ele nunca nos pede nada de arbitrário ou absurdo. O dever é aquele de nos comportarmos como administradores fiéis: da nossa vida, das nossas capacidades, dos nossos dons.
Nunca devemos pensar que cumprindo a vontade do Senhor temos direitos e privilégios perante Deus. Devemos ser conscientes que o que fazemos não é outra coisa que o nosso dever. Às vezes, podemos pensar que o fato de rezarmos, de fazermos caridade, de cumprir a vontade de Deus represente um favor a ele e que por isso, ele deve ser grato a nós. Há muita gente que pensa assim. Pois, saibamos que Deus se alegra pelo nosso esforço. Mas, ele não precisa disso. De jeito nenhum. Nós é que precisamos. De nossa relação com Deus devemos excluir qualquer pretensão.
Assim, com humildade e modéstia, a nossa condição perante Deus é fazer tudo aquilo que é nosso dever, e por isso, o Evangelho nos chama de simples servos, não de “servos inúteis”. A palavra grega utilizada aqui traduzida por inútil indica a falta de mérito, a humildade, a pequenez, e não a inutilidade: a idéia de não servir para nada. Não somos servos inúteis, pois trabalhamos no arado de Deus, mas nem por isso deixamos de ser “simples servos”.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

XXVI DOMINGO COMUM - Lc 16,19-31


Um grande abismo chamado indiferença
Neste XXVI Domingo do Tempo Comum, o que a liturgia nos propõe é claramente uma continuação do tema do domingo passado sobre o bom uso do dinheiro.
Na I leitura, o profeta Amós faz uma forte denúncia à injustiça daqueles que levam uma vida luxuosa à custa da exploração dos pobres, sendo totalmente indiferentes ao sofrimento e miséria destes. Para eles, Amós anuncia que Deus não vai tolerar este egoísmo, reservando-lhes um final infeliz: serão deportados de seu país “na primeira fila”.
Também Lucas continua a denunciar o mau uso do dinheiro por parte de alguns à custa da miséria de tantos. É uma mensagem forte também para nós, homens e mulheres de hoje, que vivemos num mundo cada vez mais injusto. Antes, se a Palavra de Deus é sempre válida, esta parábola é uma fotografia do mundo atual, onde uma mínina parte da população vive no consumismo e no desperdício e uma grande maioria vive na miséria.
É um absurdo hoje só se falar em progresso e ainda existir tanta fome no mundo, tantas pessoas desabrigadas sem os cuidados mais elementares de saúde. Que tipo de progresso é este?
Na parábola do homem rico e do miserável Lázaro, Jesus descreve a vida terrena de ambos: os dois extremos da sociedade. O rico tem um estilo de vida alto, suas roupas são das grifes mais caras, elegantes e luxuosas. Ele usa a sua riqueza para levar uma vida cheia de prazeres. O sentido da vida pra ele é o prazer das coisas materiais. O que o separa do miserável Lázaro é apenas a porta de sua casa. Ele não acolhe o pobre. Este leva uma vida dura; não só é desprovido de bens, mas se encontra doente e desabrigado. Seu corpo não é coberto de roupas finas, mas de muitas feridas. Ele quer matar sua fome com o sobejo da mesa do rico. Sua companhia são os cães sujos que se aproximam dele para lamber-lhe as feridas. Faminto e doente, vive na sujeira das ruas. Mas, diferentemente do rico, Jesus faz questão de lembrar o seu nome: Lázaro (Deus ajuda). Na extrema pobreza, ele não perde a confiança, mas é convicto de que Deus o ajuda.
Morre o miserável, único instrumento de salvação do rico. Morre também o rico. A morte os torna iguais. Não há como escapar dela. E a este ponto, o destino deles se inverte completamente. O que é descrito sobre a vida depois da morte dos protagonistas da parábola não quer ser uma descrição precisa da vida eterna; mas quer caracterizar a radical diversidade entre a vida daquele que um tempo foi rico e a do que foi pobre. Lázaro é levado para o seio de Abraão, para o banquete festivo. Quanto ao rico, dois elementos mostram como mudou a sua situação. Ele que vivia no luxo, agora é rodeado de fogo e grandes tormentos. Ele que tinha a sua disposição comidas finas e bebidas importadas, agora implora por uma simples gota d’água. Na vida terrena, Lázaro faminto tinha lhe pedido os restos da sua mesa sem receber nada. Agora, é o rico que pede uma gota d’água na ponta do dedo de Lázaro e não pode recebê-la. Tarde demais! O modo no qual empregou sua riqueza e consumou a sua vida o reduziu a uma condição na qual sofre dor e tormento.
