quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

MARIA, UM CORAÇÃO DE PAZ

Maria, Mãe de Deus - Lc 2,16-21

Eles foram depressa, e encontraram Maria e José, e viram o menino deitado na manjedoura. Então contaram o que os anjos tinham dito a respeito dele. Todos os que ouviram o que os pastores disseram ficaram muito admirados. Maria guardava todas essas coisas no seu coração e pensava muito nelas. Então os pastores voltaram para os campos, cantando hinos de louvor a Deus pelo que tinham ouvido e visto. E tudo tinha acontecido como o anjo havia falado. Uma semana depois, quando chegou o dia de circuncidar o menino, puseram nele o nome de Jesus. Pois o anjo tinha dado esse nome ao menino antes de ele nascer.
A liturgia deste 1º de janeiro é particularmente significativa. Afinal, é ano-novo! E os votos mais belos e profundos que podemos receber nos oferece a Palavra de Deus. Votos que são verdadeiramente uma bênção: “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6,24-26). Que maravilha esta invocação ao Senhor para que Ele faça brilhar a sua face sobre nós e para que tenhamos paz! A verdadeira face de Deus é a face de um recém-nascido que busca ardentemente com seus olhinhos entreabertos o colo de sua mãe adolescente. É a face de um Deus que agora caminha lado a lado com a sua criação.

Mais um ano se inicia! E com essa bênção de Deus, não temos necessidade alguma de ler horóscopos nem fazer simpatias como dar um passo com o pé direito, comer lentilhas ou jogar flores no mar para buscar paz e prosperidade. Ora, o que são essas superstições diante do poder de Deus? Absolutamente nada! Confiamos em Deus e isso já basta. Se Deus está o tempo todo com o seu rosto voltado para nós, do que mais precisamos?

A celebração de hoje nos convida a venerar Maria, Mãe de Deus Salvador; a venerar aquela que acolheu e carregou no seu ventre o Filho de Deus. Por ela, Deus entrou no mundo e veio ao nosso encontro. Agora, somos nós quem devemos ir ao encontro dEle. Somos nós quem devemos acolher essa Luz que ilumina os nossos passos. Maria é a mulher que escutou a voz de Deus, acolheu e obedeceu a vontade do Senhor; sempre atenta a acolher os sinais de Deus, renovava diariamente o seu “sim”.

O Evangelho desta liturgia que é uma continuação daquele lido na noite de Natal, coloca Maria numa posição central. Como anunciado no texto anterior, os pastores “encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura”; depois, “voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido”. O mais interessante deste relato, é que há um corte bem no meio do texto para nos dar uma preciosa informação: “quanto a Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração”.

Maria, que hoje invocamos como Mãe de Deus Salvador, é a rainha da paz. Ela é rainha de uma paz que não depende das circunstâncias. Mas, uma paz que brota do coração, uma paz que existe mesmo em meio às provações da vida. Ela guardava a Palavra de Deus em seu coração e a Palavra traz paz.

Hoje também é o dia da paz. Não devemos esquecer que a paz não é somente a ausência de guerras, de violência, é também ausência de qualquer desentendimento, discussão, desunião. E como existe isso nas nossas famílias! A paz que o mundo oferece é um sentimento que temos quando tudo corre bem na nossa vida ou quando as pessoas se comportam como nós queremos. Porém, quando as coisas não acontecem do jeito como esperamos, quando queremos mudar as pessoas e não conseguimos, isso nos frustra e o sentimento de paz nos deixa e a impaciência e o aborrecimento se tomam conta de nós.

A paz que Jesus nos dá é uma paz diferente da que o mundo nos dá. Em cada missa, pedimos essa paz, e às vezes repetimos tão mecanicamente que nem nos inteiramos do seu verdadeiro significado: “livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz”, “Senhor Jesus Cristo, dissestes aos vossos apóstolos: Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz”. E logo em seguida, desejamos a paz do Senhor ao nosso próximo.

