quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

A ESPERANÇA VEM DO DESERTO

Lc 3,1-6 - II Domingo do Advento
No décimo quinto ano do império de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia, Herodes administrava a Galiléia, seu irmão Filipe, as regiões da Ituréia e Traconítide, e Lisânias a Abilene; quando Anás e Caifás eram sumos sacerdotes, foi então que a palavra de Deus foi dirigida a João, o filho de Zacarias, no deserto.
E ele percorreu toda a região do Jordão, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados, como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías: "Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão rebaixadas; as passagens tortuosas ficarão retas e os caminhos acidentados serão aplainados. E todas as pessoas verão a salvação de Deus".
A mensagem do Evangelho deste II Domingo do Advento é de confiança e de esperança. Muito importante para colhermos bem esta mensagem é o ambiente histórico do texto bíblico em questão. De fato, Lucas situa o início da atividade pública de João Batista e de Jesus num contexto histórico-geográfico bem determinado no tempo. Com precisão, o evangelista cita sete personagens contemporâneos a este acontecimento.
O número sete na Bíblia tem um valor simbólico: o de totalidade. Deste modo, Lucas quer indicar que toda a história, pagã e judaica, profana e sacra, está envolvida nos acontecimentos que ele está prestes a narrar. São fatos que dizem respeito a toda a humanidade com as suas instituições e estruturas, religiosas e civis.
Estas sete pessoas são: o imperador Tibério César, verdadeiro soberano no mundo Mediterrâneo, cujo décimo quinto ano de seu império corresponde, segundo o cálculo comum, ao ano 28-29 d.C. Ele é o sucessor do imperador Augusto, aquele sob jurisdição do qual nasceu Jesus (Lc 2,1).
Os quatro nomes seguintes fazem referência ao governador e três tetrarcas entre os quais havia sido dividido o território de Herodes, o Grande, o que tentara matar Jesus. São eles: o governador Pôncio Pilatos, que condenará Jesus à morte de cruz (Lc 23,24); Herodes Antipas, que aprisionará e decapitará João Batista (Lc 3,20; 9,9), e, como tetrarca da Galiléia, tinha jurisdição sobre Jesus (Lc 13,31); Filipe e Lisânias não têm um significado específico, mas servem para completar o quadro do governo. Anás e Caifás são mencionados como as máximas autoridades judaicas, que se escandalizarão com o comportamento de Jesus, solicitando a sua condenação à morte.
Era um tempo difícil para o povo de Israel, nenhuma esperança o animava. Parecia inevitável o domínio opressor do imperador Tibério. O povo vivia frustrado, e carregava a “veste de luto e de aflição”, como no tempo do profeta Baruc (Br 5,1). Mas, precisamente neste tempo difícil, a Palavra de Deus foi dirigida a João, o filho de Zacarias, no deserto, o qual percorreu toda a região do Jordão, com uma mensagem de conversão para o perdão dos pecados.
A salvação de Deus é para todos. E converter-se é a primeira e radical condição para acolher a salvação que está pra chegar. Deus não obriga ninguém a acolher a Pessoa e a Palavra de seu Filho, mas ele espera de todos uma resposta. Infelizmente, este convite, como a voz de João Batista, ressoa frequentemente no deserto, na indiferença e na aridez. Os pregadores de penitência nem sempre são bem aceitos, já que estamos muito mais dispostos a escutar quem nos confirma no nosso comportamento e nas nossas idéias do que quem diz que estamos errados e que devemos mudar.
Assim, a primeira etapa deste caminho de conversão consiste exatamente em remover tudo aquilo que pesa na nossa consciência, admitindo os nossos pecados. São aqueles vales, que cavamos no tempo, com a nossa infidelidade. São as colinas de orgulho e arrogância, criando uma barreira que nos impede de libertarmos o nosso coração. Deus, porém, não se espanta com estes vales, ele desce lá embaixo procurando-nos, na esperança de poder nos levar de volta em seus braços para as pastagens alegres da vida.
Como cristãos, cada um de nós, membro do “Corpo de Cristo, recebeu a tarefa de anunciar o seu Evangelho até os confins da terra, isto é, transmitir aos homens e mulheres deste tempo uma boa nova que não só ilumina, mas muda a vida: o próprio Cristo, ressuscitado, vivo! A missão da Igreja não consiste em defender poderes, nem obter riquezas; a sua missão é doar Cristo, o bem mais precioso do homem que Deus mesmo nos dá no seu Filho” (Bento XVI, Istambul, 1º dezembro de 2006). Esta missão é cheia de obstáculos, mas São Paulo nos anima: “tenho a certeza de que aquele que começou em vós uma boa obra há de levá-la a perfeição até o dia de Cristo Jesus” (Fl 1,6).

Um comentário:

Anônimo disse...

Prezado Pe. Carlos, muito obrigado por esse comentário com o qual o Sr. está nos brindando a cada domingo. Gostei muito do comentário de hoje, pois não tinha percebido que a totalidade da história pagã e judaica, representada pelo número sete, estava envolvida no grande acontecimento do advento de Jesus. Realmente, muito significativo e uma boa pista de reflexão. Muito obrigado, e até a próxima semana.