O rico reconhece tanto que o modo que conduziu sua vida estava errado que queria que Lázaro fosse avisar aos seus irmãos para mudarem de vida a fim de evitar aquele trágico destino. Mas, Abraão não permite e responde: “Eles têm Moisés e os profetas, que os escutem” Pra evitar esse destino, é necessário escutar a Palavra de Deus, pois ela mostra a vontade de Deus, a orientação para uma vida justa. Nela, é expressa a nossa responsabilidade social com relação aos mais pobres. Mas somente seremos capazes de praticá-la se tivermos um coração bom e aberto. O coração cego é endurecido pelo egoísmo e não se interessa por Deus nem pelo próximo. Jesus nos convida sempre a tomar consciência dos verdadeiros problemas do mundo e a atuar num empenho cristão, que não se limita a alguma esmola, mas procura ir às causas da desigualdade, das injustiças, com obras de partilha e de solidariedade. Quantas coisas supérfluas nós temos? Quanto tempo da nossa vida desperdiçamos com coisas inúteis? Quantas coisas podemos fazer pelos mais necessitados e não o fazemos? Ele não nos condena se usarmos coisas materiais boas, o que ele denuncia é se isso significa egoísmo e indiferença para com os nossos irmãos mais necessitados.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

XXV DOMINGO COMUM - Lc 16,1-13


Espertos, mas honestos
As palavras do profeta Amós (I leitura) e aquelas de Jesus nos convidam a refletir sobre a amarga realidade das coisas que hoje em dia é muito difícil poder fugir e na qual nos encontramos continuamente lutando contra todo tipo de manifestação sua: a realidade da injustiça, da maldade, da corrupção, da desonestidade. Ora, se a própria Bíblia cita em vários livros episódios de opressão, de exploração, é porque esta sempre foi uma constante na história da humanidade e não é de se admirar que ainda hoje experimentemos algo igual.
Estranhamente, no Evangelho de hoje, Jesus se utiliza de uma pessoa corrupta para ensinar algo útil para nossa vida de cristãos. Mas como é possível ser elogiado um homem que se apropria indevidamente de bens alheios e faz amigos à custa do patrão?
A parábola fala que um homem rico soube que seu empregado estava administrando mal os seus bens, e, por isso, ele exige uma prestação de contas antes de demitir tal empregado; este, por sua vez, com muita esperteza, raciocina: ‘vou ser demitido, não tenho como me defender. Como vou me sustentar? Não posso encarar um trabalho braçal e tenho vergonha de pedir esmolas. Já sei o que vou fazer. Vou diminuir as dívidas que as pessoas têm com meu patrão; assim, elas ficam me devendo este favor e por isso, vão me ajudar com algo enquanto eu estiver desempregado’.
Muito espertinho o empregado! Na época, a cobrança de juros era proibida pela Lei, assim, para obter o máximo dos outros, os vendedores diminuíam medidas, aumentavam pesos, adulteravam balanças, compravam os pobres, nada diferente do que existe por aí em todos os âmbitos da sociedade. Então, aquele empregado resolve reduzir as contas devidas ao seu valor real, perdendo os juros para o patrão e fazendo amigos para si mesmo. Usou o presente para providenciar o futuro.
Jesus com esta parábola constata: “realmente, os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz”. Somo filhos da luz, seguimos a luz do mundo que é Jesus; mas, muitas vezes, como cristãos, nos faltam a prontidão e o zelo daquele administrador da parábola em vez de ficarmos nos lamentando e reclamando.
Por isso, Jesus com base nessa verdade, dá três orientações com relação ao uso do dinheiro. Primeiramente, que devemos usar o dinheiro em favor do nosso próximo. Os bens que Deus confia a nossa administração não devem ser gastos de maneira egoística em vista de uma “boa vida”, mas devem ser usados conforme à vontade de Deus. Ou seja, sendo uma bênção para o outro. Jesus fala de dinheiro, mas aí devemos incluir tudo o que é bem terreno: as nossas capacidades, talentos, educação recebida etc. Tudo deve ser administrado fielmente e não pode ser esbanjado para engrandecer a nós mesmos e para o bem da nossa pessoa. A maneira como nos relacionarmos com o dinheiro contará muito para o nosso bem espiritual.