Se lembrarmos bem, Jesus não perdeu a paz nem no meio da tempestade. Ele continuou dormindo tranquilamente na popa do barco, enquanto seus discípulos estavam apavorados e indignados porque Ele não se mostrava preocupado com eles. Temos que aprender a receber essa paz de Jesus, essa paz que nos faz esperar no tempo de Deus com paciência, essa paz que nos faz respeitar e tratar bem o próximo.

É preciso que aceitemos na nossa vida a salvação oferecida por Jesus. De fato, este nome contém todo o significado da vinda de sua vinda ao mundo. Oito dias depois do nascimento do Filho de Deus, no momento da circuncisão, símbolo de aliança entre Deus e o povo de Israel, o menino recebe o nome de Jesus. Em aramaico, Yeshua significa “Deus salva”. Ele veio ao mundo para fazer uma aliança conosco, para nos salvar e nos conceder a sua paz.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

A GLÓRIA DA SIMPLICIDADE

Natal do Senhor - Lc 2,1-14
Aconteceu que, naqueles dias, César Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento de toda a terra. Este primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade natal. Por ser da família e descendência de Davi, José subiu da cidade de Nazaré, na Galiléia, até a cidade de Davi, chamada Belém, na Judéia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida.
Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria.
Naquela região, havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do seu rebanho. Um anjo do Senhor apareceu aos pastores, a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. O anjo, porém, disse aos pastores: "Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura".
e, de repente, juntou-se ao anjo uma multidão da coorte celeste. Cantavam louvores a Deus, dizendo: "Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados".
É Natal! O Evangelho que nos é proposto nesta noite narra o grande acontecimento esperado por toda a humanidade: o nascimento do Salvador, o Cristo Senhor. O texto bíblico é fortemente caracterizado por um grande contraste. Enquanto se esperava uma vinda majestosa, o Salvador veio ao mundo de uma forma inesperada. É neste contraste, pois, que vamos descobrir um dos maiores ensinamentos que o Natal de Senhor nos pode dar.
Logo no início do Evangelho, lemos as seguintes informações históricas: em primeiro lugar, aparece o imperador César Augusto, dominador do mundo Mediterrâneo da época, o qual impõe um censo de toda a terra, ou seja, de todos os habitantes submetidos à dominação romana, entre os quais se encontravam os da Palestina. Em seguida, o texto diz que quando ocorreu este censo, o governador da Síria era Quirino, procurador de Augusto na tetrarquia que compreendia a Iduméia, a Samaria e a Judéia, onde está localizada Belém.
Longe, porém, de ter provas para estes dados históricos, além de uma diferença notável entre o relato do nascimento do Messias narrado neste texto e no evangelho de Mateus, ficamos com o que nos interessa: este decreto é o que liga José e Maria, residentes em Nazaré da Galiléia a Belém da Judéia. De fato, Lucas sublinha que Belém é a cidade natal de Davi, de onde descende José. Desta maneira, temos uma referência à promessa e à espera messiânica ligada a Belém e a família de Davi: “Grande será o seu reino, e a paz não há de ter fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reinado” (Is 9,6).
Chegando o tempo devido, Maria dá a luz o seu “primogênito” (este termo não quer indicar que Maria teve outros filhos, mas que Jesus é o primeiro filho de Maria, e por isso, tem todos os direitos de primogenitura; para se ter uma idéia da importância da primogenitura, basta lembrar as incansáveis trapaças feitas por Jacó contra seu irmão Esaú até tomar-lhe este direito). Maria, como toda mulher, passa naturalmente por essa experiência. Nem pode escolher o momento, nem esperar uma circunstância melhor. Ela não encontrou um lugar adequado para o seu menino, por isso, deu à luz num estábulo , pondo o menino numa manjedoura. São pobres e sem pretensões. É verdade! O primeiro lugar a receber o Salvador foi um dos lugares mais imundos do mundo, pois não venham me dizer que as vacas e os outros animais faziam suas necessidades num lugar separado da estrebaria!
Assim, o que, imediatamente, chama a nossa atenção neste acontecimento é a simplicidade. Na sua grandeza infinita, Deus se abaixa não só à condição humana, mas em qual condição Seu Filho veio ao mundo! O Salvador entrou na nossa condição humana, a partir da fraqueza de um menino enrolado em panos, está do nosso lado e nos acompanha.
Em contraste com essa pobreza, aparece o esplendor da luz celeste e a aparição do anjo de Deus aos pastores que que tomavam conta de seus rebanhos, mas o sinal que recebem é simplesmente: “encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”. Aos pastores que estão com muito medo, o anjo anuncia uma grande alegria. Realmente, eles têm um grande motivo para se alegrarem: nasceu para eles e para todo o mundo o Salvador.
A maravilha do Natal reside neste contraste: sem a revelação dos anjos nunca entenderíamos que aquele menino na manjedoura é o Senhor. E sem o menino na manjedoura não entenderíamos que a glória do verdadeiro Deus é diferente da glória a qual estamos acostumados.
Que possamos ser humildes e simples para que o Senhor, neste Natal, venha ao estábulo do nosso coração e assim, possamos amá-Lo na pessoa do próximo como nos ensina tão bem Madre Teresa de Calcutá: “Da humildade sempre emanam a grandeza e a glória de Deus. Devemos estar vazios do orgulho se quisermos que Deus nos preencha com a sua plenitude. No Natal, vemos Deus como um recém-nascido, pobre e necessitado, que veio para amar e ser amado. Como podemos amar a Deus no mundo de hoje? Amando-o em meu marido, em minha mulher, nos meus filhos, nos meus irmãos, nos meus pais, nos meus vizinhos, nos pobres, nos bêbados, nos presos, nos doentes de lepra, nos excluídos, em todos aqueles que encontramos todos os dias.”