Em segundo lugar, ele nos ensinou que em tudo o que fizermos devemos ter bem claro na mente a honestidade: quem é fiel, quem é honesto no pouco, será no grande. Quem é desonesto nas pequenas coisas, também o será nas grandes; não podemos nos enganar e pensar que nas grandes coisas nos comportaremos de modo diferente. É como quando conseguimos um emprego de vendedor numa loja. Somente, se o patrão estiver seguro da nossa honestidade nas pequenas coisas, ele nos eleva de cargo. Até mesmo nas mínimas coisas da nossa vida, devemos ser honestos, principalmente com Deus.
Por fim, Jesus nos alerta para o perigo do dinheiro atrapalhar a nossa relação com Deus. Pois, estando envolvidos somente com lucro, corremos o risco de o colocarmos no lugar de Deus, já que não se pode servir ao mesmo tempo a dois senhores.
Às vezes, pensamos que ser cristãos significa ser ingênuos; que o cristão deve rejeitar as espertezas do mundo, deve opor-se aos compromissos do mundo e às astúcias da sociedade, deve evitar a ambigüidade e a vida dupla dos prepotentes: numa palavra deve ser simples. É! Mas devemos entender que não podemos ser ingênuos. Jesus não elogia quem age de maneira desonesta, mas ele nos convida a usarmos da esperteza como aquele empregado desonesto que viu que aqueles bens estavam prestes a acabar e se tocou que com eles poderia buscar valores mais duradouros, como os amigos que fazemos quando praticamos o amor ao próximo.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

XXIV DOMINGO COMUM - Lc 15,1-32


REENCONTRANDO O AMOR PERDIDO
O Evangelho de hoje nos apresenta três parábolas. Cada vez que lemos uma mesma parábola, descobrimos novos significados que nos guiam em nosso caminho. O que estas parábolas logo de imediato falam para o mundo de hoje é que Deus não é um ser distante, severo, castigador. Ficar com uma idéia dessas atrapalha a nossa maneira de pensar, de agir, de viver. Deus é um pai amoroso, cheio de ternura para com todos e com cada um em particular.
Logo nos primeiros dois versículos, encontramos a chave de leitura para o sentido do texto: ali, encontramos os fariseus e escribas, convencidos de serem perfeitos que, por isso, desprezam os pecadores e ignoram a atitude de Jesus de se juntar com estes.
Na primeira parábola, Jesus nos convida a encontrar a ovelha perdida. “Se um de vós (todos nós somos interrogados) tem cem ovelhas e perde uma, não deixa as noventa e nove no deserto e vai atrás daquela que se perdeu até encontrá-la?” Para nós, pode ser absurdo deixar noventa e nove num lugar deserto para ir atrás de uma única ovelha, mas para Jesus isso é óbvio; tanto que a própria maneira de fazer a pergunta, já prevê uma resposta afirmativa. Para Deus, cada ser humano tem igual valor.
Encontrar qualquer coisa que perdemos traz uma imensa satisfação e se tratando de uma pessoa, mais ainda. Podemos imaginar uma mãe que depois de uma busca incansável movida pela esperança, encontra seu filho desaparecido, como há tantos casos no nosso Brasil. É uma alegria fora do normal. Assim eu imagino que seja a alegria que Deus sente cada vez que nos reencontramos com Ele: “coloca-a nos ombros com alegria”; “alegrai-vos comigo” e “haverá no céu mais alegria”.
A esta altura, todos já entendemos que Jesus com seu comportamento queria mostrar o amor misericordioso que recebera do Pai para com todos e ao mesmo tempo, fazer entender ao fariseus que eles estavam errados. É como se ele nos dissesse: eu cumpro o que recebi do meu Pai, o amor infinito e por isso, me aproximo dos pecadores sim; e o que eu faço vocês devem fazer também.
Devemos ir ao encontro das pessoas desprezadas e que já se entregaram a autocondenação. Até porque também nós precisamos deste amor. Há pessoas que se acham corretas demais e não se misturam com “qualquer tipo de gente” com medo de se contaminar. É a atitude de fariseu, do falso eu, do mascarado. Façamos como Jesus: ele comia com os pecadores, com as pessoas de má reputação, mas o diferencial de Jesus era que, envolvendo-se com estas pessoas, ele nunca era influenciado por elas; pelo contrário, com sua atitude, contagiava todas elas.