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

ALEGRAI-VOS SEMPRE NO SENHOR!

III Domingo do Advento - Lc 3,10-18
Naquele tempo, as multidões perguntavam a João: "Que devemos fazer?" João respondia: "Quem tiver duas túnicas dê uma a quem não tem; e quem tiver comida faça o mesmo!" Foram também para o batismo cobradores de impostos e perguntaram a João: "Mestre, que devemos fazer?" João respondeu: Não cobreis mais do que foi estabelecido". Havia também soldados que perguntavam: "E nós, que devemos fazer?" João respondia: "Não tomeis à força dinheiro de ninguém, nem façais falsas acusações; ficai satisfeitos com o vosso salário!" O povo estava na expectativa e todos se perguntavam no seu íntimo se João não seria o Messias. Por isso, João declarou: "Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo. Ele virá com a pá na mão: vai limpar sua eira e recolher o trigo no celeiro; mas a palha ele a queimará no fogo que não se apaga". E ainda de muitos outros modos João anunciava ao povo a boa nova.
Neste III Domingo do Advento, a Igreja nos exorta vivamente a abrir o nosso coração à alegria. Com efeito, é o domingo chamado de Gaudete (“alegrai-vos”). No Evangelho de hoje, João Batista é apresentado como pregador de conversão e ao mesmo tempo como mensageiro de alegria. O seu único anseio é preparar o povo para acolher a salvação que se faz presente em Jesus Cristo. O Senhor está perto e, por isso, devemos ouvir a palavra do profeta Sofonias, que nos anima: “Alegra-te e exulta de todo o coração” (Sf 3,14c).
“Que devemos fazer?” É a pergunta insistente de todos aqueles que se dirigem a João. Pois eles não querem só ouvir falar da conversão como tal, mas querem saber concretamente o que devem fazer. E esta é a pergunta que fazemos também nós, hoje. João responde sem demora. Tudo o que devemos fazer é o que diz respeito ao nosso comportamento em relação ao próximo. Como tratamos as pessoas? A conversão deve se demonstrar através de tal comportamento. A conversão exige a partilha fraterna e a renúncia a qualquer tipo de injustiça. De fato, a todos é dirigido o pedido da partilha: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem”. Ou seja, não é um pedido dirigido só a quem vive na abundância para que doe algo do que lhe sobra, mas a todos aqueles que têm alguma coisa a mais daquilo que lhes é necessário. Até mesmo aquela pessoa que tem só duas túnicas, deve dar uma e se contentar em ter uma só, se o seu próximo não tem nenhuma. Diante da precisão do próximo, nós só podemos ter o necessário.
Mais adiante, encontramos no Evangelho que também os cobradores de impostos e os soldados vêm até João com a mesma pergunta: “E nós, o que devemos fazer?”. Ambos os grupos de pessoas eram desprezados e odiados, porque normalmente aproveitavam sua posição social em vista de seus próprios interesses. João não pede que estes larguem sua profissão, mas exige que deixem de praticar as injustiças que frequentemente realizam através dela. O cobrador de impostos era normalmente odiado, porque cobrava do povo um valor além do estabelecido e, assim, enriquecia; já o soldado às vezes usava a força para impor sua vontade, aumentando sua remuneração. Nos dois casos, trata-se de ajuntar mais dinheiro, explorando e extorquindo os outros para o próprio benefício. Nós sabemos que em qualquer tipo de posição, competência, capacidade, saber, há certo poder. Por isso, qualquer profissão ou posição tem seus perigos e tentações de abuso do poder, quando causa dano ao próximo em vista do próprio proveito. Devemos agir com responsabilidade no lugar que Deus nos colocou e, com o poder, servir o próximo por amor ao próximo.
Quem age assim é João. Age com grande responsabilidade no cargo que lhe foi confiado por Deus. Tanto que o povo chega a considerá-lo o Messias. Ele, porém, se declara como alguém que somente aponta o Salvador. E fala da incomparável superioridade que tem Aquele que está pra chegar. João ilustra isso, dizendo que não é digno nem mesmo de prestar-lhe o mais humilde serviço. Enquanto ele batiza com água – um batismo de arrependimento – Jesus batizará com o Espírito Santo e com fogo. Somente Ele recolherá o trigo e separará o grão da palha que será queimada no fogo que não se apaga. João não pode anunciar uma salvação fácil; deve haver um esforço nosso em busca da conversão, através da prática do amor ao próximo. Jesus está pra chegar e devemos nos alegrar muito por isso. São Paulo nos diz que a paz de Deus é algo que supera todo entendimento. O mesmo vale para a alegria. Há uma relação recíproca entre esses dois dons do Espírito, pois a paz que existe em nós nos inspira a uma alegria interior que se manifesta no nosso humor. Às vezes, vemos pessoas que nos contagiam só com sua simples presença. Por sua vez, a nossa alegria deve transmitir paz, serenidade, harmonia e, acima de tudo, uma tranqüilidade espiritual que deve provocar admiração nas pessoas que estão ao nosso redor. Se a esperança é uma alegria antecipada de coisas boas, vamos, portanto, cantar de alegria, enquanto esperamos a vinda do Salvador.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

A ESPERANÇA VEM DO DESERTO

Lc 3,1-6 - II Domingo do Advento
No décimo quinto ano do império de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia, Herodes administrava a Galiléia, seu irmão Filipe, as regiões da Ituréia e Traconítide, e Lisânias a Abilene; quando Anás e Caifás eram sumos sacerdotes, foi então que a palavra de Deus foi dirigida a João, o filho de Zacarias, no deserto.
E ele percorreu toda a região do Jordão, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados, como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías: "Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão rebaixadas; as passagens tortuosas ficarão retas e os caminhos acidentados serão aplainados. E todas as pessoas verão a salvação de Deus".
A mensagem do Evangelho deste II Domingo do Advento é de confiança e de esperança. Muito importante para colhermos bem esta mensagem é o ambiente histórico do texto bíblico em questão. De fato, Lucas situa o início da atividade pública de João Batista e de Jesus num contexto histórico-geográfico bem determinado no tempo. Com precisão, o evangelista cita sete personagens contemporâneos a este acontecimento.
O número sete na Bíblia tem um valor simbólico: o de totalidade. Deste modo, Lucas quer indicar que toda a história, pagã e judaica, profana e sacra, está envolvida nos acontecimentos que ele está prestes a narrar. São fatos que dizem respeito a toda a humanidade com as suas instituições e estruturas, religiosas e civis.
Estas sete pessoas são: o imperador Tibério César, verdadeiro soberano no mundo Mediterrâneo, cujo décimo quinto ano de seu império corresponde, segundo o cálculo comum, ao ano 28-29 d.C. Ele é o sucessor do imperador Augusto, aquele sob jurisdição do qual nasceu Jesus (Lc 2,1).
Os quatro nomes seguintes fazem referência ao governador e três tetrarcas entre os quais havia sido dividido o território de Herodes, o Grande, o que tentara matar Jesus. São eles: o governador Pôncio Pilatos, que condenará Jesus à morte de cruz (Lc 23,24); Herodes Antipas, que aprisionará e decapitará João Batista (Lc 3,20; 9,9), e, como tetrarca da Galiléia, tinha jurisdição sobre Jesus (Lc 13,31); Filipe e Lisânias não têm um significado específico, mas servem para completar o quadro do governo. Anás e Caifás são mencionados como as máximas autoridades judaicas, que se escandalizarão com o comportamento de Jesus, solicitando a sua condenação à morte.
Era um tempo difícil para o povo de Israel, nenhuma esperança o animava. Parecia inevitável o domínio opressor do imperador Tibério. O povo vivia frustrado, e carregava a “veste de luto e de aflição”, como no tempo do profeta Baruc (Br 5,1). Mas, precisamente neste tempo difícil, a Palavra de Deus foi dirigida a João, o filho de Zacarias, no deserto, o qual percorreu toda a região do Jordão, com uma mensagem de conversão para o perdão dos pecados.
A salvação de Deus é para todos. E converter-se é a primeira e radical condição para acolher a salvação que está pra chegar. Deus não obriga ninguém a acolher a Pessoa e a Palavra de seu Filho, mas ele espera de todos uma resposta. Infelizmente, este convite, como a voz de João Batista, ressoa frequentemente no deserto, na indiferença e na aridez. Os pregadores de penitência nem sempre são bem aceitos, já que estamos muito mais dispostos a escutar quem nos confirma no nosso comportamento e nas nossas idéias do que quem diz que estamos errados e que devemos mudar.
Assim, a primeira etapa deste caminho de conversão consiste exatamente em remover tudo aquilo que pesa na nossa consciência, admitindo os nossos pecados. São aqueles vales, que cavamos no tempo, com a nossa infidelidade. São as colinas de orgulho e arrogância, criando uma barreira que nos impede de libertarmos o nosso coração. Deus, porém, não se espanta com estes vales, ele desce lá embaixo procurando-nos, na esperança de poder nos levar de volta em seus braços para as pastagens alegres da vida.
Como cristãos, cada um de nós, membro do “Corpo de Cristo, recebeu a tarefa de anunciar o seu Evangelho até os confins da terra, isto é, transmitir aos homens e mulheres deste tempo uma boa nova que não só ilumina, mas muda a vida: o próprio Cristo, ressuscitado, vivo! A missão da Igreja não consiste em defender poderes, nem obter riquezas; a sua missão é doar Cristo, o bem mais precioso do homem que Deus mesmo nos dá no seu Filho” (Bento XVI, Istambul, 1º dezembro de 2006). Esta missão é cheia de obstáculos, mas São Paulo nos anima: “tenho a certeza de que aquele que começou em vós uma boa obra há de levá-la a perfeição até o dia de Cristo Jesus” (Fl 1,6).