Nós somos canais do amor de Deus para os outros, principalmente para os mais necessitados de amor. “A maior doença do mundo de hoje não é a tuberculose nem a lepra, mas o não sentir-se amado, o sentir-se abandonado”, dizia Madre Teresa. As pessoas precisam sentir o amor de Deus através de nós e vice-versa.
A segunda parábola: a da moeda perdida vai no mesmo caminho: fala da alegria que a dona de casa sente e partilha com suas amigas por achar aquela moeda necessária para sua sobrevivência.
Quanto a terceira parábola, já se encontra interpretada no IV domingo da Quaresma; mas, gostaria apenas de destacar alguns traços que nos ajudam a aprofundar a melhor a mensagem central deste capítulo. Nas duas parábolas anteriores, a iniciativa é sempre de Deus, já que a ovelha nem a moeda têm como voltar pra seus donos por si só. Já a parábola dos dois filhos, é o filho pródigo quem começa o caminho de volta, mas antes que chegue, é o pai que quando o avista, corre ao seu encontro, o abraça e o cobre de beijos. Que imagem bonita! Esta iniciativa do filho de retornar é para mostrar que somente é possível receber este amor de Deus se deixarmos de ser cabeças-duras e estarmos abertos para este amor. A reação do filho maior revela ainda a atitude dos fariseus: inveja, raiva, presunção, superioridade em relação aos outros. Ele chega a dizer ao pai: “este teu filho”, como se não fosse irmão dele. Que desprezo, que coração soberbo. Quantas vezes fazemos o mesmo interpretando mal a vida dos outros? Não condenemos o que não conhecemos.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

XXIII DOMINGO COMUM - Lc 14,25-33


Que bela a reflexão da primeira leitura de hoje. O autor do livro da Sabedoria, olhando para dentro de si, coisa raríssima hoje em dia, constata que “os pensamentos dos mortais são tímidos e nossas reflexões incertas... qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus?” O homem que fez e continua fazendo progressos incríveis na ciência, pena para crescer em sabedoria. Vivemos num mundo tecnológico com produtos cada vez mais sofisticados e que deseja passear pelo espaço sideral, que conhece grande parte dos segredos do universo, que consegue melhorar continuamente o bem estar das pessoas (pelo menos o dos que têm mais condições), mas que não consegue dar uma resposta válida a um jovem que se refugia na droga, no álcool, que se entrega ao ódio, à indiferença e à solidão. Que contradição! É nosso dever dar respostas às perguntas verdadeiras e profundas que moram no coração do homem, sem nos deixar inebriar pelo limitado sucesso da ciência. E para isso, temos realmente necessidade do dom da sabedoria.
São muito duras as palavras de Jesus no Evangelho deste domingo: “se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até de sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. São tão pesadas que a tradução usada na liturgia até suavize o original hebraico: “quem não odeia seu pai, sua mãe...” Mas, não fiquemos perplexos com a linguagem. Antes de explicar, fique claro que tais palavras de Jesus não são dirigidas somente àqueles que o seguem “mais de perto”, como os padres, os religiosos, os consagrados. Tal interpretação não convence: seja porque obviamente os consagrados não são melhores que os outros; seja, sobretudo porque Jesus pronunciou estas palavras para “grande multidões” que o acompanhavam e não para um grupo restrito de pessoas.
Jesus, pedindo para “odiar” os próprios familiares na verdade está querendo dizer que ele deve estar em primeiro lugar na nossa vida. Ele é o centro da nossa vida, é o tudo em nosso coração. Mais do que qualquer afeto, mais do que uma família, mais do que qualquer outra coisa ou satisfação que o mundo nos possa dar. Jesus com convicção nos diz que só ele pode preencher o coração de quem o segue, e por isso, é extremamente duro e exigente. Mas, porque ele nos pede para que nós o sigamos sem condições? Como pretende preencher o incompleto coração do ser humano?
Na verdade, as palavras de Jesus tocam certas durezas da vida de todos, onde os afetos mais belos, dos pais, dos filhos, do cônjuge, dos irmãos e dos amigos, são marcados muitas vezes pelo cansaço e pela incompreensão. Até mesmo quando se está apaixonado, ou quando nos alegramos pelo carinho de uma pessoa querida, experimentamos de algum modo a precariedade daquela relação, já que ela sempre é condicionada e limitada. É esta precariedade que Jesus quer evidenciar nas suas duras palavras.
Naturalmente, Jesus não pretende desvalorizar os afetos humanos. Ele orienta, porém, para que vivamos como sinais e não como absolutos. O amor dos pais, do cônjuge, dos amigos e dos irmãos testemunham que a vida tem um sentido; mas, o sentido da nossa vida não é esgotado nestes afetos. Este deve ser buscado a cada dia, e nunca pode ser conseguido em plenitude. Se pensarmos tê-lo conquistado totalmente nas pessoas caras, estamos indo de encontro a uma grande desilusão; se pelo contrário, reconhecemos que o sentido da vida é algo maior, então mesmo as decepções que virão das pessoas que amamos serão menos intensas.
Este é o cálculo que todos devemos fazer, como os protagonistas das duas breves parábolas contadas por Jesus. Ambos são questionados sobre os planos feitos a respeito de uma construção ou de uma guerra para se ter bom êxito ; se quisermos que a empreitada da nossa vida tenha sucesso, ao contrário de ficar tristemente incompleta, temos necessidade de deixar Deus ser o centro da nossa vida incondicionalmente, e para isso temos que renunciar a tudo que temos: a segurança que colocamos nas pessoas caras, em nós mesmos e nas coisas materiais. Em outras palavras, temos necessidade de repetir dia após dia o salmo 89: “ensinai-nos a contar os nossos dias e dai ao nosso coração sabedoria”.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

XXII DOMINGO COMUM - Lc 14,1.7-14


Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração
A liturgia deste domingo propõe-nos uma reflexão sobre alguns valores que acompanham o desafio do “Reino”: a humildade e o amor desinteressado.
A palavra de Deus nos ensina com muita sabedoria nas palavras de um sábio do início do séc. II a.C. que é a humildade o caminho para ser agradável a Deus e aos homens, para se ter êxito e ser feliz. Esta humildade é deve vir acompanhada de mansidão e também da sabedoria da escuta.
Tais virtudes podem ser reduzidas a um denominador comum: a relação com o próprio eu. Humilde é aquele que não perde a consciência do próprio limite, manso é aquele que não se impõe de modo agressivo e sábio é aquele que não presume saber já tudo, mas é consciente das riquezas que estão fora de si, e por isso, escuta. Escutar é esquecer-se de si, é abrir-se ao outro, porque o seu horizonte não é inteiramente ocupado pelo próprio eu. Assim, o caminho para a felicidade é a abertura. É ela quem nos põe em harmonia com Deus, que responderá com uma nova efusão de sua graça; com os outros, que por sua vez, também mostrarão abertura e benevolência; e, conosco mesmos, dando-nos uma paz nunca experimentada pela pessoa egoísta.
Quem, determinado a fazer ressaltar as próprias riquezas e os títulos, se gaba e quer pôr-se em destaque, suscita antipatia e hostilidade. Para vencer as resistências e continuar sobre a própria estrada, usa da agressividade, tornando-se arrogante e competitivo. Não tem necessidade de escutar nem Deus nem ninguém, e só tem olhos para si mesmo, incapaz de ver os sofrimentos dos outros.
A lição do Eclesiástico é importante. O ego pode chegar a tal ponto de tomar conta de tudo, sufocando qualquer outra instância e enfim, também a si mesmo, não permitindo a Deus respirar em nós o seu Espírito. Humildade, mansidão, escuta e misericórdia nos salvam deste sufocamento, tornando-nos felizes.
O Evangelho de hoje segue a mesma idéia; aí, encontramos Jesus comendo na casa de um dos chefes dos fariseus, que percebendo que os convidados procuram os primeiros lugares, conta uma parábola. Esta percepção de Jesus é mais do que nunca válida nos dias de hoje: a busca dos primeiros lugares a qualquer preço, o carreirismo, o desejo de poder, competições causadas pelo orgulho. Da boca pra fora, qualquer pessoa pode-se dizer humilde, desapegado, mas basta às vezes uma palavra para ficar ofendida e alimentar sentimentos de crítica e de vingança.
Devemos buscar os primeiros lugares sim, mas diante de Deus. E para conseguir isso, devemos fazer o contrário do que o mundo prega. O maior diante de Deus é aquele que se faz menor: “quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”.
Mas, então, o que significa fazer-se último? Não significa, certamente, enterrar os próprios talentos, fugir das responsabilidades. Não! A menos que sejamos impedidos, devemos fazer com que frutifiquem ao máximo. Temos que dar o nosso melhor para o bem dos outros, não, porém, para nos sentirmos melhores que os outros. Fazer-se humilde significa libertar-se da ânsia da estima humana e ter serena consciência de que cada um de nós tem valor para Deus. A verdadeira humildade é esta verdade, esta serenidade. Santo Cura d’Ars dá seu testemunho: “eu recebi duas cartas muito fortes, uma me dizia que eu era um grande santo, outra que eu era um hipócrita. A primeira não me acrescentou nada, a segunda não tirou nada de mim, diante de Deus somos aquilo que somos e nada mais”.
Enfim, Jesus nos convida à virtude da gratuidade, “quando deres um almoço ou um jantar, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos”. Hoje, os relacionamentos são quase sempre feitos em vista do proveito próprio, do interesse. Fazer-se humilde significa por o pensamento primeiramente no servir: é grande quem serve, quem doa, quem entra no mistério do amor. O humilde é um incansável servo do próximo: o humilde sente que tudo é dom de Deus e tem pressa de doar tudo, porque aquilo que não se doa, perde. O humilde trabalha, age, serve, mas não espera recompensa. Poder servir é já a recompensa. Mesmo que ninguém agradeça. É muito importante ser humilde e amar o próximo desinteressadamente, sobretudo onde se há mais necessidade e onde se é menos visto, “então tu serás feliz”.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

XXI DOMINGO COMUM - Lc 13,22-30


O ESFORÇO PARA ENTRAR PELA PORTA ESTREITA
A liturgia deste Domingo nos propõe o tema da “salvação”. Nos indica que para se chegar ao “Reino”, à vida plena, à felicidade eterna, dom de Deus oferecido a todos os homens e mulheres, sem exceção, é preciso renunciar a uma vida baseada naqueles valores que nos tornam orgulhosos, egoístas, prepotentes, auto-suficientes, e seguir Jesus no seu caminho de amor, de entrega, de dom da vida.
No Evangelho de hoje, Jesus anuncia sua mensagem de salvação, ensinando de cidade em cidade, de povoado em povoado. Ao mesmo tempo, se aproxima de Jerusalém, onde alguém lhe pergunta: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” É a pergunta curiosa do devoto fiel, evidentemente pondo-se no grupo dos salvos. É a tentação de sempre, a tentação dos nossos amados irmãos judeus da época de Jesus, especialmente dos fariseus; mas também é a nossa tentação: saber se levamos uma vida correta e se o nosso lugar no paraíso já está assegurado. É a tentação que temos nós discípulos, quando perdemos a dimensão da espera; quando acreditamos que os muros da nossa cidade interior são tão seguros a ponto de não precisarem de vigilância. É terrível para nós discípulos, quando depois de uma bela experiência de Deus, sentimos imediatamente ter entrado num grupo a parte, e começamos a olhar com suficiência os outros, aqueles que não entendem, que não conhecem, que têm seguido outros percursos diferentes do de Jesus.
Para mantermos a vida de fé, necessitamos fazer todo o esforço possível, diz o Senhor, para passar pela porta estreita. Com este símbolo, Jesus não tem intenção de dizer que devido ao monte de gente que quer a vida eterna, tenhamos que empurrar uns aos outros pra poder garantir nosso lugar. Não! Mas que devemos nos esforçar. Não basta querermos. Certamente, é verdade que nós somos salvos e que não podemos nos salvar pelas nossas próprias forças, mas isto não acontece sem a nossa ação, com uma atitude de pura passividade (Cf. Declaração conjunta católico-luterana sobre a doutrina da justificação). Deus nos salva, mas nos leva a sério como pessoas livres e responsáveis. Devemos nos esforçar e lutar, aproximando-se decididamente e conscientemente dele, para superar os obstáculos e testemunhá-lo com a nossa vida.
Com a afirmação sobre a porta que é fechada pelo dono da casa, Jesus quer dizer que nós devemos nos esforçar a tempo. Devemos levar em conta que o nosso tempo é curto. Não podemos adiar pra não sei quando o esforço para viver em comunhão com Deus. Com a nossa morte, a porta será fechada e será decidido o nosso destino. Então será muito tarde para querer, chamar e bater. Devemos levar em conta também que o nosso tempo, além de limitado, não temos controle sobre ele. Não podemos viver uma vida segundo o nosso bel-prazer e adiar para a velhice a preocupação pela salvação. Não somos nós a fechar a porta, mas o Senhor. Por isso, devemos estar sempre prontos.
Nas palavras do dono da casa, vemos uma ênfase na justiça, na orientação da vida segundo a vontade do Senhor. Não basta uma comunhão somente externa com ele, tê-lo conhecido, ter ouvido os seus ensinamentos, conhecer o Evangelho e o cristianismo. Pois, corremos o risco dele nos dizer: “não sei de onde sois. Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça!”. Quem não se orienta pela vontade de Deus, quem rejeita conscientemente a comunhão com Deus, já excluiu a si mesmo da salvação. Esta sua decisão é respeitada e confirmada pelo Senhor. E seria triste chorar de desgosto e ranger os dentes de raiva por se dá conta do que foi perdido.

A boa notícia de Jesus não diz coisas que nos agradam e não nos prometem uma vida fácil e sem esforços. Ela contém algumas verdades incômodas. Mas, justo porque não nos esconde nada e exatamente porque manifesta a verdade completa, nos indica a verdadeira via para a felicidade plena. Aquilo que conta, enfim, é o empenho com o qual se vive a própria existência cristã, testemunhando a pertença a Cristo.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Ap 12: “Quem é aquela mulher?”


O Apocalipse é um dos mais belos livros da Bíblia. Entretanto, devido ao fato de ser composto por milhares de símbolos, é tão difícil, e, uma interpretação ao pé da letra, fundamentalista, o torna assombroso e evitado.
Na I leitura da missa deste domingo, no qual a Igreja comemora a Assunção de Maria, lemos uma pequena parte de Ap 12, texto famoso onde aparece uma batalha no céu entre uma mulher e um dragão. É este texto que agora vamos interpretar.
João apresenta à assembléia um “sinal” que devemos decodificar e aplicá-lo à realidade; um sinal de grande importância, como nos indica o “grande” que o acompanha. É dever da Igreja interpretá-lo.
Na dimensão que é própria de Deus, no céu, aparece uma “mulher”, que no grego, significa imediatamente, esposa e mãe, e nos faz pensar à aliança de Deus com o seu povo, muitas vezes expressas em termos de amor nupcial, como é o caso também do Apocalipse.
Vestida de sol porque cheia da glória de Deus; com a lua sob os pés porque já na eternidade, a lua tinha a função de regular o desenvolvimento do tempo no AT. E neste contexto de eternidade já conseguida, ela tem uma coroa de doze estrelas na cabeça. A coroa como símbolo de vitória (vocabulário grego próprio para a corrida olímpica onde os ganhadores recebiam uma coroa de louro). A esta altura, as doze tribos de Israel não são somadas aos doze apóstolos, mas se sobrepõem, mostrando a unidade do povo de Deus. Mas, quem é esta mulher?
A assembléia eclesial que com muito esforço decifra o sinal à luz do AT já intuiu: trata-se do povo de Deus, visto nas suas dimensões transcendentes. A assembléia se enxerga estupefata com alegria nesta cena. Mas, o sinal não termina aqui. O quadro parece mudar bruscamente, mesmo se a protagonista, a mulher, permanece. Ela está em trabalho de parto. A fecundidade que a palavra “mulher” indica, agora é explicitada. Esta mulher está para dar à luz, não obstante os obstáculos que deverá enfrentar. Será que ela dará à luz realmente? Quem será o filho?
O autor deixa-nos com muitos interrogativos? Para compreender o sentido do parto é indispensável compreender um outro sinal, contraposto ao primeiro, pois facilita a interpretação: um imenso dragão cor de fogo, cor que evoca destruição e morte. Ele age entrando na história humana, especialmente atiçando nas realidades que dão tom à vida dos outros: são as estruturas, os centros de poderes (as cabeças com os diademas). Esta monstruosidade de negatividade demoníaca e maldade humana se opõem ao parto da mulher e têm a intenção de destruir o seu filho. O simbolismo complica, pois a pergunta era: o que significa o parto? Agora: por que este filho é este tão odiado?
João finalmente nos dá uma resposta que ilumina: um filho homem, que veio para governar todas as nações com cetro de ferro. Quanto a isto, não resta dúvidas. O filho é Cristo. Mas, Cristo projetado no futuro escatológico, no final da história da salvação, quando terá a vitória final sobre o mal. É um Cristo que nasce da Igreja. A assembléia se identifica com a Igreja e com a mulher: exatamente ela, deverá, com muita fadiga, dia após dia, anunciar Cristo. Como Paulo mesmo diz: “Meus filhos, por vós sinto, de novo, as dores do parto, até Cristo ser formado em vós” (Gl 4,19).
A pergunta agora é: o que significam, então, as tentativas da Igreja em confronto com os elementos hostis do mundo moderno? Não seria ilusório sonhar em anunciar, no esforço cotidiano, o Cristo em crescimento que derrotará definitivamente o mal, quando o mal é hoje tão potente e a assembléia litúrgica tão limitada?
O autor nos dá uma resposta: “mas o filho foi levado para junto de Deus e do seu trono. E a mulher fugiu para o deserto, onde Deus tinha preparado um lugar”. O que a Igreja consegue fazer, por mais limitado que seja e aparentemente em vão em confronto com o ambiente na qual esta se encontra, pertence a Cristo e isto não será perdido. O fruto deste parto doloroso da Igreja é levado pra junto de Deus, posto num lugar protegido pelo poder de Deus. Nenhuma força humana, nenhuma força demoníaca poderá destruí-lo.
A mulher, porém, foge para o deserto. No AT, este era o lugar do amadurecimento na relação entre Deus e seu povo. A Igreja deverá sentir o deserto, cansaço no caminho, esperança e confiança; também poderá significar aquela constatação de autenticidade que virá das provas e das perseguições. Mas, sobretudo deverá expressar um amor absoluto e radical.
Quem é esta mulher? É a Igreja, já falamos. Mas, existe uma continuidade na obra de João entre a “mãe de Jesus” e a “mulher” no IV evangelho, por um lado, e a “mulher” do Apocalipse 12, por outro. A “mãe de Jesus” que ele chama “mulher” em Jo 2,4 evoca a Igreja, da qual, Maria, Jesus e os discípulos representam a primeira realização. O termo “mulher” aparece depois da pergunta provocante de Jesus sobre a sua relação com Maria (Mulher, o que tenho a ver contigo?), faz alusão a “hora” de Jesus. Mais adiante, a “hora” de Jesus qualifica a “mulher” e lhe dá uma explicação. Mediando entre mãe física de Jesus e mãe espiritual dos discípulos (Mulher, eis aí o teu filho!), o termo “mulher” liga Maria “a Igreja, que já é constituída pelos discípulos de Jesus. A mãe de Jesus aparece, de fato, em função da Igreja. Acolhida na Igreja de João, exercita a sua função de maternidade e convida a Igreja a ver-se nela. Neste sentido, ela se identifica com a Igreja.
Estas designações “mulher” e “mãe de Jesus” vão aparecer com todo o seu significado no Apocalipse. A Igreja, espelhando-se em Maria, descobrirá a sua identidade e a sua função de geradora e anunciadora de Cristo na história. Então, a Igreja pode se autodenominar, “a mulher”.
Esta interpretação dá um grande suporte para o dogma da Assunção de Maria, como aquela que já completou a corrida e obteve a coroa da vitória, imagem do que todos nós almejamos. Se prescindirmos, porém, de todo o valor da figura “mãe de Jesus – mulher”, não entendermos toda a riqueza da “mulher” do Apocalipse, mesmo que salvemos o elemento eclesial. Pois, compreendemos adequadamente a mulher-igreja relacionando-a a Maria.
Maria é a imagem da Igreja. Maria é mãe de Jesus no sentido mais amplo do termo: é mãe física de Jesus e se torna mãe moral favorecendo o crescimento nos discípulos. Assim, é posta em contato direto com a Igreja-mulher da qual constitui o símbolo ideal e na qual poderá reconhecer-se: a maternidade da Igreja que levará Cristo na história prolonga a maternidade de Maria.
A mulher do Apocalipse, portanto, é cada um de nós (Igreja), que, a exemplo de Maria, devemos, não obstante os obstáculos e as perseguições (dragão), anunciar a Boa Nova da salvação de Jesus Cristo (Filho com cetro de ferro) para todo o mundo.